Baseado em fatos

Demorou apenas três dias para que eu cruzasse todas as ruas da cidade e cumprimentasse, com sorriso franco, todas as pessoas que encontrasse. O pasmo e o desconjuro eram sempre os mesmos, apenas as crianças e alguns jovens não fingiam seu espanto e demonstravam, mesmo que de quando em quando, alguma admiração. Talvez fosse pelas minhas tatuagens que cobriam desde a testa até os pés, passando pelo enegrecido à tinta do branco dos meus olhos, mas também devia ser pelos meus alargadores que escancaravam locas nos lóbulos de minhas orelhas, boca, bochechas e nariz. Talvez fosse pela minha farta gordura que despencava banhas por fora das roupas. Talvez fosse porque eu era mulher. Só sei que por onde eu passava gerava uma certa aflição.

Cá estava eu, pronta a assumir o cargo de professora de Educação Infantil do Colégio Estadual Belarmino Malaquias, pacato distrito de Menelau de Dentro, zona rural da comarca de Poricoté do Norte, província de Fronteiras Centrais, região centro-sul do amado país de Mogno, parte central da porção oriente-austral do subcontinente íbero-cabralino.

Poricoté do Norte. Me causava assombro que houvesse uma Poricoté primordial, ou mesmo, apenas, uma Poricoté do Sul. Imagino as tropas percorrendo as gerais desse mato séculos atrás, chegantes e escudeiros percorrendo florestas e brenhas na captura de escravos fugidos ou vermelhos da terra. Um vilarejo ficando por aqui, fruto de uma preguiça rosa-olímpia de botar as outras pessoas para trabalhar à força em seus lugares e do estupro sistemático de nativas. Uns diamantes e um ouro qualquer em algum momento da história, a urbe fincando raízes no meio da selva e eis a nossa atual Poricoté do Norte com toda a sua tradição e herança existindo até agora.

Apresentei-me na escola conforme indicado pelo memorando que impunha em mãos, no dia vinte e três. No início não quiseram me atender. Quando cheguei à escola, uma senhora me atendeu, vi o assombro em sua face. Era como se o diabo estivesse ali em sua frente, e o diabo era eu. Quando passou seu espanto e finalmente ela percebeu que eu era uma pessoa de verdade e que tinha um memorando nas mãos, pegou-o com um certo asco e saiu em disparada porta afora. Não sei quanto tempo passei ali, em pé, à espera de algo. A mulher voltou meio ressabiada, me olhou de cima abaixo e só conseguiu dizer, trêmula: “a diretora não está agora, volte amanhã”.

Voltei para o hotel em que havia me instalado. Lá o pasmo já havia virado diversão. “E aí, professora, já conheceu sua escola?”. Respondi com um olhar meio tristonho e só entrei para o meu quarto. Pensava em como eu tinha me proposto àquilo. Mas agora era pagar para ver. Veria. Resolvi tomar uma cerveja. Saí do quarto e perguntei pro moço da recepção onde tinha um bar com cerveja gelada. Ele disse que o melhor era o Tonhão, não era longe e lá sempre tinha uma cerveja gelada.

Cheguei no Tonhão seguindo o caminho indicado. Lá, novamente mais uma cena de choque. Tonhão me olhou de cima abaixo e perguntou se eu era hippie. Falei que era uma das novas professoras do colégio provincial. Ele riu e preguntou o que eu queria. Pedi uma Skol, ele veio com uma e um copo, antes pediu pra eu pagar adiantado. Dei uma nota de cinquenta, ele ficou com um ar mais ameno. Foi para dentro do bar e eu fiquei ali no balcão tomando minha cerveja.

