tua pele pluma
meus pelos
e planarmos
para além
apelos
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
tua pele pluma
meus pelos
e planarmos
para além
apelos
o mote é o mato
o mínimo espaço
guardado da glosa sã
era uma dor que começava na junção
do indicador com a mão
acho que isso se chama articulação,
a parte, não a dor
ou talvez a dor também fosse
articulada
ali começava e se irradiava
de dentro da parte esquerda
da senda canhota
quando a dor pulsava era melodia
intento e instinto
de vazar ferrugem
dor de deus
antes de decepar,
o dedo, não a dor,
acariciei-a por alguns segundos
e ela passou
férrea
cortei dedo fora
o sangue ferruginoso escorreu
a dor era agora etérea e no todo
e do dedo nasceu mais um deus
foi lá na lombrada
dos malucos
das doidas
já que não era quebrada
ao passo que tudo derretia
da sorte que dali
salvador não se via
caia caos kaya
cascalha de amaciar dureza
bem lá onde perdi um dedo
e encontrei uma mão
tudo saudoso como se não houvesse hoje
só há
ainda me lembro das manhãs molhadas
prontas ao resfolego do sol em manto orvalhado
se dar ao carpir ao cergir ao bater ao cavar
o barulho do sol na pele morena vermelha índia da terra
com seus regos verdes de sangue d’água
e seus pelos verdes de copas e pastos
tudo refugo da chuva brava que se abria dentro da noite lenta
e um frio invernal brumoso de tanta umidade
lesma caracol visgo de espuma
de bicho no toco do pau queimado
agora que nem fogo pegava
ainda me lembro que era depois da seca
a manhã de café feito para martelar os pregos
da vida nos mourões das cercas a serem enfincados
gosto de nuvem cinza planando baixando por cima
do chapadão com a quentura da infusão negra
a percolar gargantas como a água a entranhar
terras e ventres e vãos e peitos
vazios de angústias e cheios do próprio conteúdo da vida
ainda me lembro desses dias que se iniciavam assim
feito espera e esperança no batidão do sol subindo
e da água espatifando que nem ela própria só consegue
o buraco no chão se enchia d’água
um boi pastava ao lado
e eu bolava um porronco numa folha de embrulho
amolava os dentes no papel queimado
para sorrir melhor ao que viria
naquele dia que ainda lembro
a vida é algo que exige cautela
e cutelo
coragem
doses de expectativas
em gotas
controle da ansiedade
tua ânsia como a arma deles
não se assusta
o próximo passo é a novela
não se assusta
o próximo passo é a conduta
a sua
vai sem medo
só medo
gosta desgosta
sem desgosto
há um lindo esgoto
por onde nossos barcos hão de navegar
não se assusta
nada te remove
do lamaçal
você anda
não se assusta
não repudia faz uma nota um artigo
textão alguns caracteres
um dístico meme
reclama da intolerância
declama um poema esse
tolera
um tolete na sua goela
não se assusta
é a democracia
que demoniza
não se assusta
amanhã seu pescoço na forca
a forma emoldurada
cem mil poemas métricos
esperançosas três linhas
sobre ela na sua garganta
não se assusta
é só um sussurro
nada grita berra
não se assusta
não se assusta
isso é um eco
fantasia póstuma
textão
amanhã assassinaram sua liberdade
hoje
tudo enclausurado
mexerica na redinha
jeep renegade
saco preto dez real
hyundai ix36 (?)
