todos falavam tão assiduamente de
sua qualidade que saltava aos
olhos a sua mediocridade
0742. Obviedade XV
tirei hoje meus óculos
exceto ao sono e ao banho
(e de quando em vez nem neles)
pouco me recordo de os tê-lo
retirado da frente de minhas retinas
ah, qual surpresa descobri
quando os tirei hoje
quão maravilhado me vi!
há tempos não via o que vi,
vi tudo sobre outro diálogo
com os meus miolos
foi assim que vi que não era luzes
mas sim mandalas luminosas
destacando-se de um quadro
vi que não eram mais indivíduos
ou pessoas, eram todos iguais
uma massa amorfa de corpos
móveis à revelia da beleza ou
da feiúra
vi que não eram mais
nuvens, mas sim tons de
cinza rasgando o céu
vi que não eram mais automóveis
e sim caixas sonoras com duas
mandalas na frente e atrás
vi que não havia mais paisagem,
mas cores, luzes e formas numa
continuidade aparente
vi um mundo mais inteligível à
minha alma do que à minha
construção cultual do mundo
hoje meus amigos e amigas,
como fui feliz!
sem formas, sem informações,
sem conceitos
só um contínuo
só o infinito
só
e confesso amigos e amigas que tenho medo agora
de prosseguir o caminho com essa dura
realidade vítrea em minha face
que descortina o mundo em definições
0741. Obviedade XIV
Era um rapaz sorridente
Sempre que a via, sorria
(Como sorria para todos)
Ela nada abstraia
(Como fazia com todos)
Um dia o sorriso foi embora
E então léguas de distância
Mostraram que no ato
De sorrir para todos
Era que ele dizia: te amo
(Não que isso importasse alguma coisa)
(Afinal… era só um sorriso)
(Afinal… era só amor mesmo)
0740. Obviedade XIII
ontem à noite
rodávamos ou e Ébano
para a lua
eu o construía
com minha música
e com a roda
ele me construía
com sua risada boa
e seu alumbramento
com a lua
0739. Obviedade XII (Dois pesos e duas medidas)
Ele furava a fila e ria
Quando desrespeitassem
A boa conduta,
As regras e as leis
E lhe dessem um tiro
No meio da boa
Creio que ele
Não iria gostar muito
0738. Obviedade XI
O silêncio que perturba
é o silêncio falado
aquele que cala verdades
que tora impróprio
o vislumbre claro,
apagando a intenção
daí a necessidade da volta:
“maldita é a boca
que pensa que diz e não diz”
0737. Obviedade X
seu Teófilo é que era feliz
não procurava entender as
coisas, as sentia
fazia jus nenhum ao seu
nome, apenas vivia
e quando perguntavam sobre
sua oração, não respondia
vivia e tentava fazer
desta, aquela
0736. Obviedade IX
Punha as mãozinhas
para fora do carro
e resfriava suas bochechas
e se admirava do
contorno luminoso
do sol atrás das nuvens
nas mãos, na expressão,
na mente e nas bochechas
a maravilha de
descobrir o mundo…
0735. Obviedade VIII
eu vi um rapaz novo no cemitério
cabelos castanhos
um metro e oitenta
boa aparência
roupa da moda
eu vi esse rapaz meditando
olhando um túmulo
longe de qualquer terceira
geração do romantismo
nesse dia eu inferi que
o ser humano talvez seja
como a própria natureza
que o faz: uma concreta
abstração sem fim
0734. Obviedade VII
No detalhe inscrito do gesto
mora o que não diz a palavra
No olhar acomodado
entre a intenção e o gesto
mora o segredo sentido
No corpo absorto posto
em se pôr ao chão
mora o que ele diz sem saber
No negar com veemência
o que “não” se sentiu
mora o óbvio
0733. Obviedade VI
E eu que buscava tão
incessantemente aquele tom
de azul de novo,
só descobri que o procurava
quando completamente ao
acaso o encontrei
e foram tantas as coisas
tais juntos ao tom que eu
desejei esquecer que o
procurava. E até já esqueci.
0732. Obviedade V
Dentro do espaço do entre as
nuvens o infinito do espaço
surge.
Dá-se um segundo e uma
nuvem dá um passo e o infinito
some.
E do cobrir todos os espaços
fica o molhado aqui e o infinito
lá do outro lado.