Um sujeito corpulento, massudo, gordo forte, entrou no bar e me olhou. Parou num susto. Olhou pra mim e perguntou: “é pegadinha?”. Não respondi nada. Fez um ar de foda-se e gritou pelo Tonhão. Pediu uma quentinha. Tonhão encheu um copo americano com uma pinga de uma garrafa pet de refrigerante. O sujeito tomou tudo de um gole e pediu mais uma. Virei pro Tonhão e pedi uma da mesma. Ele botou e dessa vez não pediu adiantado. Tomei num trago e o sujeito me olhou com cara de assombro. De repente ele virou e me perguntou: “tu é mulher?”. Fiz que sim com a cabeça. Ele não falou mais nada. Ficava só me olhando de cima abaixo sem se fazer de rogado. Não dei a mínima pro sujeito. Peguei minha cerveja e fui pra uma mesa do lado de fora do bar. Tomei três cervejas do lado de fora. Foi aí que olhei para o lado e vi uma massa de gente se aproximando. Fiquei pensando se seria uma procissão. Achei curioso. A turba vinha vindo, mas não havia nenhuma coisa que me remetesse a algo religioso. De repente a massa se aproximou do bar e parou em minha frente. Não tive tempo de pensar em muita coisa, só senti um golpe duro de madeira na minha cabeça, desmaiei imediatamente.

Depois vieram vários outros golpes. De facão, de machado, de pau, de pedra. Dilaceraram minhas partes. Me esquartejaram. Mulheres chutavam a minha cabeça. Homens brincavam com minha buceta, chutando-a de um lado para o outro. Rasgaram-me todas as partes. Fui largada, pedaço por pedaço, ao largo da rua que dava no bar. Alguns ainda tentavam atear fogo em algumas partes minhas.

Nunca entendi porquê. Morri esquartejada em Menelau de Dentro, distrito de Poricoté do Norte, província de Fronteiras Centrais, Mogno. E meu sangue ainda pode se ver em algum cascalho que se junta na beira da rua.

3950.

a morte é uma coisa azul. não que eu tenha morrido esses tempos, mas sei. ela é azul e sem temperatura. não é morna, nem quente, nem fria. é um azul profundo, inteiro. dá pra se ver lá em todo o azul. e não é um azul, são todos. é o pleno azul.

3948.

no mundo inteiro as mesmas palavras
na mesma ordem
no mesmo compasso
e quando eu falo sobre seres da lua
já me cospem teoremas e tédios
e minha boca fica perdida
aprisionando alegrias
dado o monotônico do mundo

minhas palavras não
são possíveis nem passadas
nem tem poder
são bardos que se liquefazem
por dentro do sangue

e nenhuma montanha
retornou minha voz
nenhum eco se fez
nem no alto nem na foz

desaguada sem sair
cada palavra lago barragem represa
em mim solavanca
tromba d’água e me afoga
cachoeira negativa
meu dentro

e essas palavras
as mesmas todas
rasgando minha pele
açoitam minha face
e o mundo gosta disso

3947.

eu não silencio as manhãs
eu as calo
cadafalso parece chão
mas é buraco.
eu dia me intrometo
nos seus sonhos
vomito a urgência
de se por de pé
limite para a noite
onde tudo foge ao controle.
eu controlo e invado
de luz todas as retinas.
eu dia quero o fogo
do céu queimando corpos
e dispensando a loucura.

3945.

o peito pensa
é uma massa densa
que se consolida ao redor
vai da garganta
ao umbigo,
podia não se ater,
antever o início do
momento mágico
em que a massa
viraria leveza
nunca travestida de
outro ser
(o que sai de mim
é de mim, vê-se
com outros átomos)
se eu dissesse meias
verdades, falasse
com as pontas dos pés
o que diriam as células
e os cigarros?
o que diriam as mãos?
como o rio que me
atravessa peitos e
plumas meus
ouriçado entre os
entes
e como espasmos
encontro outros alicerces.
meu problema é
diagnosticar angústias
como se fossem solavancos
amaldiçoados dentro de mim.
meu Exu capta dores
e farsas e desavisado
riso franco, maligno
não me avisa:
todo o visto vem de mim,
não dali ou daí.

