Essa coisa atônita
presa na cabeça biônica
é crônica crônica,
sentimental e neurônica
– sináptica, medonha –
que num tanto te toma.
Só pela arte se doma.
3162. Eu e a massa
não adianta
todo mundo
querer ser
estratégia
alguém tem
que fechar
na estrutura
3161. Pela
Pela beira o sol clareia
Pela fresta o sol em festa
Pleno ao céu o sol se ajeita
Plena luz que se incendeia
Pela nuvem, o pleno escasseia
3160. Vida
sem meta
só mote
até a morte
3159. Banzeiro
A barca balançava
um lá pra cá
na contramão do rio
Embarcado estava
um bazo sem riso
No Anaraí perdi a razão
No Anuerá o sentido
No Urubuquara já não estava
mais que um corpo vazio
Na calha do Arari
depois de sua Rainha
o que se assemelhava pálida
era essa existência vazante
num rio que nem lágrimas
3158. Das artes da invisibilidade
as persianas balançavam sem cadência
uma brevidade da rua assolava o recinto
talvez fosse ar isso o que eu sinto
possível feito de vento e insistência
o descompromisso dos vazios de fora
irrompia vazando vendavais aqui dentro
invisível como sempre em meu centro
veio que sinto: calmo tornado adorna
as folhas dançantes em impaciência
tomavam o que me circulava por hora
sem textura, cor, matéria ou ciência
decompunha-me ares e movimentos agora
não me vendo, tendo, sendo insuficiência
insuflava-me ser de vento onde o eu mora
3157. política
desobjetifica
a tua vista
avisa pro teu
pau não ver
3156.
rio abaixo
tudo deságua
rio acima
nascia
desde aqui
o passar
só se vivia
3155. perpetuum mobile
para o
câncer
química
3154. transversal
o problema é que o presente
é sempre continuação de um algo
e uma espera por um quando
3153.
à espera da calma,
eu me encontro,
e é uma impaciência
que faz dó
que dá nó
na ponta do peito
no ponto do meio
no poente do sangue
na nascente do ar
que dá margem prum mar
desabar pelos cúmulos
dos olhos entremeando
os limbos de nimbos
e cirros cerrados pelas
pálpebras
chover torrentes,
até a calmaria sorrir
3152.
Tantos futuros sem presente
e aos que a eles pretendem,
nada além do que esse momento parco.
A ilusão de um agora estático,
puro prazer externo.
Só existe o agora,
mas ele segue o tempo da expansão do mundo,
o eco das horas,
o murmúrio infernal dos átomos.
Engana a quem vive e a quem pretende.
3151.
é tão comprido
o inteiro do
tecido só comigo,
meu abraço infinito
o sonho
desabrigo…
volta logo flor
pra por nossos
pés em conflito
e a pele em atrito
e nesse mar
de pano, sentido
3150.
sagrar-se ar
seria ser
como se fosse
se parecer
solitário e
dissolvido
sem forma
mas em tudo
contido
sangrando vento
3149.
Sabe quando a vida valia,
ela própria, a vida
e não havia
tanto peso e medida?
Quando a vinda e a ida,
no meio, antes e depois
ainda vida, ávida e vívida, havia.
Uma não mais bem-vinda
é agora a vida, vazante,
um nada entremeando a lida,
uma via com preço, valor e troca:
pura economia.
3148.
pode errar
quando ponderar
por regra
3147.
Me peguei
olhando,
me apaguei
no quando
o olhar
voltou
rasgando.
3146. O que será da palavra?
Se a poucos era grata
agora a menos é possível
Talvez só na forma fosse crível
que ela ainda tivesse vez,
posto que do que ela contém,
é certo que não contem nada,
nem o que ela é, tampouco
o que a lança além.
Como forma ainda faz voltas
pelo menos os símbolos
que a ela desenham interna:
um morro, um m,
uma curva, um s.
E quando a ela outra se prostra
se enamora ou apenas acompanha
aí a coisa desanda mais
e ao coletivado dela na linha,
em frase que seja,
oração que possa,
a compreensão mora nenhures,
ou alhures de coisa alguma.
O futuro é analfabeto
e lá só as máquinas saberão
as palavras postas.
3145. Me creia igreja
Dá-me um bando de dor e desespero
e um punhado de isenção fiscal
que far-se-á o milagre de modo imediato.
3144. misantropia intertropical
hoje a cidade estava podre
e a lua era crescente
de cada poro de sua derme ouriçada
– vinte andares no talo –
brotavam cem noias
the walking dead é mato
o estado das coisas
é de sítio
na capital destroçada
3144.
não, não olha agora
vira o foco da minha visão
que isso não é flerte,
é mera admiração
3143.
primaveras
para poucos
para loucos
nos páramos
paralelos
de dentro de
cada poro
3142.
meia cama infinita
meia cama aflita
meia cama conflita
meia cama medita
meia cama medida
meia cama
me ama
3141. estorvo
eterno retorno,
porque à merda
sempre,
de novo?
