Escorrem desses morros
histórias escravas,
portuguesas, brasileiras.
Expõe-se ao mundo
a paisagem ainda um
tanto inerte,
mas plenamente
parabólica desse lugar.
Ouro Preto/MG
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
Escorrem desses morros
histórias escravas,
portuguesas, brasileiras.
Expõe-se ao mundo
a paisagem ainda um
tanto inerte,
mas plenamente
parabólica desse lugar.
Ouro Preto/MG
2:20 e o Rio
vive
vida vertendo
vontades, como
ver-te assim tão
a vontade vagando
comigo francesamente
pelo Brasil
Rio de Janeiro/RJ
Eu não odeio
gringo,
também, eu
mesmo não
gingo.
Petrópolis/RJ
Eu gosto de flertar
é nesse momento
em que um olhar
corta todo o ar.
Petrópolis/RJ
A indiferença planejada
é furada
no primeiro furo
a gente esbarra
com a vontade
contida e não contada,
é essa coisa não dita,
no entre olhar
que se entende a
cantada.
Petrópolis/RJ
A bola rola solta
pela areia da praia
Um contentamento
feito leve como
uma promessa
A bola rola,
um toque apenas:
o domínio,
a cadência
Sem demônios,
só leveza
Rio de Janeiro/RJ
Explicar a minha
paz,
tanto assim,
não posso mais.
Petrópolis/RJ
Talvez seja essa
sua composição
estrangeira,
seu deboche
francês que eu
não compreendo,
pode ser mesmo
que seja até
essa pinta na
sua coxa que
eu não consigo
abstrair como
mera aglutinação
de pigmentos.
Talvez sejam
tantas coisas
que se somam
e que dão a tônica.
Olha só, pois, você,
francesa que seja.
Rio de Janeiro/RJ
Saindo da água
ela toda respinga,
cada gota que
percorre seu corpo
é mais que uma
vontade minha,
é além utopia.
Rio de Janeiro/RJ
Na praia
o olhar se
espalha:
tudo a
espreita.
A vista fica
dispersa,
fica esparsa.
Rio de Janeiro/RJ
O mar é um
precipício líquido,
sem princípio
ou fim
Nadar no mar
é quase um
suicídio
envolver-se
no impossível
assim
Rio de Janeiro/RJ
um tanto
de paz
um tanto
de mar
a multidão
sumindo
só a água
murmurar
só as ondas
vibrando
no ar
o som das
ondas vibrantes
a falar
Rio de Janeiro/RJ
Existe uma
quebra no
além horizonte
do mar,
é uma curva
onde o céu
se deita
na água.
Rio de Janeiro/RJ
Na Sapucaí
teu olhar
sapecou aqui
Foi um Salgueiro
nos olhos
de lágrimas
e suor
Comoção
por essa tua
beleza
comunidade
pura
Rio de Janeiro/RJ
TUDO
NELA
FALA
Rio de Janeiro/RJ
E agora vegetariano
eu trabalharia
até de açougueiro.
Furinho no queixo
é golpe-baixo
da natureza,
até o francês louco
concordou.
Nem precisaria
de mais Rio,
só de amor
e golpes-baixos.
Rio de Janeiro/RJ
Cá o caos é lento
e quente
Cá as cores nas
caras são tantas
e coradas
Cá há um coro
de murmúrios
carnavais
Rio de Janeiro/RJ
Quando muito
cabe,
a gente
tira
como num
guarda-roupa:
entrou,
tem que se
vestir.
Rio de Janeiro/RJ
A história fincada
em algumas pedras
diluídas em poucas
memórias aprisionadas
em páginas pouco
convidativas,
pertença de poucos
para poucos.
Rouco eco de
um passado que
insiste em ser agora.
