Obter algo ativo
Obliterar o restritivo
E só
obtenho o aflitivo
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
Obter algo ativo
Obliterar o restritivo
E só
obtenho o aflitivo
Ela nem é de LCD
quiçá de LSD
Mas dos vícios
o mais difícil
é se livrar do diabo da TV
Nesse instante
falta tudo,
num rompante
nem falta
A lágrima carrega
o estranho do absurdo
Falta algo dissonante
que me leve a soar
tudo como antes
Você diz correr
do que vou discorrer
só porque só
me ocorre
dizer você
Neurótico
uso
Narcóticos
como
Antibióticos
e
Metódico
Ela me corteja
não sei se quer
a mim
ou mais duas
cervejas
Compro, vendo, troco e retifico corações.
(No mercado negro dessas ações
a procura anda alta por emoções,
nem imagina a quantas andam as cotações…)
Procura-se alma-gêmea
que na hora h gema,
de preferência fêmea
Ofereço minha força de trabalho
Experiência profissional:
ler a sorte no tarô e no baralho
Competências e habilidades:
macarrão com óleo e alho
Pretensão salarial:
um que não me seja malho
Perdido o juízo
já um tanto carcomido
Favor devolver
a coração aflito
Vende-se um trator
apto a destruir amor
e enterrar a dor
(Meio gasto pelo tempo)
Vende-se uma alma penada
do meu corpo desocupada
Aceita-se troca, até por reciclada
Procura-se um companheiro
casado ou solteiro
para um pequeno passeio
à sombra dos arvoredos
Procura-se um ombro amigo
de preferência bem dorido
para compartilhar umbigos
Procura-se a felicidade
qualquer estado ou idade
para atravessar a opacidade
Procura-se moça solteira
sem eira nem beira
para dividir baboseiras
a chuva desce sorrateira
molha minha roupa já quase seca
faz lama na frente da varanda
trás um morno abafamento ao ar
faz zuada no telhado
atrapalha a Mônica Salmaso
vem botando esse cheiro de molhado
nas entranhas
produz padrões entre a luz e a noite
molha o que tiver pela frente
me olha
a chuva desce com tudo
você ta é louco
eu quero é a suavidade
sorrateiramente
tocando meus pés
e subindo até à cabeça
to fora desse lance
de loucura, sensação
deixa estar que o
mais sensato é
lacrimejar livremente
O problema não é a falta de perspectiva em si
a questão mesmo é não conseguir sentir direito
qualquer coisa
Dois minutos é o tempo máximo de concentração
E a música boa se desfaz num segundo
As doses fariam mais sentido se pudessem vir com seguro de vida
E essa Dolores
é dose…
Porque eu ainda me derreto?
Já vi todas as pistas nos seus olhos puxados
que me olham miúdo e se abrem ao mundo
Vi as possibilidades ali estampadas
e sempre o comodismo de outra situação
Vi que o desejo sempre foi apregoado
à cruz fincada na moeda da troca
ao que lhe desse mais para os cálculos do ego
E eu ainda me derreto.
Esqueço até da minha face de merda
e dos meus cantos com discos furados e empoeirados
Tentando rebolar ali pra você
como se no close entre as luzes da festa
pudesse submergir algum rasgo de vontade
e o embate enfim houvesse
E mesmo assim, nesse frio, eu me derreto inteiro!
só agora eu entendo claramente
que esse nosso jeito esquisito
de se gostar partindo a todo instante
foi dos versos o mais instigante
pois toda vez que um ia embora
deixava pegadas propositadas
e alguns pedaços de nós pelo caminho
era só manter o olho bem aberto
que se avistaria facilmente tudo
até o novo velho encontro
o problema é que teu corpo me provoca
ondas saem de ti e me atacam
como se você tivesse um mecanismo
magnético que me conduz a te querer
a questão é que mesmo sempre te desejando
você me deu um prazo parco
para continuar te contemplando
alguns dias
até que você possa ligar seu mecanismo
para quem quer que seja
a gente só quer
quer tudo o que se possa querer
a bandeira branca hasteada
o rufar dos tambores
o cair das cortinas
as coisas mais bizarras e paradoxais
a gente só quer o mundo
e o mundo sempre corre da gente
A mão está vazia
nenhuma carta que dê sentido
à aposta
Coloco todas as fichas na mesa
para poder ir embora
Com toda certeza
meus olhos me entregam
o que se pode esperar é um abismo
alto que dê pra pular e ver a queda
atravessar nuvens com o corpo como projétil
cravar seu corpo no chão
desafiar as consequências do ato
é necessário um abismo muito alto
que não dê pra ver o fim
o que resta é a falta de ânimo pra se jogar
Deus, me dê animo!
ainda te amo, sabia?
só que a imagem
daqueles dias de apatia
inércia e letargia
se apoderam de forma tal
que o que eu posso fazer
e te amar ainda
aqui dentro
sem outro intento
serão dias difíceis
viver no sertão
pra ser tão e tanto
quando se pensa
que é
o problema é
se depois de ido
se vê que o que é
era o que
não devia ter sido
Descolem a caixa de cerveja gelada
ponham a pinga mineira à mesa
pro churrasco, só carne de primeira
vinagrete, farofa e arroz branco
arrumem o surdo, o pandeiro e o cavaco
levem amigas, amigas e amigos
de preferência mais amigas
levem, enfim, todos que estiverem desiludidos
e até mesmo os bobos coloridos
mesmo os que acreditam na humanidade
se quiserem, podem levar até padre
O dia pode ser qualquer um
agora, não pode ter tempo ruim
dor de cabeça, quebradeira
se a grana faltar eu pago o cartão mês que vem
ou ano que vem, sei lá o que que tem?
