(Ao Engº Ricardo Taba)
As mulheres são como os gatos
e os gatos são como as mulheres
deitar de barriga pra cima
e passar despercebido depois
As mulheres vem dos gatos
e os homens, sim, dos macacos.
São Salvador, TO.
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
(Ao Engº Ricardo Taba)
As mulheres são como os gatos
e os gatos são como as mulheres
deitar de barriga pra cima
e passar despercebido depois
As mulheres vem dos gatos
e os homens, sim, dos macacos.
São Salvador, TO.
Quando eu for morar em Gurupi
e tiver minhas filhas com
outras qualquer, vivendo
de amor e de sorte
sei que você vai maldizer
o dia em que me jogou pro alto.
São Salvador, TO.
Não sei se foi o caju
ou se lambuzar com a manga
mas me tive certamente
mais uma vez,
talvez foi no instante
em que subi na jaqueira
e a formiga mordeu
meu pé.
Tava eu comigo de novo
e sujo de fruta
e barro.
São Salvador, TO.
Ê minha preta
como pode ser tão linda
Com esse vestido de renda
e no cabelo essa fita.
Ê minha preta
como você é tão bonita
Deixa a minha pele parda
nessa sua negra e lisa.
Ê minha preta
como é que pode assim?
Você toda florida
pondo tanta cor em mim.
Ê minha preta
venha me enegrecer.
Deixa o tom do meu vazio
se colorir em você.
Retiro – São Salvador, TO.
No buraco do céu
o sussurro do silêncio
e a luminosidade da noite
São Salvador, TO.
Quiçá
eu seja só
um içá.
Não vem a brasa
No que vem abrasa
No ventre há brasa
Novembro em chamas vem.
Acho que a
chuva não vem,
achando que
chover não faz bem.
entendo…
em ter dó, o
intento
sem ti minto
sem aumentos
sentimentos
nela
além
ali
li
ela
Só sobrou esse escopo esquálido,
espécie esfumaçada de sentimentos
sacros.
Meu coração partido
à parte do que foi sido
a cor da ação nem
verde mais é
ver demais o sangue
sem cor percorrido
cora a ação em sangue em
par tido:
uma parte corada
uma parte descolorida.
Em par te ver de novo…
meus lados idos
Poesia é sempre bom…
É nela meu alento, minha fuga
todo o intento, de ser eu
algo mais que sensação
e pensamento…
Eu quero o lirismo gélido
das poesias que iniciam
dizendo não
e os murros na boca
diuturnos de um paganismo
vendido na tv
Eu quero as metáforas
que lambem meus peitos
na boca da noite
e as metáforas invisíveis
de clichês intelectuais
Eu quero a reticência
compulsiva daquele olhar
e ser a continuidade
do frêmito vivo daquelas
pupilas negras
Eu quero ser eu por inteiro
em você, como quiser
e até a pipoca doce
do beijo de uma rosa
Acendo o teu cigarro
e incendeio esse mero ato.
Eu sendo o teu cigarro:
depois de fumado, descartado.
se por sorte
eu fosse teu norte
seria até teu sul
no inverso
e quente até
seu inferno
as pessoas não cabem nas palavras
ela, por exemplo, não cabe nesta
que a mim diz ela e nela
se constrói ela
As frases feitas nas sombras
de um porvir fracassado
são as pegadas sulcadas na areia
de uma praia de rio.
Posta a enchente somem-se as
marcas e na próxima queda
do rio ficam-se os vãos
feitos entre os grãos da areia.
Basta um breve lampejo do
tempo para se transformar
a existência.
no cômodo contíguo
o incômodo contínuo
um segundo e um sentimento
perdidos
Miro o embate como uma janela
que de dentro me mostra o fora
e lá antes me dá o anseio,
que de fora me aprisiona
dentro e que ao cerrar do
desatino me dá o vazio.
E o vazio me consola
Te segredo o
porquê de minha
solidão.
Te espero
a definição.
Um flamboyant floriu.
Minha alma um
sorriso pariu.
Escutando as histórias
sobre o Arapuca em Rondônia
na década de setenta
vejo que a pós-modernidade
é fato mais antigo do
que se imagina nesses rincões
possíveis do interior do Brasil.
Pelos caminhos do ouro
Eu vi Soraia passar
Boca macia de seda
Hálito de juá
Pele morena de amora
Pelos da cor do luar
Pernas abrindo à aurora
Ao meu sol levantar
Fui me guiando nela
Naquela estrada a raiar
No esteio do meu horizonte
Veio Soraia andar
Sua chama queimava meu peito
Ardia em mim seu dourar
Seu rosto de deserto
Descompôs meu olhar
Com mãos de seca profunda
Fez meu caminho mudar
Eu que jurei que trazia
Aquele corpo algo mais
Um norte pro meu caminho
Em meio a trilhas demais
Vi Soraia se indo
E me deixando pra trás
De todos os mitos criados
a crença de que a habita
é o menos bonito.
