Não vá embora triste
pois sofrer não lhe cabe
não é de seu corpo
não te irradia
vá com o estalo
de felicidade da luz
que te reflete e espelha
Autor: Guilherme Carvalho
0493. Zana
Ela dá paz com a boca
e o oceano com o olhar
pulsa o azul com o corpo
exala a noite com a alma
e nas curvas o tremor
de crer: ela existe!
0490.
e eu vejo esses
“aprenda em um mês!”
e me toco de que me
perdi num mundo descrito
onde o prazer era
saboreado
me perdi em um mundo
que não vivi
onde jaz a lentidão?
0491. Ana
Algumas pessoas parecem de cera, outras de algodão e umas mais de aço inoxidável, sem contar as de plástico e as de pet, mas você é de fibras de luz da lua e da cor do mel numa tarde ensolarada e de líquido de nuvem linda e límpida despencando no calor de uma madrugada, brisa boa.
0488.
E o filho de Xangô
risca o facão no chão
da faísca, da fagulha
fulgura uma paz
tão retida, tão…
Outrora afeito ao banzô
burlo a dor de então
e a água e a agulha
alhures do que jaz
são pretéritos, são…
0489. Desse algo só nosso
Deve ser dessa herança de
degredo
dessa dor do arrancado
de sua terra,
do ser náufrago
Deve ser desse gene de fado
e sangue
desse corte não estanque
do humilhado,
do ser exilado
Deve vir de além-mar
e desse solo
de terra-mater outra e
desse mesmo acaso
das veias do aqui
Deve ser dessa mistura morena
cafuza, cabocla
desse chicote e dessa
distância
que surge a saudade
0486. Cadê o avesso do que é sombra?
Cadê braços fortes?
Cadê pulsos firmes?
e onde jaz aquele você?
suas verdades
suas conquistas
seu labor interior
Hoje só te resta
lembranças carcomidas
essa massa amorfa
esse sono letal infindo
esse pandemônio de
retóricas relativistas
Cadê força?
Cadê sonho?
Será esse ceticismo
medíocre
esse medo pseudo amor
que te aprisiona?
Cadê átomos
ao invés de ondas?
Será só essa opacidade
sem qualquer bio?
Cadê self?
Cadê você?
0487.
Visto você em meu peito
Cato as réstias de poesia que deixas ao chão
Observo-te, canto do olho, degustar a glória
Um saudosismo insone
Uma longínqua recordação do falso — foi tudo verdade
Te vejo só ao cair das pálpebras
0484. Noite e Dia, Dia e Noite
Há um vão em meu peito
Que só você vai preencher
Por isso eu te busquei
Dia e Noite
Noite e Dia
Eu te esperei a vida inteira
E deixei escorrer pela sarjeta
Eu só via você
Noite e Dia
Dia e Noite
Eu avistei o teu semblante em paz
E contemplei que o amor era lilás
E mudei de cor
Dia e Noite
Noite e Dia
0485.
Pra mim não me importa o céu
“ “ “ “ “ muita coisa
Só você.
0483.
sim, sim, claro
o espetáculo
uma hora acaba
e o amor com ele
respeitável público:
findou-se o amor,
agora uma salva de vaias:
UHH!! UHH!!
e fica o palhaço
— inescrupuloso —,
rosa murcha em mãos,
como o diabo.
0481.
às vezes amanheço ontem
e nesses dias
só queria minha solidão
de volta
0482. Nova
Rápido
Rasteiro
Sutil
Hip-hópico
Jázzico
[e de manhã uns vão (vãos)… outros voltam (revoltos)]
“São sete horas da manhã”
Trânceco
0480.
De fato, há um fato:
é findo o forjado
feitiço finado
0478. Alguém te fez outra
Não usa mais salto
Não sai mais do salto
É agora recatada
Cadê a maquiagem?
E essa sandália de couro?
Explica essa história,
pois ninguém mais entende
E as baladas noturnas?
E as boates da moda?
Joga fora esses livros
E seja você mesma outra vez
O mesmo drama
A mesma e ponto
0479. Algumas coisas sentidas
Essas coisas que sentem
Quando sem motivo, quando
sem razão
São exemplos do que é
natureza humana
Essa revolta a toda posse
Esse amor torto e prisma
invertido
Essa luz que não brilha
Em um olhar só (mais de 3
pelo menos…)
São devaneios evanescentes
de quem se acha de amor
por um revolucionário maoísta.
0477.
As vezes nego tudo que sou
Minto e vivo da mentira
e ao mentir já minto
e portanto sou verdadeiro
sou antítese paradoxal
da realidade.
Quase que um ser humano
0475.
