3159. Banzeiro

A barca balançava
um lá pra cá
na contramão do rio
Embarcado estava
um bazo sem riso
No Anaraí perdi a razão
No Anuerá o sentido
No Urubuquara já não estava
mais que um corpo vazio
Na calha do Arari
depois de sua Rainha
o que se assemelhava pálida
era essa existência vazante
num rio que nem lágrimas

3158. Das artes da invisibilidade

as persianas balançavam sem cadência
uma brevidade da rua assolava o recinto
talvez fosse ar isso o que eu sinto
possível feito de vento e insistência

o descompromisso dos vazios de fora
irrompia vazando vendavais aqui dentro
invisível como sempre em meu centro
veio que sinto: calmo tornado adorna

as folhas dançantes em impaciência
tomavam o que me circulava por hora
sem textura, cor, matéria ou ciência

decompunha-me ares e movimentos agora
não me vendo, tendo, sendo insuficiência
insuflava-me ser de vento onde o eu mora

3153.

à espera da calma,
eu me encontro,
e é uma impaciência
que faz dó
que dá nó
na ponta do peito
no ponto do meio
no poente do sangue
na nascente do ar
que dá margem prum mar
desabar pelos cúmulos
dos olhos entremeando
os limbos de nimbos
e cirros cerrados pelas
pálpebras

chover torrentes,
até a calmaria sorrir

3149.

Sabe quando a vida valia,
ela própria, a vida
e não havia
tanto peso e medida?

Quando a vinda e a ida,
no meio, antes e depois
ainda vida, ávida e vívida, havia.

Uma não mais bem-vinda
é agora a vida, vazante,
um nada entremeando a lida,
uma via com preço, valor e troca:
pura economia.

3146. O que será da palavra?

Se a poucos era grata
agora a menos é possível
Talvez só na forma fosse crível
que ela ainda tivesse vez,
posto que do que ela contém,
é certo que não contem nada,
nem o que ela é, tampouco
o que a lança além.

Como forma ainda faz voltas
pelo menos os símbolos
que a ela desenham interna:
um morro, um m,
uma curva, um s.

E quando a ela outra se prostra
se enamora ou apenas acompanha
aí a coisa desanda mais
e ao coletivado dela na linha,
em frase que seja,
oração que possa,
a compreensão mora nenhures,
ou alhures de coisa alguma.

O futuro é analfabeto
e lá só as máquinas saberão
as palavras postas.

3130. Junina

Ainda bem que vou na direção
que apontam as batidas do meu coração

A catedral anunciou pelo sino
era a hora dos mortos
O fluxo se acortinava
Um manto de gente pela orla da esplanada
Conectados:
bandeiras, shortes curtos e
bíceps torneados
A revolução virá de nike no pé
A revolução é estética
sempre
os livros de história que a compilam ideacional

Não há o que saber disso tudo
só faltam os pedonazistas
Calça atochada e nariz de palhaço
A revolução da cartolina
a redescoberta da cartolina e do papel pardo

O peito diz não vá
e a história será feita sem voz,
só timbres

A revolta dá voltas dentro de si
e a juventude aprenderá
a se divertir sem álcool

O movimento pungente das carnes se basta
e o tédio político de Brasília oprime

“#eumecomprometo”
a que mesmo?

3122.

Era tão leve
como o tremular
dos dedos percorrendo
exasperado e doce a pele

Tão, mas tão leve
como um dia inteiro
sem ter quê…

Leve, imenso e tanto
qual depois de aflito
o ar ocupa o todo do peito

Era leve, leve, leve, leve
que ao tocar qualquer peso
o diluia
e num ser só não cabia

Leve, como na manhã
fria todo raio se
acomete pela pele
na espinha

Era leve,
nessa desmedida

3121.

é sempre assim
um passo torto
a se por de frente
pondo o todo
até o topo
próximo ao rosto
um papo roto
um pouco a pouco
é sempre assim
um soco
bem na boca
do estômago
bem no âmago
do ânimo
como alfa
de um ômega
só que em Andrômeda
mas aqui mesmo
sempre assim
um passo roto
um olho torto
posto no rosto
um riso solto
e um quase
como sempre
por pouco