3942. acalma coração

nada mais há de se esperar a não ser o ar
o céu firme como azul
nas têmporas temperam os olhos
nuvens espraiadas
a cuca infusa n’água aerada

nada mais há que se esperar
como os elefantes negros enluados
as sombras mortas viventes
das pegadas dos elefantes
aquele uivo na esquina dos anos

se for embora sem esperar
nada mais há que se esperar a não ser o ar de se espraiar
até tocar os uivos e os elefantes
que se espraiam dentro
da lua que se espraia dentro de si
diluído como o azul

morada de lobos e sombras
essa espera que no tengo mas

3937.

guardei teu nome para
depois de amanhã
quem sabe um dia
seus passos se silenciem
pelo corredor e eu
possa dormir mais
que três horas numa
noite e seu pulso
não se sinta nem
aqui nem no quarto sem
nenhuma decoração
ou decore um mural
com frases para se
decorar no topo dos
sentidos: “a lua sussurra
o eco do silêncio”
“qual o barulho da terra
girando?” “de que lado
de dentro vive o sol?”
“quantos vazios se
orientam pelo
coração do universo?”
“a morte existe no
azimute de marte”
“vênus desfibrilou a
garganta de júpiter”
“viveremos lençóis”
“violentar o nada é
auto-expiação”
guardei teu medo
para depois de amanhã
e o vivi hoje
aroma de dama da
noite na segunda
aurora
não esperei,

3936.

cármica rodoviária
fluidez asfáltica
parasitária
carne exposta vísceras
e veias abertas
fratura óssea
a rodoviária
num dia morto
a vida urra
na rodoviária
uma dor a cada tapa
semântica do medo
dois dedos de jurubeba
perdida
alguém está perdido
pedidos
faca amolada
o ônibus vaza
a fila some
a lokura aflige
e não tomba
tromba os parceria

os loki

3935.

as filas se formam
não sei onde olho
onde moro
moro nas filas
que se formam
nas faces que formam
as filas
que me formam
moro
onde olho
não sei
onde moro
nas filas que folham
nas folhas que
não sei onde
moro
nas formas que
não sei
moro
as firmas que
não foram
as folhas que
não olho
molho
onde moro
não sei

3932.

o egoísmo dela
o que eu queria ser
sua indiferença
minha flecha

tudo o que lhe depositei
da paixão que havia em mim:

                   espelho estilhaçado
                   só vi o fino pó
                   voltando a ser areia
                   fragmento carreado
                   em meio a água e sal

amei-a
meia
a projeção dos meus medos

3930.

supunha que seria comovente
mas como todo ser semovente
pouco contemplável muito complacente
viveu até o fim aprisionando as lágrimas
por dentro era barragem não rio corrente
por debaixo um tanto pântano
por de fora passando rente
brejo de lama perene

talvez fosse a nascente

3929. admirador de fissuras

essa é a história do admirador de fissuras. buracos. rasgos. vãos. daqueles seres que futucam ferida. arrancam casquinhas. passam a unha. até fissura abrir. um sujeito desses nasceu em qualquer dia e viveu qualquer vida. mas o que lhe conferiu a diferença é apenas e tão somente o ato mágico de observar as fissuras. admirá-las. as frestas também lhe encantam. qualquer veio por onde se aviste uma parte. um pedaço. um enlace. não o todo. a forma. silhueta. quando imerso na totalidade de dentro da fissura tudo o incomoda. causa pasmo. aflição. o quase é mais poético. mais humano. mais saboroso. mas o admirador de fissuras morreu um dia. apenas e tão somente. nada mais. até o fim. observando fissuras.

3928.

esse há de ser um poema bonito
uma implosão concreto esfacelado
poeira fumaça blocos
estado de alerta
estado de alerta

isolamento da área
perigo de alta combustão
chamas labaredas e a vontade

soterrada

porque tudo é triste no meio do eito dos dias de chuva
tudo é belo

a calma é só um ponto médio

entre o tudo desabar e o desabado

lindo

3926.

