2757. Causa e efeito

Há quem diga que o verde salva o mundo,
como se o verde coisa maior que o verde fosse
ao que do verde mais verde que se pode haver
de dentro disso podre que diz verde
vômito moral que há
pronto a salvar o mundo com sua auto-salvação
mais verde ainda que esse mesmo.

Vomito verde esse azul que teima em me prostrar na estagnação de SÓ voar.

2739. Poema bendito, lodoso e ateu

Disso que em mim
tão bem te é,
vaidade de reino,
filo, classe, ordem,
família, gênero e espécie.
Dessa infinita linguagem
de memes, genes,
falhas e superestruturas.
Disso que reflexo
especulo intuitivamente.
– Abre portas, sacer fare.

e os canteiros são teus
com procuração passada
em cartório:
a mim, nomear o mundo
com sementes.

2731. científica ficção postética 5 (ou futurologia, uma ode ao tempo-espaço contemporâneo)

Não é somente uma conexão de espaços
uma coisa que se conecta aleatoriamente
com a força da coisa em si te guiando
Não é apenas espaço

É tempo

Conecta-se ao tempo
Como ter lições de filosofia cristã com Jorge Ben
Conecta-se a tempos e letras outras
Como se a viagem no tempo fosse possível a apenas
algumas letras

Diluído tudo

Diluindo o mundo
Imergindo o que resta dentro
de imagens

Conecta cultura
Faz com que a África possa ser de fato
Faz-se mouro
Ciganamente mouro

Bomba de Hidrogênio caseira, já pensou?

Conspiram a conexão
Decifra mesmo o mundo:
Dez cifras mesmo –
Homo conectivus
com a estatura e o porte do que cabe na cabeça de um ser possível

([h][a]pós-conectado)

2727.

dizer essas coisas que nunca acontecem
agora mesmo não se diz nem sobre o amor
mais uma vez, dizer coisas que nunca
nunca
nunca acontecem
como o óbvio de duas bocas juntas
dizerem hálito a hálito
mas não agora mesmo
quando muito, ontem

2722.

o problema das esquerdas
é o excesso de álcool

o problema das direitas
é o excesso de hóstia

o problema das extremas
é o excesso de ódio

o problema dos centros
é o excesso de imbróglio

meu problema
é a procrastinação

2710. Peia

um papo mágico pela manhã
abre o caos para que tudo
caiba mais trans e menos ceder
pelo resto do dia
essas fagulhas de magia
apontam as fibras que tocam
imperceptíveis os olhos que
teimam em só ver
e nunca tocam a matéria
vibrante de manhãs em luz

Belém, PA.

2701. E é a última

arma o arco o tenso músculo
carga de seta em cúmulo
farta plena do anseio último

essa flecha lançada ao espaço
cessa no cume do que há mais alto
dessa alma comprimida no asfalto

finca na meta do negro fosso
limpa com palha de aço o dorso
ímpia parte do propulsor corpo

voa com a força de um braço teso
loa de um canto em garganta preso
soa como um corte do ar suspenso

uma flecha no tempo comprimido
ruma às paralelas do infinito
pluma de um corpo da terra banido