essa é a história do admirador de fissuras. buracos. rasgos. vãos. daqueles seres que futucam ferida. arrancam casquinhas. passam a unha. até fissura abrir. um sujeito desses nasceu em qualquer dia e viveu qualquer vida. mas o que lhe conferiu a diferença é apenas e tão somente o ato mágico de observar as fissuras. admirá-las. as frestas também lhe encantam. qualquer veio por onde se aviste uma parte. um pedaço. um enlace. não o todo. a forma. silhueta. quando imerso na totalidade de dentro da fissura tudo o incomoda. causa pasmo. aflição. o quase é mais poético. mais humano. mais saboroso. mas o admirador de fissuras morreu um dia. apenas e tão somente. nada mais. até o fim. observando fissuras.
3928.
esse há de ser um poema bonito
uma implosão concreto esfacelado
poeira fumaça blocos
estado de alerta
estado de alerta
isolamento da área
perigo de alta combustão
chamas labaredas e a vontade
soterrada
porque tudo é triste no meio do eito dos dias de chuva
tudo é belo
a calma é só um ponto médio
entre o tudo desabar e o desabado
lindo
3927. masô
a ilusão saboreia o sucesso
o juiz brinda o avanço
todos parecem comemorar
a destruição a dilaceração
amanhã há de chicotear-se
a dor da pele transfigurando-se vida
essa que a parte de dentro lhe surrupiou
e tudo é dentro
vida
quista
3926.
ela olhava com atenção sua angústia
uma angústia lapuda
uma lapa de angústia
uma lapada
gostaria de lhe aplicar eletrochoques
até a agulha do discernimento
se enfiar na medula óssea do não querer
um budismo carnívoro assomava o corpo dele
ela olhava
alicates nas unhas pensava nas bolas
adestrar e admoestar-lhe as estruturas
nirvana em fúria
sua mente babava
3925. a cultura me fodeu
escolho a falta. o mundo transita em ser mais um merda. é o trânsito do fim de novembro. a lua entrando lá. transa. imaginária transa. afogar-se num mar de bucetas. num mar de cus. num mar de paus. a falta. eterna falta. escolhe-se o medo. afogar-se apenas. talvez sejam os traslados. trans. atravessar a fronteira do avesso para chegar de novo a si. a culpa já se instala. quantos sonhos? a custa de que? o amor quando chega desalinha o karma. os chakras. os xakras. sem chá. rodopio de estações. ela já faz falta. poucas horas. a pira há de ser longa. postais sem selo. cartas anônimas para mim mesmo. mais um merda no mundo transitando. é o inferno astral avesso. o paraíso terrenal instalado. um mar de gozos ilusórios. um olho que não para. o choque do futuro visto nas imagens da segunda infância. a cultura me fodeu.
3924.
nada se ouve
a pia a escova a moto
nada se houve
minha respiração a pira a escora o morto
nada se ouve
o mar a milhas ainda agora seu sorriso
nada se houve
como esse fato de agora não se estar bem
nada se ouve
se eu choro é o paralelo dos mundos
nada se houve
você agora aqui onde há
3923.
de manhã olhava o dia
como se fosse possível ostentar
a vida a ser erguida junto ao coração
envolto em sangue mas com o aroma vivo da exasperação
de noite olhava o umbigo
como se a esofagite fosse sair pelo buraco da barriga
e desaguar caudalosamente ventre afora
desmerecendo o odor de morte que apodrecia as entranhas em consternação
3922.
sombras
a mente escura
cem mil decibéis de negrume
sobras
a alma negra
mil graus centígrados de trevas
cercas
o espírito claro
o gosto da luz pelas papilas
arame farpado
ferro grilhões
farpas na língua e nos tímpanos e nos poros
arde ensurdece sangra
toda luz gera trevas
e se movem dentro delas
olhos em tato pelos vãos da claridade
o segredo da sua seiva e saliva
o que você não supôs e suprimiu
sombras
sobras
teu rastro mais secreto
3921.
quando o fio do carregador merecia ser atentamente observado. e um interesse desavisado pousava sobre os seres que sangram. do alto. décimo andar. a queda é alta. enrola-se em fios até a descida. nuvens baixas carregadas. dentro do peito. chovia fino. dentro do peito. as alterações emocionais carregadas pelos fios. elementais de água que sangram. um salto alto. baque seco na cama. imprevisões. o peito é formado por imprevisões. parco interesse. desinteresse. fios de carregadores. décimo andar em taguatinga. nada além de ceilândia e samambaia. fios e mais fios distribuindo a diluição. chove torrentes dentro dos fios. dentro do peito. décimo andar. a loucura caminha par e passo. avançado.
