acorde-me por favor
após o fim
acorde-me, pois,
depois de mim
3209. A rude urbana
“mas me diz quem é que sente
me diz quem é que sabe
o tamanho monstruoso
dessa porra de cidade”
a rude urbana engole espaços
matas, matos e sapos
a rude urbana usurpa pedaços
se amplia passo a passo apressados
robusta e rígida, armada
se conecta em sobressaltos de asfalto
em espasmos de onda ao ar reverberados
e dispositivos emparelhados
a rude urbana rouba a cena
acinzenta o céu e no mapa o traço
em concreto e contrato
seu rastro desastrado
em vidro e vidas
se estrutura em mosaicos
a rude urbana segrega e aparta
aperta um mundo em coletivos
comprime poucos automotivos
automovidos por impulsos irracionais e emotivos
comprime sujeitos em conflito
guerreia pessoas aflitas em atrito
a rude urbana é um apanágio de gerar constrito
a rude urbana é elétrica
eletrônica, histriônica-crônica
landscape escrota e estérica
um tanto rota, quente e gélida
um mar de coisa e gente pérfida
se abarrota em disputa milimétrica
grades, muros, arames, armas
cercas belicosas e bélicas
mil acima, mil abaixo,
mil atrás e mil aos lados
os horizontes da rude urbana
sãos formados por sozinhos aos bocados
máquina de moer gente e sugar o caldo
novas babilônias com todos atordoados
micro cannãs em cada esquina
vendendo a salvação pra transtornados
macro edéns com seus produtos departamentalizados
e suas vestes de super, mas apenas mercados
a rude urbana propaga a vitória
como uma saga épica de glória
como a inteligência arquitetônica da história
e nas entranhas da rude urbana no meio das palafita
e dos barraco de madeirite e compensado
a rude urbana vomita enjeitados como escória
parecia brilho, luzes, afagos
mas no contido da metáfora
mais um cavalo de troia
“às vezes eu acho
que todo preto como eu
só quer um terreno no mato
só seu
sem luxo, descalço, nadar num riacho
sem fome
pegando as fruta no cacho”
3208. Cisne Negro
nunca haverá interpretação possível
assim como toda ciência é fé
e toda magia é técnica
o mundo sempre escapa pelas mãos
3207. Diletante a cozinhar
Quando a noite será tumati
e a manhã será mamão
Nesse, saber-se-á com a pele
que o amor é libertar
Dói e dura
Coragem e candura
feita de desprendimento,
diáspora e bem-querer
O sentido das coisas é tênue:
a frigideira esquenta,
joga-se um fio de azeite
O amor, já livre dos enredos da cultura,
dorme alhures
Primeiro a cebola
e depois o alho, para não queimar
A mente que dói e dura
conduz a colher de pau
Houve um choro entre a faca
em sobressalto no dedo
e a cebola sendo picada
Escorreu essa marca de que o peito é quente
mais que a frigideira
derreteu nó de gelo na garganta
e desabou flor de sal
Disponha as couves-flores
no azeite quente
acrescente um punhado de couve fatiada
e tempere com sal e pimenta
Ao final, adicione um pouco de manteiga
Despersonifique o estado
do amor no ser
O amor livra e é sentido
o ser é a pessoa,
há um fluxo aí
Quando ela chega
a mesa está posta
Ela que recebe o amor
andou pelo mundo,
tem história, faz
Os lábios se selam livres
À noite, molho ao sugo
Pala manhã, vitamina de mamão
3206.
O projeto humano
não falhou,
o acaso não erra.
