Eu não queria,
mas teu cheiro
no meu braço
fez eu querer,
mas eu não
queria
1442.
A sombra da ignorância
não é um ato falho
Eu quero viver sobre a
luz do que eu não sei
Agora que aprendi o
peso de todos os atos
Eu quero é desaprender
o fardo das leis
1441.
Se você quisesse
eu me entregaria
mas tua carne
nobre não se dá
com meu espírito
plebeu e a
vizinha de minha
dor já se foi
com o cobrador
da lotação e
aliança no dedo
Meu quase-amor
se suspende
entre a lua
que mancha a
sirene da polícia
aqui em Ceilândia
E certo é que você
não passe e eu
fique na turva
cova da não
definição
1440.
Hoje eu não durmo
porque hoje eu quero
o sangue
Hoje eu não durmo
porque hoje eu
apago a minha
cara
Hoje eu não durmo
porque hoje eu
mato o poeta
1439.
O que a gente precisa
é do peso
O que a gente precisa
é do cheiro de bacon
frito e só um vale-
transporte no bolso
O que a gente precisa
é que o último cigarro
caia na poça de lama
O que a gente precisa
é esquecer o amor
no celular desligado
O que a gente precisa
é tacar o celular na parede
O que a gente precisa
é doer mais
O que a gente precisa
é matar qualquer desejo
O que a gente precisa
é ser esquecido
O que a gente precisa
é faltar para si
O que a gente precisa
é esperar o beijo
e lamber a parede
O que a gente precisa
é não virar nem memória
O que a gente precisa
é saber que ela não
te sente
O que a gente precisa
é não precisar
O que a gente precisa
é ser passa-tempo e
não resposta a
qualquer intento
O que a gente precisa
é não ter grana
prum filme idiota
O que a gente precisa
é ser um idiota
O que a gente precisa
é se apaixonar
pelo impossível
O que a gente precisa
é ser vergonha
O que a gente precisa
é ser convite desdenhado
O que a gente precisa
é voltar ao éter
E eu nem sei mesmo
o que a gente precisa
1438.
Falta pouco pra eu te cativar,
mas nem raposa, nem príncipe
o que resta é eu me mandar.
1437.
Eu sou isso
que não cabe por ali
e que falta logo mais.
Só podia dar nisso
eu disperso por aí
fazendo o que a falta faz.
1436.
Resta pouco ao sábado,
pois que a sexta é
esta euforia
consome-se o sábado
na sexta e
sabe-se lá a
quantas o sábado
andará.
1435.
Falta a loira
porque a louca,
a leve,
a leviana,
a lenda,
a lenta,
a lúcida,
a lépida e
a lene já são.
1434.
Sangue, açúcar
sexo e mágica.
Queria ter escrito
isto,
e sem qualquer
diabetes metafísica,
transar depois.
1433. Elas
A companhia
e a solidão,
ambas me
levam à
compulsão,
talvez,
inexistir, não.
1432.
Eu só precisava
de três dedos
tocando meu
antebraço sobre
o suor da
noite quente
Aos borbotões
me derretendo
eu lamberia
neles meu próprio
sal e não
contaria história
alguma, até
viver outra.
1431.
Eu sou.
E dos acasos
fonéticos com
a língua inglesa,
esse é um dos
mais belos:
eu soul.
1430.
O sapo da lagoa
é o sol da vida dela
e Nossa Senhora o
ilumina
ali, bem ali no meio
cabe, assenta,
vive poesia.
1429.
Ela leu meus textos,
será que ela me testou
ou testemunhou?
1428.
… conforto
fato farto
disso
desconforto
… fardo
sinto
fato
Guilherme Carvalho e Nella Bueno
1427.
O que eu queria
dizer entre a
primeira pessoa e
a segunda do
singular?
Que não mais haveria
primeira pessoa
do plural?
Ou que se houvesse
seria essa coisa
singular, única,
sem par e sem igual?
1426.
E qual seria mesmo o
coletivo de palavra?
Texto?
Dicionário?
Poesia?
Linguagem?
Comunicação?
Frase?
Dadaísmo?
Cada vez mais néscio
temo que o coletivo
de palavra,
seja silêncio.
1425.
Eu descobri o que quero
ser quando crescer.
Quero ser caixeiro-viajante
vendendo sonhos por
onde passar, dando
como brinde desilusões
e aprisionando almas
numa moldura de
retrato velha e
desgastada.
1424.
poesia ao meio-dia
sua e
soa
como prosa
1423.
E eu insisto em partos sem rumo
EU engravido de um absurdo
Eu compro meias e faço tricô
Quando o nada vier, estará bem guardado
Eu insisto no nada
Sinto os movimentos dos braços
Sinto que não tem sexo ou gênero
Enjôo fácil e quero comer tijolo
Se eu não comer, meu nada terá cara de parede
E eu crio o nada
Aqueço meu colo e estremeço em dores
A bolsa estourou e o líquido é verde
Eu sinto que estou parindo com fórceps
Deformo-me o nada em minha própria imagem
Eu sou meu rebento
1422.
