a obrigação poda a poesia
pois com ela nada
ia ou vinha
pois só ia e vinha
pois ia
toda vez que vinha
depois das 18:00 tudo se depôs
e nesse após, ia
agora que dê, pois vinha
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
a obrigação poda a poesia
pois com ela nada
ia ou vinha
pois só ia e vinha
pois ia
toda vez que vinha
depois das 18:00 tudo se depôs
e nesse após, ia
agora que dê, pois vinha
Karamazovs
Roskoffs
Engovs
Tudo o que cura, também fode
[E foda sempre pode]
eu disse: vinha
eu disse: tinha
no coração
tudo se apinha
destrava de si
pega nu
meu peito
e chora
murmurar o tempo
sob as costas banzeadas e bronzeadas de maresia e praia
enquanto um sax
passa a língua nos segundos e eu
miro os olhos estúpidos dos
turistas ávidos por uma lembrança
qualquer que seja:
colares, bajulaques, quinquilharias corporais,
noites de sexo nativo
duramente mola
pica, boceta, sola
percorridos os uivos do corpo
durante todo o dia
nisso que ocorreu ainda agora
lá começou a diáspora humana
dias ásperos de se comer carniça
noites derradeiras de se domar o fogo
tardes ternas de se inventar linguagens
manhãs divinas de se dominar
duas patas, polegares e massa encefálica
madrugadas quentes de se criar o
amor frente a frente
olhos nos olhos
essa coisa sendo amorificada
algum cerrado africano
por isso que essa África,
que frita-me a mente,
fica-me comunhão com o mundo ânima sapiens sapiens
É difícil cansar
de ver a mar
essa horizonte
mutante nada
diletante que
pousa o olho
no vasto instante
liquefeito
avante.
é a imperfeição
que aproxima
essa tecitura
divina incerta
é que rima
a mirada do gato
o preparo para
o assalto
o queijo
já que não há
mais interesse
pelo rato
para se
conectar
com o
horizonte
a ponte
é todo
onde
a igreja pasteurizada:
1845
alguém na moça
passa o pinto
e o saco
ao lado do
sacro recinto
animal humano não minto,
pode crer que assim é
desde sempre,
sinto
páginas:
partículas
paradas
de histórias
cantadas
em tinta
e papel
As flores são belezas despropositadas
e eu tento encontrar o nexo,
de que planta você saiu?
Quando eu
despenco,
meu dizer,
penso, não
é de quem
cai, mas
de quem
se joga.
a sabedoria de
bar é linda,
só precisava
haver mais
senhoras, com
suas inteligências
que sangram
elegante a dona
com seus longos
cabelos grisalhos
espera fechar o
semáforo com
seu guarda-chuva
de lado
– céu aberto –
quanta história
caberá em cada
passo seu dado?
rosa sempre roda
e é cada nota
recheada de memória
e eu coleto
seletivamente
o que
conecto
me mostra
bruta a
conduta
que eu pago
a paga dura
músculo teso
e envergadura
os contornos
dos frondos
da samambaia
pendurada
delineiam a
paisagem
enclausurada
na sala
Quando ele
viu que
boiava
em suas
lágrimas
e,
nesse mar,
parou.
Ali,
onde um
abismo líquido
se formou.
rio pólvora
polvilha pó
e apelos
por parte
de um povo
de pele
parda, preta,
que parca
de posse,
não pode
nem apelar
para outros
meios
as braquiárias não tem culpa
tão pouco os eucaliptos,
os fícus ou a soja
diante da luz refletida
nas gotas insistentes nas folhas,
toda culpa se torna apenas
herança maldita,
feita de laços absurdos
Naquele dia em que eu falhei
não foi falta de vontade
talvez justo seja o fato
do excesso na cabeça junto ao anseio
pela obrigação dos comprimidos
dias para a cumprir e medir
talvez também tenha estado
esse estado complacente
de querer-te as coxas todas
esses inteiros travesseiros
de panos lisos e linda estampa
também provável talvez foi a vontade
absurda de percorrer essas panturrilhas indescritíveis
críveis apenas porque as vejo e toco
falhei no ato mesmo,
mas dentro
– toque, pegada, todo desejo
que possa –
faz de mim assim,
quase só,
um meio brocha.
Quando se parte
a dor que arde
é de quem finca
ou de quem reparte?
tem um poder
tem esse sonho jê
dentro do que me é ser
é bem assim
é tipo um benin
bem aqui em mim
[O escritor Ariano Suassuna é seqüestrado pelas Forças Rebeldes, que pedem um resgate cultural para libertá-lo.]
