3799. Tempo de dor

Desculpa-me, meu pai
mas é muito difícil
entender os seu sinais

meu peito nasceu na
ignorância
e continua a desaprender
e a cada lição
compreende menos

Falo de peito, meu pai,
porque a cabeça
funciona aos solavancos
e só vai, posto que não para

O peito não,
o peito para
e costuma querer parar
todo o resto
a todo instante

apenas por mania
de buscar não existir,
como naquele saudoso
tempo em que não existia,
o tempo de antes de mim

Perdoa-me, meu pai,
sem rancor,
mas o tempo
é de dor

3796. oráculo reciclável

dei pra ler o entulho
a disposição dos restos
o cascalho, a mamona, o monturo
o pneu criatório
o mato esgarçado
o escorpião, o casulo

na conjugação entrelaçada
o que principia, o que é,
o futuro

duas latas emborcadas
ao lado do concreto bruto
falava que nos fechamos
estagnadas para o fim contudo
e que a vida vazia seria
se não se acometesse o absurdo

intercedi e joguei as latas ao léu
uma em cima da lama
outra caiu num resto de muro
separação pouca
nada seria mais duro

mas foi no resto do guarda-chuva
apontado para a panela
que eu pude confirmar
nossa relação, já era
e minha alma ficou quieta
quando viu aquela flor amarela
me dizendo que outra
em sua vida já era certa

peguei o resto de papelão que achei
coloquei no meu carrinho
certa de que aquela noite
eu não voltava pra você

3792. melancolia

o vasto desterro
se anunciava

antes de ter forma
já variava entre
uma rua e um abismo

o vasto desterro
que se anunciava

em surdina constituído
enquanto sussurro
instituído conquanto
o urro não se desse
como enfim se deu

o vasto desterro era
só claridade
negrume sedento
cobrindo tudo
dentro do breu

o vasto desterro
que se deu

o vasto desterro
como conjugação
que não houvesse
entre meu e teu

o vasto desterro nosso
que se assucedeu

3788.

romper o fardo
da liberdade
dada como amor
e aprisionada

não pela culatra
mas tangenciado

 
à francesa colonial

                 nosso fim
                 a fórceps
                 fuga e l’amour

                 aquela propaganda enganosa
                 até que morreu o que tínhamos
                 antes que a nossa morte nos separasse

3782. morte cursiva

já quase não se acha
aquela forma longa
arredondada e curva
cada palavra
uma linha só
               emaranhada

talvez apenas com infantes
a aprender o abecedário
que por força da
tradição delas
curvilíneas
não vislumbram modo vário

cada palavra ainda
é uma longa lenta
união
de letras fazendo sons
em significação

depois caos se acomete
e acontece o que acontece
enquadra-se em quadrados
e se ajusta às novas normas
outras formas

cada letra se desune
e de prever o aglutinado
é que se dá a soma

               o que resta é só
               letra de fôrma

3777. noite de caçada

no fim da tarde ocorre a marcha
a mata zune a luz que finda
no meio o silêncio se farta
o vento pausa enquanto vinha
mortalha negra encobre a escarpa
e do outro lado se faz dia

do breu profundo do nascente
um pio retumba, há companhia
e a vida vem numa crescente
mostrar que a noite desafia
ao voo a presa indiferente
à asa, à garra, morta ia

a cor da noite então destoa
um veio rubro o chão perfila
a flecha tesa ao peito soa
vibrando o ar que enfim movia
e leva a caça na garoa
à mesa parca da família

3774. lá fora

é sempre lá fora

lá fora tudo acontece

o mundo arde
bolas verdes cortam os céus
balas douradas voam em frente a portões
pessoas transam com pedras
bombas expelem ares venenosos
malu vieira termina seu romance
uniformes negros cacetam negros
descobre-se cientificamente porque rimos
mutilam mais um bem-estar em coma
publica-se mais um livro de vampiros

lá fora

 
lá fora

linfoma nos dedos

de tanto escorregá-los
não há mais tato

mas é tudo lá fora

só lá fora

repetia uma geração inteira
                                                sem mãos

3769.

abaixo do meu crânio mora um pântano
aprisiona-me movediço, de dentro pra fora
rendo-me fácil a ele,
alagadiço, brejeiro, não deixa que eu me veja por dentro.
abaixo do meu crânio mora um pântano que
lameia a cabeça e escorrega pelo tronco, viscoso.
à terra, ao pó, ao solo do meu corpo
junta-se a minha umidade de trovões e raios
e raízes expostas
e tudo vai se afundando internamente
só sobra o lodo
a lama, o pântano
aqui dentro.
abaixo da minha pele mora um pântano
que quer ser minha alma
rendo-me fácil demais a ele,
afundo-me, adentro,
no que me afunda em mim,
ele quer me decompor.
abaixo do meu espírito mora um pântano que
quer afundar
sou frágil, imóvel, deixo que me afogue
todas as noites dos dias e todos os dias
enquanto a vida escorre.
emudeço: só vejo as águas turvas
sem febres, sem faces.
esse pântano me habita, sou seu bioma
há coisas vivas que o atravessam
e esbarram em minha pele, não saem
nem ficam
e vivemos assim
pesados, densos
matéria em suspensão.
e é isso o tanto que se precisa
para um homem ter o aspecto mofado
de quem cultiva
um pântano dentro de si,
e você, o que te habita?

3764. Amarelo

Na gênese não se vislumbra início
não se chega a tocar aquela matéria quando se criou
era uma mistura de charme, curiosidade, tristeza
solidão

Volta-se várias vezes atrás
labirintos de tempo e ideias ideais
era um filme?
foi um filme?
quem dirigiu?

O projetor interno não para
rebobina a fita alugada
havia uma fala de uma atriz
vinha de um livro
capa azul dura, folhas finas
quase de seda
falava sobre se deixar
desistir de se achar
entrou dentro
repetiu-se no diálogo da atriz

Existiu atriz?

Volta-se mais uma vez
era a música
a vida do músico
a vida da música
algo não encaixava na vida
a melodia aflitiva
truncava as vias da razão

Parecia até que havia vida
Houve, parece
O presente vem assolando
e se descobre que é só nele que se vive
ainda que exista outro
universo, em paralaxe,
dentro do crânio
alcançando espinha e nervos
A boca dá espasmos involuntários
O olho treme

Está tudo bem
a solidão colide
com a visão dos pássaros atravessando
os vãos dos fios

Tudo só parece
nada se parece com o filme que roda dentro

Abandonos, abandonos
A vida humana é só uma experiência divina sobre a liberdade

Um baque no asfalto
esse projeto falhou

Parece que os créditos sobem
sem som
(ao longe alguém chora)