3141.
quando o elogio não eleva
o toque não chama
a chama fumaça
e a vontade não passa
o que se faz mesmo?
3140. a métrica do ativismo pós-político
por favor
menos mais
e mais do
mesmo
mas do meu
3139.
manejo de palavras
a poesia da utilização
racional, como o
concretismo
gerenciamento de
palavras, a poesia
para o comprimento
da meta física, como
marketing
3138.
ela falava e falava
sobre a meta física
e tanto sobre o prazo
mas o real azo
não era fixo nem raso
era seu ar de acaso
supra metafísica
3137.
olhavas-me como
esse céu me inaugurava
tonto de tanto ar
e um silêncio táctil
ferruginoso das manhãs
cobria o olhar
3136.
deito-me pelos olhos
que me espremem
olhos de ressaca
quando o amor se
deita às pressas
todo lençol
sussurra o que
o corpo inerte urra
3135.
meu delírio
nem te digo
é derivado
do ritmo
3134.
Eu não quero ser
como você, puro querer
Quero isso não quisto
que sequer emana
que em si insana
entre o agora e o nirvana
3133.
Eu não quero sua casa,
seu carro, sua grana.
Eu quero é sua calma
e ensanguentada,
sua alma.
3132. contudo
tudo o que pausa
me alucina
tudo o que pousa
tudo que coisa
tudo que rima
3131.
o liberalismo seria
algo até bonito
desde que conseguíssemos
zerar a história
contraprodutivamente
3130. Junina
“Ainda bem que vou na direção
que apontam as batidas do meu coração”
A catedral anunciou pelo sino
era a hora dos mortos
O fluxo se acortinava
Um manto de gente pela orla da esplanada
Conectados:
bandeiras, shortes curtos e
bíceps torneados
A revolução virá de nike no pé
A revolução é estética
sempre
os livros de história que a compilam ideacional
Não há o que saber disso tudo
só faltam os pedonazistas
Calça atochada e nariz de palhaço
A revolução da cartolina
a redescoberta da cartolina e do papel pardo
O peito diz não vá
e a história será feita sem voz,
só timbres
A revolta dá voltas dentro de si
e a juventude aprenderá
a se divertir sem álcool
O movimento pungente das carnes se basta
e o tédio político de Brasília oprime
“#eumecomprometo”
a que mesmo?
3129. volta
se pedir por direitos
baseado na herança
histórica é ideia cômica
então vai, se desampara
abdica da tua
herança econômica
3128.
Como sagrar-me
se o que me
profana vive?
3127. de antes
a trajetória da nuvem
trafega formas no ar
transporta águas que urgem
translúcidas à terra voltar
3126.
socorro
um surto poético
e um susto estético
só ocorrem
3125.
um deslize delicado
de cada lado alado
descompasso dedicado
de cada boca doado
pra dispor do deleite
de deslizar línguas e lábios
3124.
toda rosa
como um riso
e eu rio
para lhe regar
3123.
vá com deus
que eu fico
com os meus
3122.
Era tão leve
como o tremular
dos dedos percorrendo
exasperado e doce a pele
Tão, mas tão leve
como um dia inteiro
sem ter quê…
Leve, imenso e tanto
qual depois de aflito
o ar ocupa o todo do peito
Era leve, leve, leve, leve
que ao tocar qualquer peso
o diluia
e num ser só não cabia
Leve, como na manhã
fria todo raio se
acomete pela pele
na espinha
Era leve,
nessa desmedida
3121.
é sempre assim
um passo torto
a se por de frente
pondo o todo
até o topo
próximo ao rosto
um papo roto
um pouco a pouco
é sempre assim
um soco
bem na boca
do estômago
bem no âmago
do ânimo
como alfa
de um ômega
só que em Andrômeda
mas aqui mesmo
sempre assim
um passo roto
um olho torto
posto no rosto
um riso solto
e um quase
como sempre
por pouco
3120.
que asco da contemporaneidade
quando a liberdade é uma
frase de efeito moral
no feed de uma rede social
3119.
ser zen
não como
quem
sendo tem
quando vem
a ser sem
mas como
que nem
3118.
não era só um som
e como todo prazer
fricciona
era algo como uma
língua libido
no ouvido
3117.
meu olho pinga lá
pinga aqui, pinga aí
pinga pinga
procurando rima
pausa: dentro do vento de maio
maio vem assim, taurino, forte, varrendo tudo