0500.

Fala-se em brado,
detentor de vias de fato,
sobre a quase morbidez
marmórea dos habitantes
de Brasília
Cada um como uma
micro-ilha
cercada de distância
por todos os lados
São doudos e não doutos
os que assim falam,
esquecem-se do calor
inerente à condição humana

0497. Cárcere

Cooptado a um plano de outrem
Foi-se envolvendo na trama
Perdendo-se num labirinto
Perdeu seu senso numa dama

Envolto em lascívia plena
Proferindo em plenitude que ama
Aprisionando-se num jogo dúbio
O mar azul virou lama

Sem saída e sem Minotauro
Súbita morte de utopias
Soluçou derradeira lágrima:

“Sem alma, o que tu farias?”
Pegou uma espada às mãos:
“Findo-me e cravo-me de apatias!”

0495. Em prol dum encontra-se

Nalgum lugar me esqueci
Nalgum ponto indefinido
Um meridiano longínquo
Um paralelo perdido
De certo num acaso
De fato numa entrega
De longe, num nada

Onde jaz minha luz?
minhas faces? eus?
Só no infinito há um quê
de possibilidade
Marcas de tudo o que
se perdeu (e até o motivo da perda)

Sem lamento, só a constatação
Pérfido, mal me olho ao espelho
Como bom sagitariano, corro
– um dia, quem sabe,
me veja nalgum lugar (eu novamente)

0491. Ana

Algumas pessoas parecem de cera, outras de algodão e umas mais de aço inoxidável, sem contar as de plástico e as de pet, mas você é de fibras de luz da lua e da cor do mel numa tarde ensolarada e de líquido de nuvem linda e límpida despencando no calor de uma madrugada, brisa boa.

0489. Desse algo só nosso

Deve ser dessa herança de
degredo
dessa dor do arrancado
de sua terra,
do ser náufrago

Deve ser desse gene de fado
e sangue
desse corte não estanque
do humilhado,
do ser exilado

Deve vir de além-mar
e desse solo
de terra-mater outra e
desse mesmo acaso
das veias do aqui

Deve ser dessa mistura morena
cafuza, cabocla
desse chicote e dessa
distância
que surge a saudade

0486. Cadê o avesso do que é sombra?

Cadê braços fortes?
Cadê pulsos firmes?
e onde jaz aquele você?
suas verdades
suas conquistas
seu labor interior

Hoje só te resta
lembranças carcomidas
essa massa amorfa
esse sono letal infindo
esse pandemônio de
retóricas relativistas

Cadê força?
Cadê sonho?
Será esse ceticismo
medíocre
esse medo pseudo amor
que te aprisiona?

Cadê átomos
ao invés de ondas?
Será só essa opacidade
sem qualquer bio?
Cadê self?
Cadê você?

0472.

0472. Dulce todos os dias tem a mesma vida. Não diz bom-dia, não se anima. Sai cedo, não se atrasa (mas uma vez por mês; é batata: engarrafamento na Estrutural). Chega no seu trabalho de merda (pelo menos é concursado). Trabalha, almoça, trabalha e de noite não vai direto para casa. Dulce não dorme, mas já é Jade se escora num poste e acende um cigarro: “será que elas sabem, que suas vidas já se foram?”.

Dulce e Jade: uma vida.

0471.

E nesses momentos em que a vida passa num lapso de segundo? Que há esse devir pela frente e esse esquecer para trás. E então há esse espaço não preenchido do presente, esse inside do agora e você não sabe o que fazer, não existe mais barra de saia alguma. Só um momento petrificado e um jazz esperançante.

0466.

um pingo de chuva me trouxe mais amor
um pingo bem na testa trouxe-me mais
um pingo mais um pingo me trouxeram paz
desses pingos fez-se a chuva que apagou o fogo da dor
a água dá a vida e o fogo a eterniza
seguir, só se for dessa maneira
um dia encharcado, outro na fogueira

0461. De um carinho e de um amor

Sinto um carinho que me afaga
a alma, o espírito e que me sara
a chaga, o corte e que me pára
a saga, o enfado e que mata
a mágoa, o suplício e que me cala
a fala, o norte e que me abala
a cama, o acertado e que me é

Tenho um amor que me dispara
a tara, o tesão e que ma fala
a calma, o terno e que me marca
a pata, o peito e que me lava
a palma, o pulmão e que me caça
a farsa, o eterno e que me ataca
a taça, o leito e que me é

0459. De lixos

Os lixeiros trabalham escondendo
de nós essas tristes vergonhas
de nossas bundas, barrigas, bocas
braços e entranhas
de nossas soberbas e ganâncias
Somem com a troça do mundo
avesso da vida que é só um busca
Desaparecem com a vida
que é como o limbo que nossa vida ofusca
e a si produz sem dizer o que custa

Os lixeiros trabalham agora
e a cada verso que desgosto
surge mais matéria para o trabalho
vindouro dos lixeiros e para
o meu despertar poético de cedo

0458.

Deus é uma essência sonora
dentro de todos nós
Deusa é aquele acorde
perfeito em nosso sax do peito
O divino é um som colorido
uma textura aos ouvidos
da alma e que nos conduz
ao amor

Dessas notas que pulsam
em nossas veias descobrimos
o terno despertar
o instinto luminoso do som

0456.

Quantos poetas agora escrevem?
Que metáforas nestes se atrevem?
Falam sobre seus eternos amores
Ou sobre a durabilidade das dores
Ou sobre um vôo pássaro
Ou quem sabe um high-tech ícaro?
Serão poetas de momento noturno
Sorrindo letras ao outro mundo?
Serão petizas de campos e pastos
E de seus príncipes criando sapos?
Poetas agora em todo lugar
Com certeza muito há que se criar

0455.

Uma flor é o afago da vida
e o vento a balouçando é uma
terna carícia do acaso

Uma nuvem é um manar da vida
e o vento a levando é um
doce fato ao paladar de retinas

Uma gota de orvalho é um diamante
que como o vento, escorre na folha
e enriquece de vida a planta

Com flores, nuvens, gotas, afagos…
quero que minha vida seja
conduzida como a esperança