2339. Adobe mesmo

se quando eu voltar
nada estiver no lugar
criar espaços é
projeto simples
amá-los é tarefa fácil

tijolo, cimento, água
pouca paga

peneira-se as mágoas
e se ergue uma muralha
pra colocar um castelo

sem prumo
nível bolha
torto mesmo

casa que seja
que esteja
com sua guarnição inteira

tapera que baste
cipó, esteio, palha
barro para lacrar um tanto

amar o que se faz para si
é mais fácil ainda
adobe mesmo
argamassa com esterco

de bosta se ergue um lar
para acalantos pousar

2336.

espero o cais em que possa ficar
a impressão do tempo
inteiramente catando com os olhos
barcos e conchas e gaivotas

solto no atracadouro
jangada longe andando vento sobre a água
peixe tímido sorrindo vergalhões de
espinhas e escamas dentro do mar

toadas de sereias mareando a razão

um gosto de sal na pele
pelos eriçados pela peleja entre sol e ar
queimado de sonhos e lampejos

um som de ir e vir

água batendo na madeira
tão como
entender com o tato

o paraíso rodeando um estado de espírito
belamente simples

esse cais aqui dentro

2333. Alíneas para o texto de sonhos

no sonho a altiva
tão baixa
passada
disse tanto em pouco

oito minutos no tonal
eras no nagual

sorridente e esfarrapada
pouca
bem pouca
pintou umas cores
no branco e preto do sonho

tinha verde
vida
essa cor mais verde ainda
e lançava ao ar sempre

“mas, bem?”

“bem”

“que bom, meu bem”
“meu bem”

um toque despertado
dor de descerrar as pálpebras
um bem no fundo aceso

saudade um tanto

boa
bem boa

Paes Landim, PI.

2330. Alegre som

há uma flauta na sombra de um som
uma rainha paira sobre ela
desejosa de ametistas

espelhando

o que espalha sobre
a sombra não refletida

real com coroa e cetro
nos braços do som que voa

alegre menina
rainha em verdade

há uma flauta na luz de um som
uma menina entre as notas
brinca

com
cada pausa das ondas que
rebentam o ar e pousam passadas
nos ouvidos

Paes Landim, PI.

2328. Anunciação de Encantamento

Com a licença prezadas senhoras e caros senhores
por adentrar vossos olhos ou ouvidos
e parar no amontoado das vossas cabeças
Chego um tanto fora de hora
no apressado de uma catira certeira
um tanto afobado e esbaforido
com esse boi então achado que sumido há tempos
foi trazido de volta lá do Maranhão
Chego com esse boi que é encantado
e traz cores de um tempo esquecido
em azulejos e correntes
mas que é só tocar na ponta de seu chifre
que ele realiza qualquer desejo
Eu mesmo já toquei cinco vezes só hoje
quando me faltou papel para as necessidades
quando me faltou céu para as visagens
quando me faltou ar para a caminhada
quando me sobrou tempo para ficar de cara pra cima
e quando me bateu uma lezeira por conta do amofinado da vida
Venho cá lhes oferecer o Encantamento
que é o nome desse boi tão colorido
troco por um jegue que não grite no eito
uma mula que agüente carga
ou mesmo uma cabra que dê muito leite
Por que eu quero me desfazer do Encatamento
se ele realiza tanto?
Porque meus prezados senhores e minhas caras senhoras
quando não se sabe desejar direito
não adianta qualquer Encantamento

Paes Landim, PI.

2329. Oxalá

Tudo se ponha nos eixos
sem ondas de seixos
só nuvens derretidas de
desejos já prontos
em chuva de verão
pingando o chão
de briluzes veleidades

Uma cidade em torno
torneando o fresco da cuca
e sorveteando o quente
dominando o vago rasgo
do regato inconsolável
sendo um vagão de tons
de entardecer até a noite
indo na trilha desse trem
doido doido doido
que é a vida
e rumo ao imponderável

Paes Landim, PI.