3920.
quando a boca da mão
perde o prumo
e até o sonho se cala
é tempo de se consternar
com a merda
e de dar vazão ao pulso
3919.
as horas seriam dadas ao calor
como se desencostar de tudo
fosse mais que necessidade
fosse apelo para denudar-se
mas contrariando as expectativas
havia uma harpa e um xilofone
sem frio ou formas mas volume tangente
o verde começava diáfano
eu queria olhar mas o calor desprendia
descolei na pressão leve
quente subi
a comoção de qualquer frio
me levaria inevitavelmente
a derreter
mas o som que vibravava
solidificava tudo
feito estátua feito fonte
mármore bem polido
pelado
3918.
você me abre para mim
e mesmo dentro eu te vejo
prisma tu minha luz
se abre em frêmito
refletimos
nos vemos
3917.
tua pele pluma
meus pelos
e planarmos
para além
apelos
3916. área de proteção
o mote é o mato
o mínimo espaço
guardado da glosa sã
3915.
era uma dor que começava na junção
do indicador com a mão
acho que isso se chama articulação,
a parte, não a dor
ou talvez a dor também fosse
articulada
ali começava e se irradiava
de dentro da parte esquerda
da senda canhota
quando a dor pulsava era melodia
intento e instinto
de vazar ferrugem
dor de deus
antes de decepar,
o dedo, não a dor,
acariciei-a por alguns segundos
e ela passou
férrea
cortei dedo fora
o sangue ferruginoso escorreu
a dor era agora etérea e no todo
e do dedo nasceu mais um deus
3914.
foi lá na lombrada
dos malucos
das doidas
já que não era quebrada
ao passo que tudo derretia
da sorte que dali
salvador não se via
caia caos kaya
cascalha de amaciar dureza
bem lá onde perdi um dedo
e encontrei uma mão
tudo saudoso como se não houvesse hoje
só há
3913. boiadeiro
ainda me lembro das manhãs molhadas
prontas ao resfolego do sol em manto orvalhado
se dar ao carpir ao cergir ao bater ao cavar
o barulho do sol na pele morena vermelha índia da terra
com seus regos verdes de sangue d’água
e seus pelos verdes de copas e pastos
tudo refugo da chuva brava que se abria dentro da noite lenta
e um frio invernal brumoso de tanta umidade
lesma caracol visgo de espuma
de bicho no toco do pau queimado
agora que nem fogo pegava
ainda me lembro que era depois da seca
a manhã de café feito para martelar os pregos
da vida nos mourões das cercas a serem enfincados
gosto de nuvem cinza planando baixando por cima
do chapadão com a quentura da infusão negra
a percolar gargantas como a água a entranhar
terras e ventres e vãos e peitos
vazios de angústias e cheios do próprio conteúdo da vida
ainda me lembro desses dias que se iniciavam assim
feito espera e esperança no batidão do sol subindo
e da água espatifando que nem ela própria só consegue
o buraco no chão se enchia d’água
um boi pastava ao lado
e eu bolava um porronco numa folha de embrulho
amolava os dentes no papel queimado
para sorrir melhor ao que viria
naquele dia que ainda lembro
3912. um dia sempre amanhece
a vida é algo que exige cautela
e cutelo
coragem
3911. a noite chega primeiro no céu
doses de expectativas
em gotas
controle da ansiedade
tua ânsia como a arma deles
3910.
