adias
a
saída
sadias
saídas
para o
dia
que
adias
sai dia
entra dia
e
adias
a
saída
sem saída
essa
sua
saída
que
há dias…
Belém, PA.
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
adias
a
saída
sadias
saídas
para o
dia
que
adias
sai dia
entra dia
e
adias
a
saída
sem saída
essa
sua
saída
que
há dias…
Belém, PA.
Toda água quer ser mar
Todo mar anseia a terra
Toda terra sustenta a água
Como tudo se envolve
e se der, seja.
Belém, PA.
os traços são simples
cruzeiros em um retângulo
duas semanas
para se compreender
dois dias
para se percorrer
duas horas
em se perder
dois minutos
para se pertencer
dois segundos
piscar e ver
as janelas definem
pela dimensão dos
quadros que emolduram
o fora isso que se
sente de dentro
arma o arco o tenso músculo
carga de seta em cúmulo
farta plena do anseio último
essa flecha lançada ao espaço
cessa no cume do que há mais alto
dessa alma comprimida no asfalto
finca na meta do negro fosso
limpa com palha de aço o dorso
ímpia parte do propulsor corpo
voa com a força de um braço teso
loa de um canto em garganta preso
soa como um corte do ar suspenso
uma flecha no tempo comprimido
ruma às paralelas do infinito
pluma de um corpo da terra banido
|
A ponta norte um carnaval fluvial.
o
|
||
|
O lado oeste um faroeste florestal. |
Aqui um seco azul sensorial.
|
O ponto leste um batuque de sal. |
|
o
A porção sul um cinza subtropical. |
o espectro de
um espasmo
meu corpo
quando treme
rio acima
morro abaixo
Ela é turrona
e até no nome
é cheia de dedos
e nesse emaranhado
mora o meu desejo.
Nosso fogo
pegou tão bem,
nem precisa
de tanta coisa
pra essa nossa
chama zen.
Eu dispenso a visibilidade
Eu despenco da vaidade
Eu disparo na vitalidade
E me deparo com a veleidade
o primeiro é bem assim:
sem nexo
o segundo vem assado:
pouco sexo
no terceiro meu bem,
o gozo é certo
atrás do mar, morro
de frente à morte, mar
do espaço erguido, arroubo
a mata a matar
no machado, história
o ferro e o fogo, tombar
e eu queria mesmo
era a pedra e o cal
derrubar
e com caos e cacos
sem memória
erguer uma tribo
de animais em mata,
morro, mar
consenso o
senso de que
a matéria
não pode menos
que o ar
de integrar
a desintegração
do possível
que não há
o rochedo repousa
enquanto árvores
cochilam pousadas
em sua barriga
a idade do rochedo:
a terra do sustento
Iguape, SP.
passional
com
você
passo sem
o pessoal
Iguape, SP.
passional
sem
você
passo mal
Iguape, SP.
agora o sol surra
esse sol urra errado
e sussurra só luz
Iguape, SP.
O vento chega.
Seu momento na pele:
tato.
Iguape, SP.
A nuvem passa.
Seu instante no ar,
desagua.
Iguape, SP.
A música é a dança
do ar preparando o
coito da harmonia
dentro do peito.
Iguape, SP.
Orgânico: unha na
corda no ar
dançando no ouvido.
Iguape, SP.
O pingo pousa.
Seu instante na poça
uma onda.
Iguape, SP.
A luz acordou na urbe.
As nascentes gritam.
Por trás do umbral do verão
minha razão dançava.
Quisera sentir as nascentes,
a vontade da água
há tempos morta, o grito aturdido
a nenhum dos tatos
da mente, amaro eco rouco
dentro dos cógitos…?
quanto vale?
quanto eu vou pagar?
pelo meu punhado
escasso de ar
pelo mar, pelo mar
quantas notas?
quantas cifras vou contar?
pelo meu sustento
a terra a pisar
por olhar, por olhar
como pode?
como foi acontecer?
tudo pois cercado
alguém possa ter
todo ser, todo ser
como isso?
como vou proceder?
pelo meu alento
alguém receber
vou dever, vou dever
Capa da Veja:
REFORMA AGRÁRIA JÁ!!
