3901. nu

ainda que a nudez ataque tua face
se desnuda
tira as vestes do medo do fluxo
entra no turbilhão

se tem base, teus pés tem chão
se acredita, não importam os rios, os riscos, os rasgos
tampouco a lama, o movediço

o medo pertence a quem não conhece sua própria nudez
e só se sabe em sua mudez
agressiva por detrás das luzes azuis

se perde as raízes por qualquer nudez
é porque já se apartou da seiva
do solo

eu me desgarrei
meus rizomas se entranham na esfera
sorvo o grosso de todas as terras

                        nu

3900.

a manha é de fuder
toda a indexação de conteúdo
a manha é de fuder
toda a indexação de conteúdo
a manha é de fuder
toda a indexação de conteúdo

amanhã há de fuder
todo o algorítimo do mundo

toda a moral binária sectária
será revertida em bits ao acaso
tudo será revertido em bits ao acaso

todas as correlações serão recorrelacionadas
todas as correlações serão recorrelacionadas
todas as relações serão recorrelacinadas
todas as correções serão erradas

todas as imagens de jesus serão redirecionadas
para marcus de feliz se ânus
todas as imagens de jesus serão redirecionadas
para marcus de feliz se ânus

todo plúmbico será nuvênico
tudo plúmbico será nuvênico
tudo nuvênico desabará

todo o armazenamento será descarregado
estratos de estratos de estratos
carregados de partículas destratadas
descarreadas                   diz farsadas

3898. Demonstração da coisa viva

O que nela mora
só nela mora
ela
a coisa viva?

Por que só nela se assenta
nela
só nela
ela
a coisa viva?

Por que não nas pedras?

Por que só nela
ela
mora nela
a coisa viva?

O que é a coisa viva?

Que reside nela
só nela
ela
a coisa viva?

O que é a coisa viva?

O que é a coisa viva que insiste?

O que é o alinhamento egoico
entre eu e a coisa
que nela
só nela
ela
a coisa viva reside?

O que é o alinhamento especista
que me divide
que nos divide
entre a coisa viva
a coisa que nela
mora ela
a coisa viva
e as que nela
não nelas
não reside ela
a coisa viva?

A coisa viva mora no sol
ainda que vida lá
nela
não resida

A coisa viva mora na terra
vive na terra
entranha a terra
dentro da terra
é ela a própria terra
que nela reside ela
e mora nela
ela
a coisa viva

A coisa viva vive

A coisa viva inclassifica

A coisa viva pulsa vai conecta
o que
tudo o que nela abarca
e tudo o que nela abarca
é vida

é vivo

E porque ainda insistimos
nessa espasmódica
modalidade de pensar
de pensar um mundo uno
com apenas partes que vivem

se em toda parte mora ela
nela
mora ela
ela
a coisa viva

3895. costura sutura

delinear o carinho
dentro da escuridão
desenhar o lábio linho
tato boca língua mão

tecido tez
mil fios que atam
essas partes que fogem

disparada disparate
manto de insensatez
desgoverno       as linhas

                   emaranham

                   os pontos      unem

3894.

paleta de tons eólicos
redemoinhos sacis terras pós
cores de vento impermanentes

pintar é um ato romântico
fuligem no peito câncer fumo
catalisadores que disfarçam a inspiração

pintar gera um estado de tuberculose
no plexo solar
pintar desgasta a superfície
erosão sedimento tons vermelhos
e um sol abrasador

sinusite tuberculosa
sensitividade da pintura mediúnica

pintar é um ato intransigente
impulso do pincel paleta tons de sangue
 

                   cada imagem
                           rodopia ao vento
                   cada textura

3888. Aldebarã

do nascente e do céu
donde sou vou e irei

quem segue
aquele que segue
o olho do touro
o aleph a própria volta

segue as plêiades
as primeiras do horizonte

o perseguidor
o mago
o brilho laranja resquício do sol na noite escura

do nascente e do céu
donde sou vou e irei

                  papa igbo que veio do oriente
                  acende a candeia no céu
                  donde sou vou e irei

3883.