3205.
irredutível
como as partículas
mais que elementares
o arremedo de
todo vagar na
soma dos períodos
a ordem dos fatos
dos fatores
dos atores
não importa
é sempre uma
equação perfeita:
os outros nunca somos nós
3204. urbícidio
o lépido desenvolvimento
promissor horizonte de consumo
é uma paisagem num telão de led
milésimos de centavos
pagos por cada grama de CO2
bilhões ávidos nas fileiras
em formação de guerra
para a liberdade de tudo poder
o manto da liberdade
cobre o mundo, colore tudo
a beleza de ser livre para torrar um milhão de impulsos elétricos
tidos por dinheiros
em 20m² com todas as facilidades ao redor
cidades fantasmas
desenvolvidas e envolvidas
entre flores e florestas
o império do pós-urbano
são as moradas informacionais
construir castelos de impulsos elétricos
nas redes do ciberespaço
e as ruas
cada vez mais
menos livre circulação de gente
e mais livre circulação de gases
aqueles que não causam qualquer aquecimento
– “e tenho dito! mas que prepotência humana!”
vocifera mais um ser livre em 20m² de pura ostentação
construindo seu castelo em uma tela de led
3203. da noção de justiça no baixo século XXI
culpado
todos querem encontrar
culpado
é o que querem vociferar
culpado
sua escolha foi ser espancado
culpado
essa estória de história é papo furado
culpado
para expiar seus próprios atos
culpado
para remir os seus pecados
culpado
para eximir-se de sua conduta
culpado
para alentar sua alma dúbia
culpado
por sua burrice sintomática
culpado
declarado do alto de sua empáfia
culpado
pelo largo de toda outra volúpia
culpada
porque a estuprada é que é a puta
culpado
ao passar a esquina
culpado
passado no fio da guilhotina
culpado
às esquerdas e às direitas
culpado
menos o centro e as extremas
culpado
por querer o que não lhe cabe
culpado
quando no banheiro deus invade
culpado
por não se colocar no seu devido lugar
culpado
é pra levar pra casa ou pra matar
culpado
pelo crack, pelo alarde, pelo alarme
culpado
prenda à força, amarre, coloque à parte
culpado
o cidadão de bem pagador de impostos
culpado
todo aquele que fomenta o ódio
culpado
não se exaspere, não se iluda
culpado
seu deus, você e a sua própria culpa
culpado
por cinco séculos de penúria
pausa: abrir as asas e brisar
…O céu é roxo a grama é azul
Os pássaros cantam Erykah Badu
Quando a noite chega tudo em volta brilha
Tem uma passagem para Istambul…
3202. Maseko
Maseko voará pro Orun sem sair do Aiye
Maseko numa carruagem de ferro e fogo
Rompendo as nuvens de Oyá percorrerá o Orun
Maseko voará abençoado por Ogum
Que rege o movimento da técnica
Que forja todo ferro e que faz o fogo
Maseko voará dentro do Aiye, sentido Orun
Um pedaço daqui partido ao céu
Protegido do inesperável pelos raios de Oyá
Por seus sopros e seus estrondos
Maseko voará pra bem do lado de oṣù
Maseko, aquele que nunca se soube voar
Do solo da terra primordial
Descendência do barro do ser que subirá próximo à luz de ser
Voa Maseko, no céu, ao seu som
Predispõe tua terra a um religare terreno
Se o esquecimento se deu devido a deuses monolíticos do Oriente Médio
Que da máquina, o Orun se reaproxime
3201. dê um rolê, só não vá se perder por aí
os rolês que se dão
pelo bem do consumo
esse sim o senhor, deus inatingível
objeto de política pública
prêmio próspero por uma vida permeada por aquele outro deus,
com d maiúsculo e pompa de pop-star milenar, temível e bondoso
a seus livres cativos
travador das novas lutas de classe
dos cem mil sentidos do direito à cidade
os rolês que se dão, flash mobs que são
fluxos hedonistas épicos
sente a pegada
saca o modelo
a potência, a pegada
registra no face
olha o estilo
beijo no ombro pras invejosa
os muros caem em prol das bolsas
família, louis vuitton, pirata e cassino global
os rolês que se dão ressemantizados pelos arautos do estado de bem estado social
estado de bem estar de consumo
estado de bens, direitos e deveres dos outros
estados de livres mercados
saca a fita de mil grau:
o futuro próximo de amanhã de manhã
já é a moda do parco
pouco
consumo distintivo de sua melhor classe social
a moda salvará o planeta de seu alto auto consumo
e o livre mercado salvará o planeta dele mesmo
seres de luz, brancos, iguais e budistas cristãos
heterossexualmente reproduzindo o mundo perfeito da palavra
e das coisas postas nas prateleiras da internet
serão vários os sabores
vários os rolês
todas as cores, tamanhos e modelos
promoção com cartão fidelidade
prazer parcelado em dez vezes sem juro no cartão
entenda os rolês
interprete-os
teorize-os em teses acadêmicas
politize-os
indigne-se com eles
exija pena de mortes para os rolês
o rolê já te consumiu desde o primeiro banco na terra
e você nem viu
3200. precedência de sentir
uma sensação,
pressentimento,
possui razão
ou só ruído
roendo por dentro
do que vindouro
lá no futuro
não acha contento?