jk em seu mausoléu
num giro sinfônico
de metas e metas
maluco explodindo
os cofre pega nada
o cano na boca
renegado
o cano do escape
renegade
catalizadores de consciência ambiental
quatro por quatro
três ponto oito
quarenta e quatro
coronha na cabeça
milicos descamuflados
bunda exposta na janela
e uma preguiça intertropical
o sol esquenta a mente
em labaredas de sinais
infernais
há uma lição
ainda a ser compreendida
nas imagens borradas
instaladas atrás das transversais
três gerações atrás
pra mais
no lusco-fusco das
memórias não apreendidas
tá no corpo
honra & desonra
catarse de movimento
incompreensivelmente
voluntários à vontade
dos músculos dos ossos
dos nervos
há essa lição que são várias
despercebidas porque
desensinadas
ninguém aprendeu
não houve silêncio
dentro do fogo
dentro da’scuridão
vozes ritmadamente
guiando os movimentos
dos corpos a compreenderem
os enredos dos seus
motivos de fluírem
dentro do espaço
tal e qual são
essa lição é dessa terra
subsolo e sub-versa
reverso da voz temerária
atemporal da pátria
é teu corpo quem fala
células de tatarás
a desobediência se viu
desde as auroras transatlânticas
até os ocasos pacíficos
corporificada
a cordialidade foi forjada
obediência servil
letra por letra nas páginas
oficiais
enfiada
cálices de sangue
coagulado
copas
o sangue todo vetor venoso entre as ravinas da pele gasta
a derme enferrujada
velhice cobre
folha da física
esculpe teu percurso entre
o galho e o chão
imagens absurdas
escondidas no fim do céu
no começo das abóbodas
o fractal os raios que te alimentam
esculpe os contornos do vento
no espaço grave de ondas
esculpe o pó que desgoverna
o arfar seco
entre as ranhuras dos
lábios sangrentos
nos lábios sangrentos o teor
quase a tocar
a futura folha da
física
nos enredos redes ramos ramas rumos
d’água d’ar d’areia d’alma
dançamos enredadas
enlaçados
espalhadas por entre
ao nos entrarmos
baby
sem rédeas arreios esporas
e na rede nos raiamos
barcos beira rio
nossos remos respiração
como recompor as partes
até se ajustarem?
fast bem estar colaborativo
start up down
aberto o capital
rumo ao dharma
a receita é fácil
água morna com limão
e linhaça
três vezes por dia
uma fatia de mamão
para meditar antes do sono
desapega do dinheiro
passa no crédito
debita a transcendência
ioga aos sábados
maconha de boa qualidade
aos domingos nos parques
é só desoprimir os músculos
terapia transpersonal
personal líder coach
e massagem plúmica
argila salgada vietnamita
doe desdoa
diz doo ainda que dor
dietas macro-solares
geofagia
relacionamentos orgânicos
com múltiplas afeições
instantâneas
monogamia iridescente
uma vida sem riscos
arriscar e viajar pelo mundo
jogar tudo fora
ao som do new age
capitaliza o momento
terreiro high tech
jezuis loiro saradão vegano
um teco de pó de palma
pirlimpimpim
tudo colado
super bonder espiritual
frankastral
ser se só
sempre
se ser
sem só
não te amo porque
não haverá fim
te amo porque há
fim
Desde a primeira vez, Orunmilá me falou quer era de amor e de herança. Eu sinto. Eu sei.
ainda que a nudez ataque tua face
se desnuda
tira as vestes do medo do fluxo
entra no turbilhão
se tem base, teus pés tem chão
se acredita, não importam os rios, os riscos, os rasgos
tampouco a lama, o movediço
o medo pertence a quem não conhece sua própria nudez
e só se sabe em sua mudez
agressiva por detrás das luzes azuis
se perde as raízes por qualquer nudez
é porque já se apartou da seiva
do solo
eu me desgarrei
meus rizomas se entranham na esfera
sorvo o grosso de todas as terras
nu
a manha é de fuder
toda a indexação de conteúdo
a manha é de fuder
toda a indexação de conteúdo
a manha é de fuder
toda a indexação de conteúdo
amanhã há de fuder
todo o algorítimo do mundo
toda a moral binária sectária
será revertida em bits ao acaso
tudo será revertido em bits ao acaso
todas as correlações serão recorrelacionadas
todas as correlações serão recorrelacionadas
todas as relações serão recorrelacinadas
todas as correções serão erradas
todas as imagens de jesus serão redirecionadas
para marcus de feliz se ânus
todas as imagens de jesus serão redirecionadas
para marcus de feliz se ânus
todo plúmbico será nuvênico
tudo plúmbico será nuvênico
tudo nuvênico desabará
todo o armazenamento será descarregado
estratos de estratos de estratos
carregados de partículas destratadas
descarreadas diz farsadas
tá errado
a riqueza é um rasgo
contaminado
nas regras da natureza
Uma caminhada, Êxodo de Vinicius Gomes nos ouvidos, sol no moleira, algo que veio, seca menos de 10% no ar, meus olhos não choram mais, só vão, como isso, que veio, poesia mediúnica no meio do rush, no contra-fluxo – meu corpo precisa saber.
O que nela mora
só nela mora
ela
a coisa viva?
Por que só nela se assenta
nela
só nela
ela
a coisa viva?
Por que não nas pedras?
Por que só nela
ela
mora nela
a coisa viva?
O que é a coisa viva?
Que reside nela
só nela
ela
a coisa viva?
O que é a coisa viva?
O que é a coisa viva que insiste?
O que é o alinhamento egoico
entre eu e a coisa
que nela
só nela
ela
a coisa viva reside?
