0537.

Queria um instante
em que encontrasse aqui
uma humanidade possível
que travestisse esse meu
verso de normalidade
que eu percebesse aquela
incoerência humana
que desistisse desse verso
e numa sacação viesse
a encontrar também a
realidade e daí então
não mais sofreria.

0536.

Tenho vergonha de minhas mãos
Elas são macias e limpinhas
Não se trata de um simples fato estético
Mas sim e antes de tudo
quase que ético
pois se não, com barro e lama
se resolvia, diz má língua
A questão é outra
sobrevivo bem apesar de não
possui um calo sequer às mãos

0534. Muso

será que sou matéria-prima
para a poesia de alguém?
será que cantam meu nome
ou o levam para o terreiro?
será que posto numa mesa
de apostas já fui colocado?
será que sonhado entre
fronhas e vergonha já surgi?
será que objeto de desejo
já obscureci dias de alguém?
será que já fui noite mal dormida?
será que já fui dúvida?
será que já fui memória
longínqua de alguém num banheiro?
será que já fui desejo?
será que alguém cata
a poesia que entorno no chão?
será que rondam minha casa
e procuram meu telefone na lista?
será que dia após dia alguém
acorda e pensa: é hoje! com minha
despretensiosa figura em mente?
será que desconcentro e desconcerto
alguma pessoa quando próximo?
será que ódio e inveja fazem-se
em algum coração por minha culpa?
Será que sou saudade?
Será que fui presença?
Será que sou utopia?
Será que fui esperança?
Será que escondido alguém me espera passar?

0531.

Sempre falo que a culpa é minha
Mas pro caralho com isso
“Todos nascemos em meio a fezes e urina”
E a culpa não minha somente é
Tenho as mãos sujas de sangue
Mas a premeditação é de outrem
Não me coloque a unidade do crime
Assumamos a merda e nos limpemos assim

0532.

Não mais se olha a face
Depois de palavra dita

A palavra cala o olhar
A frase cega por completo
A oração paralisa um lado do corpo
O discurso mata

Mas se descoberta
A gênese da palavra:
A palavra maravilha o mundo
A frase reluz tudo
A oração voa o sonho
O discurso liberta
E no fim só uma palavra

0527.

Vermelha, te vejo. – Vermelho
Como o sangue de minhas veias
– que à cara sobe
Vermelha, te sinto vermelha
Companheira. Mostra-me eus
tais, que não se vêem tem data.
Vermelha como o sangue que
escorre após teus dias de ira
Vermelha como teu sonho, sono
e luta. Vermelha como é morena

0521.

na academia penso em como mudar o mundo
cito beltrano em profundidade, cicrano em conhecimento
e do alto de minha carteira organizo um seminário
sobre a sustentabilidade de Nietzsche de acordo
com a visão freiriana de ecologia subatômica
profícuo, pragmático, prolixo por fim
o seminário é um sucesso: estou com um pé no mestrado
só tenho que lamber alguns sacos e o outro já há de lá estar
e, já mestrando, posso mostrar ao mundo a minha proficiência
na atualíssima área de estudos de impactos antrópicos
sobre a subumanidade do sertão nordestino
ah! a ciência é mesmo uma maravilha, com o subsídio
da filosofia então… que soberbo! mas por que será
mesmo que o mundo está na mesma até agora?
ah, depois eu penso nisso, já estou com um pé no doutorado
e tenho que tomar cuidado, pois minha boca está ferida

0522.

com licença poesia
desculpe se te perturbo o sono
mas preciso de uma ajuda
e acho que só você há de me dar
nem teorias, nem teses,
nem transes, nem tensões
nem tesões, nem tecos
nem nada a não ser você
pois me perdi, não me acho
e quem sabe no relance
de uma metáfora
defina-me novamente
pagamento não espere
pois sou pobre qual asceta
juramento não farei
não sou analista para
crer tão mágicas as palavras
amor eu não te darei
estou seco como caatinga
a única coisa que posso oferecer
em retribuição serei eu
encontrado quem sabe
ou talvez na pior das hipóteses
(ou na melhor, quem sabe então senão tu?)
disperso em indefinições
mas vá, ajuda-me novamente!

