Qualquer dia eu
me esbarro com
você outra vez
e entre esse,
outro e o que
sou, talvez eu
fique com os
três. Aí um
carnaval há de
vir mais uma
e outra vez.
1542.
A gente não sobrou,
ficou um resto de
resto espalhado por
nossas entranhas,
mas você regurgitou,
ficou um quê entalado
e você enfiou o
dedo na goela
Eu só posso respeitar
e esperar que um
dia eu consiga
vomitar
1541. Cartesiano
Vou te guardar longe
onde eu não posso chegar
vou te guardar em carinho
onde eu não chego não
vou te colocar dentro
do meu coração
Hei de passar a chave
pra você não fugir
coloco um cinto de castidade
no meu peito aqui
Ah, quantos remendos
eu farei pra não deixar
você se esvair
por essa rachadura
que vejo daqui
1540.
Se eu decantasse
tudo que eu já
escrevi seria um
misto de sal
e açúcar que quando
diluído em água
daria uma solução
tão amarga que
não haveria outra
solução, só
desistir de
tudo então.
1539.
O mundo deveria
ser preto-e-branco
como nos filmes
antigos, assim
a dor doía mais
bonito e não
haveria diferença
entre sangue e
vinho.
1538.
Segunda é de ninguém
cerveja sozinho
cigarro sumindo
eu sozinho e sumindo,
segunda é zen.
1537.
Será que há
algo errado
quando solidão
vira esperança?
1536. Balada estilhaçada
Eu sigo a fumaça do cigarro
Ela se dispersa no alto
Meus planos todos em cacos
Ideais esfumaçados
Meu copo caiu e ficou como tudo
O futuro num passo pode
Ser o que vai vir ou apenas
Um retorno ao absurdo
É só escolher
ou perecer
é só viver.
1535. Deixa a dor.
Deixa ela se abater
de vez. Deixa ela
se assentar. Tomar
corpo. Deixa ela sangrar.
Deixa o incômodo
mesmo. Deixa assim.
Deixa que a forma
não demora. Deixa ela
ser uma fôrma. Deixa
ela me matar. “Deixa
assim, como está,
sereno”.
1534.
Brasília no fim do
ano deve ser a cidade
mais cinza do mundo
Soma-se o peso
do concreto e do
mármore às nuvens
cor de chumbo
e tudo fica assim
melancolicamente
carregado dos tons
do absurdo
1533.
Olhe pra mim
diga quem é
eu sou eu
sou você pro
que der e vier
Olhe pra mim
diga o que quer
pra onde vai
e o que convém
Eu vim daí
quero o quer
quer também?
1532.
Meu Deus, não sei
se pra você, mas
agradeço por ser
eu.
1531. Novas perrengues do cotidiano
Deixa eu te dizer
o que eu penso
pra pensar depois
Deixa eu te mostrar
como tudo foi tão
feijão com arroz
Deixa eu te contar
como ele apareceu
Deixa estar e não
diga ainda que tudo
já morreu
Deixa a poeira assentar
pra eu te dizer assim
Deixa, que por isso,
o amor não chegou
ao fim
Mas se não quiser
deixar, deixa que
eu me viro sem
Fico com o baião
de dois, sem sentido
mas fico bem
Deixa essa pose de
lado que eu sei o
que você sente
Deixa de papo furado
que eu sei que você
mente
Deixa eu com você
mais uma vez
Deixa que nem rola
mais um nós três
Deixa essa raiva
de lado que uma
úlcera vai vir
Deixa que eu não
quero mais ver
você se ir
1530.
me diz dia
eu digo noite
me diz afago
eu digo açoite
me diz outro
eu digo você
me diz amor
e eu me calo
1529.
vamos compor uma
música, você sussurra
os graves, eu proponho
uma melodia,
você conduz a levada
eu faço do meu
coração bateria
1528.
me emaranhar em
tuas luzes, tocar
o vento com as
mãos, beijar as
pétalas da lua,
afagar o sol
em seu verão
manear o tempo
ao teu redor
para que seja
uma estação tua
pegar as folhas
secas com os pés
e fazer delas uma
atadura pra colar
teu sorriso
no infinito
do meu pescoço
1527.
Um dia eu te
encontro no momento
certo, no momento
propício, quando você
estiver pra se jogar
de um precipício
Nesse dia eu vou
te dizer as coisas
mais lindas e
te dar uma força
pra se jogar de
uma vez por todas.
1526.
Nessas horas a gente
pára, olha ao redor,
respira fundo:
o sol brilha ainda
seu último suspiro
Nessas horas a gente
respira luz
1525.
Ai minhas bolas
de toca em Teresina,
será que é pecado
querer ser pedagogo
e bukowskianamente
paulofreiriano, tentar
despertar nessas
criaturinhas o
desengano por tudo?
1524.
Pra você eu vou
dizer: “merda, caralho,
puta-que-pariu, que
bosta, você me deixou
na fossa…”
E o pior é saber
que disso você gosta.
1523.
Certamente eu te
queria como todo
homem quer,
mas você entendeu
tudo errado
viu além
Talvez, se você tivesse
desejado só o meu
corpo, fica tudo
bem, ficava tudo
zen
1522. Plástico e palavras
Existem pessoas bonitas
muito feias,
que deixam qualquer
feiúra como metonímia
Essas parecem com tudo,
menos com si mesmas.
