2907. Acento

Lá em casa paraavam
diferente os meus pais
Não era um paraês
nortixta que come
galínea fritínea,
era um paraês das grotas
Não era coisa dita num tocantinês puro,
tava mais prum araguaiês
ou um mato-grosseiro goianês
com acento sul-marabárico
Língua cafusa que mistura
cupu-açu com pequi
no paladar e sai a palavrear
dialeto brasílico

Aí cafusão mor foi quando
adentrou nova fronteira,
pois quem me habitava o sotaque
por aquelas bandas de casa
também era Bia
Grande Macabéa, Bia baiana
de seus quase 40 quilos
distribuidos em seus quase
1,50 de comprimento
O pequeno do corpo
não ajuntava no todo da língua
e ela me baianava ouvidos e boca
com essa moleza firme do
centro da Bahia, aguada pelo Corrente
e dura como espinho de quiabento

Daí acento estranho formei no céu
matuto urbano ceilandês
paraado num rural sertânico baianês

2904.

é flor, a bossa me pega
como versos me entranham
e essa estrutura sinuosa
que rompe ar na cabeça
deixa porta aberta no firme
das linhas que teiam
o amor aqui dentro

a bossa toca
se aloca pingos de teclas
na imensidão do bem-querer
e quando vejo, vem de leve
e rompendo tudo junto, você
como bossa-ser

2897. Apagão

esse estágio arabesco
de migrar imagens explosivas
– visões em fogos de artifício –
pelo cume do céu limpo de fumaça
faz ver no vão negro da noite
mais formas do que em nuvens

uma polifonia de quartos de tons
numa semifusa escuridão
acompanhando os olhos
pela sinfônica antimeridiana
hora de um sol perperndicular ao chão
lá na China

raízes tomam conta da noite
galhos rasgam o firmamento
e pequenas porções de momento
pingam formas cadentes no emaranhado
tecido que cobre nossas cabeças

2888. quadro

você faria as suas coisas
esmiuçando o que não foi dito na história
e eu ficaria ali em frente à tela
olhando seus ares de guerra e paz
enquanto tecia as palavras nas teclas e nos eletrodos
sentindo o cheiro doce da canela cozendo na cozinha
e a meia luz da tarde chuvosa
estrondaria no momento em que seu sorriso a pino
se abrisse para o meu
que já se prostrava desde o primeiro encontro
e isso tudo até aquecer no ar essa coberta da noite
que pede para unir pés gelados

2887. oia oia, é ela

no vento nas folhas
no ar que se achega
o meu aconchego
na brisa que chega

é ela

no estrondo do encontro
no beijo nos pelos
arrepio que entoo
balança a estribeira

é ela

no tempo que muda
na coisa que dura
o tempo somente
do vento que pesa

é ela

que fala palavra
feita movimento
que corre o corpo
lânguida e bela

é ela

oia oia, é ela

2884.

Desculpa-me amor
pelo dito
e pelo feito
a intenção não foi essa
tampouco aquela
a coisa ou a cisma
era de que antes da chuva
os calafrios me arrebatassem
e que cada gota
trouxesse em si
um olor de querer mais
e o tato de querer sempre

Mas, desculpa-me amor
o amor não veio
ficou amor somente
sem que houvesse sementes
para maracujás
que se arraigariam nas jaqueiras

Enfim, desculpa-me desde sempre amor
por lhe ter sido sem sê-lo
e sem selo que se colasse
nas cartas que escrevi para o tempo
de antes, durante e depois da chuva

2869.

murmurar o tempo
sob as costas banzeadas e bronzeadas de maresia e praia
enquanto um sax
passa a língua nos segundos e eu
miro os olhos estúpidos dos
turistas ávidos por uma lembrança
qualquer que seja:
colares, bajulaques, quinquilharias corporais,
noites de sexo nativo
duramente mola
pica, boceta, sola
percorridos os uivos do corpo
durante todo o dia
nisso que ocorreu ainda agora

2868. África

lá começou a diáspora humana
dias ásperos de se comer carniça
noites derradeiras de se domar o fogo
tardes ternas de se inventar linguagens
manhãs divinas de se dominar
duas patas, polegares e massa encefálica
madrugadas quentes de se criar o
amor frente a frente
olhos nos olhos
essa coisa sendo amorificada

algum cerrado africano

por isso que essa África,
que frita-me a mente,
fica-me comunhão com o mundo ânima sapiens sapiens