antecipação de
algo próximo
visagem desguarnecida
anunciação do que
já é código
ou mera piração
aflitiva?
presságio descabido
ou certeza carcomida
o pressentimento sempre ronda
presenteando o que se duvida
inteligência emocional
ajudaria?
ou babá, terreiro e aquela
macumba preterida?
pressentimento é coisa
que acontece sem se ver
vem num vindo
vem num vindo
e quando viu levou você
coisa de espírito
mediunidade
sagacidade
não se explica
só tome cuidado
que o pressentimento
que é pré e não pós
ainda te complica
3199. seria assimetria?
moça bonita ela
dentro de toda
sua bela aquarela
de feiura rota
quem há de isso achar
e lha acompanhar
para além do chá
amar e trepar?
o tarado ou o torto?
o sacana ou o santo?
o torpe ou o louco?
o bacana ou o encanto?
o brega ou o forte?
o lerdo ou o desgosto?
o sádico ou o sorte?
moça bonita ela
dentro da solidão que a eleva
e da feiura que a conserva
a transeunte imagética
feia bela
que inimaginável
imagina-se que vida deve ser a dela
3198. Pelas manhãs, num quarto na 18
Eu nem sabia de quê eram feitos os grãos de poeira
Aqueles que criavam padrões ciliares no líquido dos olhos
quando acordávamos aos finais de semana
Primeiro eram eles, cheios de resquícios de cometas
de meteoros e planetas
Tudo ali entre o espaço aberto das pálpebras e o teto do quarto
mas pregado nos olhos
Minha irmã acordada já também,
me conduzia a incursões mais psicodélicas:
ao largo de todo o semi-escuro do quarto
com aquelas longas cortinas de flores parecendo macacos,
mostrava-me as bolinhas
aquele mar de bolinhas flutuantes
despencando vagarosamente diante de nossos rostos
Cores múltiplas se formavam na velocidade de uma manhã de sábado
naquele tempo em que o tempo era algo com corpo, densidade e aroma
naqueles dias em que o estar dentro do tempo
se confundia com as eras e os períodos da Terra
Cada conjunto de bolinhas coloridas,
que invadia mesmo até os olhos fechados,
ficava ali despencando horas e mais horas
entremeava um novo sono cheio de sonhos em que eu
salvava alguma colega em meio a um incêndio do colégio,
percolava aquele estado sorumbático de quase acordado
Era assim até que vinha a luz plena de lá de fora
rompendo as frestas das cortinas e dizendo dia e sol
Levantávamos percorridos por bolinhas coloridas
que despencavam vagarosamente diante de nós
Despertávamos aos finais de semana assim,
eu e minha irmã,
com a alma cheia de cores
expandidos pelo sem fim daquele tempo da delicadeza
num onde encrustrado nesse quando eterno que me faz
3197. ai que conflito
especiais e notáveis todos os errantes
que em suas armaduras caseiras
cheios de heróis ébanos
e frases libertárias
embebidas em notas, orações
e um descaso blasé pelas cifras
estarão sempre prontos
para a próxima estocada
na sua mesmice fantasmagórica
e instaurarem o caos
desejados mesmo todos os anjos decaídos
que certamente amarão mais, melhor
e com mais intensidade e dor
que qualquer mourisco índio tímido
infantilizado num reino de vitórias-régias prostradas
operando os céus e a lua
em busca da vista do ponto azul
é que sempre há um medo vário
de que o mundo abrase além medida
e do alto da insegurança
sempre acolhe-se ao lado da segurança
como se não usufruir de desejos
fosse a única premissa para a paz
e como se a lua fosse o único querer crível