Talvez eu experimente
esse teu lance de
dor física pra ver
se eu esqueço o mundo
um pouco e me
agarro à beleza.
Pode ser que da dor
surja o que
é de se admirar.
1421.
tu és,
colha
teu ser
e seja
1420.
Chega mais perto e
sente
A chaga está em aberto
e sangra
E a chance é um deserto,
santo
1419.
O que intriga Raul,
não é uma cidade
de cabeça pra baixo
mas um céu
todo espelhado.
1418.
Sábias as palavras que falamos
aquele dia: “o livramor só
existe sem burguesia e
também sem poesia”.
1417.
Minha dúvida
é se eu viro
a imagem
ou crio outra
miragem
sei lá,
sem dúvida
eu sou só
imagem.
1416.
Aqui tá quente,
mas ainda
falta a gente.
1415.
Amar é isso,
um compromisso
ético com a
falta de compromisso.
1414. Cultura
Eu insisto,
está extinto
o meu instinto.
1413.
Lembra dos nossos
ex-passos no espaço?
Faltava espaço
para o compasso
dos nossos passos
Faltava-nos ar
e flutuávamos
no espaço
1412.
A arte me toca
Um sorriso me toca
Viver me demove
e tantas vezes
até morrer,
também
1411.
Nesses momentos
eu não sinto nenhuma
deus, só a vida
e a morte e
a paz num lampejo
que me abarca
e nesses eu entro
no horizonte
tão fácil que
difícil é voltar
a si e cessar
a comunhão.
1410. Pós-poesia
Uma pós-poesia
se faz com poesia,
mas sempre pela
última vez.
1409.
Como eu findo uma
poesia com uma
poesia?
Uma metáfora de
desmerecimento
para calar a metáfora
cabe para o
fim da arte
e da linguagem?
Isso que dá
querer ser pós
qualquer coisa.
1408. Sacer fare II
Eu vivo perdido
entre o aqui e o
acolá
quando aqui lá me
quer quando lá
aqui me tem
quando não sim
talvez como
quando vou ou
como vêm.
1407. Memorando
sexo sem nexo:
em anexo prazer
1406.
Descarte
Descartes
Nem cogite
o cogito,
para a primeira
pessoa:
uma paulada
na cabeça
1405.
O amor que a gente construiu
sucumbiu a um mero vento
Hoje é paixão ao relento
eu dormindo sob o céu
Esse engodo que nos consumiu
deglutiu-nos tão lento
É sensação sem sentimento
são intenções jogadas ao léu
O espelho que nos refletiu
pediu-nos um intento
de virar história com o tempo
e se fechou destino cruel
1404.
Talvez a falta do cigarro
representasse a falta da
poesia:
a cada momento ganho
com um cigarro, várias
metáforas se aglutinam.
1403. Me escuta
Não diga o que eu sinto
você sente e eu minto
você mente e eu finjo
que em você acredito
Não conte uma história
a histérica sou eu e você
fica com a glória
Não se sinta um deus
você me dá um adeus e
eu fico com os teus
teus sonhos fálicos
teus contos de Don Juan
teus fatos mágicos
as tuas lendas de Dartangne
E eu sou a louca
O misto da única,
da puta e da outra
Não feche essa porta
abra os ouvidos e
veja que não estou morta
Não me dê teu amor
ele não tem fulgor e
eu fico só com o horror
dos teus gostos quadrados
tuas culpas sãs
teus olhos parados
a tua intenção da maçã
E me vêem como a louca
Me enxergam como a única
e me sinto a puta ou a outra
1402.
A gente pega as palavras
e tenta espalhá-las
para descobrir qual
é a idade de uma flor.
1401.
Vou aproveitar esses
três minutos de paz
e me dar algo mais:
sentir o cheiro das
flores de laranjeira,
catar amora no quintal
e esperar pela abertura
do botão de gerânio
rosa.
1400. E odeio Pink Floyd
Vocês vão dizer
que é volúvel
o que sou,
mas ela me
deixa rock’n’roll
1399.
Sincera
mente
sem cera
mente
sim, será
mente?
1398.
Há os casos,
há quem case,
há quem casualmente
se encarregue
do descaso
e há quem
se carrega
ao acaso.
1397.
Não era outra,
era uma
Não havia “a”
havia a
memória do
meu nariz.
Meu fracasso foi
não sentir uma, mas
sentir
algo que havia
só
em meu nariz.
1396.
Hoje nós passaríamos
um de frente ao
outro na rua e
você nem me reconheceria
Eu iria te olhar
e meu corpo estremeceria
E da matéria formada
pelo desencontro
eu te esqueceria,
dentro de mim.
1395. Sei…
Sincera,
mente.
1394.
Ela disse: “gostei da
sua voz” e imediatamente
eu gostei dela.