feliz seria o dia
em que lembraríamos
felizes, que o melhor era
quando a felicidade ficara
apenas na constatação da possibilidade das mentiras
e essas reticências no hoje…
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
feliz seria o dia
em que lembraríamos
felizes, que o melhor era
quando a felicidade ficara
apenas na constatação da possibilidade das mentiras
e essas reticências no hoje…
Não é somente uma conexão de espaços
uma coisa que se conecta aleatoriamente
com a força da coisa em si te guiando
Não é apenas espaço
É tempo
Conecta-se ao tempo
Como ter lições de filosofia cristã com Jorge Ben
Conecta-se a tempos e letras outras
Como se a viagem no tempo fosse possível a apenas
algumas letras
Diluído tudo
Diluindo o mundo
Imergindo o que resta dentro
de imagens
Conecta cultura
Faz com que a África possa ser de fato
Faz-se mouro
Ciganamente mouro
Bomba de Hidrogênio caseira, já pensou?
Conspiram a conexão
Decifra mesmo o mundo:
Dez cifras mesmo –
Homo conectivus
com a estatura e o porte do que cabe na cabeça de um ser possível
([h][a]pós-conectado)
e o sangue se perdeu
entre uma fresta da alma
e o projeto de Prometeu
disso eu sei bem
a carne sem o osso
não contém
quanto tempo temos
até que a intensidade
solidifique nossa alma
e comprima nossa tensão
deslizando sobre o pescoço
não o teso músculo,
mas o tesão que suprime
o tempo?
dizer essas coisas que nunca acontecem
agora mesmo não se diz nem sobre o amor
mais uma vez, dizer coisas que nunca
nunca
nunca acontecem
como o óbvio de duas bocas juntas
dizerem hálito a hálito
mas não agora mesmo
quando muito, ontem
Depois que deixei
o inconsciente
para o reino
da psicanálise e
deixei Freud dormir
seu sono eterno.
Foi aí que eu comecei
a sacar o que
não queriam dizer
os sonhos.
Essa linguagem
labiríntica quando
sua mente é arte.
eu quero mesmo
é a esperança
de binóculo
luneta
telescópio
e encontrar esse
lugar longe de longe
em que possa cultivar
meus amigos
meus gigas
minhas plantas
que aliviam a fome e a tensão
eu quero,
como quiseram antes,
colher e coser
o pouco que dê
para o tanto que baste
essa paz nas mãos
tanto tempo sem o blues
com esses semi-tons azuis
será que o dia de antes
há de vir em cantos sutis?
o problema das esquerdas
é o excesso de álcool
o problema das direitas
é o excesso de hóstia
o problema das extremas
é o excesso de ódio
o problema dos centros
é o excesso de imbróglio
meu problema
é a procrastinação
meu verso
meu anverso
reflexo que
é sinônimo
e antimeridiano
grama seca
no
solo grená
grave soco
num
seco gris
grava solo
o
sacro grão
sucessivamente
passada a intensidade
ninguém me entende
hay que endurecer
hay que perder la ternura
hay que tener amores perros
hay que cambiar el gusto
hay que probar el agrio
hay que olvidar las lágrimas y
hay que sacar de la piel
la sangre exacta hasta
el fin del amor, la caída
de las banderas blancas
y el levante de las rojas
Meus caros amigos
vamos trocar uma conversa afiada
andei observando melhor
e vi o mundo
numa carta maior
do que o mundo
enlatado pelas corporações
foi um tijolaço na moleira
melhor muito que o velho
plim-plim da pasmaceira
confie que é possível
se despregar da teia
da informação viúva-negra
Uma flor sem forma
mas feita de palavras,
ondas, elétrons
e da cor da saudade.
Essa meta-flor para
o seu dia.
Belém, PA.
À mana Janine.
Já ninei a questão:
essa outra metade
vem da sua sensação.
Belém, PA.
Ao mano Amintas.
A mim tá explicado:
metade do que penso
vem aí do seu lado.
