0453.

Por vezes, como é boa a solidão!
Escrevo à luz de um poste e
ao som dos carros pelo chuva
Já se vão transcorridas vinte horas
dessa despretensiosa rotação
e o sol ainda não despencou
sobre o Japão
O incontido da escuridão sussurra:
“de findo nada há”
E eu volto para dentro de mim

0452. Oração

Quando oro faz-se um vazio fundo
cala qualquer interjeição minha, frente
a este indizível ser que sustenta os infinitos
mas que não sustenta minha oração
não louvo pois sei que ser divino
não é humano para querer adoração
não peço nada uma vez que não é o
meu desejo que impulsiona, sim minha ação
não agradeço pois sei que o perfeito
não almeja os gracejos da minha própria vida
tento ir, fazendo da minha própria vida
uma possível congruente oração

0449. Olhar uma flor

da minha janela que dá ao passado e ao futuro
inspirei uma vindoura chuva
e com Lupicínio percebi o desengano

mirando a copa da árvore que plantei
via a primeira gota da chuva molhar
vi outra gota numa flor
que sempre aqui esteve mas só agora vejo

lha sobressai-se luminosidade do vermelho da flor
e os pingos douram-se lha mais a mais
ela é quão ou mais viva como eu

0448.

promessas
palavras usadas
meu bem
palavras
não dizem nada
também

eterno
é só o universo
meu bem
infinito
foste nosso amor
também

jurada toda a felicidade
meu bem
feliz
creio me enganei
também

profundo
pensávamos fosse
meu bem
passado
é todo o vivido
também

eu quis
que você quisesse
me bem
mas vejo
que o que passou
já é finado
não convém

sagrado
é só o agora
meu bem
to feliz
to rindo à toa
adeus, good-bye
e um amém

e hoje
eu quero a eternidade
do momento
meus quase vinte anos
e um colo ao relento

0446.

Passa aurora, passa Angélia, passa Ocaso, passa o dia, passa a noite e eu não me passo; passo o dia — e a noite — com meu passado. Pego a peça do jogo: “eu passo”. E com passos apressados passo rumo ao meu passado. Possa tudo nessa vida e meu eu é só passado.

0445. Metas

Do grito de um pedinte
vem-me a dor de reclamar
o fausto da opulência
joga-me à face ser simples

Os outdoors me segredam
a inutilidade do orgasmo
E levas de carros ao paraíso
como Cérberos motorizados

Eu só quero o tangível do meu ser,
aquilo que se pode me conter
sem falta. Sem precisar sentir-me
frígido de minha própria vida

Hoje são só pequenas metas
Amanhã, quem sabe, todo o meu ser…

0435.

Um chuvisco rompe o calor da dúvida
Junto à leve brisa balouça folhas e
Umedece a seca percursada da incógnita
O pingo faz crer ser um lapso

De um pingo a um pingo, então há a chuva
E trovoadas tórridas tropeçam em
Compulsória propensão de existir mesmo
Ao frio, mesmo à dor, mesmo só

0434.

O amor é sempre uma falta
Nunca pode se exceder
nunca consegue a completude
O amor é um devir

O amor é um grande objetivo
Antes de tudo uma metáfora
para o sentido de uma busca
O amor é uma meta

O amor nunca é em si
Ele sempre vai além de sua falta
e se dá numa luta
O amor se completa num paradoxo

O amor nunca é sem explicação
Ele se explica quando se esvai,
quando se finda o ciclo
O amor se completa ao final

O amor é mutação
Nunca início
Nunca findo
O amor

0431. Um pouco de mim

o tênis surrado dá mostras
dos descaminhos já corridos
e dessas cicatrizes que saltam
aos olhos, momentos a mais

na fita do Senhor do Bonfim
um pedido e uma dúvida
memórias de um desejo ao cubo
já em pedaços — traços de mentira

sobre os pêlos esparsos e curtos
a inexatidão dos sonhos, dos anos
e nas mãos não calejadas e lisas
o anseio da permuta de vida

por debaixo das unhas sujas
e doas coágulos nas cutículas
muitos medos e a sensação
de que a vida vai-se apenas

nas meias sujas e desfiadas
doses de passado e de dor
e o mesmo desprezo a tudo
que se vê na barriga caída

nesses cachos negros e desfiados
o mesmo mistério que se põe
debaixo das lentes riscadas
no centro de olheiras eternas

desta boca miúda e parca
a ostentação de uma medíocre
beleza esquálida e comum
quase que morta se não fosse rósea

por debaixo da pele um raso
oceano de migalhas de alma
querendo ser um algo que
inegavelmente ainda valha

0428. Banzô Blues

Qual a minha cor?
Pergunta a placa ao lado
Qual a saída:
Qual a sublimação?

