Quase feito
Quiçá rarefeito
Com efeito
Foi nesse
eu cá
você lá
que deu a dor,
quase no peito
Autor: Guilherme Carvalho
1892. Escala cartográfica
Por que mapear
os meus problemas
seria algo afeto
à interpretação
e não à quantificação
num plano.
Uma relação de proporção
inversa
mais semântica
polissêmica
do que representação
imagética.
1891. Hippie mata hippie ou Manchete de escândalo
Morreu enforcado
por um cordão
de sândalo.
Depois de levar
sandaliadas
na cara.
1889. EU
Artefato natural
Algo para além
do humano e
do animal
1890. Entre o ensino e o ensinar
Em si o nó
a se
desatar
pra depois
atar
de novo
Em si no ar
respirar
até se
faltar
1888.
Falta água em Brasília
Faz falta
eu vejo que faz falta
um rio correndo o
dia, correnteza
que traria mais
vida para essa ilha
Concreto, é uma
ilha de concreto
a milhas de qualquer
lugar
Tão reto e um
pouco ovalado
é tudo tão plano
que ta faltando
buraco
1887.
“Noite de hotel
ódio a Graham Bell…”
Com as pálpebras
semi-cerradas
e o aumento dos
tremores essenciais
eu constato um
arrepio que não
é do frio do ar
condicionado, mas
sim, da falta dos
teus cachos
Em algum lugar entre o Piauí e a Bahia, talvez em Pernambuco.
1884.
Comum eu
Música eu
Museu
1885. Deveria congregar
Lá no plano
tem um canto
que insone dorme
tanto
quanto se pode
pensar
mas antes sono
mesmo fosse
pois que sonhar
se podia
mais parece
que só se tem
pesadelo numa
eterna anestesia
1886. Ma
Não
Nome não,
pois que não cabe
nem talvez
uma idéia brilhante
bastasse
Cabe bem
o existir, compartilhar-se
dor aqui,
lágrima que se afiasse,
prazer mais,
suor que se gozasse
(e até um abraço
pelo vermelho
que desce)
São Paulo, SP.
1882.
Sorriso sem graça
olhos de ressaca
essa qual Capitu
como manhã depois
de uma noite
de mangüaça.
1883.
Eu me entrego
Me integro
entre egos
1880. Trestrás
Monstro real
assim um
ser
beijando um pescoço e
sulcar o éter
acaso
borrar letras no
topo da página
subindo o
eu
e queria dizer:
1881.
Demora
a hora de
ver que o
Demu ora
Ora ora, agüenta
que pode ver qualquer
hora.
1877.
QRUEO APNAES
TARCOR A ODREM
DAS CIOASS PRAA
VER SE SGURE
NVOA ODREM
1878. Para o fim do patrimônio
Tenha a casa pronta
primeiro.
Depois você enfeita.
1879.
Encontrei
a beleza
vendo você
por debaixo
da mesa:
eram uns
pés miúdos
e magrinhos
tão quistos
que eu tive
um certame:
a beleza
é charme.
1874.
te vi
e
tive
um
tique
foi
toc-toc
o
tic-tac
do que
tive
quando
te vi
1875.
Concordo, concordo…
Quase um ótimo
climático o nosso
encontro…
São Paulo, SP.
1876.
Discrepância
entre o que
quer minha alma
e o que agüenta
o meu pâncreas.
1873.
P03514
D3
M473M4T1C0
QAUSE QAUQLEUR
C0154 QU3 N40
M3 ε
1872.
O café me dá sono
não por inversão
digestiva, mas
sim, porque sempre
que o tomo,
me recordo que
o tenho.
São Paulo, SP.
1871.
Entranha.
A trança como.
Como lindo ela,
bela dentro
tal qual na pança.
São Paulo, SP.
1869. Para além dos miolos
Quando me olhar
em profundidade
molhar por fim,
em idade,
meus olhos
São Paulo, SP.
