Agora eu em meu quarto
entendo a falta do afago,
o medo de que o corpo
dissesse mais do que
fosse o necessário.
Bem entendível tudo
isso agora, mas ainda
assim, incômodo.
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
Agora eu em meu quarto
entendo a falta do afago,
o medo de que o corpo
dissesse mais do que
fosse o necessário.
Bem entendível tudo
isso agora, mas ainda
assim, incômodo.
nos indícios de uma história viva
encontro-me apregoando verdes
lógicas tortuosas acerca de mim
lentas verdades de meu funcionamento
antepostas à minha parca ostentação
(Isso tudo deve ser sempre assim mesmo)
(Um dia se é um perigo)
(No outro, apenas uma constatação inerte.)
no more poems
no more poetries
no more life
just the empty
of peace – a knife
Eu que sempre pensei
proteger os outros
descubro que sou um perigo
Por isso não se aproximem,
estou vivo
O tom laranja
abaixo da nuvem
e minha alma acima dela
Uma laranjada na terra
e eu de canudinho
bebendo acima dela
O som do seu nome
sibila algo bom
que me aquece os
sentidos
E Tereza, Natália
e Amélia são
só constatações
do contido
Ama-me então
assim em segredo
que eu silencioso
o deixo correspondido
Creio que minha crença é só.
Meu amor foi a única fruta
a amadurecer no pé.
Todos os outros estão
verdes ou de vez,
na esperança de encontrar
a recíproca.
Meu amor é essa fruta
madura que nasce em
qualquer pé.
Me sacia e dou a
quem quiser,
quem com fome esteja.
Meu amor não quer
definição, quer ser
compartilhado com
quem possa.
Ah minha amiga
deixa de besteira
uma semana só tem
cinco dias e amanhã
sempre é sexta-feira.
Vivo atento procurando
palavras que te
assentem a existência
Há todas essas
redundâncias e reticências:
beleza, amor, paz,
luz, dia, noite, água,
ar, sol, lua, estrela,
flor e mais todo o
dicionário e até
agora em nenhuma
encontro-te inteira
nela.
qualquer palavra
era motivo para
a água salgada
era aos olhos
indigesta
qualquer palavra
para a lágrima
Não sei se foge
ou se já decidiu
Foi tudo tão bom
que eu não podia
sequer ter essa
dúvida
Ir-se ou ficar,
quem sou eu
para estabelecer
a mesura?
Eu mesmo
fico e vou,
ainda querendo
outra vez
seu momento
Ainda querendo
ser apenas
um fragmento
Então termino assim:
fico no vento
(com aquela mensagem não respondida)
saber sua face
viva novamente
saber o aroma
de sua proximidade
outra vez
saber sua visão
saber seu gosto
ainda
saber sua voz
à distância
do meu hálito
saber seus
pés miúdos
saber suas lágrimas
e saber seu
peso
coisas que aprendi,
não esqueci e
insisto conhecer
de novo.
preciso novamente dormir com um sorriso no rosto. preciso saber se em teu corpo ainda pouso.
Aquele seu primeiro bordado
não está guardado
está exposto ainda no quarto
dois pássaros – eu e você –
lado a lado.
O problema é ser só no pano, o fato.
Novamente outro embate
toda vez que mordo um chocolate
é teu ser que me invade.
Tem coisas na vida
que a gente não escolhe
a saudade é uma delas
que chega e te sacode.
Você sempre foi o meu ocaso
e eu a sua ocasião.
Você sempre foi a minha perda
e eu o seu perdão.
Hoje peguei a coleira
e sai a passear comigo
e até gostei do passeio.
Aos domingos
era sempre assim:
acordava cedo
e ia lavar louças,
não demorava
o telefone tocar
e era um “eu
te amo” tão bonito
que até deixava
Nietzsche de lado.
Quando depois do crepúsculo
o único resquício do sol
é a lua.
Após o fim,
só o fim.
Aposte em mim.
Jesus abriu a porta
e não me deixou entrar.
Não, as proposições
não são safadas.
Eu quero as posições.
Teu olhar me afaga
e eu tarado
guardo nele uma tara
No meio do pentelho
do cu do Judas.