Me lanço entre os postes
Me arremesso contra o meio-fio
Meu semblante de vidro
segreda o gosto amargo

Salvação?
Quem falou de salvação?
sabendo que o mar é
de fado, é de rocha
O vinho do descaso
sorvido na taça rasa
do amor morto
E no debruçar pela janela
o anseio da queda
(talvez do vôo)

Na queda invertida
se principia o medo
e o fado estridente
é tão somente
a gota de suor ácida
que escorre junto às
poucas lágrimas
melancólicas
(já mortas)

0426. Nau de vento

Vago sem o que me falta
E ainda não me completei
Sobre o mar do destempero
Intemperiso meu casco
E a tripulação já se laçou ao mar

Desbravo o fim da Terra
E descubro o precipício
No fim do meu mastro principal

Monstros me perseguem
Bestas demoníacas de
um mito alcalóidico

Chega o fim da rota, paro,
pois o vento se cessou
Sou uma nau de vento

0425.

Se a iminência da revolução
capitalista estatal fato fosse
Qual fundamentalismo
seria o Cramunhão agora?

(metáforas do passado no futuro)
(guitarras podem disparar eqüidade?)

Em meio a dúvida caótica
Gritei e escutei meu grito
antes de gritá-lo

(em nome de Quem?)

0420. O fim é só epílogo do início

Cato em todos os atos
sinais prelúdicos dói fim
Contemplo uma oração intermitente
pensando que o êxtase ali é dado
Vendo Deus ser inventado
em passos não factíveis de teorização
numa auto-hipnose dual
Sinto o Espírito Santo ali,
sendo criado, surgindo da mística
vindo do homem ao transcendente
(um apenas)

O finalmente fenece
no entoar de um mantra cristão
E as luzes atravessam nuvens
num apocalíptico quadro de recomeço
O fim é só epílogo do início

0419. Ruínas de um fim

O imponderável torna-se fato
às migalhas de Nova Iorque
Um apocalipse é esperado
sobre escombros de um pentágono
O fim se almeja
em invisível peleja
de sistemáticos monstros
Mortos sobre mortos
Sem se vislumbrar o motivo do fim
Pondera-se que o fato
seja turvilínea conspiração de fé
e sepulta-se milhares sobre a égide
de uma fé material

O fim chega?
Ou será que aspiramos ao fim?

0416. ¿Futuro?

O menino brinca com a bola
Sem saber do World Trade Center
A bola rola e leva o menino
ou será que o menino leva a bola
e rola pela sarjeta do fim?
O menino pára, olha e ri
A bola rola e o menino já morto
corre atrás da bola

Explode um prédio em palmas,
lágrimas e apatia
O menino apático, cai e chora
Mas levanta e em festa
chuta a bola

0415.

“Bom dia”
diz-me o canto da aspereza
“já morreste hoje?”
completa em sarcasmo
“já morri duas vezes
em menos de meia hora”
respondo bucolicamente
sem esperança alguma
e morro realmente
mas uma morte avessa
que me dá a forma de pluma
uma morte cortiça podre
boiando em um lago
onde apodreço incrustado
de seres eus

0412. Sutilezas

Nossas concupiscências nos torturam
E nossos amores nos permeiam
Tiramos pesos circuncidantes
Torturamo-nos inventando tantos mais
Desejamos a lascívia em lânguidas mãos
Aspiramos com as nossas a solução
Soluçamos em desespero por palavras
Por afagos, por amores, por carne

Um vento sutil nos passa desapercebido
E nós, perdidos em nuances de soluço e lágrima
Não vemos a solução que se vai com o vento

0409. Desencadear de um ciclo

ao lado do beco
a boca promete
de fumaça, de pó
se entorpece
alicia aliados
abarca moleques
viagens, loucuras
a vida se esquece

a barca cruza o beco
nem luz reflete
do beco ao mundo
a carteira: “entregue!”
do beco, da boca, ao banco
e Deus? renegue
astutos no caixa:
“rápido, não espere!”

pneu queimado
“cabrito não berre!”
a barca, o beco
a alma se despede
um tiro, um peito
a vida não pede
o sangue no carro
o luto na Leste

ao lado do beco
a boca ainda promete
de fumaça, de pó,
de doce enriquece
alicia aliados
centenas de estepes
viagens, loucuras,
são todos moleques…

0407.

buscar matéria poética
em unhas vermelhas
de uma criança de
seis anos é
catar na imoralidade
do fim da infância
a chave para abrir
as portas que fechei outrora

procurar matéria-prima
poética em mulher
completamente vestida
mas ainda assim
semi-nua é uma
árdua missão
e como resultado
tem-se um cheiro
ridículo de tesão
em meio a versos

0405. O primeiro poema

Falas que nunca lhe fizeram um poema
Também pudera
Quando já se é um então!
Fica difícil se falar de um tema
Que já beira a sublimação
Mas por te ver na desesperança
E a mal dizer o mundo
Tento cumprir esta árdua missão
De escrever-te um poema
E quando te penso fica mais fácil
E só complica
Quando coloco a felicidade
Que me produz em contraste
À incógnita do que sou
Ah, e tu és linda (inclusive)