não se assusta
o próximo passo é a novela
não se assusta
o próximo passo é a conduta
a sua
vai sem medo
só medo
gosta desgosta
sem desgosto
há um lindo esgoto
por onde nossos barcos hão de navegar
não se assusta
nada te remove
do lamaçal
você anda
não se assusta
não repudia faz uma nota um artigo
textão alguns caracteres
um dístico meme
reclama da intolerância
declama um poema esse
tolera
um tolete na sua goela
não se assusta
é a democracia
que demoniza
não se assusta
amanhã seu pescoço na forca
a forma emoldurada
cem mil poemas métricos
esperançosas três linhas
sobre ela na sua garganta
não se assusta
é só um sussurro
nada grita berra
não se assusta
não se assusta
isso é um eco
fantasia póstuma
textão
amanhã assassinaram sua liberdade
hoje
tudo enclausurado
3909. eixo mono-mental
mexerica na redinha
jeep renegade
saco preto dez real
hyundai ix36 (?)
jk em seu mausoléu
num giro sinfônico
de metas e metas
maluco explodindo
os cofre pega nada
o cano na boca
renegado
o cano do escape
renegade
catalizadores de consciência ambiental
quatro por quatro
três ponto oito
quarenta e quatro
coronha na cabeça
milicos descamuflados
bunda exposta na janela
e uma preguiça intertropical
o sol esquenta a mente
em labaredas de sinais
infernais
3908.
há uma lição
ainda a ser compreendida
nas imagens borradas
instaladas atrás das transversais
três gerações atrás
pra mais
no lusco-fusco das
memórias não apreendidas
tá no corpo
honra & desonra
catarse de movimento
incompreensivelmente
voluntários à vontade
dos músculos dos ossos
dos nervos
há essa lição que são várias
despercebidas porque
desensinadas
ninguém aprendeu
não houve silêncio
dentro do fogo
dentro da’scuridão
vozes ritmadamente
guiando os movimentos
dos corpos a compreenderem
os enredos dos seus
motivos de fluírem
dentro do espaço
tal e qual são
essa lição é dessa terra
subsolo e sub-versa
reverso da voz temerária
atemporal da pátria
é teu corpo quem fala
células de tatarás
a desobediência se viu
desde as auroras transatlânticas
até os ocasos pacíficos
corporificada
a cordialidade foi forjada
obediência servil
letra por letra nas páginas
oficiais
enfiada
3907. ferrugem
cálices de sangue
coagulado
copas
o sangue todo vetor venoso entre as ravinas da pele gasta
a derme enferrujada
velhice cobre
3906. folha da física
folha da física
esculpe teu percurso entre
o galho e o chão
imagens absurdas
escondidas no fim do céu
no começo das abóbodas
o fractal os raios que te alimentam
esculpe os contornos do vento
no espaço grave de ondas
esculpe o pó que desgoverna
o arfar seco
entre as ranhuras dos
lábios sangrentos
nos lábios sangrentos o teor
quase a tocar
a futura folha da
física
3905.
nos enredos redes ramos ramas rumos
d’água d’ar d’areia d’alma
dançamos enredadas
enlaçados
espalhadas por entre
ao nos entrarmos
baby
sem rédeas arreios esporas
e na rede nos raiamos
barcos beira rio
nossos remos respiração
3904. frankenstein astral
como recompor as partes
até se ajustarem?
fast bem estar colaborativo
start up down
aberto o capital
rumo ao dharma
a receita é fácil
água morna com limão
e linhaça
três vezes por dia
uma fatia de mamão
para meditar antes do sono
desapega do dinheiro
passa no crédito
debita a transcendência
ioga aos sábados
maconha de boa qualidade
aos domingos nos parques
é só desoprimir os músculos
terapia transpersonal
personal líder coach
e massagem plúmica
argila salgada vietnamita
doe desdoa
diz doo ainda que dor
dietas macro-solares
geofagia
relacionamentos orgânicos
com múltiplas afeições
instantâneas
monogamia iridescente
uma vida sem riscos
arriscar e viajar pelo mundo
jogar tudo fora
ao som do new age
capitaliza o momento
terreiro high tech
jezuis loiro saradão vegano
um teco de pó de palma
pirlimpimpim
tudo colado
super bonder espiritual
frankastral
3903.
ser se só
sempre
se ser
sem só
3902.
não te amo porque
não haverá fim
te amo porque há
fim
pausa: da mãe da mãe
Desde a primeira vez, Orunmilá me falou quer era de amor e de herança. Eu sinto. Eu sei.