Belém, PA.
há no entorno da
vontade, desejo
na periferia do
desejo, anseio
e no centro desse
anseio, pleno,
o edifício do que
quero: paredes
aprisionando a
não espontaneidade
Belém, PA.
Já que máquina não possuo…
Estruturas imensas
de água feita ao ar
ruas de rios canalizados
a se cruzar
ver o peso da leveza
pelo cais atracar
travessia carimbada
nesse caderno a notar
como se não fosse,
mesmo sendo,
aqui, em Belém pairar.
Belém, PA.
Posto que não tenho câmera,
cada rua tem
esses séculos todos
de espaço e tempo
coadunados a
sol e umidade:
embaúbas unem
os mundos plantadas
pelos acasos,
entre muros, paredes
e tetos seculares.
Belém, PA.
um papo mágico pela manhã
abre o caos para que tudo
caiba mais trans e menos ceder
pelo resto do dia
essas fagulhas de magia
apontam as fibras que tocam
imperceptíveis os olhos que
teimam em só ver
e nunca tocam a matéria
vibrante de manhãs em luz
Belém, PA.
adias
a
saída
sadias
saídas
para o
dia
que
adias
sai dia
entra dia
e
adias
a
saída
sem saída
essa
sua
saída
que
há dias…
Belém, PA.
Toda água quer ser mar
Todo mar anseia a terra
Toda terra sustenta a água
Como tudo se envolve
e se der, seja.
Belém, PA.
os traços são simples
cruzeiros em um retângulo
duas semanas
para se compreender
dois dias
para se percorrer
duas horas
em se perder
dois minutos
para se pertencer
dois segundos
piscar e ver
as janelas definem
pela dimensão dos
quadros que emolduram
o fora isso que se
sente de dentro
arma o arco o tenso músculo
carga de seta em cúmulo
farta plena do anseio último
essa flecha lançada ao espaço
cessa no cume do que há mais alto
dessa alma comprimida no asfalto
finca na meta do negro fosso
limpa com palha de aço o dorso
ímpia parte do propulsor corpo
voa com a força de um braço teso
loa de um canto em garganta preso
soa como um corte do ar suspenso
uma flecha no tempo comprimido
ruma às paralelas do infinito
pluma de um corpo da terra banido
|
A ponta norte um carnaval fluvial.
o
|
||
|
O lado oeste um faroeste florestal. |
Aqui um seco azul sensorial.
|
O ponto leste um batuque de sal. |
|
o
A porção sul um cinza subtropical. |
o espectro de
um espasmo
meu corpo
quando treme
rio acima
morro abaixo
Ela é turrona
e até no nome
é cheia de dedos
e nesse emaranhado
mora o meu desejo.
Nosso fogo
pegou tão bem,
nem precisa
de tanta coisa
pra essa nossa
chama zen.
Eu dispenso a visibilidade
Eu despenco da vaidade
Eu disparo na vitalidade
E me deparo com a veleidade
o primeiro é bem assim:
sem nexo
o segundo vem assado:
pouco sexo
no terceiro meu bem,
o gozo é certo
atrás do mar, morro
de frente à morte, mar
do espaço erguido, arroubo
a mata a matar
no machado, história
o ferro e o fogo, tombar
e eu queria mesmo
era a pedra e o cal
derrubar
e com caos e cacos
sem memória
erguer uma tribo
de animais em mata,
morro, mar
consenso o
senso de que
a matéria
não pode menos
que o ar
de integrar
a desintegração
do possível
que não há
o rochedo repousa
enquanto árvores
cochilam pousadas
em sua barriga
a idade do rochedo:
a terra do sustento
Iguape, SP.
passional
com
você
passo sem
o pessoal
Iguape, SP.
passional
sem
você
passo mal
Iguape, SP.
agora o sol surra
esse sol urra errado
e sussurra só luz
Iguape, SP.
O vento chega.
Seu momento na pele:
tato.
Iguape, SP.
A nuvem passa.
Seu instante no ar,
desagua.
Iguape, SP.
A música é a dança
do ar preparando o
coito da harmonia
dentro do peito.
Iguape, SP.