0731. Obviedade IV
É sempre assim,
um dia se acorda
e o eu não cabe
mais no em mim
0730. Obviedade III
Era só olhar
não havia muita coisa
nunca houve muita coisa
É estranho como chamo
fatos de coisas
É estranho como chamo
sentimentos de olhar
E nem pensei metáforas…
0729. Obviedade II
E nós que naquela
noite corríamos pela
relava selvagem
sequer nos conhecíamos
E o que assustava
não era o fato de eu
abraçar latas de lixo,
mas de compreender
a real intenção entre
o toque e o desejo
0728. Obviedade I
Desde o primeiro momento em
que falaram “vocês vão casar,
moleque!” eu já sabia que o fato
era menos amor do que invenção.
Era um pressentimento à toa
dum possível platonismo
Hoje é claro: tão mais real quanto
a inexistência desse amor
é a necessidade de negá-lo
0727. Shoppinganas III
Depois de um certo
tempo morre-se tudo
o amor, o ódio,
até a indiferença
Dessa morte sempre
nascem outras coisas
nascem às vezes
já mortas
São os partos
das possibilidades
sangue, dor, falta de ar:
mais um sentimento parido
0726. Shoppinganas II
é dessas armas de aço
dessa invisibilidade vítrea
dessas luzes azuis a refletir
no mármore frio da mesa
do silêncio de dividir
um sushi com o esposo
do último gole de cerveja
antes do filme
que há de brotar uma
nova poética?
será aí que mora o consolo
impronunciável da Arcádia?
0725. Shoppinganas I
esse papel em que escrevo
parece o papel higiênico
em que limpei a bunda
algumas vezes
longe da maciez que
percorre a maioria
dos cus neste recinto
em que me encontro
0724.
fugir da primeira pessoa
é por vezes preciso
fugir da única precisão
plausível, é o primeiro passo
de fato não há nada mais
preciso que a primeira
pessoa, por isso a fuga
0723.
Opções escusas
zoo serial killer
o maior brasileiro de todos os tempos
a descoberta de que a carne tem sentido
os carboidratos interferindo na dieta
esse aspecto londrino
que logo se torna torridamente tropical
aqui na Ceilândia…
Disso tudo, tento ficar com
o tudo e escolho a última opção.
0722. Como a mão é levada
o que conduz a mão
é o anseio de gravar
todo alumbramento
a mão é guiada por
este encanto do novo
olhar sobre o diário
uma perspectiva em
meio ao cotidiano,
uma vista do ponto
e a mão é levada
0721. Modos de existir
Imersos em pensamentos
em meio ao corpo estafado
por entre o suor da finda lida
todos só pensamentos
e neste ínterim se subverte
sensação e idéia
e o pensar ganha matéria
da feita que somos então
o que pensamos
e sem nenhuma pretensão
cartesiana, ninguém pode
alterar isso.
0720. Contemplações sobre o Plano
sobre estes traços leves que
percorro todas as feiras
repousa um algo que difere léguas
de minha morada
não fôssemos todos humanos
diria até que os
habitantes daqui
são só luz e movimento
e não a soma destes
com o barro que forma
eu e meus congêneres
são todos muito mais
macacos e muito menos adão
falta-lhes um quê de metáfora a mais
0719. Notas sobre a poesia perfeita II
se eu dissesse uma vez natureza
seria um poesia
se eu dissesse sete vezes transgênico
seria uma poesia
a poesia não está na aglomeração
a poesia se encontra na intenção
0718.
cuidava das minhas plantas
quando fez o baque seco
não era do maracatu
não era o pancadão do rap
a multidão fez-se logo
o corpo, só corpo, no chão
um fulano ajoelhado ao lado
cuidava da vida naquele
não fui ver o corpo
agora era só um
à revelia de que vermes
fossem agora viver
0717.
Quem se cala à poesia
cala-se à descoberta de um
redescobrimento
Em que a cada descrição
a cada metáfora
não se tem o próprio mundo
mas sim, sua recriação
0716. A semente da vitória
Limpava as unhas com os dentes
e jogava o cabelo para trás
com as costas das mãos
e era um algo tão assim sem rumo
que o mundo já estava ganho.
0715.
Adianto o trabalho dos
arqueólogos e desde já
resgato todo o material que vejo
Junto peças de plástico a panelas
de aço, colo partes de esqueleto
a monitores de computador
crio informações pretéritas
sobre o futuro e desta feita
prospecciono o presente.
0714. Genérico
Na carência de luz, escuridão
posto que o princípio ativo
não são os olhos, mas o coração
antes de tudo.
0713.
Houve um dia em que
não distinguia uma sibipiruna
de uma canafístula. Hoje
que as distingo, as desconheço
tanto mais.
0712.
Há tempos a copa dos eucaliptos
cobria o topo dos edifícios
Hoje só topos há
e toda copa, topo um dia há
de ser.
0711.
