1547. Baú pro Hawai

Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo

E no meio da ponte
uma tsunami da pororoca
quis nos pegar
mas o motora era roda
e conseguimos escapar

Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo

Eu não sabia que o Hawai
era longe tanto assim
mas o motora pisava
pra gente chegar enfim

Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo

No meio dessa viagem
a pista molhada
o freio falhou
mas o motora segurou

Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo

Quando chegamos no Hawai
foi aquela alegria
pura diversão
e o motora surfou
porque o motora era campeão

Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo

1546. O amor pode causar sentimentos necrófilos

Sei que me disseram que não
vai mais dar
Sei que me falaram que não
dá mais não
Só porque você está a sete
palmos do chão
Mas eu vou tentar
vou tentar
vou tentar
mais uma vez

Numa cessão espírita
você vai chegar
E desencarnada eu
vou te amar
No corpo daquele médium
te beijar
E mesmo em pelo
e barba eu vou tentar

vou tentar
vou tentar
mais uma vez

Eu já posso até ver
Naquele caixão lindo
eu e você
Quem sabe eu até
venha a perecer
E aquele cova fria
vai se aquecer
Porque…

eu vou tentar
vou tentar
vou tentar
mais uma vez

1545.

Há mar ante o
amar, gozo
do amor.

Dentro do mar
Dentro de alguém
Só preciso penetrar
As ondas fazem o resto
E quase ninguém suspeita

Sal sob o sal
em suspensão
suspiros salgados
indo e vindo
salgados os
seres que são
em si o mar

Guilherme Carvalho e Gerson Deveras

1544. Primeira

cadeiras não se apavoram
cadeiras são pacientes
cadeiras não que estejam doentes
cadeiras são pacientes
cadeiras esperam sentadas
não se evaporam

Cadeiras não se cansam
cadeiras cá, são
E nos bares
caçam cadeiras
como um cão.

no mar cação juntas
se se quebram
é um concerto
pra se requebrar

já que cadeiras dançam
cadeiras cem ninguém
são cadeiras em família
família madeira

cadeiras não estão nem aí

e cadeiras sempre estão por aí

Guilherme Carvalho e Gerson Deveras

1541. Cartesiano

Vou te guardar longe
onde eu não posso chegar
vou te guardar em carinho
onde eu não chego não
vou te colocar dentro
do meu coração

Hei de passar a chave
pra você não fugir
coloco um cinto de castidade
no meu peito aqui
Ah, quantos remendos
eu farei pra não deixar
você se esvair
por essa rachadura
que vejo daqui

1531. Novas perrengues do cotidiano

Deixa eu te dizer
o que eu penso
pra pensar depois
Deixa eu te mostrar
como tudo foi tão
feijão com arroz

Deixa eu te contar
como ele apareceu
Deixa estar e não
diga ainda que tudo
já morreu

Deixa a poeira assentar
pra eu te dizer assim
Deixa, que por isso,
o amor não chegou
ao fim

Mas se não quiser
deixar, deixa que
eu me viro sem
Fico com o baião
de dois, sem sentido
mas fico bem

Deixa essa pose de
lado que eu sei o
que você sente
Deixa de papo furado
que eu sei que você
mente

Deixa eu com você
mais uma vez
Deixa que nem rola
mais um nós três

Deixa essa raiva
de lado que uma
úlcera vai vir
Deixa que eu não
quero mais ver
você se ir

1528.

me emaranhar em
tuas luzes, tocar
o vento com as
mãos, beijar as
pétalas da lua,
afagar o sol
em seu verão
manear o tempo
ao teu redor
para que seja
uma estação tua
pegar as folhas
secas com os pés
e fazer delas uma
atadura pra colar
teu sorriso
no infinito
do meu pescoço