Nesta Edição:
– O processo histórico de concentração de terra no Brasil
– A relação promíscua entre política e latifúndio
– Assentamentos que dão certo
– Caminhos para compatibilizar a reforma agrária com a preservação ambiental
Folha de São Paulo, primeira página:
DEPUTADOS PRESOS TÊM TODOS OS BENS CONFISCADOS
STF estabelece aos condenados 30 anos de trabalhos forçados.
Jornal Nacional, depois do “Boa Noite”, fala o Bonner:
É NECESSÁRIO REDUZIR O CONSUMISMO
Segue a Fátima:
O Jornal Nacional mostra com exclusividade porque se livrar da cultura do supérfluo.
Correio Braziliense, primeira página:
O ABC DA CORRUPÇÃO
Série de reportagens do Correio investiga afundo como se desenvolveu o processo de corrupção que tomou conta do governo do DF durantes décadas.
Estadão, capa:
A LEITURA NO SÉCULO XXI
Escolas brasileiras mostram como desenvolver o hábito de ler em seus alunos.
armas em riste
as fábulas com balas e pólvora falantes
bonecos de fundas e pedras
as bandeiras sem capas de super-heróis
luta desde sempre
as intempéries da não escolha
razão de ser espírito
as trincheiras para a redenção
a terra prometida, ansiada, quista
tomada, suprimida, separada,
apartada, subjugada, dividida
prisão de confins de areia
prisão ao mundo
prisão na pátria esfacelada
as crianças correm, lutam
são crianças, você não vê isso?
são crianças, você não vê isso?
são crianças, você não vê isso?
Para além de pairar no ar
primeiro pirei para por lá
parar, logo eu tão pará,
pulei nela e planei ali,
parando no ar: por ela
lá paraná e nós por aqui,
paranoá.
o risco do risco
é o mesmo do
precipício,
o princípio é
sempre pior
“blackman know yourself
don’t forget your past”
grilhões houveram
e ainda governam
os navios negreiros
do pensamento
ainda há tempo,
mesmo no legado
da memória,
de mandar esse
resquício ir embora
mudar a assertiva
rezar nova missa
mais negra
mais aldeia, quilombo, terreiro
menos paço, igreja, outeiro
quebrar as correntes
que ainda correm rentes
junto ao atraso do preconceito
aquele ipê confuso
magro, magro
achando que era
de ser barriguda…
devia ser por causa
daquele banco embaixo
dele
que abrigava velhinhos
aposentados contando
histórias de um tempo
que virou palavra
agarrada entre uma
memória e outra
deve ser de lá
que deixou seu florescer
maturar mais
cedo que o de costume
destoando do
resto de sua comunidade
de ipês ainda em
pleno desnudar de folhas
Reduz sua vaidade
Recicla sua vontade
Reutiliza sua liberdade
Reduz sua necessidade
Recicla sua camaradagem
Reutiliza sua dignidade
Reduz sua disparidade
Recicla sua igualdade
Reutiliza sua bondade
Refaz sua realidade
a noite pousa
bela e negra
e toca e deixa
mais ainda minha
pele morena
despenca
tão amena…
a vida pode
pede por
assim ser
plena de paz
e positiva
pra poder
posso pegar teu sorriso
e estampar no meu
pra ficar mais comprido?
lençóis limpos
e roupa lavada
corpos intensos
e noite abraçada
esse tudo assim
necessário mais nada
esse todo tempo nosso
é tão mais que demais…
sabe essa sensação
de que o tempo
não vai pra frente
e nem volta pra trás?
eis o homem
esse homem
hesse lobo
ecce homo
só para quem
elogia a loucura
só para raros
só para loucos
que em si
são além
A lua brilha já inteira
e mesmo cego de
tanta luz, o Jorge,
São, ainda mata
eternamente em
seu cavalo, nela,
o seu dragão.
