2124. Doidona

Porque eu ainda me derreto?
Já vi todas as pistas nos seus olhos puxados
que me olham miúdo e se abrem ao mundo
Vi as possibilidades ali estampadas
e sempre o comodismo de outra situação
Vi que o desejo sempre foi apregoado
à cruz fincada na moeda da troca
ao que lhe desse mais para os cálculos do ego

E eu ainda me derreto.
Esqueço até da minha face de merda
e dos meus cantos com discos furados e empoeirados
Tentando rebolar ali pra você
como se no close entre as luzes da festa
pudesse submergir algum rasgo de vontade
e o embate enfim houvesse

E mesmo assim, nesse frio, eu me derreto inteiro!

2116. Preparem-se

Descolem a caixa de cerveja gelada
ponham a pinga mineira à mesa
pro churrasco, só carne de primeira
vinagrete, farofa e arroz branco
arrumem o surdo, o pandeiro e o cavaco
levem amigas, amigas e amigos
de preferência mais amigas
levem, enfim, todos que estiverem desiludidos
e até mesmo os bobos coloridos
mesmo os que acreditam na humanidade
se quiserem, podem levar até padre

O dia pode ser qualquer um
agora, não pode ter tempo ruim
dor de cabeça, quebradeira
se a grana faltar eu pago o cartão mês que vem
ou ano que vem, sei lá o que que tem?
O banco já me rouba todo mês
pessoas te roubam idéias todos os dias
amores roubam seu coração a cada meia hora
idiotas roubam sua alegria em cada esquina

Tá combinado então, vamos comemorar
o início da vida com esse fim
e o fim da ilusão!
Preparem-se, pois o sangue está nas pupilas
pulsando como um raivoso cão
Bebamos, pois, em consternação!

2107.

O mundo tem essa voz, esse som que te rememora o projeto traçado quando ainda com doze anos, logo após a primeira comunhão. Pouco depois do batismo cristão quisto e não sentido. Queria ter sentido Deus naquele momento, mas não consegui. Molhei as têmporas, comi seu corpo consubstanciado em trigo, ajoelhei-me e tentei. Juro que tentei. Foi ali, naquele momento de desengano, naquele ínterim de decepção que o mundo passou a ter essa voz e que lançou ao ar esse anseio pela liberdade de poder nada sentir e conseguir ainda sentir tudo em lapsos automáticos de dor e torpor.
Sempre cansado, esse sou eu. Sempre fatigado. É um fastio que leva os pés à busca do exílio. A expectativa eterna de um quadro composta pela meia luz fraca de um abajur, o gosto da certeza de que não se fez o possível, um cigarro aceso e um cinzeiro cheio de guimbas, aquela dose de uísque sem culpa, duas pedras de gelo, um apartamento alto numa cidade em turbilhão plenamente numa noite de quarta-feira que invade a varanda e compete incisivamente com a meia-luz do abajur. Ali no quadro, que mais é filme do que quadro, eu. Perdido entre tudo, mas sabido ainda. Com meus mais de vinte e poucos anos, vários amores às costas e a certeza de os ter perdido entre uma olhada e outra para o lado. Sabedor de que tudo foi vivido e deixado onde se faz sentido: dentro de mim, em mim, eu mesmo.
“Não sou eu quem vai ficar no porto chorando”. Inteiramente cônscio da missão cumprida. Só. Como mesmo no ventre se está. Como mesmo quem carrega o ventre cheio é. Finalmente sem paranóias. Finalmente sem a preocupação de quem vou afetar. Finalmente só afetando a mim. Com essa voz dando o tom. Decepcionado com a falta de Deus. Sem forças para buscá-lo. Mas vivo.

2108.

Não é simplesmente a loucura, um estado de graça.
Não é simplesmente a loucura um estado de graça.
Não é simplesmente a loucura um estado de graça?
Quem disse tamanha asneira? Onde estava esse com a cabeça? A loucura é, pois, um estado de graça. Ela vem se apoderando de tudo o que pode, como num arrebatamento inevitável.
Essa é a loucura. Um estado de graça. Um estado e de graça. Uma graça que te pega pelo pé e pela mão. Faz cócegas no nariz quando não é pertinente. É graça. É loucura.

