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Categoria: Poesia
2757. Causa e efeito
Há quem diga que o verde salva o mundo,
como se o verde coisa maior que o verde fosse
ao que do verde mais verde que se pode haver
de dentro disso podre que diz verde
vômito moral que há
pronto a salvar o mundo com sua auto-salvação
mais verde ainda que esse mesmo.
Vomito verde esse azul que teima em me prostrar na estagnação de SÓ voar.
2756. Mas será o gênero dito?
É nessas que me calo:
quando falam do ovo
ou da galinha, nunca
lembram do galo.
2755. Quimera
que merda
quando a
utopia se
apodera
2754. Paráfrase (em)-Sá-ística III (Ideia Mix)
Eu não sou eu
sem seu outro
sou qualquer
coisa sem critério.
A luz da visão
do cego
sombra de mim
na caverna
do outro.
2753. Paráfrase (em)-Sá-ística II (Super-homem Mix)
Humano eu
sou animal outro
sou esse tanto
tão etéreo.
Um nó na
corda do superego
que ata a mim
junto ao outro.
2752. Paráfrase (em)-Sá-ística I (Peso leve Mix)
Eu só sou eu
e só outro
e ainda esse
tanto de minério.
Grade da jaula
de ferro
que prende a mim
e ao outro.
2751. Metrapalhadora
Minha arma
é zen:
diz e para.
2750. Deixa
um dia quem sabe,
algo te invade
não como no Iraque
mas como uma ocupação
de terras improdutivas
2749.
o lugar onde eu moro é genial:
se quiser comer sushi,
tem do lado
se quiser enterrar alguém,
tem do lado
se quiser emoldurar um quadro,
tem do lado
se quiser dar uma guinada no seu
futuro profissional,
tem uma enorme, imensa,
Igreja Universal
2748. Mato com hiena
monocórdios
da discórdia
em tom de
ignorância
travestidos
de esperança:
o horário
eleitoral
da ganância
2747.
mas a sorte
nesse mar
é ter você
que também
só quer boiar
2746. Etnografando botecos
observando bem,
conversas de
casais não são
nada democráticas,
tem sempre um
pólo alfa:
enquanto um
consternado,
o outro fala,
fala, fala…
2745.
cala um tanto,
schiii! com
Chico na ponta
do tímpano
não precisa
dizer mais nada
2744.
para
para
para
o discurso
diz: curso
e me aponta
pra eu
seguir
2743. Conselhos a mesas de bar
se foi por nada,
por que a raiva?
se foi por qualquer coisa,
pra que a dor?
se foi por amor,
como o ódio?
as pessoas pulam
mas ainda querem…
2742.
toda vez que me acomete
a questão da serventia
da poesia
me salva a máxima
da dúvida que me
põe na lama:
e pra que serve
mesmo a humanidade?
2740. O Fio de Ariadne
vivo sempre entre
duas medidas:
o peso do nada
que faz tudo ser tal qual
e a leveza do tudo
que faz nada igual
2739. Poema bendito, lodoso e ateu
Disso que em mim
tão bem te é,
vaidade de reino,
filo, classe, ordem,
família, gênero e espécie.
Dessa infinita linguagem
de memes, genes,
falhas e superestruturas.
Disso que reflexo
especulo intuitivamente.
– Abre portas, sacer fare.
e os canteiros são teus
com procuração passada
em cartório:
a mim, nomear o mundo
com sementes.
2738. Guia
dez orquídeas
sortidas nos
meio-fios dos
seus sentidos
dez gerânios
gerados nos
pedaços dos
seus passos
e mais sete orquídeas
para não faltar cor pelo
caminho
2737. Você
esse nublado que dá
nesse sem ar que está
só sai quando chegar
2736. Na vida
porque passei noites
não quer dizer
que foram dias
2735.
Hilda
em riste
insiste
em si te
ter como
palavra
na língua
2734.
é quase uma
contemplação
platônica
essa tônica
platina de
cílios araucária
pelo largo
de um paraná
2731. científica ficção postética 5 (ou futurologia, uma ode ao tempo-espaço contemporâneo)
Não é somente uma conexão de espaços
uma coisa que se conecta aleatoriamente
com a força da coisa em si te guiando
Não é apenas espaço
É tempo
Conecta-se ao tempo
Como ter lições de filosofia cristã com Jorge Ben
Conecta-se a tempos e letras outras
Como se a viagem no tempo fosse possível a apenas
algumas letras
Diluído tudo
Diluindo o mundo
Imergindo o que resta dentro
de imagens
Conecta cultura
Faz com que a África possa ser de fato
Faz-se mouro
Ciganamente mouro
Bomba de Hidrogênio caseira, já pensou?
Conspiram a conexão
Decifra mesmo o mundo:
Dez cifras mesmo –
Homo conectivus
com a estatura e o porte do que cabe na cabeça de um ser possível
([h][a]pós-conectado)
2730.
e o sangue se perdeu
entre uma fresta da alma
e o projeto de Prometeu
2729. Multicelular
disso eu sei bem
a carne sem o osso
não contém
2728.
quanto tempo temos
até que a intensidade
solidifique nossa alma
e comprima nossa tensão
deslizando sobre o pescoço
não o teso músculo,
mas o tesão que suprime
o tempo?