a paz, essa longínqua,
que dorme um sono inerte e sonha com um mundo
inteiro de jorros de gozo e prazer perpétuo
num batidão frenético de pornô especializado diz:
pela paz, não peque
pela paz, não seja
pela paz, não vá além e queira somente aquém
mas a paz, essa velhaca matrona,
flerta com o imponderável
e no fim sempre se soube disso
ela galanteia com o universo do caos
e deseja o claustro e a castração
a paz é uma danada
ama-se a paz e se a almeja
mas ela, escorregadia qual ouroboros,
lança seus ansiantes àquela eterna repetição
de ser um tanto menor do que se aparenta
como se a mediocridade fosse a única ostentação plausível
a paz é uma dissimulada
todo o benfazejo a si e o mal apenas à guerra
disto e desta,
viva a paz
ambicione a paz
e tensione-se ad aeternum no conflito interno
com suas próprias entranhas
tão desejantes e aguerridas
tão silenciadas e pacificadas
3196. noção da nação
do estupro surgiu o povo
primogênitos da nau de cabral
em credo e crueldade
o fundamento, os pilares
da sifilização nacional
essa pátria em brasa
pendão varonil
“mistura harmônica”
ferrada no tronco e pau de arara
nosso bastião, ó brasil
3195. equador do futuro
antes que as destopias
entupam nossas vias
com um livre mercado
de gorduras trans
antes que os estados
comprimam todo nosso
estado de espírito
em um extrato social
antes que antidepressivos
sejam o modo permissivo
de convívio em sociedade
antes que os ansiolíticos
calem todo anseio
e domem todo o desejo
antes que o mal dos outros
seja todo o mal do mundo
e tudo seu não seja mau
antes que nos transformemos
em panópticos de nós mesmos
antes, daria tempo
mas eis esse agora
durante
duro
que dura
sem candura
que surra
que só urra
3194. presságio
será intenso como o findo
será rápido e mordaz
será tudo ao mesmo tempo
será tempo e tudo, feito a matéria da luz
será guerra e ademais
será mais
sempre mais
será quente e frio, tanto faz
será blasé
será excesso de amor, de torpor, de humor, de pavor, de terror
será ironia
será cena, cera, será
será qual todos, só não será igual
será normal, nada excepcional
será quarta-feira, depois quinta e depois sexta, no sábado se descansa
será tal e qual
será o que será que será
será duvida, passagem, continuação
será o sempre
será desejo e consumo
será propaganda
será carnaval, futebol e política e nessa sequência
será pão vencido e rock’n’roll circus
será big-brother
será panóptico e vigilância
será hedonismo e cristo
será tudo o que for possível ser vendido
será corrente de oração
será sertanejo, suor e cerveja, universitários
será novela, passarela, hiper-passado, ultra-futuro, sci-fi
será bonde
será ostentação
será o meridiano longínquo, a antípoda de sempre
será perdido e puro ganhos
será lucros e quebras
será expectativa de derrotas e maquiagem de benefícios
será um suplício
será ainda o que serei eu, sorrateiro, sambando miúdo entre os cem sem sentidos que serão
será essa minha decisão
3193. a partir de cartas (a parte de ir das cartas) ou do apartheid às partes aprisionadas
a consciência crítica de todos nós
senta-se em uma prisão
bombardeada por conclusões milenares
perdida entre cartazes e comentários
travada entre os nós dos rizomas
derretendo e engrossando o caldo
de um capitalismo líquido
que percola cada meandro ainda virgem
