O gameta pós-moderno
deu-nos o balão
com seu prefácio marginal
e com certeza ele
nem viu um cu
É, Fortaleza é legal.
Fortaleza, CE.
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
O gameta pós-moderno
deu-nos o balão
com seu prefácio marginal
e com certeza ele
nem viu um cu
É, Fortaleza é legal.
Fortaleza, CE.
Eu visto saias em você
e você com minha barba
diz qualquer coisa sobre opostos
Nós dois postos, saímos,
bravos, contra o mundo
a postos em desconstruir
os opostos e postar
um para além de
barba e saia em mim,
em ti, em si.
Quase antes
de calar eu
falei em casar
mas o acaso
me encaixou
num quasar
e quântico
eu fiquei lá
quase com
você, mas no ar.
pintar de verde
e ver-te
verter-se em
mim isso
que não
se falou
(amor)
tudo muda
do tu mudo
em mundo
muda de
mudar o
imundo
No céu azul nu
vem no céu azul
nuvem não vem
no céu azul nu
No ventre do céu
azul nu vem
o vento no céu
azul nu o sol
vento, que dissolve
a nuvem que
não vem no céu
azul nu
Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo
E no meio da ponte
uma tsunami da pororoca
quis nos pegar
mas o motora era roda
e conseguimos escapar
Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo
Eu não sabia que o Hawai
era longe tanto assim
mas o motora pisava
pra gente chegar enfim
Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo
No meio dessa viagem
a pista molhada
o freio falhou
mas o motora segurou
Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo
Quando chegamos no Hawai
foi aquela alegria
pura diversão
e o motora surfou
porque o motora era campeão
Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo
Sei que me disseram que não
vai mais dar
Sei que me falaram que não
dá mais não
Só porque você está a sete
palmos do chão
Mas eu vou tentar
vou tentar
vou tentar
mais uma vez
Numa cessão espírita
você vai chegar
E desencarnada eu
vou te amar
No corpo daquele médium
te beijar
E mesmo em pelo
e barba eu vou tentar
vou tentar
vou tentar
mais uma vez
Eu já posso até ver
Naquele caixão lindo
eu e você
Quem sabe eu até
venha a perecer
E aquele cova fria
vai se aquecer
Porque…
eu vou tentar
vou tentar
vou tentar
mais uma vez
Há mar ante o
amar, gozo
do amor.
Dentro do mar
Dentro de alguém
Só preciso penetrar
As ondas fazem o resto
E quase ninguém suspeita
Sal sob o sal
em suspensão
suspiros salgados
indo e vindo
salgados os
seres que são
em si o mar
Guilherme Carvalho e Gerson Deveras
cadeiras não se apavoram
cadeiras são pacientes
cadeiras não que estejam doentes
cadeiras são pacientes
cadeiras esperam sentadas
não se evaporam
Cadeiras não se cansam
cadeiras cá, são
E nos bares
caçam cadeiras
como um cão.
no mar cação juntas
se se quebram
é um concerto
pra se requebrar
já que cadeiras dançam
cadeiras cem ninguém
são cadeiras em família
família madeira
cadeiras não estão nem aí
e cadeiras sempre estão por aí
Guilherme Carvalho e Gerson Deveras
Qualquer dia eu
me esbarro com
você outra vez
e entre esse,
outro e o que
sou, talvez eu
fique com os
três. Aí um
carnaval há de
vir mais uma
e outra vez.
A gente não sobrou,
ficou um resto de
resto espalhado por
nossas entranhas,
mas você regurgitou,
ficou um quê entalado
e você enfiou o
dedo na goela
Eu só posso respeitar
e esperar que um
dia eu consiga
vomitar
Vou te guardar longe
onde eu não posso chegar
vou te guardar em carinho
onde eu não chego não
vou te colocar dentro
do meu coração
Hei de passar a chave
pra você não fugir
coloco um cinto de castidade
no meu peito aqui
Ah, quantos remendos
eu farei pra não deixar
você se esvair
por essa rachadura
que vejo daqui
Se eu decantasse
tudo que eu já
escrevi seria um
misto de sal
e açúcar que quando
diluído em água
daria uma solução
tão amarga que
não haveria outra
solução, só
desistir de
tudo então.
O mundo deveria
ser preto-e-branco
como nos filmes
antigos, assim
a dor doía mais
bonito e não
haveria diferença
entre sangue e
vinho.
Segunda é de ninguém
cerveja sozinho
cigarro sumindo
eu sozinho e sumindo,
segunda é zen.
Será que há
algo errado
quando solidão
vira esperança?
Eu sigo a fumaça do cigarro
Ela se dispersa no alto
Meus planos todos em cacos
Ideais esfumaçados
Meu copo caiu e ficou como tudo
O futuro num passo pode
Ser o que vai vir ou apenas
Um retorno ao absurdo
É só escolher
ou perecer
é só viver.
Deixa ela se abater
de vez. Deixa ela
se assentar. Tomar
corpo. Deixa ela sangrar.
Deixa o incômodo
mesmo. Deixa assim.
Deixa que a forma
não demora. Deixa ela
ser uma fôrma. Deixa
ela me matar. “Deixa
assim, como está,
sereno”.
Brasília no fim do
ano deve ser a cidade
mais cinza do mundo
Soma-se o peso
do concreto e do
mármore às nuvens
cor de chumbo
e tudo fica assim
melancolicamente
carregado dos tons
do absurdo
Olhe pra mim
diga quem é
eu sou eu
sou você pro
que der e vier
Olhe pra mim
diga o que quer
pra onde vai
e o que convém
Eu vim daí
quero o quer
quer também?