Levar-te aos lugares em que
sonhei passear contigo um dia,
as possibilidades do prazer.
Nem as partes meias saber
o sentido tido agora, ver só
pelo cantos dos olhos, o nada.
Se tivesse tido a máxima
de saber a visão do éter hoje,
não teria acabado o começo.
Ao sair de casa
deixei a dor
pendurada num cabide.
Quando voltar
sei que ela vai
me vestir de novo.
Maldizente e no inferno,
meu ser enfermo irá arder
até o ego.
Meus murmúrios lacônicos
lamúrias e queixumes
que são só assombros da idade
passaram por você como
um arrebatador intento
dialógico.
Não queria dizer nada,
tão pouco alguma coisa.
Só queria que minha inércia
conduzisse a mente até
o sonho e o dia seguinte.
Sem meta, sem para,
sem além.
Só a existência de
ficar quieto.
anunciação da paz
nesta pequena que
goza ao meu lado
e tratável quer-me
lânguido em seu corpo
indócil e até duto
cravando meu ser
ante suas costas
Escuta o que digo
Teu passo só e aflito
É o avesso do meu caminho
Quero amar o que preciso
Sonho vão e gasto
Teu caminhar em descompasso
Amo quem ao lado
Par-e-passo alinhado
Meu carinho ao mundo
Tudo cabe não absurdo
Afagar profundo
Cada um em seu segundo
Quero ser a marca
Que um peito todo abarca
Não uma vida parca
Mas um afagar que não passa
São discursos que usamos
Pra cativar e conquistar
E depois contabilizamos
Os erros por suportar
Impedir a liberdade
Viver a frugalidade
Destruir o amor pela vaidade
De uma auto-piedade
Destruir os sonhos
Pelo medo do enfadonho
Trocar o amor que proponho
Num bailar medonho
Meu coração disperso
Não desgosto só me imerso
Em outro qualquer do universo
Para qualquer um meu verso
A solidez do meu peito
O claustro do meu defeito
Só um coração sujeito
Pleno aos versos que leio
São desculpas que usamos
Para o adeus e o afinal
E depois contabilizamos
Todo o bem e todo o mal
Descobri que não sou eu:
sou o outro
Impessoal: o amor só pelas metades
Quisto à revelia:
só quando me cabe a pertinência
Sou o usado ao bel-prazer
O que fica com a falta
O que nunca faz falta
Sou o outro
As crises eu não compartilho
Compartilho pernas numa sala qualquer
lábios num colchão fino
lágrimas transbordadas no escuro do céu
palavras abafadas por uma noite em brasas
Sou o que não se pode contar
O incontido
Sou o exclusivo
Sou o segredo entre bocas miúdas
O que entra após os aplauos
Aquele que não pode ter bis
O gole de cerveja que se toma
sempre olhando para os lados
Sou o perigo do amor
Sou a fuga e o fulgor
E é bom ser o outro
Some, restam-me as palavras.
Só me restam as palavras.
Só restam palavras.
Só as palavras.
Só palas.
Só.
o azul derrama vontades
vez por outra me voa
uma e outra condói minhas palavras
e ainda mais me apazigua os pés
fiz-me azul num dado momento
e cômico foi o fato de que
quando fui azul
não voei, nada me condoeu
e meteoros mastigaram meus pés
Não quis dele ser,
Não queria sua veleidade,
Nem sua forma
E muito menos seu sentido.
Aprisionou-me,
Deu-me guarida e acolhida.
Agora, só do éter sou.
Ao que não posso admirar-te
Admiro as tuas mãos.
Tuas mãos de unhas e articulações,
Tuas miúdas mãos suaves,
Bem sei que te habilitam
E que teu mundo
Surge delas a se erguer.
Teu devaneio e tua essência,
A dissonância verde
De teus anseios,
O medo desenfreado
Que me aches novamente,
As possibilidades da vida,
Tua vontade impensada,
Forte miúdo que um dia foi meu.
E se amo as tuas mãos
É também porque estapearam
Minha cara e minha conduta
Minha alma e meu peso,
Até se encontrar.
Tu fostes mesmo uma miúda pétala
que cingia no meu colo.
O agudo da morte prostrou-te cá.
Amiúde não te soube: não sentia
que pendias comigo,
até que a tua haste
atravancou o meu colo,
ligou-se à tensão da minha libido,
verteu pelos meus olhos,
sem irmãs de bem-me-quer.