que se infiltra nos terrenos mais compactos
essa consciência crítica nossa
tenta encontrar a dádiva de alguma economia
perdida em ilhas do pacífico
trocada por ouro e prata através dos séculos
de suores e sangues africanos, asiáticos, americanos
a consciência de todos nós, a crítica
vira acrítica, cega e cítrica
e transforma em heróis qualquer um com a capa do batman
e uma pena mágica que interpreta todas as leis
a nossa crítica consciência
atormentada e esquizofrênica
sabe onde reside o verdadeiro heroísmo
aquele da autocostura microscópica do tecido social
e da revanche à alta costura estampada no jornal
a tal consciência nossa e crítica
valoriza os limites estritos e o desafio
e incomensuravelmente vive essa causa
comum pela qual vale a pena lutar
a duras penas
apesar de injustas penas
após o ar do voo devido as penas
ainda apostar no pouco que dê apenas
3192. anarco-íris
“Vai trabalhar, vagabundo
Vai trabalhar, criatura…”
era em tons de cinza que ele se erguia
na abóbada celeste
pois o sol estava uma tempestade só
em labaredas magnéticas
e a água que se condensava
vinha pacificamente de fukushima
todos torravam
mas aquecimento não havia
se havia era natural
e naturalmente o calor se suporta
um colar de suor em volta do pescoço
suor leitoso brilhando mcsódio e gordura trans
mas lá estava ele
o anarco-íris imponente
de fato, quase transparente
trans – não lgbt, infelizmente –
transgênico e frankensteinico
símbolo da aliança de deus com os homens
– só com os homens –
de que nunca mais a terra se afogará em dilúvio
ainda que implacavelmente
ela despenque em terremotos
exploda em vulcões
se alague em tempestades
se arrase em furacões
e que no fim, justiça e imparcialidade,
ardam eternamente em fumarolas de enxofre
rolando em espetos com satanás os fritando
todos os humanos impuros
era um belo anarco-íris gris
cortando o céu de fora a fora
sem pote, ouro, ou duende no final
alguns diriam que era a aliança do demônio com os impuros
enquanto isso deus repousava sobre toda a criação
e descansava no sétimo dia
3191. Ìjìnnà
cada vez mais distante
gritante
diz tanto
diz tente
displicente
suplicante
gritante
insuficiente
cada vez mais distante
gritante
ecoante
constante
antes, avante
ecoante
eco
eco
oco
soco
reverberante
cada
vez
mais
distante: diz, tenta, tanto, quanto, baste, pra ser, insuficiente, desde, sempre.
3190.
Não é uma tristeza
são três, tesas.
Tensionam
o que homem do que não.
Como fio de alta tensão:
500 volts em volta
do coração.
Que nem revolta,
pranto e oração.
Como tristeza, tristeza,
só que não.
Soco no coração.
Triste essa reza seca,
choque no músculo do peito
em contração.
3189. Rumores
A ditadura da interpretação axiológica dos sentimentos
A candura da constatação lógica dos envolvimentos
A ranhura da incisão mórbida dos tormentos
A unha da mão sólida dos lamentos
Aquilo que vem vindo, desde fora e até de dentro
E sempre acaba tecendo
Te sendo
3188.
Um dia,
quando a porta da rua
for a serventia da casa,
eu me sirvo.
Pode ser que assim,
eu sirva.
3187. Itinerário das possibilidades de acasos certos
E para onde mesmo?
É pra esmo.
Perto desse agora sempre,
pós isso insistente.
Aperto do que dá na gente.
Do que dá nó
na goela e na mente.
Bem aqui, rente.
3186.
Dose e doce
como um picolé no inverno.
Gelada,
um inferno.
3185.