Lavei bem os meu cabelos
Até enrolei os rebeldes
Botei a camisa pra dentro
Usei cinto e limpei o tênis
(Só não deu tempo de fazer a barba)
Vim num passo meio apressado
Peguei até lotação
(Quase morri cinco vezes)
Tinha medo da chuva desarrumar meus cabelos
E deixá-los um tanto lisos
Quis ficar bonito hoje
Pra você
Juro que tentei…
Mas aí agora eu já estou amassado
E os cabelos são só um fuá
Já suei a camisa
Sujei o tênis
Fiqui como sempre sou
Aí só resta o regozijar:
Quis ficar bonito hoje
Pra você
Juro que tentei…
0710.
Você de batinha branca
E fachinha azul na cabeça
Parece uma rainha nagô
Mesmo sendo branquinha
E eu seu negão fico aqui
Do outro lado porque daqui
dá pra te ver melhor…
0709. Da menina azul
Era uma menina azul,
embora mulher róseo-alba fosse
Tinha ares de lagoa
Não sei porque cargas d’água,
mas como ela tinha ares de lagoa
Por vezes parecia mais um açude,
mas sempre retornava à lagoa
Um dia dormi ao seu lado
E nesse dia o quarto pareceu um
imenso aquário
e meu sonho foi azul
E por mais que corrêssemos
pela relva selvagem
ela continuava a ser uma menina azul
0708. Como o mar sela, eu também
um dia deitei no colo de Marcela e divaguei um pouco
ao longe o mar selava um encontro com a terra
as ondas eram como minhas divagações:
selavam muitas coisas em poucos instantes
(areia, sal, água…)
levantei-me do colo de Marcela e fui com(o) o mar
e ainda assim voltei diversas vezes, sutil
(sorriso, abraço, afago…)
0707. Verdades, e isto basta
das bolotas vermelhas na sua cabeça saem verdades indizíveis
e outras mais inaudíveis (nem eu as escutei!) que saem de outros lugares
mas o pudor de as dizer ou as escutar é maior que o bom senso de as deixar ser
só digo (e quase escuto) que ficam entremeadas na circunferência produzida
pela linha reta que vai do seu umbigo à sua boca
0706.
certa feita disseram que
seria uma questão toponímica
(questão não, problema…)
careceria de uma raiz de
algo intrínseco e único
não só esse nome à revelia
de um projeto.
só depois descobriu-se que
não era o nome que trazia
a coisa consigo, mas sim
a coisa que se fazia nome
e quando se viu isto
a cidade já estava viva
0705. Segredo
Se da fresta da cortina
O mundo surge por instantes
Por instantes surge o mundo
Como se saísse da fresta de uma cortina
0704. Depois do mundo
Depois do mundo o mundo não é mais o mesmo
Depois do mesmo o mundo não é mais o mundo
Depois do mundo o mesmo não é mais o mesmo
Depois do mesmo o mesmo não é mais o mundo
Mas, depois o Osmundo te explica o mesmo…
0703. sobre este estado interessante
um dia eu pensei:
num universo paralelo
até talvez seja meu também,
mas aí eu vi: é você
e fiquei imaginando:
será uma quentura na barriga
ou algo como um
formigamento frio nas entranhas
aí pensei que poderia ser
como um sentimento
mas aí pensei: deve ser mais
como um sentimento material,
uma sensação viva
e aí pensei mais uma vez:
deve ser maravilhoso poder dizer:
“tenho um sentimento vivo no meu ventre”
e maldisse minha condição de homem
0702.
há os flamboyants floridos
vermelhos e alaranjados
e mesmo não fixando nitrogênio
isso sim é bonito.
0701.
o instante da fuga
o marco do retorno
0700.
.têm horas em que penso ser louco, ao que eu abraçaria o mundo todo nestaS
0699.
e eu me sinto uma semente
que ao toque de uma gota se abre
lentamente, como broto a soerguer
do solo ao mundo
0698.
e eu que escrevo todas essas histórias
vejo que até do que já vivi, pouco vivi
e aí vejo-me mais corda a querer
lançar-se, como um ser humano
0697.
da feita que por vezes penso que
o mundo sempre foi o mesmo
ao que se não fosse pelos seres
humanos, aquele só seria e
não mundo mais
0696.
eu não sou contra o mundo, apenas o vivo por demais.
0695.
enquanto eu cuspia no prato em que comi, outra vomitava.
0694.
use a estatística
e faça uma pesquisa
com a grande maioria
aqui da periferia
e pergunte o que é UnB:
“sei lá acho que já ouvi falar”
“parece que é uma quebra
onde os play vão pra estudar”