O que é o alinhamento especista
que me divide
que nos divide
entre a coisa viva
a coisa que nela
mora ela
a coisa viva
e as que nela
não nelas
não reside ela
a coisa viva?
A coisa viva mora no sol
ainda que vida lá
nela
não resida
A coisa viva mora na terra
vive na terra
entranha a terra
dentro da terra
é ela a própria terra
que nela reside ela
e mora nela
ela
a coisa viva
A coisa viva vive
A coisa viva inclassifica
A coisa viva pulsa vai conecta
o que
tudo o que nela abarca
e tudo o que nela abarca
é vida
é vivo
E porque ainda insistimos
nessa espasmódica
modalidade de pensar
de pensar um mundo uno
com apenas partes que vivem
se em toda parte mora ela
nela
mora ela
ela
a coisa viva
verborragia estoica
místico mágica
magma
erupção
e um voo denso
vênus surgindo pela primeira vez
num céu elétrico
toda terra em suspensão
era apenas fogo sendo cuspido pela boca
e eu ficaria
aqui horas
inabitáveis
a dizer o que
me habita
delinear o carinho
dentro da escuridão
desenhar o lábio linho
tato boca língua mão
tecido tez
mil fios que atam
essas partes que fogem
disparada disparate
manto de insensatez
desgoverno as linhas
emaranham
os pontos unem
paleta de tons eólicos
redemoinhos sacis terras pós
cores de vento impermanentes
pintar é um ato romântico
fuligem no peito câncer fumo
catalisadores que disfarçam a inspiração
pintar gera um estado de tuberculose
no plexo solar
pintar desgasta a superfície
erosão sedimento tons vermelhos
e um sol abrasador
sinusite tuberculosa
sensitividade da pintura mediúnica
pintar é um ato intransigente
impulso do pincel paleta tons de sangue
cada imagem
rodopia ao vento
cada textura
já tive um saudosismo
uma saudade
quase um banzo
mas agora não é mais triste
não importa
sou contemporâneo
nunca é mais do que é
sempre é do tanto que é
e nunca não existe
eu agosto como tu agostas
há gosto
como em calor coloro
como em seca secas
e se em fumaça fumaço
queimada ar mada
da cinza nasço
fazer o possível
dentro do que possa
calma camomila
não precisa ser agora
segue sem noia
em tempos tão sombrios
não devemos deixar de pensar
nas flores e nos séculos
entrementes nada é tão definitivo
conquanto tudo transitório
vejamos a mecânica dos gases por exemplo
não podemos olvidar
peido é vento
do nascente e do céu
donde sou vou e irei
quem segue
aquele que segue
o olho do touro
o aleph a própria volta
segue as plêiades
as primeiras do horizonte
o perseguidor
o mago
o brilho laranja resquício do sol na noite escura
do nascente e do céu
donde sou vou e irei
papa igbo que veio do oriente
acende a candeia no céu
donde sou vou e irei
“é tão bonito quando a gente sente”
gonzaguinha e minha mãe
me compondo ideologicamente
todo mapa é uma metáfora
os aplicativos desmentem
nos guiamos por pós-verdades
para onde quer que elas nos levem
sem a poesia dos paralelos e meridianos
progressiva ultrassônica a laser
e a cabeça parecendo um acelerador de partículas
luzes rompendo a velocidade do som
sem pensamento a mil por hora
na falta de estrelas
reconheço constelações
nos postes de luz
sem ascendente
ou meio do céu
É como se eu tivesse essas contas a resolver e seria necessário apagar, zerar, saldar, todas as contas do passado. Não por ti, para ti, mas por mim, para que pudesse ser por ti, para ti. Se fosse em outro tempo… diriam, se tivéssemos nos encontrado lá atrás… dirias, e se for de outra vida? dizíamos. O certo é que fora nessa, não noutra. A via una desse momento presente, meu agora seu – ora direis: nosso, ouvir plurais, certo tens todo o senso e razão e sensibilidade –, sim, como todo eu se forma noutro – seu – s’ mais eu, designa o plural prévio preposto, distintivo da real posse – doutra – do si que se faz noutro – noutra – – – e como me faço agora assim: transcorrimento do passado até o agora em que me encontro junto a ti e penso em zerar o passado – me zerar? – para que me espraie e com teu espelho, refaça, reágua, ressaca até vazar. Mas a coisa se constrói na ida, na via, una, essa, nossa, o resto é medo, como o passado – medo. Cada bifurcação nos conduz à nossa via, a vida. Cada encruzilhada, uma esfera, retorna a si e nos fazemos, a ti, a mim, nós. Cada encruzilhada um nó nos caminhos – e quem não irá dizer que teus raios se fizeram foi no meu céu, ou que meu branco foi só pra ornar tua luz brilhante e que o firmamento se uniu ao vento para ser, não parecer? quem? pois que andei pelos caminhos abertos para ti e abri os braços para ti e até os próprios caminhos – eu digo, eu posso – eu que já sou um eu seu, que sou – s’ mais ou, designa a alteridade incontida a se expressar na dúvida, plural, prévia, preposta – – – – para ti que me faz, como nos fazemos. E a coisa se constrói no caminhar, e como caminhamos! As pistas de antes e as léguas desde o encontro. Por isso nos fazemos e nos compomos, eula que tume. Não, não são muletas, apoios, escoras, afinal, dialogamos já deitadas, horizonte de igualdade nos termos da voz, nos apelos dos olhos, na vibração da carne, uma hora por cima, outra hora por baixo, ou de lado, ou de quatro, ou de beira, ou de mãos. E toda hora de afagos, carícias, primícias, delícias e dengos e toda sorte de cafuné, da cabeça aos pentelhos vão fazendo e compondo. E certo que devem dizer: afoito, a foz é definida: fim. E’u só diria: fodam-se! Dos meus figos, filos, filhos, foices, flores, falo ‘, eu. Mas eu sou eu e sou outros e essa porra de tantos intermédios. Mas o caso é que agora eu sou esse que daí também sai – s’ mais ai, designa a dor locacional desentranhada e transposta em gozo, disruptivo de onde para o longe daqui distintivamente plural, previamente preposto – e que por aqui também fica no sem foco do diluído da fumaça do teu fumo se embrenhando nas beiras da luz da manhã ou no amontoado da repetição da luz – da rosa – no avolumado das cortinas que desenham o dia na noite profunda. Esse eu que é passado e que olha atrás e treme e anseia zerar é o eu moral que se escanteia pelas beiras, se esquarteja em corte nobres e carne de segunda, fora o osso, o sebo e a banha – e o sangue e os miúdos para o alimento dos caminhos – e se esvai até esse eu agora, forjado nesses ‘s todos e em ti, nesse agora que me esparrama e espelha e espalha e me avessa, das sombras à luz, sentidos sonantes para ser-se em si e poder ser por mim e, também, por ti, para ti, pronto, a cada passo, carregado de passado, para sê-lo e selar-se definitivamente em construção, caminhada, sem culpas, nem constas, nem contas, nem pagas, nem nada.
o problema são as cracias
as arquias
tudo crarquicias
as propostas crarquicias
as eleições crarquicias
as promessas duplamente crarquicias
os templos igrejas legiões avidamente crarquicias
o amor da internet vídeo-cassete os carro loko crackcrarquicia
o paraíso perdido crarquicia
o éden os restos da arca e a aliança e o cálice cricrarquicia
cracias arquias esses são os problemas
posto que há um problema
sim lho há
não sinto os ismos como o defeito mor
o problema
eles são humanos apenas o tanto
mesmo os que se-lhe vão ao infinito do fim
são humanos
deuses deusas o além
humanos humanas homo
são desejos e o desejo de ser não desejo
perfeição
pode se dar no fáscio do turvo medo
no nazi do temor de temer
na igualdade da desigualdade de quem se acha livre da história
ou na igualdade de quem se meteu na história e a tem por fim
mas são baba humana e gozo e sêmen e sangue
anseio alcance
não são como as cracias as arquias
as arquiteturas neutras que manifestam o poder
como se não fossem ideias desejos mas fatos
razoáveis
as mona as demo as anar as pluto as buro todas
fingindo um ar de natureza
de razão
proporção áurea
ventre-livre
proteção acolhida LEI
e quem as protege como se escondem
capas e mais capas e ideogramas labirínticos labarínticos
pórticos e portais e vestais vendadas
ascensão das castas intocáveis como se naturais
cartas marcadas tarot nefelibata do momento das nuvens de veneno
LEI da natureza intocável
as cracias
as arquias
as crarquicias
travestidas de verdade
monolíticas sobre a imensidão da vida bípede
o fim da festa mais demorado
louros glórias pódios champanha
tudo cracias tudo arquias
tua mente e teu fim
teu medo e teu coma
cracia
arquia
crarquicia
em toda estrutura dada mora o culto a um ego
atemporal diacrônico e sem cronos
despersonificado no horizonte da história
para quem a vê e crê que ela exista
