1499.

Joaninha, com esse
seu ar de mangá
parece que quer botar
sol no meu dia.
Fica você vermelhinha
pretinha, no
ponto médio dos
meus dois olhos,
quase flor de se
lançar, quase sol
de já se pôr.
Fica aqui mais
essa eternidade e
me diz o que tiver
que ser dito.
Pode mesmo ser faca,
tarrafa, ferrão.
Fica aqui, ai!
Vai embora não…

1496.

O único objeto de
desejo dela naquele
então, era ele
Queria pô-lo dentro
de si, ele,
quente, abrasadora
presença dentro de si
Queria seu conforto,
precisava de seu
conforto, carecia
amainar seus
nervos introduzindo-o
em seu interior
Ele era tudo,
ele representava a
continuidade de sua
vida, uma tentativa
talvez
Ele respingava sangue
ainda, ele queimava
e ela o admirava
cada vez mais,
era um deus
onipotente à sua
frente
Aquela noite ela
foi embora pra casa
ainda sem fome
e sonhou a noite
inteira com
aquele pedaço de
picanha mal-passado
que, dentro do
restaurante, ela viu
o senhor deixar
cair no chão.

1479.

Esses olhos
que tentam me
definir, são
os únicos que
vêem minha
alma, são
os únicos
que vêm da alma.
Constroem o mundo
ao meu olhar
procuram profundidade,
forma, parâmetro,
inteligência.
Esses olhos que
me observam
tocam fundo
e daqui dois
anos eles nem
saberão que
eu também sou
eles agora.
Daria tudo
pra ter o olhar
desse bebê.

1473.

Aqui, onde o
único mar que
se vê é o céu
eu me atiro
de um trampolim
rumo ao nada

Eu não tenho
guelras e
minhas garras
não conseguem
capturar o nada
e as escamas
são plumas que
se perdem a
cada submergir
no éter

Peixe fora d’água
o que me sustenta
é essa imensidão,
quase liquefeita.