2326.

certa feita ouvi história estranha
vinda do cubo do diabo
sobre gente de fé crente
que ao ver rebento novo
dos seus pouco mais de oito anos
morta e já ida em sete palmos de terra
exumou o seu corpinho
o pôs em cima de uma mesa
e orou noite toda e pouco
além do sol já a pino
para que a menina voltasse
à vida e corresse novamente
entre o dia e a terra

penso sempre nessa fé maluca
nessa temperatura de crença
acesa criada
que moveu aquele rito
aquela entoação de orações
e o desespero para a
continuação dessa parca vida

mesmo o corpo tendo continuado
inerte numa marmórea
prostração de ser só corpo
penso sempre nessa fé avexada
e vejo que a minha
tão calada e tímida
não consegue mover nem
a mim mesmo a fazer desatinos
quem dirá
montículos de fina areia

São Miguel do Fidalgo, PI.

2322. DDA

Meu problema sempre foi
a falta de concentração:
aqueles seios observadores
aquela coxa falante
um olhar perdido em mim
qualquer possibilidade
dentre todo o universo
aquilo que me batesse à
porta primeiro

Daí a falta de concentração:
o mundo todo podendo
me falar pausadamente
sempre me causou
alguma comoção
E me fixar numa parte
só do mundo, nunca
me foi fixação

Paulistana, PI.

2318. Virgínia Woolf

Entre lobos te encontrei
noites e dias de procura
sem um farol que me guiasse
As horas passando meticulosamente
cuidadosas e entre os atos
torpes meus e de todos
te vi ali
virginalmente sem os pudores
de uma época que redunda
ainda agora

Procurei chegar a ti por
meio de outras tantas:
clarices, cecílias, hildas,
todas as que me chegassem
com uma proposta às mãos
coragem para dizer
e peitos para fazer
corri atrás de todas até
te encontrar
mas versos não são prosa

Quando finalmente te achei,
gozei profundamente ao
teu lado, sem toques,
sem têmporas doídas,
sem a necessidade enferma
do abraço pós-coito
Só você, longinquamente já morta,
mas vivente agora assim
de mim
Encontrada

Simplício Mendes, PI.

2319. Sem pressa (ou utopia)

Havia pouco menos de
um palmo para nossas
bocas se encontrarem
Eu falava sobre a
aleatoriedade da vida
Você sobre a
sincronia do acaso
Pausadamente meus
olhos percorreram o
chão de madeira
a frondosa mangueira
um bocado de estrelas
uma meia lua inteira
e seus olhos de esgueira
Você atenta ao éter
disse que minha voz
lembrava coisa boa
E eu te doí com a
triste história de
meus vastos fins
Você ajeitou sua
franja delicadamente
caída sobre os olhos
Eu ajeitei frenético
a blusa nos ombros
e afaguei um tanto
seus cabelos
Sentimos um frio vir
lentamente amornar
o quente do dia
Encostei minha cabeça
em seu ombro vendo
que seus olhos fitavam
de soslaio minha boca
Da minha pra sua
a distância diminuiu
para três dedos
Sentimos a respiração
quente um do outro
Foi quando aquela estrela
cadente passou
Você não me disse
mas sei que o pedido
foi o mesmo, posto
que não nos beijamos
apenas saímos abraçados
pela noite, rumo ao
sono que nos traria
ao amanhã e que deixaria
tudo com um gosto
de que o melhor ainda
estaria por vir
Despedimo-nos com um
beijo no rosto
cada boca a meio
milímetro de distância

Simplício Mendes, PI.

2316.

Quando adentrar meu mundo
não estranhe o acompanhado
dessas tantas mulheres,
essas chicas, essas donas
com suas zicas
essas céus e mares
essas de africanos ares
ou islandesas paragens

Não tenha ciúmes
pois que chegaram bem
antes de você e
caminham em meu dia
e noite colorindo de
sons o carregado da
vida

Paes Landim, PI.

2312. Alhures

(A Fernando Livramento, percorrendo a memória em noites de Moçambique.)

o céu está meio esfumaçado de um tom cinza-lilás
algumas estrelas desafiam o reinado de iansã
a lua fica tímida
se cora diante de nós e se envolve em um manto nefelibático
o mar sacode leve
mas vem vindo sempre
vem
e
vai
eu te olho
você me olha
olhares longos
leves
dois cigarros compartilhados
o tragos de nossas alegrias por estarmos vivos e nos sabermos
uma musiquinha funda nos afunda
a gente deita na areia
e torce pra que alguma estrela se faça a mais
o mar continua
e a gente fica ali
perdidos
em meio a tanto céu
tanto mar
tanto nós
que tudo se basta
nesse momento

Juazeiro do Norte, CE.