Nós…
Há pena: nós.
Nós, devires…
Nós, coisas idiotas.
Curtos pontos
Frente a frente…
…Quase…
…A se tocarem…
Esquecer talvez:
“A menor distância entre dois pontos…”
E ainda sós para sempre.
Momentaneamente nós ainda.
Até saber-te, amada, tudo era irreal
Vaguei por vielas e cada existência
Não possuía história ou palavra:
A realidade era apenas uma possibilidade.
Penumbrei por vastos casarões,
Paisagens torpes e espaçadas,
Pré-moldadas e concretamente duras,
Verdades que povoavam ondas no mar.
Nada percorria vida, preenchimento e voz,
Aconchego, preocupação e novidade,
Nada incomensuravelmente me dizia algo,
Nada era de alguém e meu mesmo,
Enfim veio tua linda tez e teu desalento
E couberam toda a primavera de benfazejos.
foi ontem que eu descobri
quando saí
nada senti sem ti
desde então percebi
que pereci
tudo sem ti senti
foi bem assim que entendi
como é o amor
fruta maçã pedra rubi
e por acaso aprendi
o que é a dor
pedra imã fruta caqui
e de tudo o que vivi
o que ficou
sua lição em mim
assim eu constato aqui
o efeito do que vi
um amor já feito em mim
e sua sombra bem aí
a lene nella
é luz azul e
amor romã
No universo do meu peito
um mundo pungente
não sabido ou existente
Vontade apenas de tê-lo
sem certezas
E apenas a minha tristeza
colorida de alegria
numa aquarela de tons gris
é o mundo do meu peito
Voltar pra casa antes das 2:00 é sempre assim
sempre os mesmos casais pós ou em busca de amor
em seus carros com seus djavans
e suas calmas velocidades apaixonadas
Sempre aquele indivíduo correndo à esmo
pronto a vencer a próxima maratona
e os policiais escondidos nas sombras
prontos a abordarem suas vítimas ou seus algozes
Sempre esse misto confuso do aguardo do colchão
e esse ímpeto de dividir as estrelas
de uma noite de filosofia parca num bar e a intenção
de uma noite que fosse de fato completa
Sempre o anseio de descansar no colo quisto
e a ostentação de um engodo no peito
e a certeza daquela máxima de que
pecado é provocar o desejo e depois renunciar
Sempre a necessidade da poesia
no martelar incessante da alma na razão
e os dedos sendo levados nesse torvelinho
de constatações soltas e necessárias
Ainda ontem tive a certeza
hoje não tenho nem o nada
mas é que havia seu sorriso
estampado forte no meu
e minha tristeza colorindo
de tons cinzas seus dentes
que pensei ser o mundo
apenas um adorno para o
seu pescoço.
São Salvador, TO.
vou-me embora de uma vez
não me dou com essas partes
ou se é por inteiro ou se tem
somente sombras projetadas
em uma caverna
vou-me embora de uma vez
deixando-te com o afago maior
possível e que é formado já por
inteiro sem aparências, mas
sim existência
é na tristeza
que mora a certeza
de que na natureza
é que há a beleza
e uma vez que sou urbano…
Só ela me tem agora
pois que dessa sim
eu fui todo o sentido
e algum oriente
só ela me faz agora
ao que em meu poente
ela foi o sol a penetrar
o horizonte
só ela a me sentir agora
uma vez que meu
sentido não se pôde
existir sem ela
só ela me cabe agora
já que tudo que pode
me preencher foi
tolhido e entalhado
só ela eu soube guardar
posto que de todas as
outras eu só consegui
longitudes e léguas
só ela para dividir
o sorvete e o chocolate
agora, já que nem pão
aos patos dou mais
só ela que me acalenta
todo o ser e que me
diz silenciosa o preço
de se buscar por inteiro
só ela pode ter a minha
propriedade já que livre
e louco como eu só sendo
ela para poder me ter
só seu carinho
só seu ninho
só seu
lançando-me eu ao léu
só
a tristeza e eu
só
e a certeza de ter que se ir sem volta.
sem ti, nada senti
senti tudo, sem ti
senti e sentencio
todos os sentimentos
a serem pensamentos
(e sem ti… só sendo)
Se fosse doce como seu nome
te chamaria sempre
para ter na boca seu gosto.
Mas se paradoxal fosse
e azeda se fizesse
nada me importaria em
trocar os sentidos da língua
e chamar de alcaçuz o que
acre fosse.
E sentir doce
o salgado que surgisse.
E chamar de açúcar
o amaro de seu ser.
Ao ver que você deseja
essa vontade
mais uma vontade
ainda outra
eu até desato o nó.