1870.
Uma alteração na paisagem
erosão dos muros
do super-ego
um relevo descoberto
camada após camada
retirando lastros
de prudência
eu relevo
eu relevo.
São Paulo, SP.
1867. Marvada landschaft
Placas
pôsteres
promoção
São
Paulo em
Placa
São Paulo, SP.
1868. Vagando pelo baixo meretrício
Quando a iconografia
do néon falha,
falha um parco
segundo – quase a
perda de um segundo,
o primeiro de vários
que se seguirão –
a célere lembrança,
mais vida que memória
em si vagando,
de que o véu
diáfano da noite,
continuação de um dia,
corra ao encontro
da carne exposta
na vitrine
Como se de um poste
a outro existisse
um vidro e cada
moça encerra em si
a cultura da
volúpia dúbia do
anacronismo hipócrita
de comprar sexo
Talvez Freud tenha sentido,
que o que pulsa não
é mera vida, mas sim,
o que se quer gozar dela
São Paulo, SP.
1865. Teus pés
Todavia há uma
hipótese
sei que não vai
haver prótese,
quiçá um hipopótamo
houvesse
Toda via há
uma hipótese
Mas sei que há
o desejo da prótese
quase a achar-se
um hipopótamo
ao ver-se
Teus pés me dão
muito mais que
hipóteses
e vias várias
são pés postos
em serem pés
sendo o que há
E eu não sou um podólatra
São Paulo, SP.
1866.
Três poemas construídos,
agora dos seus pares
possuídos, ao longo
de quem os achar
consumidos, o dela,
o dele e esse
Três conjugados de
versos, três apontamentos
discretos, eu mesmo
ainda não os vi
Três silêncios repletos
três saídas do
concreto
três que não sabem
de si
Cada poema se fala
de si para si
Até esse que fala
dos outros dois que eu não vi
São Paulo, SP.
1862.
Vou procurar
um médico
Talvez a medicina
possa medir a
minha sina
1863.
Existe um pensamento
a definir
Poucas palavras para
um sentir
Não vou dar ouvidos
não
Uma palavra só
não existe
Delinear o meu sentir
Não vou dar
ouvidos não
Uma, ou mesmo duas,
mesmo algumas,
quiçá três
Não vou dizer,
aprisionar o nosso viver:
não palavras para eu e você.
1864.
Na Paulista
descobri uma das pistas
Depois da Angélica
e da Augusta
O encontro
no teu cinza.
São Paulo, SP.
1861.
Pra que estudar?
Pra que estudar?
Eu vou fazer
um supletivo
a distância
Em três meses
1º e 2º grau
Em três meses
Ensino básico e
fundamental
Ainda vou me
preparar para
o vestibular
e passar nas
Faculdades Esotéricas
Luteranas do Maná
Fazer curso de
Gestão da Engenharia
da Computação
Arborícola
E no fim
um emprego de
caixa na C&A
vou arranjar
E qualificado
1860.
Porque é tudo novo
de novo, mas o apego
ao que se foi impede
o que sempre vem
impele ao que não
mais se tem.
1859. Semáforo
O verde chama
ainda há o amarelo
antes do vermelho,
aquela espera em chama.
Há quem diga laranja,
ácido momento
antes de se abrasar
na espera.
Cores flexionam os
segundos.
Uma para fluir.
Uma para marcar.
Uma pára.
1858. Nota sobre amar
É como um tear
Entrelaçar os fios
Cada qual com sua
cor, formam formas
conduzidas num
misto de alma e
mente
É como respirar
É só ter ar
1857. 2
A melhor coisa
do cigarro é
que ele é um
caso que
só você pode
terminar
1855.