para estrelas
quando se parte,
à parte essa parte
que fica e arde,
fica ainda a arte
dos encontros ou
das partículas
que de si nunca
se perdem ou partem
todos somos de
todos partes
que sempre ficam
imagina a tensão:
no meio do cerrado ainda armado
ônibus lotados
trazendo os pioneiros
da decapitação da mata
sonhos, expectativas,
saudades e
braços e troncos e pernas
e cabeças e mãos
e suores já gastos
postos a serem ainda mais gastos
imagina a loucura:
da mistura cafusa, mameluca
de esperanças mantidas
com pão parco
herdeiro da substituição do
trabalho escravo
imagina o caos:
tratores, caminhões,
poeira
imagina isso em junho
imagina sem lago
imagina o vento frio na seca
e na imensidão do céu preenchendo as existências
imagina a terra sendo rasgada
imagina isso doido que foi
travestindo-se disso hoje concreto
e ainda queriam que quem fez isso hoje concreto
com o suor gasto de seu trabalho
abençoado por esse céu de louco
voltasse ao final para o início de sua lida,
esses outros tantos rincões disso tudo
que forma o contínuo desses brasis
com o suor e as mãos firmes ficaram
e ergueram como nos outros brasis
mil brasis possíveis às margens da
ilha de concreto erguida ao redor do cerrado
Mensure o acesso à cultura
em cifras,
fale em “bem” cultural,
propriedade intelectual,
direito autoral,
transforme arte em grana,
inspiração em pré-viabilidade,
daí ao criar algo,
pense antes nos custos e
benefícios da sua angústia
exposta em metáforas,
parágrafos ou diálogos
e não se esqueça da
abrangência e dos
impactos que pintar um
sorriso podem resultar
como incremento à
economia local.
de certo que agora
desceu a palo seco
sua saída
deixou espaço aberto
na boca por sussurrar:
saiu, saiu, saiu…
de manhã dei com a testa
num cacho de buganvília
foi tão despropositado
que eu até pensei que era
você vindo aí de longe
colorindo uma flor no
meio do meu caminho
no meio do meu carinho
colorindo uma flor
posso postular
que pôs tu lá
na pré via de
mão dupla o pós?
pós, entende?
pós, sô!
quase que eu perdi o ar
depois de te ver
quase que o tempo
se perdeu por perder
o espaço foi parar na
beirada do ar
que eu quase perdi
e eu fui me perder
pra poder te ver
entre as sombras dos
pinhais sobrou um pouco
do ar que eu perdi
e de você que eu vi
quase que eu perdi tudo
que podia perder
pra ficar pelas sombras
na sua luz te ver
e eu perdi
transigindo com o que foi colocado
de cada parte para um lado.
condescendente com o que foi tratado
e comprazido sem prazer com o amargo sorvido:
tempo mais tempo mais tempo
menos esperança elevada ao tempo.
oportunidade há de haver,
quando contemporizar
for realmente entendido como é:
manear a realidade na ânsia de que
no agora que ela não cabe,
caiba num ainda que agrade.
vou sem fé,
base, apoio, muleta
esteio, corda
sozinho
pirando pelos entres da cidade
pairando por cima da cidade
parando pela cidade
poeira na cidade
pluma
até que chegue a idade da eternidade
como farpas presas nas pontas dos dedos
possibilitando que o tempo
seja apenas um antojo
adeus,
pois que se nada mais toca
nem se perguntar deve:
há deus?
seria tão fácil navegar
se na quebra dela
– posto que mar é
feminina e substantiva –
uma vela se hasteasse
como um candeeiro
aceso dentro d’água
e dentro do firmamento
esse ponto de luz
se abraçasse em seus seios
de ondas brancas e brumas
e vagasse seguindo o rumo
dos cachos de suas marés
seria aquela calma alegre e longa
no canto das tardes de um dia
escondido entre dois litorais,
vela erguida dentro dela,
literal falta de ais
esse preto mesmo
que visto é pra
me dar coragem
esse branco mesmo
que fito é pra
me pacificar passagem
esse verde mesmo
que vivo é pra
me esperar paragem
esse vermelho mesmo
tão vivo é pra
me inspirar sacanagem
esse azul mesmo
que insisto é pra
me espelhar miragem
Deveria ter prestado atenção
na deixa do teu signo de água
de ninfa aquosa que é,
dona de nascentes e de fontes
de veneno cristalino.
Só me daria mesmo um gole
– provar o gosto
com a ponta da língua –
breve espaço entre papilas
e átomos liqufeitos.
Banhar em tuas águas
só me restaria mesmo à loucura
ou à morte.