O banco já me rouba todo mês
pessoas te roubam idéias todos os dias
amores roubam seu coração a cada meia hora
idiotas roubam sua alegria em cada esquina
Tá combinado então, vamos comemorar
o início da vida com esse fim
e o fim da ilusão!
Preparem-se, pois o sangue está nas pupilas
pulsando como um raivoso cão
Bebamos, pois, em consternação!
contar um dois seis
cortar os nós outra vez
coser outros talvez
colher os louros, buquês
Domar até que se tenha o controle da situação, sem porquês.
ao cabo de tudo
ainda acabo entulho
a caber num túmulo
não existem mais fósforos possíveis
ou fagulhas para a ignição
nada mais possui intento que basta
para que as coisas queimem
nada arde
tudo é só isso que fica
longe alhures de sinais de fumaça
nada mais abrasa
vida sem graça
sem nem nada
antes nada fosse
que aí o marasmo
podia ser água
onde a gente nada
ets poderiam aparecer
almas penadas
sacis pererês
só pra emoção se abater
só pra ter coisa a se dizer
que fosse além de nada se ter
quase ao mesmo tempo
cinco telejornais passam
contam todos o mesmo fato
como se de seis bilhões de pessoas
só restasse isso como pauta
e em um minuto de nota
para saber mais
acesse minhas bolas ponto com
barra notícias de merda
um ponto de exclamação é tão bonito: !
reticências são viciantes…
vírgulas são necessárias, mas pouco utilizadas
e pontos finais são muito difíceis
Não é simplesmente a loucura, um estado de graça.
Não é simplesmente a loucura um estado de graça.
Não é simplesmente a loucura um estado de graça?
Quem disse tamanha asneira? Onde estava esse com a cabeça? A loucura é, pois, um estado de graça. Ela vem se apoderando de tudo o que pode, como num arrebatamento inevitável.
Essa é a loucura. Um estado de graça. Um estado e de graça. Uma graça que te pega pelo pé e pela mão. Faz cócegas no nariz quando não é pertinente. É graça. É loucura.
O mundo tem essa voz, esse som que te rememora o projeto traçado quando ainda com doze anos, logo após a primeira comunhão. Pouco depois do batismo cristão quisto e não sentido. Queria ter sentido Deus naquele momento, mas não consegui. Molhei as têmporas, comi seu corpo consubstanciado em trigo, ajoelhei-me e tentei. Juro que tentei. Foi ali, naquele momento de desengano, naquele ínterim de decepção que o mundo passou a ter essa voz e que lançou ao ar esse anseio pela liberdade de poder nada sentir e conseguir ainda sentir tudo em lapsos automáticos de dor e torpor.
Sempre cansado, esse sou eu. Sempre fatigado. É um fastio que leva os pés à busca do exílio. A expectativa eterna de um quadro composta pela meia luz fraca de um abajur, o gosto da certeza de que não se fez o possível, um cigarro aceso e um cinzeiro cheio de guimbas, aquela dose de uísque sem culpa, duas pedras de gelo, um apartamento alto numa cidade em turbilhão plenamente numa noite de quarta-feira que invade a varanda e compete incisivamente com a meia-luz do abajur. Ali no quadro, que mais é filme do que quadro, eu. Perdido entre tudo, mas sabido ainda. Com meus mais de vinte e poucos anos, vários amores às costas e a certeza de os ter perdido entre uma olhada e outra para o lado. Sabedor de que tudo foi vivido e deixado onde se faz sentido: dentro de mim, em mim, eu mesmo.
“Não sou eu quem vai ficar no porto chorando”. Inteiramente cônscio da missão cumprida. Só. Como mesmo no ventre se está. Como mesmo quem carrega o ventre cheio é. Finalmente sem paranóias. Finalmente sem a preocupação de quem vou afetar. Finalmente só afetando a mim. Com essa voz dando o tom. Decepcionado com a falta de Deus. Sem forças para buscá-lo. Mas vivo.