2313.

Aqui, de longe se escuta
o vento, ele vem vindo
com sua voz forte
balançando juremas e sabiás
na caatinga, apostando
corrida contra o sol

Por um segundo ele pára,
mas logo vem suave,
suave, suave até tocar
seu rosto, seus pelos
e amornar a inclemência
Esfria um tanto as gotas de suor
que escorrem pela face

Aqui o vento murmura
em todas as direções
levanta todas as folhas
caídas das árvores já secas
pelo começo do fim do ano
Trás a paz de algum lugar
perdido
Faz-se paz nesse perdido
rincão do interior do Brasil

São Miguel do Fidalgo, PI.

2310. Anafrodisia para os domingos

A verdade é que agora
eu tenho um coração liberto
Sem anseios turbulentos
sem vontades imaginativas
carcomido pelo tempo
corroído por desastres ácidos
sem carga de culpa

A verdade é que nada
mais o aflige ou provoca
Sem esperas ou esperanças,
passeia calmamente
por domingos vazios
tal e qual sextas vibrantes

A verdade é que um coração só,
quando bem sabido e sentido,
torna-se refrigério amigo
que até se pode atravessar,
só que seja,
qualquer domingo sem ímpeto

Paes Landim, PI.

2306. Fé

Mãe nossa que está em tudo
Indizível seja o seu nome
Sempre feita sua sincronia do acaso
tanto na terra, quanto no fogo, na água ou no céu
O pão e a água que nos mantêm
dá-nos sempre sem troca
Acolhe nossos pensamentos
assim como todos pensam sempre
pois que sempre se pensa
Nos livra do bem e do mal

Amém

São José do Peixe, PI

2307. Lição de como se proceder

No Paulínia Club ela me fez de sofá
deitou-se como se eu fosse um divã
disse-me bêbada coisa vária e vã
propôs-me que eu a fosse apunhalar

No Mais Um Pouco ela pirou
tomou ducha de água fria
dizia estar em brasa a perseguida
e ao fazer xixi ela corou

Na Lanchonete do Socó pediu pão e café
olhando perdida para todos os lados
esperou o pedido fumando dois cigarros
comeu tudo num piscar rindo do Louro José

Na frente do Hotel Lourdes me beijou
acenou para mim quando eu adentrei
e disse que prazer maior foi o que eu lhe dei
foi-se embora com a paga e nunca mais voltou

São José do Peixe, PI

2304.

No interior, o tempo existe
Pinga como as gotas que
caem de uma torneira mal fechada
Cada segundo te percorre
qual mergulho lento em água de açude
Até nas frestas de folhas
que espalham a luz no chão,
vê-se o tempo pairar e se amansar nas têmporas
No interior o tempo te toca os poros
Não é a impressão de um sentido
Para além de se sentir, ele existe

Itaueira, PI

2301. Urubus

O sol reina no céu
O reinado imperiosamente azul
possui um arauto impávido,
negra presença que flutua
mansamente acima da brisa boa
que maneia minimamente
o ânimo de continuar abaixo
desse tórrido reinado

Lindamente arautos urubus passeiam
sem se darem conta de
que eu os invejo

São Miguel do Fidalgo, PI

2295. Marcela I

eu mesmo queria apenas
que você se apoderasse
dessa minha descrença
que me desse um nó na cabeça
e se possível nas pernas
que me ajudasse a juntar
todas essas partes naquela
coesão que ocorre
quando do encontro de dois

eu mesmo queria apenas
que sua manha
se fizesse presente todas
as manhãs
e que esse seu riso frouxo
contagiante prosa que
não se quer acabar de ler
ficasse retido no tempo
pelo tempo que fosse possível
para que o humor ainda
valesse a pena ser sentido

eu mesmo queria apenas
dividir quartos vagabundos
com você
te introduzindo a essa
patética, mas sempre poética,
redundância das FMs
de recepção

eu mesmo queria apenas
que você quisesse
o que eu tanto quero
num paralelo perfeito

São José do Peixe, PI