a esperança dança
é uma levada insana
no tamborzão se dana
3184. Metrômanas III
Quando a gente sai do buraco
aquele momento parco
de solidão cheia ao lado
é logo desolado
pelo contato imediato
já ritualizado
Salve o deus-celular
e seu paraíso hiper-conectado
3183. Gameleira
o tempo mora
dentro de uma
árvore
esses segundos
seiva
alimentam
idade
3182. Olha
olha minha calma
logo vai desabar
olha minha paz
logo vai estrondar
olha meu sossego
logo vai relampejar
olha minha brisa
logo vai ventar
olha, olha, oia, oyá
3181. Levante
os loko
as freak
os lerdo
as tique
os rato
as resiste
os revolta
as revide
os lento
as pique
as lado b do lp empenado
os todo errado
os demônio
os enjeitado
os revoltado
as bandit
os maloqueiro
as persiste
que andam na contra-mão
na função
as que não tendo
ainda existe
os equação
e as bit
juntemo-nos
uni-vos
no arrebento e no arrebite
no flow e no feeling
3180. Esfera
Entre o lá e o cá
Que não é nem lá, nem cá
Nem meio, nem centro
Que não leva nem traz
Nem pra frente ou pra trás
É esfera que junta tudo
O que agora ao que mais
Confunde a cabeça
Porque rola
Qual biloca de criança
Com um quê maroto de desdém
Mas é ela que une tudo
Pelo tanto e pelo além
Primeiro sempre a ela
Que quando rola no espaço
Parece que vai
Mas quando dentro dela
Se sabe que vem
Meio Terra, meio Lua
Meio mal, toda bem
Toda ao largo, toda lar
Oiê minha esfera rolante,
ébria e zen
3179. Teologia da antiprosperidade
Menos é menos
Mais é mais
Não oro para o além
Oro em ação
Por iguais
3178. Bloqueios negros
bloqueios negros
pela orla
parece febre
40° sentidos e centígrados
centrífugos, pois a rede é descentralizada
areia quente
areia ferve
arreia e ferra e fere
arrobas e balas de borracha
e hashtags embebidos
em hashs binários e hashs racha-cucas canábicos
aproveita e liberta alguns cachorros
cativos
bloqueios negros
pela avenida
piratas imberbes
protagonizam o caos para as teletelas
por mesmo elas
pirataria e pirotecnia
matéria para comentários póstumos
da matilha de lobões em meio a carvalhos
gentílicos, gentis
gente anticomunista
e pró-consumista
consumada na nóia
e sem pedra
só pala
e algum pó
antipetista
a rede é uma imensa teia
toda hora te emaranha
tapa-se o sol com a rede
trança-se uma tanga com a rede
embala-se o sono dos injustos na rede
arrega-se da vida pela rede
arregimenta-se cacos políticos de dentro da rede
com o próprio nome
arrebatados, os prometidos da nave cristã
jesus de toca
tocando o coração das biqueiras
e zil zilhões com armas em riste enfrentando os sem lados do leviatã
nem de direita, nem de esquerda, nem de centro, nem de dentro
de fora e para fora
como um ego reflexo
meu bloqueio negro
monta campana e não dorme
não deixa que a matilha me arregue
“século XXI eu sei muito bem o que eu quero”
a rede te enreda
e se pá te escanteia
pra rebarba do canto do fim da feira
de dentro da teia
eu rezo a rede
e a oração é maldita
bendito seja meu bloqueio negro
3177. segredo
a hora exata em que
a imprecisão do céu
virou terra
[e quando diante do infinito,
que todas as hipóteses
são verdadeiras?]
o mundo sempre sangrou
essa coisa de morte e beleza
TODA dor lhe cabe
TODO adoecer
TUDO esmorecer
todo suor que invade
o que a vida deseja
silenciosa e sorrateira
é um bosque ávido
3176. luta de olhares e de classes
o ar de empáfia
a louridez, a branquidão
o corte preciso do tecido
e o reluzente dourado
maior que o braço
a minha timidez cabocla
de não olhar nos olhos
e de não saber onde por as mãos
aquele acompanhamento eterno
periférico
de sempre se sentir suspeito
mesmo da hipótese
sequer aventada no
filme instado sempre na cabeça
de longe é uma despreocupação eterna
de cá a tensão sempre anima
o momento mais ideia na fogueira do beco
o olhar desde lá
arrebatador
compulsivo
entre o que me faz
vem rasgando voraz
um olho em mim
outro no aplicativo
quando desafio minha matutês revigorada
de quebrada
recrudescida por meu “devido lugar”
e meu olhar acompanha o de lá de longe
eis que enfim se esbarram e esparram
antropológicas e antropofágicas,
medo e mágica,
as mil classes médias várias
3175. borboletas suicidas
borboletas suicidas ao longo da BR
vidas amarelas borrando o vidro
minha pedra pulsante dentro do peito
pedaço do morro seco
percalço da borboleta
a 130 por hora para Oz
um sobressalto no ser
espasmo de vida deixando ser
outra borboleta insiste:
o barato não é a morte
é o frio
o sobressalto
de desafiá-la
os 140 por hora de minha pedra
impulsionam a borboleta para
um infinito de ser instante
as borboletas suicidas
só querem mais que os seus sentidos
3174.