deixar o mundo entrar por instantes
carregado de partículas de poeira e memórias
permitir um pouco que o frio percorra a espinha e se instale nos pêlos
a vida sempre ocorre fora do que se pensa que ela é
a vida sempre pulsa lá fora
e é necessário deixar o lá fora entrar e se assentar minuto que seja
com a cara do mundo
que é sempre esse amontoado de arquétipos empoeirados já postos dentro de sua cabeça
não sei se sei seu nome
pesquei um pouco quando disse
também pudera
o papo estava tão bom
que até tucunarés se avistavam abaixo de meus pés
davam pulos no ar
foi bem quando você falou sobre o estado do ser
pensei Goiás
você disse insustentável
quando acordei você já dizia o mesmo a alguém
e agora não sei nem se você existiu mesmo
com ou sem nome que lhe caiba
em algum momento ou lugar
perdi a consternação e o brilho nos olhos
o sorriso não maculado
a fé e o apego ao ato fortuito de
vislumbrar o mundo como algo possível
de se estar e ser rodeado do que possa
ser chamado por bom ou belo
essa coisa de se pegar olhando o que
é apenas sutil ou simples
como o azul imponente do céu
pelas frestas dos galhos já secos das barrigudas
como falar com deus por letras
poucas, mas quistas e leves
como desvendar nuvens e estrelas
como saber qual face a lua mostra
como ainda encontrar ternura
num rebolado que passa solícito
queria a beleza novamente
o encantamento fácil pelo mundo
a descoberta que trouxesse vontade
essas coisas que ficaram perdidas
entre um olhar blasé qualquer
e o desenredo de um romance
que fica pálido e com parágrafos
imensos e monótonos
e que insisto em chamar de vida
isso que se consumiu no momento
em que o estado de graça
foi asfixiado pelas mãos brutas da
necessidade de se manter vivo
mesmo sabendo que necessidade apenas
não mantém nada vivo
apenas possibilita à carne fluir sangue
em algum momento ou lugar
deixei não o que fazia a vida
ter sentido, mas sim,
o que me fazia sentir a vida
o que se acende
pela manhã e
tenta te conectar
ao mundo
o prazer depois
do prazer,
esse mesmo pós-coito
o que te anuncia
a liberdade de
escolher continuar
sua vida rumo à morte
como todos,
fumantes ou
não-fumantes
aquele que passa
desapercebido diante
de um memorando e um ofício
aquele que não se
suporta depois de
uma carteira e meia
tem mesmo um que
ajuda nas funções
intestinais
existe esse que é
sinônimo de
um cafezinho e boa prosa
tem o que alivia
a garganta depois
de uma boa dose
de aguardente
o que te aprisiona
num leito de hospital
o que te deixa
um oitavo mais leve
durante ou após
uma contenda
tem esse que preenche
com fumaça qualquer
momento vazio
existem vários tipos
de cigarro
mas, depois de
tanta Souza Cruz
percebe-se que
nenhum cigarro é
um Cruz e Souza,
acaba a poesia
e esse agora,
o último,
fica sendo o melhor
lento
denso
tenso
tudo
indo com o vento
no vulto
do que penso
antes de ser
palavra
percorre em
sentimento
uma preposição
parada
num neurônio
em movimento
sendo carregada
talvez mesmo
só uma pala
Tua pele de seda
que brilha preta
num avesso de estrela
num contorno de estrela
e que enseja
a mão nela
em cima de veias
que pulsam um
sangue de realeza
vermelho.
Preciso costurar um poema
pois versos soltos em retalhos
de neurose foram postos
sobre a mesa
Tem um dia azul cinza
tornado transtornado a
cair feito viscose
Tem a cor da dor de tudo
em dó em tiras de cetim
O motor da saudade
censurada num corte de brim
Meu dolo no consolo pouco
do si estampado em seda chinesa
A lonjura que apura
o Campari em algodão cru
Tactel carcomido como um
corpo dolorido e não dormido
Há o espaço da vontade
que invade sem poder cortado
numa peça de linho
Pego tudo, junto um pouco
crio um padrão mínimo
costuro um tanto e pronto
está feito um abrigo contra o frio
Elas teimam
insistem
que em si têm
mais do que se
imagina
Que vão longe
além da meta
Que são meta,
para e pós
Mas são palavras,
facas,
sulcando pela
razão a alma
numa torrente
de sangue
uma paz basta
agressiva
ou mesmo sem graça
qualquer coisa que
seja,
mesmo breve,
quem dera leve
num algo que
não fosse possível
pensar
e que sentimentos
fossem apenas
notas sensoriais
sem nenhum ai
só paz
sete palmos talvez
cinzas ao mar quiçá
mas seria paz
derradeira
passageira
paz
o rio leva muito
coisa fina
matéria grossa
se a vida é um rio
que fossa…
só queria um sussurro
tipo
“Rue De Mes Souvenirs”
no ouvido
o som descendo até o pescoço
trançando as pernas cúmplices
trocando os sentidos, simples
algo que fosse inteligível
só a dois
como dois e dois sempre são dois
sussurro
ao pé do ouvido:
“Errant dans les rues de mes souvenirs”
mas vozes andam longe…
Depois de findo
o vinho há de vir
com um devir
posto no gole:
cem de mim vagam
em cada esquina
mil melhores
se avizinham
e eu, minguo.