vai ser um misto de ódio e amor
sorvete de creme com jurubeba
uma bateria de fuzis
e uma tolerância e condolência nas têmporas
mandando no pente o mundo às favas
Autor: Guilherme Carvalho
2778. Geografia da percepção
atrás tem algo
que não é pulga
é mais um carrapato
bem no lugar
em que uma estrela
endureceu e deu
Terra
pausa política: porque tem me dado angústia nos ovos
2777. Tá certo, tá certo…
“quando o som quebra-mar dessas ondas um dia vier me embalar
como o tempo em que calmas as tardes recebem seu negro lençol”
e o deslocamento líquido
como o céu percorrendo a superfície
feito ondas nas caixas do peito
acho a razão do espelho
imagens que rimam
pausa: porque cauby
uísque, 10º andar, postes lumiando o horizonte, aquela sensação estranha de que é, visão de futuro quando tinha 13 anos, saudade do que virá
2776. “Ou maldade das pior”
dessa matéria que é feito o amor
líquens
pulsares
massa disforme imaterial
vontade
chuva fina no concreto
desejo
mínimas partículas indivisíveis
crepúsculo
impulsos
soluços
invasão
suor
aromáticas ervas na panela
tardes inteiras
noites todas
falta
esquecimento
ódio
sorvete de creme
( )
22
depois das três
manhã
mandalas
borras, cartas, palmas, astros
mato
chão
2775. Um axioma do movimento
as vezes é necessário
alguns passos para trás
nem que seja só
para sair do lugar
2774.
se gentileza
gera gente lesa,
sou leso
por natureza
2773. Mote
Eu jogo
os dados
para que
meu dados
não sejam
assim doados.
Prefiro a paga da sorte.
2772.
De novo o diabo
do ovo ou da galinha
e a falta de rima
para ponderar sobre
o início e o infinito.
2771. E fim de papo
da feita que eu defeco
no afeto danificado,
deixo o dano de lado
e me afeto só com o afoito
fato confusamente
consumado com o ato
consumido no fim de papo
pausa: porque é itamar
“quando você menos espera…”
2770. Negra
Noite alta
melhor hora.
Alta,
melhor a
qualquer hora.
Falta
dentro para
todo agora.
Calma.
A pele da noite
pelo todo dos
pelos da alma.
Dentro-fora.
Noite alta
melhor hora.
2769. E eu via anos atrás o na frente.
Um dia a gente
entende e tende
a crer que, a partir
de então, está
valendo.
2768.
a concordância é uma dança
sem par, a cabeça balança.
o riso falso é uma queda de um
cadafalso,
quando se pensa o chão que ampara,
é a cara no asfalto.
2767. Cá há ais
em
quais
caberá
a
dor
liquefeita
em
que
vens
e
vais
?
2766. De algodão. Doce.
Suspenso o firmamento,
é firme o momento
de derreter junto às nuvens.
2765. grandes
bem no vão entre a saia
e a cadeira
fica ali meia coxa inteira
sem meia
trançadas as pernas
abaixo pneus
olhos de esgueira
deixam as minhas
cabeças sem eira nem beira
2764. Ah, cá… dê! Mia…
intelectuais inorgânicos
em suas ilações espirituais:
inumanos tão próprios
em suas fritações sentimentais
2763.
já me disseram que
meu problema é escutar
dar voz e dar razão
se esse é o xis
da questão
logo surdo e moco
então
2762. Novos evangelhos
Quem você acha que eu sou?
Conquanto mede o mesmo
a minha e a sua dor.
Se tanto somos nós,
pavor e torpor.
Quando se alinham nossos
estigmas em lapsos de amor.
Quem você acha que eu sou
senão você recolado numa
fresta do reflexo longínquo?
Sempre nós dessa corda
tesa que nos liga às impossibilidades
do intermédio
que vai de nós para laços.
2761. “Porque te amo, NÃO nascerás”
Ninguém nos deu a possibilidade de escolher
não querer viver numa cidade.
Ninguém nos deixou optar por não
ter energia elétrica.
Ninguém nos permitiu não compactuar
com o julgo da propriedade.
Ninguém deixou noites escuras
sem postes denunciadores
de vergonhas corruptoras de estrelas.
Ninguém permitiu que olhássemos
para os céus, esse momento-movimento
do universo, para que surgisse
um momento de criar deuses e
descobrir a fé numa candeia vermelha
ou numa metamórfica luz branca passante
pelo firmamento.
Nos deram um mundo já em palco e plateia.
2760. Anarquisteórico
Existe essa linha
que irradia uma
camada de rosa
para dois mundos.