muito além de cinco mil anos atrás
muito além de cem mil anos atrás
mas houve sim um momento sem cracias arquias crarquicias
houve um além antes da natureza dada
definitiva
houve o que hemos de entender
ainda
sublimação do éden
meu desejo se compondo
nos seus dedos
um quadro matizes de rosa
sobre um fundo azul de verde de mar
seus dedos à mostra
descomprimimos os poros
fendas de areia e sal
o sol dos seus dedos
eu revia a cor textura corpo
nunca vista dourava
os seus dedos sabiam o ouro
meu corpo hirto amolecia
cem mil léguas submarinas de ar
conduzido por seus dedos
supunha a raiz do sol casa das cores
quentura das formas
ainda que o frio tremesse seus dedos
senti certo a terna tenra capacidade
acolhida e lançamento solar
do paraíso dos seus dedos
meu corpo em coro
me dizia
na língua dos seus dedos
a poesia como ato de guerra
como arrebatamento de vontades
como a luta contra o apostilamento dos desejos
como a consubstanciação da brutalidade onírica
a firmeza da modularidade das palavras
balas
a inteireza da desestruturação racional
mísseis
a força dos encantamentos ébrios
minas
bombas granadas morteiros
a poesia da guerra das palavras
lançadas como num front
trincheiras escudos barreiras
romper os peitos os crânios
matar
a poesia que fere
a crescente do poema atômico
os atos impensados os códigos
a blindagem
senhas sanhas insanas
a poesia como ato de guerra
lâminas machados espadas estopins
estilhaçando o enquadramento do mundo
que só pulsa
pulsa pulsa pulsa mais
a covardia da guerra plena
contra quem sem armas
a não ser suas mãos
e cabeças
e couraças
coração cutelo
pouco ar
poesia
saca a saga selvática
solidão só solidão
sorumbática
sapos saltando sobre
o sifão semiaberto
sussurrante
sótão aos solavancos
segundos simplórios serenados
solidão silenciada
seguindo sorrateira
soerguendo secas
sempre sempre significadas
susto seita sectária
solitárias suavizadas
separações sistemáticas
só a senda sinistra
ser sendo são
soluços silvos saques
sinistros
saí saindo
saí saindo
sal sobre a suave superfície
sintética
sins si sínteses
s.o.s.
só segui seus sons
singularidades simpáticas
séculos sabendo-te
sem se saber o sabor
segui seguindo
segui seguindo
segui as sincronias
sorri seu sorriso
saudei seu sol
senti seu ser soterrando
solidões
saga sedentarizada
sede saciada
sorvi sua sinestesia
servi-te seiva
dignificados os atos de parvura
pois que os de bravura
decaíram em posfácios
torpes diminutos
óperas bufas
depois que a última dama
com punho em riste
ousou comandar
os pés interessam mais
eles carregam o chão
a cada passo erosão
passos pós das partes
em que estávamos
trepar com
o agora
sem gozo
futuro
transcender
o trêmulo
arfar do
que nunca vem
inside
insane
in same
sun
in summer
madness
sem culpas
corpos-quasares
em encontro
combustão
espontânea
consubstanciascensão
a rocha rasgando o
silêncio betuminoso
das palavras combustível
atravessadas na garganta
até a explosão
ignição
rochas ígneas metamorfoseadas são
toda tecnologia é mágica
assim como toda técnica é magia
e havia a planta toda dentro da flor
memória da forma
momento do conteúdo
repetição e única possibilidade
do mesmo jeito que
o aroma da beladona
na noite inebriava
a luz do poste que
ninguém ali
na praça
sabia como acontecia
nem o cheiro nem a luz
aqueles elétrons todos
sendo evocados desde
a cachoeira barrada
e ela tentou capturar o
momento que o aroma
da beladona se misturava
com a luz do poste
e o preto do céu
e ela invocaria sua ancestralidade
com aquela imagem
cinquenta caracteres sagrados
e três ícones profanos
magia concebida na
espontaneidade do instante
dentro de uma rede
jogada ao mar
vela acesa na praia
a memória do poste
no centro da praça
descargas elétricas de felicidade, como se eletrodos de endorfina se aglutinassem na espinha e se contornassem nas reentrâncias do pescoço e dos antebraços, friso despudorado dos apelos das línguas ou linguagens etéreas das mãos a quase tocar quase e toca e dispara as descargas carreadas de chapações elétricas que afetam o corpo
e o prazer gerando o suor eletricamente bem no meio da seca
diamante é pedra
ouro é pedra
prata é pedra
pedras são pedras
aglomerados de pó
do princípio
e do precipício