Rio de Janeiro/RJ
anseio o sol,
o seio, o céu sul,
colinas, o colo,
o colóquio, o colonial,
até um quase
beirando a certeza
Rio de Janeiro/RJ
se comover com
nuvem aglutinadas:
cooperativamente
se co-mover com
as nuvens água
tornadas, se
nublar colericamente
tornado
Rio de Janeiro/RJ
É tão incerto,
a nuvem em cima
assim de perto.
saudade da sua presença
como se da minha plena
nada pudesse sentir
saudade da sua companhia
como se ocorresse um lapso
entre as horas e a vida
partindo tudo em cacos
saudade do seu corpo
como se o meu não se soubesse
quando assim sem o seu
saudade do seu sorriso
como se nas minhas lágrimas
você inteira viesse
façamos o seguinte
a gente esquece o
mundo por dias
se crava um no outro
por horas
se sabe o tanto
bastante para não
abusar
daí a gente
vaza cada um para
um lado
e não conta pra ninguém
nem para nós mesmos
guardemos o todo
do que ocorrer
naqueles dias mesmos
que existiram
nunca parênteses foram tão esperados
nunca foram tão quistos
antes de ser uma intervenção explicativa
eles têm sido uma intervenção poética
nesses dia de prosas ácidas e ásperas
(lírios do lado de uma passarela)
(uma gata louca por uma borboleta)
(mensagens criptografadas num monitor)
(um desejo falado nas entrelinhas)
isso sim que é bruto
a solidão te deixa sólido
mais que duro
Tantas promessas
tanta pressa…
qual o próximo passo?
chove aí
chove aqui
essa água fina
abençoando os
desejos
insistente durante
o dia
querendo lavar
à força o mal
do mundo
essa chuva nos
encontra
se debruça em
cima de nós
cai em nossas
costas para
lhas aliviar
levemente
pesando o peso
de ser água
nosso encontro
possível carregado
pelas nuvens
nosso beijo suave
feito de
gotas miúdas
que o novo
venha a todos nós
como aquele nó que faltava
para alinhavar a costura
que se escreva mais
e se pense um tanto menos
e se sinta esse tanto que é mais
que se saiba e sinta pensar sentir
e sentir pensar
que se música plena
boa onda vibrada pelo ar
até tremer a alma
que se leia o que for bom
para saciar a fome
e que se coma o que for necessário
para que ninguém sofra
que se seja
que assim seja
que se beije
e se beija
que se ame e entre e adentre
e se deixe adentrar
e trema como música vibrada
que se goze
que se sue o que não alienar
que se estude o que ainda valorizar
que se goste e se gaste
se desgaste pelo tempo
deixe as erosões e intempéries gastar
deixe o rosto amofinar pela idade
que se envelheça
que se corpo
que se outro
que se todos
e todas que puder enfiar em si
que percorra o mundo e as vidas
e se deixe percorrer
que se corra para onde
e se pare pelo quando
que se necessite
que se precise
que queira e consiga
e convide quem quiser também
e compartilhe e não se ilhe
além do medido
que se desmeda
e se desemenda
e perca o medo de se cortar
e se colcha de retalhos quando precisar
que se seja
que assim seja
que não pare
ok
para você,
ou por,
eu espero.
paro o movimento.
palavreio o
intento
e mesmo
me apresento:
senhor de impulsos,
de pulsões
ainda um tanto primitivas,
primo pela troca:
dou o impossível
e desejo
isso que toca
o ar junto à
respiração:
vida
posta mesmo
no que pode.
A justa medida do tempo
é uma veste de espera
vestido vermelho de lamê
bem ajustado
guardado no fundo do armário
ansiado aguardo para o
usufruto
tira-se de quando em quando
para uma postura ao sol
e retirar mofos e manchas
cuidado com carinho
embalado em plástico
admirado no momento em
que se vai procurar uma
saia diária
e suspirado todos os dias
sabendo que em algum
deles existirá a ocasião
em que o caiba.
