2869.

murmurar o tempo
sob as costas banzeadas e bronzeadas de maresia e praia
enquanto um sax
passa a língua nos segundos e eu
miro os olhos estúpidos dos
turistas ávidos por uma lembrança
qualquer que seja:
colares, bajulaques, quinquilharias corporais,
noites de sexo nativo
duramente mola
pica, boceta, sola
percorridos os uivos do corpo
durante todo o dia
nisso que ocorreu ainda agora

2868. África

lá começou a diáspora humana
dias ásperos de se comer carniça
noites derradeiras de se domar o fogo
tardes ternas de se inventar linguagens
manhãs divinas de se dominar
duas patas, polegares e massa encefálica
madrugadas quentes de se criar o
amor frente a frente
olhos nos olhos
essa coisa sendo amorificada

algum cerrado africano

por isso que essa África,
que frita-me a mente,
fica-me comunhão com o mundo ânima sapiens sapiens

2850. Pô, só meio…

Naquele dia em que eu falhei
não foi falta de vontade
talvez justo seja o fato
do excesso na cabeça junto ao anseio
pela obrigação dos comprimidos
dias para a cumprir e medir

talvez também tenha estado
esse estado complacente
de querer-te as coxas todas
esses inteiros travesseiros
de panos lisos e linda estampa

também provável talvez foi a vontade
absurda de percorrer essas panturrilhas indescritíveis
críveis apenas porque as vejo e toco

falhei no ato mesmo,
mas dentro
– toque, pegada, todo desejo
que possa –
faz de mim assim,
quase só,
um meio brocha.

2846.

E eu realmente me preocupo com o mundo
com as coisas dadas
com a desigualdade de tudo
esses conceitos prévios introjetados
nas veias dos genes e dos símbolos

Me preocupo com a causa Palestina
e mesmo com toda peste
bayer-mão-santa assassina

Mas o lance que agora me toca
que me rebela bossa
é esse seu rebolado embalado
no concreto e no asfalto

Essa falta de chão que tira piso quando ao lado

Essa bala efusiva
calafriando pele e pelos
pelo todo de tua boca
lábios em carne e cerne
com contornos e adornos
num breve batom
(que logo tiro)

E tem esse tom de rubras unhas
ao me rasgar as costas
que me posta em pirar
que o mundo é uma bosta,
mas com você rola mesmo uma aposta:
ok, depois eu guerreio,
pausado primeiro meu sono
nas suas costas

2844. Ocaso

a luz do sol
se despedaça
no horizonte
vagarosamente

as nuvens-prisma
que dilatam e
deformam a linha
tênue entre o
céu e o mar
secionam o espaço
em violeta, gris,
dourado

as camadas de água
borradas no céu
passam rentes
estacionadas no sem-fim

nenhuma forma inteligível
tudo estrutura
de matéria
de luz

alguns galhos rasgam
o firme visto e
pássaros pintam
movimento

horizontesse

desconstruindo diariamente
estratos de luz
que se dissolvem e imiscuem
até o toque negro
anunciante de toda manhã:
noite

(Ilha de Tinharé, BA)

 

2842. Solto

E eu quero é torrar no sol
para que ao céu
minha cor contraste
e eu não me sinta tão traste
dada a sina que me condói os genes

Quero que me avermelhe a pele
como índio que me deenianiza-me

Como isso vindo das confluências do Xingu
e de um encontro hebreu e ébrio
na subida do Araguaia

Que do carajá que me encoraja
aja o ferro em troca
para o carvalho que baste
na selva-silva em que silva o sussurro
de uma cascavel constante,
essa kundalini étnica
que dança louca quando se lembra hereditária
do mar que a povoou um dia:

lusa ínsula guiada por constelações e ventos,
nau de degredo que me agrega:

isso quando eu-construção-histórica solto na praia

(Ilha de Boipeba, BA)

2841. Para um silêncio preciso

E eu sou tão solícito
apanho grãos,
gotículas miúdas,
carnes trêmulas mirantes
– apenas as passantes –
pela reta das retinas

Maneio o vento
que dá vida a toda cor viva
anteposta a toda cor humana
que é cor parada e estática

Quero a pausa promovida
pela emancipação da liberdade dos caminhos trilhados
as ilhas que promovem horizontes de benfazejos

Apenas o instante das pequenas ondas que
se encontram com os turbilhões dos rios,
esses fios no largo da terra

Quero fios para fazer colares
que lhe darei
e as cordas dos seus cabelos,
esses novelos negros com anel,
sem qualquer clã de Rapunzel

Apenas seu colo
e eu calo toda solicitude

2838. Santa Amplitude

a amplidão reflete a pausa do tempo
na transformação de nuvens:
o nascedouro desapegado de toda água doce
o silêncio pousado no espaço entre uma gota e outra

reflete o instante perfeito de todo o ego:
crianças vagando sem rumo pela praia

passa imperfeita
nuance de horizonte e ciclo interno
para as veias incandescentes da terra
essas que fazem brotar ilhas e montanhas
flores de rocha bruta que desenham paisagens

a amplidão reflete a si mesma
dentro da palma de qualquer mão