Se ele não te olha mais não é ódio
Nem mesmo rancor, mal humor talvez,
Mas antes de tudo é receio
De que tudo volte novamente e
Ainda uma e outra vez mais
0476.
O que foi feito?
Morte pura e simples
da utopia?
Resfriamento
do ardor, do querer?
Forjados os caminhos
todo resto é fim
0473.
Um dia se levantou
olhou no espelho:
“sou feia!”
Tomou banho e se vestiu
(havia um sorriso
inocente em seu rosto,
bem no canto)
0474.
Há muito tempo atrás cri no amor
Hoje reinvento-o em crê-lo ainda
Mas não senti-lo, ou contemplá-lo
No fado do platonismo
Uma vez que te deixei ir
Você foi por causa do meu
Mecanismo cartesiano
Por conta de uma volta na ida
0471.
E nesses momentos em que a vida passa num lapso de segundo? Que há esse devir pela frente e esse esquecer para trás. E então há esse espaço não preenchido do presente, esse inside do agora e você não sabe o que fazer, não existe mais barra de saia alguma. Só um momento petrificado e um jazz esperançante.
0472.
0472. Dulce todos os dias tem a mesma vida. Não diz bom-dia, não se anima. Sai cedo, não se atrasa (mas uma vez por mês; é batata: engarrafamento na Estrutural). Chega no seu trabalho de merda (pelo menos é concursado). Trabalha, almoça, trabalha e de noite não vai direto para casa. Dulce não dorme, mas já é Jade se escora num poste e acende um cigarro: “será que elas sabem, que suas vidas já se foram?”.
Dulce e Jade: uma vida.
0469. Desculpas
Já causei dor nesta vida
de maior monta dores de amores
já machuquei, já feri a lida
deixei gris todas as cores
Não por querer, ira maldita
mas por ser não, veias e dores
0470.
Quantas esperanças mortas
nas mãos de um doudo
se cristalizam?
Quantas ilusões postas
nos vãos de um louco
se personificam?
Para estes inconstantes,
pena de morte é pouco,
para eles só a imortalidade
0467.
Há coisas que um dia vão
mas o ir nem sempre é retilíneo
por vezes ele vai ao infinito
e retorna consigo razão
Mas o prosseguir se faz
e não existir o voltar atrás
Pedir perdão é ir, repetir não
0468.
Queria encontrar-me ao largo daquele horizonte e o sê-lo em infinitude poente eternizado num elã de luzes.
0464. Fatos altos
Há vôos que se fazem
para a busca da paz
lá no céu onde jazem
as feridas e dores a mais
As vezes não têm sentido
pensam ser mágoa, vingança
mas para o pássaro fugidio
há o respirar calmo, bonança
0465. Pensei em ti
dos casos dessa vida
muitos casos são sorte
mas do belo nela contida
é a Deusa que dá o norte
0466.
um pingo de chuva me trouxe mais amor
um pingo bem na testa trouxe-me mais
um pingo mais um pingo me trouxeram paz
desses pingos fez-se a chuva que apagou o fogo da dor
a água dá a vida e o fogo a eterniza
seguir, só se for dessa maneira
um dia encharcado, outro na fogueira
0462.
Há o ar mor
do prosseguir
Há o mar maior
do devir
Mas há o amor
do caminho do meio
0463. Cortes
Do lampejo da salvação
Após a faca na ferida
Surge um fato do calor da paixão
Mas resta uma réstia contida
Na amizade que supura os cortes
0460. Novos
Doira nova translação
Novo Ocaso, nova Angélia
No limiar de nossa rotações
Desse novos; desejos eternos
De perpetuar e de seguir
Por isso ano novo: amemos!
0461. De um carinho e de um amor
Sinto um carinho que me afaga
a alma, o espírito e que me sara
a chaga, o corte e que me pára
a saga, o enfado e que mata
a mágoa, o suplício e que me cala
a fala, o norte e que me abala
a cama, o acertado e que me é
Tenho um amor que me dispara
a tara, o tesão e que ma fala
a calma, o terno e que me marca
a pata, o peito e que me lava
a palma, o pulmão e que me caça
a farsa, o eterno e que me ataca
a taça, o leito e que me é
0458.
Deus é uma essência sonora
dentro de todos nós
Deusa é aquele acorde
perfeito em nosso sax do peito
O divino é um som colorido
uma textura aos ouvidos
da alma e que nos conduz
ao amor
Dessas notas que pulsam
em nossas veias descobrimos
o terno despertar
o instinto luminoso do som
0459. De lixos
Os lixeiros trabalham escondendo
de nós essas tristes vergonhas
de nossas bundas, barrigas, bocas
braços e entranhas
de nossas soberbas e ganâncias
Somem com a troça do mundo
avesso da vida que é só um busca
Desaparecem com a vida
que é como o limbo que nossa vida ofusca
e a si produz sem dizer o que custa
Os lixeiros trabalham agora
e a cada verso que desgosto
surge mais matéria para o trabalho
vindouro dos lixeiros e para
o meu despertar poético de cedo
0456.