3901. nu
ainda que a nudez ataque tua face
se desnuda
tira as vestes do medo do fluxo
entra no turbilhão
se tem base, teus pés tem chão
se acredita, não importam os rios, os riscos, os rasgos
tampouco a lama, o movediço
o medo pertence a quem não conhece sua própria nudez
e só se sabe em sua mudez
agressiva por detrás das luzes azuis
se perde as raízes por qualquer nudez
é porque já se apartou da seiva
do solo
eu me desgarrei
meus rizomas se entranham na esfera
sorvo o grosso de todas as terras
nu
3900.
a manha é de fuder
toda a indexação de conteúdo
a manha é de fuder
toda a indexação de conteúdo
a manha é de fuder
toda a indexação de conteúdo
amanhã há de fuder
todo o algorítimo do mundo
toda a moral binária sectária
será revertida em bits ao acaso
tudo será revertido em bits ao acaso
todas as correlações serão recorrelacionadas
todas as correlações serão recorrelacionadas
todas as relações serão recorrelacinadas
todas as correções serão erradas
todas as imagens de jesus serão redirecionadas
para marcus de feliz se ânus
todas as imagens de jesus serão redirecionadas
para marcus de feliz se ânus
todo plúmbico será nuvênico
tudo plúmbico será nuvênico
tudo nuvênico desabará
todo o armazenamento será descarregado
estratos de estratos de estratos
carregados de partículas destratadas
descarreadas diz farsadas
3899.
tá errado
a riqueza é um rasgo
contaminado
nas regras da natureza
freestyle caminhada 01
Uma caminhada, Êxodo de Vinicius Gomes nos ouvidos, sol no moleira, algo que veio, seca menos de 10% no ar, meus olhos não choram mais, só vão, como isso, que veio, poesia mediúnica no meio do rush, no contra-fluxo – meu corpo precisa saber.
3898. Demonstração da coisa viva
O que nela mora
só nela mora
ela
a coisa viva?
Por que só nela se assenta
nela
só nela
ela
a coisa viva?
Por que não nas pedras?
Por que só nela
ela
mora nela
a coisa viva?
O que é a coisa viva?
Que reside nela
só nela
ela
a coisa viva?
O que é a coisa viva?
O que é a coisa viva que insiste?
O que é o alinhamento egoico
entre eu e a coisa
que nela
só nela
ela
a coisa viva reside?
O que é o alinhamento especista
que me divide
que nos divide
entre a coisa viva
a coisa que nela
mora ela
a coisa viva
e as que nela
não nelas
não reside ela
a coisa viva?
A coisa viva mora no sol
ainda que vida lá
nela
não resida
A coisa viva mora na terra
vive na terra
entranha a terra
dentro da terra
é ela a própria terra
que nela reside ela
e mora nela
ela
a coisa viva
A coisa viva vive
A coisa viva inclassifica
A coisa viva pulsa vai conecta
o que
tudo o que nela abarca
e tudo o que nela abarca
é vida
é vivo
E porque ainda insistimos
nessa espasmódica
modalidade de pensar
de pensar um mundo uno
com apenas partes que vivem
se em toda parte mora ela
nela
mora ela
ela
a coisa viva
3897. dragão
verborragia estoica
místico mágica
magma
erupção
e um voo denso
vênus surgindo pela primeira vez
num céu elétrico
toda terra em suspensão
era apenas fogo sendo cuspido pela boca
3896. soma
e eu ficaria
aqui horas
inabitáveis
a dizer o que
me habita
3895. costura sutura
delinear o carinho
dentro da escuridão
desenhar o lábio linho
tato boca língua mão
tecido tez
mil fios que atam
essas partes que fogem
disparada disparate
manto de insensatez
desgoverno as linhas
emaranham
os pontos unem
3894.