Prefiro as pessoas
feias mesmo, essas
que parecem com o
que elas são.
1521.
Chamaram-na de
vaselina
e ela ficou ofendida
vaselina é um
palavra linda,
por pouco (uma letra)
não é vaselinda.
Por isso que eu disse
à moça: “liga não,
a vaselina ajuda na
penetração e,
as vezes, fica até
mais gostoso”.
1520.
Eu procuro uma
mentira nobre por
entre esse céu azul,
pois que de verdades
já me fastiei
Chega desse papo
furado de abade
de igreja e sublimação
de tudo.
Eu quero a mentira,
cada vez mais
perfeita.
1519.
dia do ser tão
grande assim
dia do ser tão
ver grandeza
dia do ser mulher
assim
dia de ser
Diadorim
grande ser tão
verdejante
grande ser tão
ver beleza
dia do grande ser
então ver
e das veredas
dia assim
de ser Diadorim
1518.
Deixa eu me levar
pra lá?
Macio, molhado,
melhor que o ar
Deixa que é lá
que minha boca
vai te beijar
1517.
Há mar e tá dito:
Há mar e tá.
1516. Genecídio
cometê-lo-ei
sem comer
ninguém
1515.
Eu fiz
do estandarte
uma coberta
da coberta
uma meretriz
e nela risquei
com giz
fiz novamente
um estandarte
do estandarte
fiz um giz
e me cobrindo
com a meretriz
risquei-me com
giz essas palavras
que eu fiz
fiz vil
talvez vis!
Guilherme Carvalho e Nella Bueno
1514.
Me abusa
abdus-me
Me usa,
me abusa
bêbado
besta
ao teu
bel prazer,
me lambuza
do teu
ser
1513.
Deixa eu te levar
pro reino da
alegria
Deixa eu te colocar
em cores numa
alegoria
Deixa eu nos
teus lábios,
deixaria…?
1512.
escrevo
qual escravo
desse algo
que és
cravo o
que escrevo
com rosas
e cravos
pra que sejas
o que és,
e cravo
1511.
uma narrativa
ativa
atávica
atípica
épica medíocre
metáfora do
dia-a-dia
e há quem
diga:
poesia.
1510.
entregue
entre
a lua
e
o mar
inteiro
eu ali
bi
1509.
ponte pelo ar
pra ver o que há
naquele ponto
que se tocar
por… pudera…
1508. Fátima I
pensei em fá
pra compor
te dizer mais
que o som
1507.
Esquecer o que não
se conhece
Lembrar o cotidiano
Aquecer o que não
Lamber o dia
1506.
No dia que eu nasci
o sol sorriu pra
mim: “vá ser só
nessa vida!” e eu
com essa coisa
pré, quase, destinada
demorei a ouvir
o sorriso.
E hoje, até na
chuva, reproduzo
o sorriso.
1505. Musáceas
De uma eu
como o corpo
De outra eu
como as cores
1504.
batom de uva na blusa
amassada boca de batom
borrada blusa de uva
na boca arrancando a camisa
de uva que vai e vem
na boca e na vulva
1503.
esconde não o que
quero que queira
razão alguma aqui
aquilo que é sim
simples o querer
resposta ao ser
1502.
debaixo ali da saia em ti
diz baixo aí e saio de mim
de bicho aí saindo de si
debaixo ali da saia em ti
1501.
It’s all so sad,
in a landscape
give-me a sat
1500.
In the broken of hours,
give me one minute more
of the sadness flowers.
1499.
Joaninha, com esse
seu ar de mangá
parece que quer botar
sol no meu dia.
Fica você vermelhinha
pretinha, no
ponto médio dos
meus dois olhos,
quase flor de se
lançar, quase sol
de já se pôr.
Fica aqui mais
essa eternidade e
me diz o que tiver
que ser dito.
Pode mesmo ser faca,
tarrafa, ferrão.
Fica aqui, ai!
Vai embora não…
1498.
Usei tudo na primeira
pessoa do plural
e essa que completava
dando sendo ao uso
do tempo verbal
não entendeu nada,
usou a primeira pessoa,
usou o usual.
1497.
Eu aviso
que como vem
da alma,
é seu o meu
riso.
1496.
O único objeto de
desejo dela naquele
então, era ele
Queria pô-lo dentro
de si, ele,
quente, abrasadora
presença dentro de si
Queria seu conforto,
precisava de seu
conforto, carecia
amainar seus
nervos introduzindo-o
em seu interior
Ele era tudo,
ele representava a
continuidade de sua
vida, uma tentativa
talvez
Ele respingava sangue
ainda, ele queimava
e ela o admirava
cada vez mais,
era um deus
onipotente à sua
frente
Aquela noite ela
foi embora pra casa
ainda sem fome
e sonhou a noite
inteira com
aquele pedaço de
picanha mal-passado
que, dentro do
restaurante, ela viu
o senhor deixar
cair no chão.
1495.
Sim, agarro
à esperança
num cigarro.
1494.
Meus nervos são
fracos, como frascos
de um perfume
barato.
Meus nervos não
se sustentam, como em
suspensão se cai
a coisa ao tirar
o apoio.