2776. “Ou maldade das pior”

dessa matéria que é feito o amor
líquens
pulsares
massa disforme imaterial
vontade
chuva fina no concreto
desejo
mínimas partículas indivisíveis
crepúsculo
impulsos
soluços
invasão
suor
aromáticas ervas na panela
tardes inteiras
noites todas
falta
esquecimento
ódio
sorvete de creme
( )
22
depois das três
manhã
mandalas
borras, cartas, palmas, astros
mato

chão

2761. “Porque te amo, NÃO nascerás”

Ninguém nos deu a possibilidade de escolher
não querer viver numa cidade.
Ninguém nos deixou optar por não
ter energia elétrica.
Ninguém nos permitiu não compactuar
com o julgo da propriedade.
Ninguém deixou noites escuras
sem postes denunciadores
de vergonhas corruptoras de estrelas.
Ninguém permitiu que olhássemos
para os céus, esse momento-movimento
do universo, para que surgisse
um momento de criar deuses e
descobrir a fé numa candeia vermelha
ou numa metamórfica luz branca passante
pelo firmamento.
Nos deram um mundo já em palco e plateia.

De ^s encanto.

2757. Causa e efeito

Há quem diga que o verde salva o mundo,
como se o verde coisa maior que o verde fosse
ao que do verde mais verde que se pode haver
de dentro disso podre que diz verde
vômito moral que há
pronto a salvar o mundo com sua auto-salvação
mais verde ainda que esse mesmo.

Vomito verde esse azul que teima em me prostrar na estagnação de SÓ voar.

2739. Poema bendito, lodoso e ateu

Disso que em mim
tão bem te é,
vaidade de reino,
filo, classe, ordem,
família, gênero e espécie.
Dessa infinita linguagem
de memes, genes,
falhas e superestruturas.
Disso que reflexo
especulo intuitivamente.
– Abre portas, sacer fare.

e os canteiros são teus
com procuração passada
em cartório:
a mim, nomear o mundo
com sementes.