2727.
dizer essas coisas que nunca acontecem
agora mesmo não se diz nem sobre o amor
mais uma vez, dizer coisas que nunca
nunca
nunca acontecem
como o óbvio de duas bocas juntas
dizerem hálito a hálito
mas não agora mesmo
quando muito, ontem
2725. Do banzo à bossa
Depois que deixei
o inconsciente
para o reino
da psicanálise e
deixei Freud dormir
seu sono eterno.
Foi aí que eu comecei
a sacar o que
não queriam dizer
os sonhos.
Essa linguagem
labiríntica quando
sua mente é arte.
2724. “Eu quero uma casa no campo”
eu quero mesmo
é a esperança
de binóculo
luneta
telescópio
e encontrar esse
lugar longe de longe
em que possa cultivar
meus amigos
meus gigas
minhas plantas
que aliviam a fome e a tensão
eu quero,
como quiseram antes,
colher e coser
o pouco que dê
para o tanto que baste
essa paz nas mãos
2723.
tanto tempo sem o blues
com esses semi-tons azuis
será que o dia de antes
há de vir em cantos sutis?
2722.
o problema das esquerdas
é o excesso de álcool
o problema das direitas
é o excesso de hóstia
o problema das extremas
é o excesso de ódio
o problema dos centros
é o excesso de imbróglio
meu problema
é a procrastinação
2721.
meu verso
meu anverso
reflexo que
é sinônimo
e antimeridiano
2720. No barro
grama seca
no
solo grená
grave soco
num
seco gris
grava solo
o
sacro grão
pausa: passeando por um passado próximo
2719.
sucessivamente
passada a intensidade
ninguém me entende
2718. El amor en plaza de guerra
hay que endurecer
hay que perder la ternura
hay que tener amores perros
hay que cambiar el gusto
hay que probar el agrio
hay que olvidar las lágrimas y
hay que sacar de la piel
la sangre exacta hasta
el fin del amor, la caída
de las banderas blancas
y el levante de las rojas
2716. O amor nos tempos da telemática
Uma flor sem forma
mas feita de palavras,
ondas, elétrons
e da cor da saudade.
Essa meta-flor para
o seu dia.
Belém, PA.
2715. É de sangue
À mana Janine.
Já ninei a questão:
essa outra metade
vem da sua sensação.
Belém, PA.
2714. É de sangue
Ao mano Amintas.
A mim tá explicado:
metade do que penso
vem aí do seu lado.
Belém, PA.
2713.
há no entorno da
vontade, desejo
na periferia do
desejo, anseio
e no centro desse
anseio, pleno,
o edifício do que
quero: paredes
aprisionando a
não espontaneidade
Belém, PA.
2712. Grafia de sentidos do visível II
Já que máquina não possuo…
Estruturas imensas
de água feita ao ar
ruas de rios canalizados
a se cruzar
ver o peso da leveza
pelo cais atracar
travessia carimbada
nesse caderno a notar
como se não fosse,
mesmo sendo,
aqui, em Belém pairar.
Belém, PA.
2711. Grafia de sentidos do visível I
Posto que não tenho câmera,
cada rua tem
esses séculos todos
de espaço e tempo
coadunados a
sol e umidade:
embaúbas unem
os mundos plantadas
pelos acasos,
entre muros, paredes
e tetos seculares.
Belém, PA.
2710. Peia
um papo mágico pela manhã
abre o caos para que tudo
caiba mais trans e menos ceder
pelo resto do dia
essas fagulhas de magia
apontam as fibras que tocam
imperceptíveis os olhos que
teimam em só ver
e nunca tocam a matéria
vibrante de manhãs em luz
Belém, PA.
2709. Para que se decida
adias
a
saída
sadias
saídas
para o
dia
que
adias
sai dia
entra dia
e
adias
a
saída
sem saída
essa
sua
saída
que
há dias…
Belém, PA.
2708.
Toda água quer ser mar
Todo mar anseia a terra
Toda terra sustenta a água
Como tudo se envolve
e se der, seja.
Belém, PA.
2707. Topofilias II
os traços são simples
cruzeiros em um retângulo
duas semanas
para se compreender
dois dias
para se percorrer
duas horas
em se perder
dois minutos
para se pertencer
dois segundos
piscar e ver
2706. Topofilias I
as janelas definem
pela dimensão dos
quadros que emolduram
o fora isso que se
sente de dentro
2701. E é a última
arma o arco o tenso músculo
carga de seta em cúmulo
farta plena do anseio último
essa flecha lançada ao espaço
cessa no cume do que há mais alto
dessa alma comprimida no asfalto
finca na meta do negro fosso
limpa com palha de aço o dorso
ímpia parte do propulsor corpo
voa com a força de um braço teso
loa de um canto em garganta preso
soa como um corte do ar suspenso
uma flecha no tempo comprimido
ruma às paralelas do infinito
pluma de um corpo da terra banido