Parte I
Parte II
E eu realmente me preocupo com o mundo
com as coisas dadas
com a desigualdade de tudo
esses conceitos prévios introjetados
nas veias dos genes e dos símbolos
Me preocupo com a causa Palestina
e mesmo com toda peste
bayer-mão-santa assassina
Mas o lance que agora me toca
que me rebela bossa
é esse seu rebolado embalado
no concreto e no asfalto
Essa falta de chão que tira piso quando ao lado
Essa bala efusiva
calafriando pele e pelos
pelo todo de tua boca
lábios em carne e cerne
com contornos e adornos
num breve batom
(que logo tiro)
E tem esse tom de rubras unhas
ao me rasgar as costas
que me posta em pirar
que o mundo é uma bosta,
mas com você rola mesmo uma aposta:
ok, depois eu guerreio,
pausado primeiro meu sono
nas suas costas
Essa mpb de boteco
tudo bem, pode ser só
do não vivido um eco
“mas eu sei que você sabe
que eu sei que você sabe”
que há só uma linha reta
daqui até aí,
já estou na sua…
mira?
a luz do sol
se despedaça
no horizonte
vagarosamente
as nuvens-prisma
que dilatam e
deformam a linha
tênue entre o
céu e o mar
secionam o espaço
em violeta, gris,
dourado
as camadas de água
borradas no céu
passam rentes
estacionadas no sem-fim
nenhuma forma inteligível
tudo estrutura
de matéria
de luz
alguns galhos rasgam
o firme visto e
pássaros pintam
movimento
horizontesse
desconstruindo diariamente
estratos de luz
que se dissolvem e imiscuem
até o toque negro
anunciante de toda manhã:
noite
(Ilha de Tinharé, BA)
Eu podia
dizer que é
feitiço,
mas só
penso em
você
e não é
nenhum
suplício.
E eu quero é torrar no sol
para que ao céu
minha cor contraste
e eu não me sinta tão traste
dada a sina que me condói os genes
Quero que me avermelhe a pele
como índio que me deenianiza-me
Como isso vindo das confluências do Xingu
e de um encontro hebreu e ébrio
na subida do Araguaia
Que do carajá que me encoraja
aja o ferro em troca
para o carvalho que baste
na selva-silva em que silva o sussurro
de uma cascavel constante,
essa kundalini étnica
que dança louca quando se lembra hereditária
do mar que a povoou um dia:
lusa ínsula guiada por constelações e ventos,
nau de degredo que me agrega:
isso quando eu-construção-histórica solto na praia
(Ilha de Boipeba, BA)
E eu sou tão solícito
apanho grãos,
gotículas miúdas,
carnes trêmulas mirantes
– apenas as passantes –
pela reta das retinas
Maneio o vento
que dá vida a toda cor viva
anteposta a toda cor humana
que é cor parada e estática
Quero a pausa promovida
pela emancipação da liberdade dos caminhos trilhados
as ilhas que promovem horizontes de benfazejos
Apenas o instante das pequenas ondas que
se encontram com os turbilhões dos rios,
esses fios no largo da terra
Quero fios para fazer colares
que lhe darei
e as cordas dos seus cabelos,
esses novelos negros com anel,
sem qualquer clã de Rapunzel
Apenas seu colo
e eu calo toda solicitude
daqui te miro,
essa distância:
…
mil suspiros…
em si o mar
o ar
quando
na praia
a amplidão reflete a pausa do tempo
na transformação de nuvens:
o nascedouro desapegado de toda água doce
o silêncio pousado no espaço entre uma gota e outra
reflete o instante perfeito de todo o ego:
crianças vagando sem rumo pela praia
passa imperfeita
nuance de horizonte e ciclo interno
para as veias incandescentes da terra
essas que fazem brotar ilhas e montanhas
flores de rocha bruta que desenham paisagens
a amplidão reflete a si mesma
dentro da palma de qualquer mão
Esse “sopro de
brisa leve”
que vem soul e eu:
sopra e sente
meu corpo,
no fundo,
é o vento
quem entende.
fonética
do risco
no papel
da caneta
sonora
poética
domarem
o firme
dom do ar
não basta
voar,
é preciso
pular.
domar
as ondas
do mar
não basta
nadar,
é preciso
navegar.
Sei lá de mim
aqui no na da
ilha do
sem fim:
só, nu, há, sim…
melhor que
ficar aqui só
na bubuia,
seria você
ter vindo junto
de mala e cuia
( ) A. O amor e seus pontos médios.
( ) B. O amargo do remédio para o tédio.
relaxa
és só uma
rês
não acha?
relaxa
conquanto
não racha
o risco que eu sigo
é que o signo
do teu ser
siga a sina
da tradução
dos filmes
da globo:
mesmo que eu entenda pouco, quase nada,
é melhor no original
reclusa calma
n’água
reusa a alma
infusa
em ondas que trazem e levam
minha proposta
é só paz posta
e aí? aposta?
Me enegra
eu tinga
e não nega
e às outras:
nem mira,
só erra.
com a sua permissão, rainha dos raios, mas eu preciso ver o mar, porque aqui vai desabarágua…
[o vídeo é freuds, mas a música é foda…]