o problema são as cracias
as arquias
tudo crarquicias
as propostas crarquicias
as eleições crarquicias
as promessas duplamente crarquicias
os templos igrejas legiões avidamente crarquicias
o amor da internet vídeo-cassete os carro loko crackcrarquicia
o paraíso perdido crarquicia
o éden os restos da arca e a aliança e o cálice cricrarquicia
cracias arquias esses são os problemas

posto que há um problema
sim lho há

não sinto os ismos como o defeito mor
o problema
eles são humanos apenas o tanto
mesmo os que se-lhe vão ao infinito do fim
são humanos
deuses deusas o além
humanos humanas homo
são desejos e o desejo de ser não desejo
perfeição
pode se dar no fáscio do turvo medo
no nazi do temor de temer
na igualdade da desigualdade de quem se acha livre da história
ou na igualdade de quem se meteu na história e a tem por fim
mas são baba humana e gozo e sêmen e sangue
anseio alcance

não são como as cracias as arquias
as arquiteturas neutras que manifestam o poder
como se não fossem ideias desejos mas fatos
razoáveis
as mona as demo as anar as pluto as buro todas
fingindo um ar de natureza
de razão
proporção áurea
ventre-livre
proteção acolhida LEI
e quem as protege como se escondem
capas e mais capas e ideogramas labirínticos labarínticos
pórticos e portais e vestais vendadas
ascensão das castas intocáveis como se naturais
cartas marcadas tarot nefelibata do momento das nuvens de veneno
LEI da natureza intocável

as cracias
as arquias
as crarquicias
travestidas de verdade
monolíticas sobre a imensidão da vida bípede
o fim da festa mais demorado
louros glórias pódios champanha
tudo cracias tudo arquias
tua mente e teu fim
teu medo e teu coma
cracia
arquia
crarquicia

em toda estrutura dada mora o culto a um ego
atemporal diacrônico e sem cronos
despersonificado no horizonte da história
para quem a vê e crê que ela exista
muito além de cinco mil anos atrás
muito além de cem mil anos atrás

mas houve sim um momento sem cracias arquias crarquicias
houve um além antes da natureza dada
definitiva

houve o que hemos de entender

 
                                                             ainda

3882.

sublimação do éden
meu desejo se compondo
nos seus dedos

um quadro matizes de rosa
sobre um fundo azul de verde de mar
seus dedos à mostra

descomprimimos os poros
fendas de areia e sal
o sol dos seus dedos

eu revia a cor textura corpo
nunca vista       dourava
os seus dedos sabiam o ouro

meu corpo hirto amolecia
cem mil léguas submarinas de ar
conduzido por seus dedos

supunha a raiz do sol casa das cores
quentura das formas
ainda que o frio tremesse seus dedos

senti certo a terna tenra capacidade
acolhida e lançamento       solar
do paraíso dos seus dedos

                   meu corpo em coro
                   me dizia

                   na língua dos seus dedos

3881.

a poesia como ato de guerra
como arrebatamento de vontades
como a luta contra o apostilamento dos desejos
como a consubstanciação da brutalidade onírica

a firmeza da modularidade das palavras
balas
a inteireza da desestruturação racional
mísseis
a força dos encantamentos ébrios
minas

bombas granadas morteiros
a poesia da guerra das palavras
lançadas como num front
trincheiras escudos barreiras
romper os peitos os crânios

matar

a poesia que fere
a crescente do poema atômico
os atos impensados os códigos
a blindagem
senhas sanhas insanas

a poesia como ato de guerra
lâminas machados espadas estopins
estilhaçando o enquadramento do mundo
que só pulsa
pulsa pulsa pulsa mais
a covardia da guerra plena
contra quem sem armas

                 a não ser suas mãos
                 e cabeças
                 e couraças

                 coração cutelo
                 pouco ar

                 poesia

3880. sinastria

saca a saga selvática
solidão só solidão
sorumbática
sapos saltando sobre
o sifão semiaberto
sussurrante
sótão aos solavancos
segundos simplórios serenados
solidão silenciada
seguindo sorrateira
soerguendo secas
sempre sempre significadas
susto seita sectária
solitárias suavizadas
separações sistemáticas
só a senda sinistra
ser sendo são
soluços silvos saques
sinistros

saí saindo
saí saindo

sal sobre a suave superfície
sintética
sins si sínteses
s.o.s.
só segui seus sons
singularidades simpáticas
séculos sabendo-te
sem se saber o sabor

segui seguindo
segui seguindo

segui as sincronias
sorri seu sorriso
saudei seu sol
senti seu ser soterrando
solidões
saga sedentarizada
sede saciada

                  sorvi sua sinestesia
                  servi-te seiva

3873.