Talvez por lá
eu me ache.
nem ao menos
um copo pela metade
ou meu corpo aumentou
ou minha alma encolheu
ou a palavra morreu
(que me enterrem,
junto com Deus)
Pais
Pais
Pais
Porque não
deixam de
ser pais
e paz?
Eu pisco o olho ontem
E abro o olho hoje
Não se liberte
em mim
Tire todo o
meu eu de você
e aí sim,
me ame.
De ficada em
ficada, vou ficando
figura descartada
de minha futura
amada.
o que você
tá pensando
sem pensar?
eu tô pensando
em como pensar
não pensando
e em como
não pensar,
pensando
eu não me
caibo
o tempo todo
por isso
quero caber
em você
belo?
só se for
detrás
da barba,
da idéia
braba
e da alma
de borracha
Sempre passo aqui
com essa expectativa no olhar,
é a espera de algo e o quê no ar.
Como definir
o que há entre
a paisagem e
a imagem?
Incólume a tudo
em vias, calçadas,
no meio do eixo
e até embaixo de
um carro.
Evasivo a tudo
buscando me encontrar
nas luzes de uma loja,
nos gostos das bocas
degustando suas marmitas
e até no que esconde
as roupas que visto
Triste num dia nada
além de mim
tateando-se e se tecendo
preso a paisagens se,
encanto e a enganos
tantos
Vívido no redemoinho
cheio de sacos de supermercado
e morto no espectro
do vôo plástico
Nenhuma sombra nesse dia
só a de um prédio condenado
e a do meu cérebro
ofuscando minha alma
Em certas horas
eu constato:
além de mim
eu existo.
Ali haviam os sonhos
de que houvesse
a paz.
Ali viam-se as vontades
mais prementes
que fosses meus cais.
Ali vi amparo
hoje, enfim,
nada mais.
Ter-te é deixar o desejo
de lado e viver.
Ter-te é desbotar o desejo
monocromático e perecer.
Não posso te ter
se não a beleza do desejo
morre.
Desabar a culpa
Destruí-la
Até que em tuas
mãos meu contorno
caiba facilmente
Desconstruir a culpa
Desestabilizá-la
Até que saia de
meus contornos
essa aspereza do vazio
Esse desenredo culposo
desastrado
Devido à silhueta
da minha loucura
Desculpa
Esses quadros todos
intensos de fatos
e de intenções
A nudez de todo
o ato cega
Teu plano
era morar num plano
O meu
era o de voar
Teu vôo
era só um plano
Eu já
morava no ar
Perfeito,
nada mais
perfeito…
Só o meu
mergulho no ar
Teu cume
era se enraizar
tentando uma
base firmar
Perfeito.
Deve ser uma de
quem eu sou a pele
me beija a boca profundo
e me chama de Guilherme
Deve de ser de outra
que me olha confuso
sorri com esses mesmos
olhos e tem medo de tudo
Deve ser daquela
que me transpira aos poucos
deu-me um filho de outro pai
e que me põe como os loucos
Aquela me quis primeiro
teve-me aos poucos inteiro
A outra sentiu-me em brasa
dormi noite sem juízo
em sua própria casa
E uma me quer tão leve
por debaixo de seus poros
como algo que não se deve
Meu coração não se divide
entre aquela, uma e outra
Dá espaço ao que incide
sente-se livre e à solta
Procura só o carinho
matutino ou vespertino
de quem precisar possa,
pois injusto é o caminho
de dar propriedade toda
a este que bate em desalinho
livrersar
livrer
livrar
livrestar
livramar
Palavras, são necessárias
mais destas para abarcar
a alma do poeta.
Palavras como livramor
liborboletariedade,
almacodificação e
pornatraçambígüa.
Esse mundo não cabe
na língua do poeta…
Recostar-me em ti agora
e ser-me, desmedido,
será que eu consigo?
Quando vejo essas espécies
que em meio à seca florescem,
é que compreendo o nascimento
dessa flor em meu peito
nesse exato momento.
De óculos em chamas
a contradição tenciona
a imagem e o significado.
Perco toda a coerência,
sentencio a positividade
e crivo o mundo dele mesmo.