Quantos poetas agora escrevem?
Que metáforas nestes se atrevem?
Falam sobre seus eternos amores
Ou sobre a durabilidade das dores
Ou sobre um vôo pássaro
Ou quem sabe um high-tech ícaro?
Serão poetas de momento noturno
Sorrindo letras ao outro mundo?
Serão petizas de campos e pastos
E de seus príncipes criando sapos?
Poetas agora em todo lugar
Com certeza muito há que se criar
0457. Outra oração
Amem
Amém
0454.
O amor, loucura não é
não é a imensidão outra
dentro de si
nem a potência que
necessita do outro
para a concretização
O amor é um ponto
bem dentro definido
que se espelha o bom
e o mau de si
e também sua falta
mas que, preciso, é
um ponto
0455.
Uma flor é o afago da vida
e o vento a balouçando é uma
terna carícia do acaso
Uma nuvem é um manar da vida
e o vento a levando é um
doce fato ao paladar de retinas
Uma gota de orvalho é um diamante
que como o vento, escorre na folha
e enriquece de vida a planta
Com flores, nuvens, gotas, afagos…
quero que minha vida seja
conduzida como a esperança
0452. Oração
Quando oro faz-se um vazio fundo
cala qualquer interjeição minha, frente
a este indizível ser que sustenta os infinitos
mas que não sustenta minha oração
não louvo pois sei que ser divino
não é humano para querer adoração
não peço nada uma vez que não é o
meu desejo que impulsiona, sim minha ação
não agradeço pois sei que o perfeito
não almeja os gracejos da minha própria vida
tento ir, fazendo da minha própria vida
uma possível congruente oração
0453.
Por vezes, como é boa a solidão!
Escrevo à luz de um poste e
ao som dos carros pelo chuva
Já se vão transcorridas vinte horas
dessa despretensiosa rotação
e o sol ainda não despencou
sobre o Japão
O incontido da escuridão sussurra:
“de findo nada há”
E eu volto para dentro de mim
0449. Olhar uma flor
da minha janela que dá ao passado e ao futuro
inspirei uma vindoura chuva
e com Lupicínio percebi o desengano
mirando a copa da árvore que plantei
via a primeira gota da chuva molhar
vi outra gota numa flor
que sempre aqui esteve mas só agora vejo
lha sobressai-se luminosidade do vermelho da flor
e os pingos douram-se lha mais a mais
ela é quão ou mais viva como eu
0450.
Disso que volta, pelo telefone
Volta incerto, quase findo
Falta o ponto final. No domingo
0451.
Por que não quero o que está
em minhas mãos?
Por que renego este anel vivo
que não sai do meu dedo?
Por que o desejo do brilhante?
uma vez que ele é falso
uma vez que ele é vidro
Por que esse ímpeto de
transcendência?
0446.
Passa aurora, passa Angélia, passa Ocaso, passa o dia, passa a noite e eu não me passo; passo o dia — e a noite — com meu passado. Pego a peça do jogo: “eu passo”. E com passos apressados passo rumo ao meu passado. Possa tudo nessa vida e meu eu é só passado.
0447.
Levantei-me hoje cedo e fui,
qual a meta do meu ir, ainda
não decidi.
Se escrevo, regozija-me saber
onde estou não.
Vou com as letras.
0448.
promessas
palavras usadas
meu bem
palavras
não dizem nada
também
eterno
é só o universo
meu bem
infinito
foste nosso amor
também
jurada toda a felicidade
meu bem
feliz
creio me enganei
também
profundo
pensávamos fosse
meu bem
passado
é todo o vivido
também
eu quis
que você quisesse
me bem
mas vejo
que o que passou
já é finado
não convém
sagrado
é só o agora
meu bem
to feliz
to rindo à toa
adeus, good-bye
e um amém
e hoje
eu quero a eternidade
do momento
meus quase vinte anos
e um colo ao relento
0443.
Num ato quase sincero
se avista possível Nero
Louco, ingênuo, assim néscio
Com palavras queima o certo
esperando prazer mero
(mas só há este vazio)
0444.
o que pronunciei, pronunciei, já basta
o que proferi já é meta n’algum pretérito
do amor só resta ele próprio, separado
como a pronúncia do agora e os quilômetros
de sentimento do início eterno e infindo