toda tecnologia é mágica
assim como toda técnica é magia
e havia a planta toda dentro da flor
memória da forma
momento do conteúdo
repetição e única possibilidade
do mesmo jeito que
o aroma da beladona
na noite inebriava
a luz do poste que
ninguém ali
na praça
sabia como acontecia
nem o cheiro nem a luz
aqueles elétrons todos
sendo evocados desde
a cachoeira barrada
e ela tentou capturar o
momento que o aroma
da beladona se misturava
com a luz do poste
e o preto do céu
e ela invocaria sua ancestralidade
com aquela imagem
cinquenta caracteres sagrados
e três ícones profanos
magia concebida na
espontaneidade do instante
dentro de uma rede
jogada ao mar
vela acesa na praia

                  a memória do poste
                  no centro da praça

3872.

descargas elétricas de felicidade, como se eletrodos de endorfina se aglutinassem na espinha e se contornassem nas reentrâncias do pescoço e dos antebraços, friso despudorado dos apelos das línguas ou linguagens etéreas das mãos a quase tocar quase e toca e dispara as descargas carreadas de chapações elétricas que afetam o corpo

                  e o prazer gerando o suor eletricamente bem no meio da seca

3870.

já houve quem quisesse
preservar os sons dessa cidade
como se patrimônio os
caminhões rompendo o asfalto estatelado
ou se o papo preconcebido global
tias tios nas calçadas
fosse memória
a não ser implodida pelo tempo

tudo é memória a ser implodida pelo tempo
tudo é passável e permeável
tudo é som sucumbindo ao ar
tudo é possível e passível
tudo é passado a todo segundo
tudo é posse do fim
tudo é rompimento do futuro
tudo é presentemente preconcepção
tudo é calçamento asfáltico no globo
tudo é memória
tudo é implosição-momento

                 desde antes de tudo que não era som nem silêncio e era já

                 grande-explosição

3866. singularidades simpáticas

não seriam os ramos dourados
mimese mágica
totens desabando tábuas
tábulas fábulas alquímicas
mas sim pegadas entrópicas
intertropicais clareiras
savânicas
iansânicas
sônicas
rasgos dourados de luz
em cachos rizomáticos
no inteiro do céu
no avolumado do azul mais que negro

é que há vento
no sem fim de sentidos
do firmamento
porto cósmico para aquele
em que não há centro

e há essa voz que vem de dentro
e diz
trovoa suave enquanto há
raios dourados
no azul mais que negro do céu

não silencia os raios

3865. mãe lilith

livrai-me dos abraços abrasivos
pelo vento
livrai-me até eles
por todo o vento

livrai-me do enrosco
da quebra de sorrisos
dos objetivos
dos sonhos acordados
dos pelos das peles
dos gostos
do meu peito

livrai-me da voz
do aveludado da madrugada
da lambada da serpente
dos animais sonoros

livrai-me livrai-me
livrai-me

até livrar-me de me livrar
e por-se livre
desaprendendo
desprendendo

vento

3863.

por que eu olho essa tecitura
de olhos abertos
              como se desperto
se tudo se desgoverna
em sonho?

e detalha-se a composição
              – é dia de tristeza

o que se sustenta
é delicado nada agressivo
              – é dia de tristeza

cada milímetro acima
a coisa se dissimula
labareda negra num clarão
              – é dia de tristeza

o vórtex multitexturas
o morro líquido reentrância
a memória não falha
vibra
              – é dia de tristeza

as curvas as linhas
tudo ouriça o acaso
objetivamente
              – é dia de tristeza

tudo flui para o mesmo
momento co incide
              – é noite de alegria

3861.

fechar os olhos
caminhando na comercial
numa segunda-feira ao meio-dia
respondendo ao eco do calor
e ao tato aerado
de transeuntes

               minha língua era de osso
               e ouvia cada acorde
               reconstituído pelo abafar dos passos

               se eu fosse mais cético
               seria louco
               oco
               se me sobrasse fé
               seria bruto
               urro

a luz é só exceção
e vivemos por demais

atrás

dela