paleta de tons eólicos
redemoinhos sacis terras pós
cores de vento impermanentes
pintar é um ato romântico
fuligem no peito câncer fumo
catalisadores que disfarçam a inspiração
pintar gera um estado de tuberculose
no plexo solar
pintar desgasta a superfície
erosão sedimento tons vermelhos
e um sol abrasador
sinusite tuberculosa
sensitividade da pintura mediúnica
pintar é um ato intransigente
impulso do pincel paleta tons de sangue
cada imagem
rodopia ao vento
cada textura
3893.
já tive um saudosismo
uma saudade
quase um banzo
mas agora não é mais triste
não importa
sou contemporâneo
3892. líticas I – ansiolítica
nunca é mais do que é
sempre é do tanto que é
e nunca não existe
3891.
eu agosto como tu agostas
há gosto
como em calor coloro
como em seca secas
e se em fumaça fumaço
queimada ar mada
da cinza nasço
3890.
fazer o possível
dentro do que possa
calma camomila
não precisa ser agora
segue sem noia
3889.
em tempos tão sombrios
não devemos deixar de pensar
nas flores e nos séculos
entrementes nada é tão definitivo
conquanto tudo transitório
vejamos a mecânica dos gases por exemplo
não podemos olvidar
peido é vento
3888. Aldebarã
do nascente e do céu
donde sou vou e irei
quem segue
aquele que segue
o olho do touro
o aleph a própria volta
segue as plêiades
as primeiras do horizonte
o perseguidor
o mago
o brilho laranja resquício do sol na noite escura
do nascente e do céu
donde sou vou e irei
papa igbo que veio do oriente
acende a candeia no céu
donde sou vou e irei
3887.
“é tão bonito quando a gente sente”
gonzaguinha e minha mãe
me compondo ideologicamente
3886. crepúsculo dos deuses
todo mapa é uma metáfora
os aplicativos desmentem
nos guiamos por pós-verdades
para onde quer que elas nos levem
sem a poesia dos paralelos e meridianos
3885.
progressiva ultrassônica a laser
e a cabeça parecendo um acelerador de partículas
luzes rompendo a velocidade do som
sem pensamento a mil por hora
3884.
na falta de estrelas
reconheço constelações
nos postes de luz
sem ascendente
ou meio do céu
S’ ‘eus
É como se eu tivesse essas contas a resolver e seria necessário apagar, zerar, saldar, todas as contas do passado. Não por ti, para ti, mas por mim, para que pudesse ser por ti, para ti. Se fosse em outro tempo… diriam, se tivéssemos nos encontrado lá atrás… dirias, e se for de outra vida? dizíamos. O certo é que fora nessa, não noutra. A via una desse momento presente, meu agora seu – ora direis: nosso, ouvir plurais, certo tens todo o senso e razão e sensibilidade –, sim, como todo eu se forma noutro – seu – s’ mais eu, designa o plural prévio preposto, distintivo da real posse – doutra – do si que se faz noutro – noutra – – – e como me faço agora assim: transcorrimento do passado até o agora em que me encontro junto a ti e penso em zerar o passado – me zerar? – para que me espraie e com teu espelho, refaça, reágua, ressaca até vazar. Mas a coisa se constrói na ida, na via, una, essa, nossa, o resto é medo, como o passado – medo. Cada bifurcação nos conduz à nossa via, a vida. Cada encruzilhada, uma esfera, retorna a si e nos fazemos, a ti, a mim, nós. Cada encruzilhada um nó nos caminhos – e quem não irá dizer que teus raios se fizeram foi no meu céu, ou que meu branco foi só pra ornar tua luz brilhante e que o firmamento se uniu ao vento para ser, não parecer? quem? pois que andei pelos caminhos abertos para ti e abri os braços para ti e até os próprios caminhos – eu digo, eu posso – eu que já sou um eu seu, que sou – s’ mais ou, designa a alteridade incontida a se expressar na dúvida, plural, prévia, preposta – – – – para ti que me faz, como nos fazemos. E a coisa se constrói no caminhar, e como caminhamos! As pistas de antes e as léguas desde o encontro. Por isso nos fazemos e nos