0949.

Deve ser uma de
quem eu sou a pele
me beija a boca profundo
e me chama de Guilherme

Deve de ser de outra
que me olha confuso
sorri com esses mesmos
olhos e tem medo de tudo

Deve ser daquela
que me transpira aos poucos
deu-me um filho de outro pai
e que me põe como os loucos

Aquela me quis primeiro
teve-me aos poucos inteiro
A outra sentiu-me em brasa
dormi noite sem juízo
em sua própria casa
E uma me quer tão leve
por debaixo de seus poros
como algo que não se deve

Meu coração não se divide
entre aquela, uma e outra
Dá espaço ao que incide
sente-se livre e à solta
Procura só o carinho
matutino ou vespertino
de quem precisar possa,
pois injusto é o caminho
de dar propriedade toda
a este que bate em desalinho

0940. Contato

A singularidade de todo o encontro
não merece menção só pelo fato
de que a sincronia é marca de
uma vasta gama de possibilidades
nesse caos urbano tão contido
em que nós vivemos

Não pelo fato de que o desejo
percorre até mesmo o reino
do inconsciente e me mostra
certas cores que trazem de
volta o contato íntimo e suado
despreocupado e procurado

À revelia de que fosse alva
a cor que me passava a
sua calcinha

0935. Um soneto por ela

Lancei todas as mensagens, pois eu cria
transformarem elas motivos prováveis
para que o perigo dito àquele dia
forjasse o início de encontros adoráveis.

O vão das respostas feito à revelia
de que supusesse eu haverem afáveis
retornos em palavras que assim leria
em retinas ao monitor ilumináveis.

Fiquei assim descrente que poderia
jazer quão logo o fim desses incansáveis
dias de definição do que seria

esses nossos encontros inomináveis
onde meu corpo em seu corpo só queria
que não pudessem ser identificáveis.

0928. Para quem servir a carapuça (ou pra quem quiser experimentá-la)

(à mãe de Gabriel e Clarice, os filhos que não terei)

Queria te mostrar um disco
do Chico e te ensinar
uma canção da Fátima Guedes.
Queria te levar para
dar pães aos patos no parque.
Queria recitar Leminski
e Neruda depois da
meia-noite deitado em
seu colo.
Queria te escrever
sonetos e elegias
exaltando o nosso amor.
Queria tomar sorvete
de creme com cobertura
de chocolate na
sua barriga.
Queria fazer sexo
contigo debaixo
de uma cachoeira,
num açude e até
num ônibus de madrugada.
Queria tomar uma
cerveja contigo e
te contar uma
verdade indiana.
Queria te dar presentes
num dia qualquer
sem motivo algum
aparente.
Queria descobrir os
teus defeitos e
entendê-los à luz
da realidade.
Queria ficar em silêncio
com você
quando desse vontade.
Queria desse jeito
te dar a liberdade.

0915.

Hoy, yo voy a mostrarte un futuro gran suceso
es una música que habla del amor
una música que habla acerca del dolor en mi pecho
es una música que toca el corazón e me toco derecho
es una música muy fuerte
es mi canción de suerte
entonces que yo la digo, cante conmigo este próximo ritmo

Yo compré un par de perros
y eran perros tan bonitos
yo compré un par de perros
y eran perros tan bonitos
pero solo después yo miré
no eran perros eran catitos
después yo miré
no eran perros eran catitos
Ai catitos, catitos
Ai catitos mios!

0912. Búdicas III

Palavras correm esse instante como se fossem trazer algo mais que elas mesmas.
O gelo que percorre o sangue e incorre em palavras como essas é mero refresco,
sorvido em uma taça medíocre e idiota dentro de um órgão chamado cérebro.
As oscilações de humor cansam como se fosse um árduo obstáculo a se vencer
e ao invés, são só meros paradigmas auto criados e inventados, meras questões
trazidas à luz do mundo para serem elas mesmas motivos de seus próprios seres.
Não quero dizer nada, mas infelizmente digo.
Não quero sentir nada, mas por acaso, existo.
A máxima da ilusão (ou da felicidade): acordar e descobrir que nunca existiu.

0909. Começando pelo mundo

o começo é sempre assim
é uma reciprocidade da
falta de olhar,
é toda uma ausência de tema
que o caos informacional
torna-se the only choice

esta concupiscência lingüística
dá o tom y el sonido e
torna a libido da transpiração
poética uma necessidade
premente e pornográfica

(a essência posta e gráfica)

this is the world in words
just the world, our only word

regozijemos-nos poetas em
pô-lo gráfico (essencial)

0905.

De um lado ao outro por
um fio invisível
você me via de alguma forma

acordei

suor e resquícios tesos
de algo insone
um tanto acordado
mesmo em sono profundo,
mas era sono confuso

as vozes nas letras de um monitor
e as letras dizendo o suor
uma fogueira e mais suor

acordei

ao sinal menor
quase imperceptível que fosse
despertei ainda teso
suado
e a mensagem ao lado
me dizia suave:
um encontro
noite alta
mais que um sonho

0904.

Eu só te queria assim bem simples
e você com esse papo de não-monogamia
ética e consensual
Ouvi todas as suas histórias de amores
mesmo você falando do mito do amor romântico
Entreguei minha carne e te envolvi em sangue
pela única vez que pude
e você falando sobre o ego e o prazer
e sobre o seu ego e o seu prazer
Amei tua condição de ponte
e realmente só te quis, mesmo a mim
sendo dor por vezes

Na realidade não vi outras pessoas ao meu redor
Não via
Eticamente eu era sua
parceira, companheira e amante
e muitas vezes mãe, irmã e filha
Consensualmente me entreguei a você
Miticamente te romantizei

Hoje, você só é essa constatação
lá atrás, bem no fundo de mim
Porque eu só te queria assim, fácil, simples e leve
e você preferiu o complexo e a loucura

Adeus, não fácil, mas simples e leve