ela olhava com atenção sua angústia
uma angústia lapuda
uma lapa de angústia
uma lapada
gostaria de lhe aplicar eletrochoques
até a agulha do discernimento
se enfiar na medula óssea do não querer

um budismo carnívoro assomava o corpo dele
ela olhava
alicates nas unhas pensava nas bolas
adestrar e admoestar-lhe as estruturas
nirvana em fúria

sua mente babava

3925. a cultura me fodeu

escolho a falta. o mundo transita em ser mais um merda. é o trânsito do fim de novembro. a lua entrando lá. transa. imaginária transa. afogar-se num mar de bucetas. num mar de cus. num mar de paus. a falta. eterna falta. escolhe-se o medo. afogar-se apenas. talvez sejam os traslados. trans. atravessar a fronteira do avesso para chegar de novo a si. a culpa já se instala. quantos sonhos? a custa de que? o amor quando chega desalinha o karma. os chakras. os xakras. sem chá. rodopio de estações. ela já faz falta. poucas horas. a pira há de ser longa. postais sem selo. cartas anônimas para mim mesmo. mais um merda no mundo transitando. é o inferno astral avesso. o paraíso terrenal instalado. um mar de gozos ilusórios. um olho que não para. o choque do futuro visto nas imagens da segunda infância. a cultura me fodeu.

3924.

nada se ouve
a pia a escova a moto
nada se houve
minha respiração a pira a escora o morto
nada se ouve
o mar a milhas ainda agora seu sorriso
nada se houve
como esse fato de agora não se estar bem
nada se ouve
se eu choro é o paralelo dos mundos
nada se houve
você agora aqui onde há

3923.

de manhã olhava o dia
como se fosse possível ostentar
a vida a ser erguida junto ao coração
envolto em sangue mas com o aroma vivo da exasperação

de noite olhava o umbigo
como se a esofagite fosse sair pelo buraco da barriga
e desaguar caudalosamente ventre afora
desmerecendo o odor de morte que apodrecia as entranhas em consternação

3922.

sombras
a mente escura
cem mil decibéis de negrume
sobras
a alma negra
mil graus centígrados de trevas
cercas
o espírito claro
o gosto da luz pelas papilas

arame farpado
ferro grilhões
farpas na língua e nos tímpanos e nos poros

arde ensurdece sangra
toda luz gera trevas
e se movem dentro delas
olhos em tato pelos vãos da claridade

o segredo da sua seiva e saliva
o que você não supôs e suprimiu
sombras
sobras

teu rastro mais secreto

3921.

quando o fio do carregador merecia ser atentamente observado. e um interesse desavisado pousava sobre os seres que sangram. do alto. décimo andar. a queda é alta. enrola-se em fios até a descida. nuvens baixas carregadas. dentro do peito. chovia fino. dentro do peito. as alterações emocionais carregadas pelos fios. elementais de água que sangram. um salto alto. baque seco na cama. imprevisões. o peito é formado por imprevisões. parco interesse. desinteresse. fios de carregadores. décimo andar em taguatinga. nada além de ceilândia e samambaia. fios e mais fios distribuindo a diluição. chove torrentes dentro dos fios. dentro do peito. décimo andar. a loucura caminha par e passo. avançado.

3919.

as horas seriam dadas ao calor
como se desencostar de tudo
fosse mais que necessidade
fosse apelo para denudar-se

mas contrariando as expectativas
havia uma harpa e um xilofone
sem frio ou formas mas volume tangente

o verde começava diáfano
eu queria olhar mas o calor desprendia
descolei na pressão leve
quente subi
a comoção de qualquer frio
me levaria inevitavelmente
a derreter

mas o som que vibravava
solidificava tudo
feito estátua feito fonte
mármore bem polido

pelado

3915.

era uma dor que começava na junção
do indicador com a mão
acho que isso se chama articulação,
a parte, não a dor
ou talvez a dor também fosse
articulada

ali começava e se irradiava
de dentro da parte esquerda
da senda canhota

quando a dor pulsava era melodia
intento e instinto
de vazar ferrugem
dor de deus

antes de decepar,
o dedo, não a dor,
acariciei-a por alguns segundos
e ela passou
férrea

cortei dedo fora
o sangue ferruginoso escorreu

                  a dor era agora etérea e no todo

                              e do dedo nasceu mais um deus

3914.