2103. Existem vários tipos de cigarro

o que se acende
pela manhã e
tenta te conectar
ao mundo

o prazer depois
do prazer,
esse mesmo pós-coito

o que te anuncia
a liberdade de
escolher continuar
sua vida rumo à morte
como todos,
fumantes ou
não-fumantes

aquele que passa
desapercebido diante
de um memorando e um ofício

aquele que não se
suporta depois de
uma carteira e meia

tem mesmo um que
ajuda nas funções
intestinais

existe esse que é
sinônimo de
um cafezinho e boa prosa

tem o que alivia
a garganta depois
de uma boa dose
de aguardente

o que te aprisiona
num leito de hospital

o que te deixa
um oitavo mais leve
durante ou após
uma contenda

tem esse que preenche
com fumaça qualquer
momento vazio

existem vários tipos
de cigarro
mas, depois de
tanta Souza Cruz
percebe-se que
nenhum cigarro é
um Cruz e Souza,
acaba a poesia

e esse agora,
o último,
fica sendo o melhor

2104.

em algum momento ou lugar
perdi a consternação e o brilho nos olhos
o sorriso não maculado
a fé e o apego ao ato fortuito de
vislumbrar o mundo como algo possível
de se estar e ser rodeado do que possa
ser chamado por bom ou belo

essa coisa de se pegar olhando o que
é apenas sutil ou simples
como o azul imponente do céu
pelas frestas dos galhos já secos das barrigudas
como falar com deus por letras
poucas, mas quistas e leves
como desvendar nuvens e estrelas
como saber qual face a lua mostra
como ainda encontrar ternura
num rebolado que passa solícito

queria a beleza novamente
o encantamento fácil pelo mundo
a descoberta que trouxesse vontade
essas coisas que ficaram perdidas
entre um olhar blasé qualquer
e o desenredo de um romance
que fica pálido e com parágrafos
imensos e monótonos
e que insisto em chamar de vida

isso que se consumiu no momento
em que o estado de graça
foi asfixiado pelas mãos brutas da
necessidade de se manter vivo
mesmo sabendo que necessidade apenas
não mantém nada vivo
apenas possibilita à carne fluir sangue

em algum momento ou lugar
deixei não o que fazia a vida
ter sentido, mas sim,
o que me fazia sentir a vida

2105.

não sei se sei seu nome
pesquei um pouco quando disse
também pudera
o papo estava tão bom
que até tucunarés se avistavam abaixo de meus pés
davam pulos no ar
foi bem quando você falou sobre o estado do ser
pensei Goiás
você disse insustentável
quando acordei você já dizia o mesmo a alguém
e agora não sei nem se você existiu mesmo
com ou sem nome que lhe caiba

2106.

deixar o mundo entrar por instantes
carregado de partículas de poeira e memórias
permitir um pouco que o frio percorra a espinha e se instale nos pêlos
a vida sempre ocorre fora do que se pensa que ela é
a vida sempre pulsa lá fora
e é necessário deixar o lá fora entrar e se assentar minuto que seja
com a cara do mundo
que é sempre esse amontoado de arquétipos empoeirados já postos dentro de sua cabeça

2099. Poemedredon

Preciso costurar um poema
pois versos soltos em retalhos
de neurose foram postos
sobre a mesa

Tem um dia azul cinza
tornado transtornado a
cair feito viscose
Tem a cor da dor de tudo
em dó em tiras de cetim
O motor da saudade
censurada num corte de brim
Meu dolo no consolo pouco
do si estampado em seda chinesa
A lonjura que apura
o Campari em algodão cru
Tactel carcomido como um
corpo dolorido e não dormido
Há o espaço da vontade
que invade sem poder cortado
numa peça de linho

Pego tudo, junto um pouco
crio um padrão mínimo
costuro um tanto e pronto
está feito um abrigo contra o frio

2095. Voar

só queria um sussurro

tipo

“Rue De Mes Souvenirs”

no ouvido

o som descendo até o pescoço
trançando as pernas cúmplices
trocando os sentidos, simples

algo que fosse inteligível
só a dois
como dois e dois sempre são dois

sussurro
ao pé do ouvido:
“Errant dans les rues de mes souvenirs”

mas vozes andam longe…

2097.

uma paz basta
agressiva
ou mesmo sem graça
qualquer coisa que
seja,
mesmo breve,
quem dera leve
num algo que
não fosse possível
pensar
e que sentimentos
fossem apenas
notas sensoriais
sem nenhum ai
só paz
sete palmos talvez
cinzas ao mar quiçá
mas seria paz
derradeira
passageira
paz