tantas paisagens
tantas paixões
tantas tatuagens
tantos tesões
tantos abraços
tantas abdicações
tantas saudades
tantas sensações
tantas certezas
todos sertões
3173. Homo genius
as modas
os modos
[os gestos]
os gostos
os gastos
centro ao norte
desde o litoral
só uma geral
de rio-são paulo
só um pulo
ocidentalizado
os medos
as médias
[as nóias]
os meios
as metas
desde o sertão
ao igarapé
paisagens monótonas
o milho, o sorgo,
o gado, a soja
tudo igual
pra todo lado
além mar
onda no ar
globalizado
3173.
É o fato não óbvio
pichações amorosas ao lado do resquício histórico
o grafite pulsante “para o mar e avante”
a calma d’alma no tremor do raio cedo já
o que jaz ao que mais
o que mar
donde cerca, concreto, azul
vibra a manhã calma na cidade
Aracaju
3172. Do longe, de água, de ar, de arder
Talvez você não durma
talvez eu também não
isso aqui pode ser um sonho matutino
ou apenas uma insônia saudosa
Talvez o desejo arda
talvez em tudo haja
talvez feito de rios e seivas
a curva d’água doce na vontade
o caule rasgando bruto a terra
tocando a rocha na velocidade
do deslizar do remo n’água desavisado
Vago até sua possibilidade de sono avesso
e lhe adentro desejo
com força de rio
erodindo encostas
caule rompendo o ar
3171. Das artes da calmaria
ninguém mais tem
paciência para o que
acalma e apazígua coletivo,
alguém não
tudo o que toca
se desfaz ao toque
ou contato com qualquer
corrói-se antes mesmo
o que adentra e apascenta
pasta a paz pelo todo
passa longe hoje, agora
pois que se deve pulsar
parte pois não se pode
partilhar nem a
perto nem alhures
ajeita-se só em si
o que acalma contém-se
no contido do mais eu
não se abre para além
se governa dentro, vibra
irreflete, verbo
inexistente é o que tenta
quando a paz é com
parte ilhada em par
3170. dobra
ela tem dobras
eu gosto delas
e ela se desdobra
para destruí-las
quem sou eu para,
déspota de corpos,
dispô-la contrária?
só as admiro
enquanto ainda
se dobram belas
3169. Star treks de junho
No começo era
de cara limpa,
como fosse
caso precisasse
Depois poucos pelos,
barba basta,
cara à mostra
Logo algum fetiche
umas pintas
tantos riscos
Hoje as máscaras
fantasias, coros
faixas várias
estética quase de massa
na individualidade
do destaque
Quesito alegoria:
“NOTA DEZ”
Comissão de frente:
“NOVE E MEIO!”
Ideologia:
Onde mesmo?
Ideograma:
é a vendeta no peito.
3168. Metrômanas II
Tudo fudido
até mesmo
esse meu
sorriso bandido
Tudo o que
eu matar
estará ungido
tudo por esse
ódio bendito
3167. Metrômanas I
É dentro da massa
no pico das horas
que a raiva se enamora
pelo avesso da farsa.
3166. Desde dentro
Conforme a história passa,
o vidro embaça
e essa vida toda assim
na raça,
resta a coisa inteira:
onde há graça?
3165.
Depois da baía
as torres,
skyline ensandecida.
Antes a velha cidade
onde o peso
da história não se mede
se vê nas eras das pedras
ainda de pé
por toda ela
algo que se obtém
dessa histeria de histórias
de concretos em rios e selvas,
disso dito, Belém.
3164. Povoado
A micro urbália
incrustada no igarapé
como cidade fosse
como natureza é
nada exógeno
mesmo o até.
3163. Desde lá, sobre a urbália totalizante
Deslocamentos ABSURDOS
infinitas variações
de tempo
horas longas
lugares lentos
a passividade ativa
do agora
no se mover
sendo.