É uma linha nunca
alcançável.
São pontos de luz
e trevas.
Existe sempre
uma névoa que
condói os olhos
e prisma os
raios de sol.
Existe esse mundo
de paz perpétua
entalhada nas
paisagens.
Horizonte.
2759.
olhar não olhando:
o modus operandi do flerte
olhar bem olhando:
as estratégias de ao hoje rolar
pausa: para re(s)pirar
“onde estará a rainha,
que a lucidez escondeu?”
2758. Próxima mega-sena
08-10-24-30-55-58
2757. Causa e efeito
Há quem diga que o verde salva o mundo,
como se o verde coisa maior que o verde fosse
ao que do verde mais verde que se pode haver
de dentro disso podre que diz verde
vômito moral que há
pronto a salvar o mundo com sua auto-salvação
mais verde ainda que esse mesmo.
Vomito verde esse azul que teima em me prostrar na estagnação de SÓ voar.
2756. Mas será o gênero dito?
É nessas que me calo:
quando falam do ovo
ou da galinha, nunca
lembram do galo.
2755. Quimera
que merda
quando a
utopia se
apodera
2754. Paráfrase (em)-Sá-ística III (Ideia Mix)
Eu não sou eu
sem seu outro
sou qualquer
coisa sem critério.
A luz da visão
do cego
sombra de mim
na caverna
do outro.
2753. Paráfrase (em)-Sá-ística II (Super-homem Mix)
Humano eu
sou animal outro
sou esse tanto
tão etéreo.
Um nó na
corda do superego
que ata a mim
junto ao outro.
2752. Paráfrase (em)-Sá-ística I (Peso leve Mix)
Eu só sou eu
e só outro
e ainda esse
tanto de minério.
Grade da jaula
de ferro
que prende a mim
e ao outro.
2751. Metrapalhadora
Minha arma
é zen:
diz e para.
2750. Deixa
um dia quem sabe,
algo te invade
não como no Iraque
mas como uma ocupação
de terras improdutivas
2749.
o lugar onde eu moro é genial:
se quiser comer sushi,
tem do lado
se quiser enterrar alguém,
tem do lado
se quiser emoldurar um quadro,
tem do lado
se quiser dar uma guinada no seu
futuro profissional,
tem uma enorme, imensa,
Igreja Universal
2748. Mato com hiena
monocórdios
da discórdia
em tom de
ignorância
travestidos
de esperança:
o horário
eleitoral
da ganância
2747.
mas a sorte
nesse mar
é ter você
que também
só quer boiar
2746. Etnografando botecos
observando bem,
conversas de
casais não são
nada democráticas,
tem sempre um
pólo alfa:
enquanto um
consternado,
o outro fala,
fala, fala…
2745.
cala um tanto,
schiii! com
Chico na ponta
do tímpano
não precisa
dizer mais nada
2744.
para
para
para
o discurso
diz: curso
e me aponta
pra eu
seguir
2743. Conselhos a mesas de bar
se foi por nada,
por que a raiva?
se foi por qualquer coisa,
pra que a dor?
se foi por amor,
como o ódio?
as pessoas pulam
mas ainda querem…
2742.
toda vez que me acomete
a questão da serventia
da poesia
me salva a máxima
da dúvida que me
põe na lama:
e pra que serve
mesmo a humanidade?
2741. Meta
2740. O Fio de Ariadne
vivo sempre entre
duas medidas:
o peso do nada
que faz tudo ser tal qual
e a leveza do tudo
que faz nada igual
2739. Poema bendito, lodoso e ateu
Disso que em mim
tão bem te é,
vaidade de reino,
filo, classe, ordem,
família, gênero e espécie.
Dessa infinita linguagem
de memes, genes,
falhas e superestruturas.
Disso que reflexo
especulo intuitivamente.
– Abre portas, sacer fare.
e os canteiros são teus
com procuração passada
em cartório:
a mim, nomear o mundo
com sementes.
2738. Guia
dez orquídeas
sortidas nos
meio-fios dos
seus sentidos
dez gerânios
gerados nos
pedaços dos
seus passos
e mais sete orquídeas
para não faltar cor pelo
caminho
2737. Você
esse nublado que dá
nesse sem ar que está
só sai quando chegar
2736. Na vida
porque passei noites
não quer dizer
que foram dias
2735.
Hilda
em riste
insiste
em si te
ter como
palavra
na língua
2734.
é quase uma
contemplação
platônica
essa tônica
platina de
cílios araucária
pelo largo
de um paraná