Eu tinha cá pra mim
uma promessa
Marquei que não
iria mais amar
Grifei com tinta preta
na agenda
Uma data que hoje
é só um passará
Passaredo soprou
no meu ouvido
que o passado
já não há
Passei tranqüilo
pela gaveta
Em que a agenda
guardada lá está
Junto com algumas
fotos e bilhetes velhos
que só nessa gaveta
não vão ficar
Quebrei essa promessa
e num impulso
Resolvi a tudo libertar
Os beijos de batom
em guardanapos
e os pêsames por
já não mais estar
O origami todo amassado
Bilhetes de passagem
de viajar
Uma mandala
torta e quebrada
e uma flor branca
toda a mofar
Libertei vocês todas
num segundo
Do meu ato falho
de lhes pecar
Eu tinha que
quebrar essa promessa
Pra não ter que
nunca mais engavetar
outro sorriso
franco e sincero
Dessa que agora
vem se apresentar
Para que ela chegue
assim em casa aberta
e possa muito bem
se acomodar
1856. 1
A melhor coisa
do cigarro é
que ele é um
companheiro que
só você pode
abandonar
1854.
Pelo menos você também
ou dois u’s
para que a calha
da escuridão dê
fluxo contínuo
ao jorrar d’alma,
meio d’água,
aquela liquefeita
em H20 e NaCl.
Protótipo de solidão,
é cerveja sozinho.
1852.
Um mameluco canta
o guardião cego
sob as réstias
do admirável.
Haverá ainda
comunicação possível?
1853.
A lua, mesmo
lenta, sobe fácil.
Quase meia,
vislumbre laranja
ledo fluir de
coisa simples.
Faltava ao
verso o gosto
néscio de se
deixar uma lua
subir ao céu
intrépido.
Erechim, RS.
1851. Adágio para Marx
Haverá revolução
social sem
revolução estética?
1850. Autoria
Quando eu digo
quem diz mesmo
é meu umbigo.
1849. Apontamento para uma caneta
(`)
A ponta
mente.
1848. Celularianas IV
Nem apita mais
Do jeito que vai,
só mesmo meus ais.
1847.
Um dia a natureza
me disse: “não
me respeite por favor…”
Aí eu falei: “poxa,
mas eu te respeito
tanto… deixa eu
continuar, vai?”
Ela parou um instante,
pensou um pouco
e disse: “vocês
são mais idiotas
do que eu pensava”
Abracei-a fraternamente
e lhe dei um beijo
na testa
1846.
Bolinhas amarelas
sobre um fundo
rosa, mesmo de
cinta-liga e salto
plataforma, você me
é, o mote, de queixo
caído, do fim da
minha glosa.
1845.
Em sono, num
azul-vermelho-verde
num multicor da
tv. Num laranja
fosco. Num tom
de nus, eu e você
1844. Sem cera e sincero
Eu queria mesmo entrar em você
e preencher alguns espaços
na frente, atrás, até mesmo dos lados
partilhar um pouco em você, meu ser
Pedaço pouco
constituído de músculos, nervos e vasos sangüíneos
Com certeza não esqueceria outro músculo para compartilhar
esse um tanto mais móvel que o outro
que em si consegue ser ditador de prazeres e de desgostos
de afagos e de porradas
sem nem mesmo triscar em alguém
esse que fica teso e que até da digestão participa
Queria, na verdade, em tudo estar em você
uma vez que fosse
meia não que meia é sofrimento em demasia
meia vez é como dois dedos de água
para quem não bebe a três dias
Mas antes de querer estar em você
queria saber da sua vontade
queria sentir o que percorre e ocorre entre o ventre e a cabeça
saber talvez se o pensamento é dos que freqüentam filas de confissão
quem sabe mesmo se é necessária uma sublimação
ou músculos
dois que sejam
e dedos
todos os que houverem
e pelos
esses que bastem
e água salgada jorrada para que se expurguem demônios não quistos
essa que é irmã de demônios famintos e necessários
Estar em você
uma sala de estar toda você
uma cela para eu me prender em você
e mostrar que dos parcos músculos
demônios pipocam
e todos famintos e mais que necessários