0517.

hei! alguém poderia salvar nossas vidas fazendo um favor?
falta-nos leite e mel para nossas dermes e gozos
excede-se poeira e mofo e tais cousas dão-nos alergias
alguém se habilita a retirar o pó e consertar o vazamento?
pela Graça de Jesus, apareça alguém! alguém que de
tempos em tempos desligue ou aumente o ar condicionado…
que malfazejo, só um favor desse tamaniquinho
não custa nada! prometemos a esse fulaninho tão prendado
que apareça, que se nos servir a salvação dar-te-emos outra Salvação
e assim todos salvos seremos assaz felizes na perfeição
você! serve você mesmo, é você: decrépito e maltrapilho
qual custo de sua desgraça será se também não viéreis até aqui já!
queimar nas labaredas de enxofre e nos vapores em brasa é
o teu destino se recusares esta oferta tão bem comedida!
mas vá… pensa bem salva-nos de nós mesmos
queremos grades altas e de ferro bem duro e espesso
queremos muros três vezes mais altos que as grades
e que sejam de concreto e ornados de ouro e brilhantes
afinal, é o fim, mas ainda assim admiramos o belo!
e com letras douradas e miúdas
(quem sabe com seu sangue) lá no canto da parede
poremos seu nome como congratulação por tal feito tão heróico
mas peça mais nada além disso, estamos à beira do fim
e o fim é próximo, não nos obrigues a dar-te umas pauladas
mas oh! não olhe assim… por favor, tememos a indiferença
faça tudo mas não finja que não estamos cá em tua frente
nós até de joelhos ficamos, de quatro até se precisar
mas não vá embora! a casa também é sua
a hipoteca está em nosso nome, o contrato de sua alma também
mas de que adiantará nosso fim se ficarás só nesta vasta terra?
tem pena destes que vos falam. tendes misericórdia
ora pro nobis, gratia plena. fique aqui não vá embora…
tome ao menos um café. salva-nos, salva-nos…
salva-nos!!!

0519.

valho-me de um acaso
para suportar o agora
e no futuro acertar contas,
pois sou como todo
homem: um boçal
medroso. ainda bem
que tenho esse medo,
pois senão já além
eu era e não mais homem
seria. seria
somente uma imagem
nalgum coração
desapercebido e distante
a pulsar de quando em vez
sem realidade

0516.

uma colcha de retalhos costurados com ponto frouxo
e uma Formiga acima dela vagando entre nós
sem lógica (mas com lógica) não quista
a Formiga percorre o alhures da colcha
a colcha forma nenhures confortável
a colcha possui fios duros
e prendem as patinhas da Formiga
onde será que debandou o cordão?
e o mar de retalhos dobra-se ao armário
a Formiga agora jaz nas entranhas de uma aranha

0511.

Daquelas metáforas todas
a carapuça tão firme
Palavras de outrem a outrem
em mim tão eu
Reflexos ou espelhos cônscios?
Eu numa outra idéia
refletido em minha própria imagem
metáfora de mim mesmo
Daquelas músicas… há tão
eu em cada fragmento
Que não sei eu somente
Senão eu fragmento de todos
Ou eu todos, metafórico
¬– Comunhão eucarística

0504. Nováreo I

Um sample não é cópia
é tradução, é reverso criativo
de toda a tradição da criação
é criar do criado
é colorir o já pintado
referendar sai posição
glorificação ou malho
Salve a nova poética
da influência-inovação
esse mix transdisciplinar
multi-artístico
(e aqui no final, quem sabe,
um sample de uma imagem).

0500.

Fala-se em brado,
detentor de vias de fato,
sobre a quase morbidez
marmórea dos habitantes
de Brasília
Cada um como uma
micro-ilha
cercada de distância
por todos os lados
São doudos e não doutos
os que assim falam,
esquecem-se do calor
inerente à condição humana

0497. Cárcere

Cooptado a um plano de outrem
Foi-se envolvendo na trama
Perdendo-se num labirinto
Perdeu seu senso numa dama

Envolto em lascívia plena
Proferindo em plenitude que ama
Aprisionando-se num jogo dúbio
O mar azul virou lama

Sem saída e sem Minotauro
Súbita morte de utopias
Soluçou derradeira lágrima:

“Sem alma, o que tu farias?”
Pegou uma espada às mãos:
“Findo-me e cravo-me de apatias!”

0495. Em prol dum encontra-se

Nalgum lugar me esqueci
Nalgum ponto indefinido
Um meridiano longínquo
Um paralelo perdido
De certo num acaso
De fato numa entrega
De longe, num nada

Onde jaz minha luz?
minhas faces? eus?
Só no infinito há um quê
de possibilidade
Marcas de tudo o que
se perdeu (e até o motivo da perda)

Sem lamento, só a constatação
Pérfido, mal me olho ao espelho
Como bom sagitariano, corro
– um dia, quem sabe,
me veja nalgum lugar (eu novamente)