Meu Deus, não sei
se pra você, mas
agradeço por ser
eu.
Deixa eu te dizer
o que eu penso
pra pensar depois
Deixa eu te mostrar
como tudo foi tão
feijão com arroz
Deixa eu te contar
como ele apareceu
Deixa estar e não
diga ainda que tudo
já morreu
Deixa a poeira assentar
pra eu te dizer assim
Deixa, que por isso,
o amor não chegou
ao fim
Mas se não quiser
deixar, deixa que
eu me viro sem
Fico com o baião
de dois, sem sentido
mas fico bem
Deixa essa pose de
lado que eu sei o
que você sente
Deixa de papo furado
que eu sei que você
mente
Deixa eu com você
mais uma vez
Deixa que nem rola
mais um nós três
Deixa essa raiva
de lado que uma
úlcera vai vir
Deixa que eu não
quero mais ver
você se ir
me diz dia
eu digo noite
me diz afago
eu digo açoite
me diz outro
eu digo você
me diz amor
e eu me calo
vamos compor uma
música, você sussurra
os graves, eu proponho
uma melodia,
você conduz a levada
eu faço do meu
coração bateria
me emaranhar em
tuas luzes, tocar
o vento com as
mãos, beijar as
pétalas da lua,
afagar o sol
em seu verão
manear o tempo
ao teu redor
para que seja
uma estação tua
pegar as folhas
secas com os pés
e fazer delas uma
atadura pra colar
teu sorriso
no infinito
do meu pescoço
Um dia eu te
encontro no momento
certo, no momento
propício, quando você
estiver pra se jogar
de um precipício
Nesse dia eu vou
te dizer as coisas
mais lindas e
te dar uma força
pra se jogar de
uma vez por todas.
Nessas horas a gente
pára, olha ao redor,
respira fundo:
o sol brilha ainda
seu último suspiro
Nessas horas a gente
respira luz
Ai minhas bolas
de toca em Teresina,
será que é pecado
querer ser pedagogo
e bukowskianamente
paulofreiriano, tentar
despertar nessas
criaturinhas o
desengano por tudo?
Pra você eu vou
dizer: “merda, caralho,
puta-que-pariu, que
bosta, você me deixou
na fossa…”
E o pior é saber
que disso você gosta.
Certamente eu te
queria como todo
homem quer,
mas você entendeu
tudo errado
viu além
Talvez, se você tivesse
desejado só o meu
corpo, fica tudo
bem, ficava tudo
zen
Existem pessoas bonitas
muito feias,
que deixam qualquer
feiúra como metonímia
Essas parecem com tudo,
menos com si mesmas.
Prefiro as pessoas
feias mesmo, essas
que parecem com o
que elas são.
Chamaram-na de
vaselina
e ela ficou ofendida
vaselina é um
palavra linda,
por pouco (uma letra)
não é vaselinda.
Por isso que eu disse
à moça: “liga não,
a vaselina ajuda na
penetração e,
as vezes, fica até
mais gostoso”.
Eu procuro uma
mentira nobre por
entre esse céu azul,
pois que de verdades
já me fastiei
Chega desse papo
furado de abade
de igreja e sublimação
de tudo.
Eu quero a mentira,
cada vez mais
perfeita.
dia do ser tão
grande assim
dia do ser tão
ver grandeza
dia do ser mulher
assim
dia de ser
Diadorim
grande ser tão
verdejante
grande ser tão
ver beleza
dia do grande ser
então ver
e das veredas
dia assim
de ser Diadorim
Deixa eu me levar
pra lá?
Macio, molhado,
melhor que o ar
Deixa que é lá
que minha boca
vai te beijar
Há mar e tá dito:
Há mar e tá.
cometê-lo-ei
sem comer
ninguém
Eu fiz
do estandarte
uma coberta
da coberta
uma meretriz
e nela risquei
com giz
fiz novamente
um estandarte
do estandarte
fiz um giz
e me cobrindo
com a meretriz
risquei-me com
giz essas palavras
que eu fiz
fiz vil
talvez vis!
Guilherme Carvalho e Nella Bueno
Me abusa
abdus-me
Me usa,
me abusa
bêbado
besta
ao teu
bel prazer,
me lambuza
do teu
ser
Deixa eu te levar
pro reino da
alegria
Deixa eu te colocar
em cores numa
alegoria
Deixa eu nos
teus lábios,
deixaria…?
escrevo
qual escravo
desse algo
que és
cravo o
que escrevo
com rosas
e cravos
pra que sejas
o que és,
e cravo
uma narrativa
ativa
atávica
atípica
épica medíocre
metáfora do
dia-a-dia
e há quem
diga:
poesia.
entregue
entre
a lua
e
o mar
inteiro
eu ali
bi
ponte pelo ar
pra ver o que há
naquele ponto
que se tocar
por… pudera…
pensei em fá
pra compor
te dizer mais
que o som
Esquecer o que não
se conhece
Lembrar o cotidiano
Aquecer o que não
Lamber o dia
No dia que eu nasci
o sol sorriu pra
mim: “vá ser só
nessa vida!” e eu
com essa coisa
pré, quase, destinada
demorei a ouvir
o sorriso.
E hoje, até na
chuva, reproduzo
o sorriso.
De uma eu
como o corpo
De outra eu
como as cores
batom de uva na blusa
amassada boca de batom
borrada blusa de uva
na boca arrancando a camisa
de uva que vai e vem
na boca e na vulva