compomos, eula que tume. Não, não são muletas, apoios, escoras, afinal, dialogamos já deitadas, horizonte de igualdade nos termos da voz, nos apelos dos olhos, na vibração da carne, uma hora por cima, outra hora por baixo, ou de lado, ou de quatro, ou de beira, ou de mãos. E toda hora de afagos, carícias, primícias, delícias e dengos e toda sorte de cafuné, da cabeça aos pentelhos vão fazendo e compondo. E certo que devem dizer: afoito, a foz é definida: fim. E’u só diria: fodam-se! Dos meus figos, filos, filhos, foices, flores, falo ‘, eu. Mas eu sou eu e sou outros e essa porra de tantos intermédios. Mas o caso é que agora eu sou esse que daí também sai – s’ mais ai, designa a dor locacional desentranhada e transposta em gozo, disruptivo de onde para o longe daqui distintivamente plural, previamente preposto – e que por aqui também fica no sem foco do diluído da fumaça do teu fumo se embrenhando nas beiras da luz da manhã ou no amontoado da repetição da luz – da rosa – no avolumado das cortinas que desenham o dia na noite profunda. Esse eu que é passado e que olha atrás e treme e anseia zerar é o eu moral que se escanteia pelas beiras, se esquarteja em corte nobres e carne de segunda, fora o osso, o sebo e a banha – e o sangue e os miúdos para o alimento dos caminhos – e se esvai até esse eu agora, forjado nesses ‘s todos e em ti, nesse agora que me esparrama e espelha e espalha e me avessa, das sombras à luz, sentidos sonantes para ser-se em si e poder ser por mim e, também, por ti, para ti, pronto, a cada passo, carregado de passado, para sê-lo e selar-se definitivamente em construção, caminhada, sem culpas, nem constas, nem contas, nem pagas, nem nada.
3883.
o problema são as cracias
as arquias
tudo crarquicias
as propostas crarquicias
as eleições crarquicias
as promessas duplamente crarquicias
os templos igrejas legiões avidamente crarquicias
o amor da internet vídeo-cassete os carro loko crackcrarquicia
o paraíso perdido crarquicia
o éden os restos da arca e a aliança e o cálice cricrarquicia
cracias arquias esses são os problemas
posto que há um problema
sim lho há
não sinto os ismos como o defeito mor
o problema
eles são humanos apenas o tanto
mesmo os que se-lhe vão ao infinito do fim
são humanos
deuses deusas o além
humanos humanas homo
são desejos e o desejo de ser não desejo
perfeição
pode se dar no fáscio do turvo medo
no nazi do temor de temer
na igualdade da desigualdade de quem se acha livre da história
ou na igualdade de quem se meteu na história e a tem por fim
mas são baba humana e gozo e sêmen e sangue
anseio alcance
não são como as cracias as arquias
as arquiteturas neutras que manifestam o poder
como se não fossem ideias desejos mas fatos
razoáveis
as mona as demo as anar as pluto as buro todas
fingindo um ar de natureza
de razão
proporção áurea
ventre-livre
proteção acolhida LEI
e quem as protege como se escondem
capas e mais capas e ideogramas labirínticos labarínticos
pórticos e portais e vestais vendadas
ascensão das castas intocáveis como se naturais
cartas marcadas tarot nefelibata do momento das nuvens de veneno
LEI da natureza intocável
as cracias
as arquias
as crarquicias
travestidas de verdade
monolíticas sobre a imensidão da vida bípede
o fim da festa mais demorado
louros glórias pódios champanha
tudo cracias tudo arquias
tua mente e teu fim
teu medo e teu coma
cracia
arquia
crarquicia
em toda estrutura dada mora o culto a um ego
atemporal diacrônico e sem cronos
despersonificado no horizonte da história
para quem a vê e crê que ela exista
muito além de cinco mil anos atrás
muito além de cem mil anos atrás
mas houve sim um momento sem cracias arquias crarquicias
houve um além antes da natureza dada
definitiva
houve o que hemos de entender
ainda