foi lá na lombrada
dos malucos
das doidas
já que não era quebrada
ao passo que tudo derretia
da sorte que dali
salvador não se via
caia caos kaya
cascalha de amaciar dureza

bem lá onde perdi um dedo
e encontrei uma mão

tudo saudoso como se não houvesse hoje

só há

3913. boiadeiro

ainda me lembro das manhãs molhadas
prontas ao resfolego do sol em manto orvalhado
se dar ao carpir ao cergir ao bater ao cavar

o barulho do sol na pele morena vermelha índia da terra
com seus regos verdes de sangue d’água
e seus pelos verdes de copas e pastos
tudo refugo da chuva brava que se abria dentro da noite lenta

e um frio invernal brumoso de tanta umidade
lesma caracol visgo de espuma
de bicho no toco do pau queimado
agora que nem fogo pegava

ainda me lembro que era depois da seca
a manhã de café feito para martelar os pregos
da vida nos mourões das cercas a serem enfincados

gosto de nuvem cinza planando baixando por cima
do chapadão com a quentura da infusão negra
a percolar gargantas como a água a entranhar
terras e ventres e vãos e peitos
vazios de angústias e cheios do próprio conteúdo da vida

ainda me lembro desses dias que se iniciavam assim
feito espera e esperança no batidão do sol subindo
e da água espatifando que nem ela própria só consegue

o buraco no chão se enchia d’água
um boi pastava ao lado
e eu bolava um porronco numa folha de embrulho
amolava os dentes no papel queimado
para sorrir melhor ao que viria

naquele dia que ainda lembro

3910.

não se assusta
o próximo passo é a novela
não se assusta
o próximo passo é a conduta
a sua
vai sem medo
só medo
gosta desgosta
sem desgosto
há um lindo esgoto
por onde nossos barcos hão de navegar

não se assusta
nada te remove
do lamaçal
você anda
não se assusta
não repudia faz uma nota um artigo
textão alguns caracteres
um dístico meme
reclama da intolerância
declama um poema                   esse
tolera
um tolete na sua goela

não se assusta
é a democracia
que demoniza
não se assusta
amanhã seu pescoço na forca
a forma emoldurada
cem mil poemas métricos
esperançosas três linhas
sobre ela na sua garganta

não se assusta
é só um sussurro
nada grita berra
não se assusta
não se assusta
isso é um eco
fantasia póstuma
textão
amanhã assassinaram sua liberdade
hoje
tudo enclausurado

3909. eixo mono-mental

mexerica na redinha
jeep renegade
saco preto dez real
hyundai ix36 (?)
jk em seu mausoléu
num giro sinfônico
de metas e metas

maluco explodindo
os cofre pega nada
o cano na boca
renegado
o cano do escape
renegade
catalizadores de consciência ambiental
quatro por quatro
três ponto oito
quarenta e quatro
coronha na cabeça
milicos descamuflados
bunda exposta na janela
e uma preguiça intertropical

o sol esquenta a mente
em labaredas de sinais

                   infernais

3908.

há uma lição
ainda a ser compreendida
nas imagens borradas
instaladas atrás das transversais

três gerações atrás
pra mais
no lusco-fusco das
memórias não apreendidas
                   tá no corpo
                   honra & desonra
                   catarse de movimento
                   incompreensivelmente
                   voluntários à vontade
                   dos músculos dos ossos
                   dos nervos

há essa lição que são várias
despercebidas porque
desensinadas
                   ninguém aprendeu
                   não houve silêncio
                   dentro do fogo
                   dentro da’scuridão
                   vozes ritmadamente
                   guiando os movimentos
                   dos corpos a compreenderem
                   os enredos dos seus
                   motivos de fluírem
                   dentro do espaço
                   tal e qual são

essa lição é dessa terra
subsolo e sub-versa
reverso da voz temerária
atemporal da pátria
                   é teu corpo quem fala
                   células de tatarás

a desobediência se viu
desde as auroras transatlânticas
até os ocasos pacíficos
                   corporificada
a cordialidade foi forjada
obediência servil
letra por letra nas páginas
oficiais
                   enfiada