0986. Fruta

Creio que minha crença é só.
Meu amor foi a única fruta
a amadurecer no pé.
Todos os outros estão
verdes ou de vez,
na esperança de encontrar
a recíproca.

Meu amor é essa fruta
madura que nasce em
qualquer pé.
Me sacia e dou a
quem quiser,
quem com fome esteja.
Meu amor não quer
definição, quer ser
compartilhado com
quem possa.

0981.

saber sua face
viva novamente
saber o aroma
de sua proximidade
outra vez
saber sua visão
saber seu gosto
ainda
saber sua voz
à distância
do meu hálito
saber seus
pés miúdos
saber suas lágrimas
e saber seu
peso
coisas que aprendi,
não esqueci e
insisto conhecer
de novo.

0982. Nella I

Não sei se foge
ou se já decidiu
Foi tudo tão bom
que eu não podia
sequer ter essa
dúvida
Ir-se ou ficar,
quem sou eu
para estabelecer
a mesura?
Eu mesmo
fico e vou,
ainda querendo
outra vez
seu momento
Ainda querendo
ser apenas
um fragmento
Então termino assim:
fico no vento
(com aquela mensagem não respondida)

0956.

Incólume a tudo
em vias, calçadas,
no meio do eixo
e até embaixo de
um carro.

Evasivo a tudo
buscando me encontrar
nas luzes de uma loja,
nos gostos das bocas
degustando suas marmitas
e até no que esconde
as roupas que visto

Triste num dia nada
além de mim
tateando-se e se tecendo
preso a paisagens se,
encanto e a enganos
tantos

Vívido no redemoinho
cheio de sacos de supermercado
e morto no espectro
do vôo plástico

Nenhuma sombra nesse dia
só a de um prédio condenado
e a do meu cérebro
ofuscando minha alma

0949.

Deve ser uma de
quem eu sou a pele
me beija a boca profundo
e me chama de Guilherme

Deve de ser de outra
que me olha confuso
sorri com esses mesmos
olhos e tem medo de tudo

Deve ser daquela
que me transpira aos poucos
deu-me um filho de outro pai
e que me põe como os loucos

Aquela me quis primeiro
teve-me aos poucos inteiro
A outra sentiu-me em brasa
dormi noite sem juízo
em sua própria casa
E uma me quer tão leve
por debaixo de seus poros
como algo que não se deve

Meu coração não se divide
entre aquela, uma e outra
Dá espaço ao que incide
sente-se livre e à solta
Procura só o carinho
matutino ou vespertino
de quem precisar possa,
pois injusto é o caminho
de dar propriedade toda
a este que bate em desalinho