saia de seu casulo
adentre um sol sertão
trafegue entre egos
siga até um olhar perdido
conte cinco passos
rumo à impossibilidade
se desoriente com o pôr-do-sol
ande rumo ao nascimento da lua
fuja léguas pelo ar
corra por linhas cálidas
quando uma lágrima brotar
é ali mesmo
cave fundo até encontrar
esse baú enterrado
abra-o somente quando
enfim o sorriso couber fácil
na sua cara
não pode ser mais da obsessão
tem que ser do contato
do tato
transpor a onda do imediato
do amor instantâneo
maturar as coisas
esperar
afagar com palavras elétricas
lembrar e querer
encontrar num sonho
ansiar a queda da distância
lançar-se de todo modo
esquecer-se um tanto
esperar
ela lá
eu cá
um dia onde
eu te tiraria do marasmo
hastearia bandeiras
recuperaria a utopia
e a embalaria em frêmitos
lhe mordiscando as orelhas
mas acho que você gosta
mesmo é de chicotes
e vela derretida
ou cueca de couro
sei lá
essa agressividade desmedida
desmede até a vontade
desceu
sangue seu
sem gene meu
outro gemido sucedeu
O ouro preto
que brilhava
em todo o ar
pintava o centro
dentro do azul
daquele olhar.
dias loucos e insuficientes
para se aprender o faltante
e arremessar o vindouro
dias de chuvas e de sóis
desse calor tão frio das manhãs
de pavor e esperança
dias verdes e noites azuis
esperas infinitas e carinhos
ansiosos e distantes
seres perambulando pelo
aconchego da piedade
e margeando alguma frustração
vontade de virar as páginas
de começar novos livros
pulando até o último parágrafo
dezembros podem enlouquecer
mas sempre levam o mundo
a chorar pelo novo
veio mesmo
naquele veio
de água de
cima da serra
que descia
dizendo que
vinha
e veio com
a brisa da
noite com a
permissão
de ir e vir
com a pulsão
de vida
veio e disse
que ia
percorre as
veias e aqui
eu vejo
que vaza
por todos os
poros
as perco uma a uma
não tenho idéia de onde
foram dar as caras
no meio do caminho
podem ter ficado
no vale do encantamento
despedaçado
no desperdício da
água à face derramada
no tiro de uma arma
não-letal
no momento de puxar
o gatilho
foram ficando pela trilha
uma após a outra
algumas ficaram encontradas
no desencontro da partida
todas não me acompanham mais
um dia ainda encontro
uma mulher que tenha tesão
com coisas sutis
até lá sigo esse romance
torpe com a minha
própria mão
ai ai
um dia
a menos
outro
a mais
será que
náufrago
que estou
ainda
encontro
um cais
ou ficarei
boiando
nesse mar
demais?
quase cretino
esse sono que
vem vindo
acaricia pálpebras
vai seduzindo
à cama
conduzindo
parece lânguido
só que é quase cretino
o fim não virá em 2012…
o fim está desde
100.000 anos antes do presente
quando um vírus
mamífero resolveu
perambular pelo mundo
só a faísca de um fim
nessa fogueira eterna
que é a idade do céu
amor não é
é nada:
não-ser
amar é
– paradoxal –
a ação de
não ser
quando eu amo
não sou
no amar
não se é
armadilha
existencial
amor tenta
mas não é
A luz feita veio de velas vibrantes pelo vento
vindas de rincões distantes de além-mar
a sinuosidade do mar lumiava
o bege mareado do cânhamo
por esse sol de equador ardente
imenso ubá reluzente chegante
de paragens ocidentes
seres em fedentina ditos deuses
e eles aqui no ritmo de uma cultura
que se sente natureza
no balanço de canoas e redes
e rezas e cantos e paricás
senhores dos reinados dos sonhos
antropofágicos mágicos da guerra
Encontro de morte e de genes
selando para o agora o ímpeto de mar
ao movimento de selva
mudando a posse o título e o nome
criando à força a herança de quem
hoje é brasil
gosto tanto dos gatos
mas acabo sendo como
um cão
me apego fácil
me entrego inteiro
abano o rabo e olho com
cara de pidão
espero um carinho
todo o tempo
e ainda fico em guarda
de plantão
ainda não acredito nessa estória
de amor à primeira vista
creio sim em tesão ao primeiro olhar