2091. Fertilidade

bastaria uma frase
para calar o quase
mas ela não veio
e um veio d’água
fez-se do peito aos olhos
caiu pra dentro
molhou a alma
brotou uma idéia
deixou uma certeza torta
um cultivo de carência
e uma impaciência
com o mundo

amanhã de manhã
tudo muda
a frase não vai vir
novamente
a certeza torta
vai ser miragem
como uma tatuagem
dentro

e uma cachoeira formada
não será derradeira
será rio
margem fértil de um Nilo

2089. Como é que pessoas surgem?

não é num simples
fato consumado
em ato de cópula,
papai-e-mamãe
ou de quatro,
em que esse tal
de princípio vital
é ativado

pessoas surgem
é no laço
com outros e
dum fardo
de manter algo
eu em meio ao mundo
já armado

talvez seja só
num lapso
entre um gene casto
e a amplidão
do mundo situado,
talvez mesmo
num buraco,
no fundo do que
é significado

nesse vão pode ser
que pessoas surjam

2088. Música I

onde está você?
com suas garras e presas
com garrafas de cerveja
com ervas e eros
correto

onde anda você?
com sua calma e alma
com palmas ritmadas
com armas palavras
colorido

onde você se escondeu?
com seus astros e acasos
com sorrisos soluçados
com sins e fins
corolário

onde diabos você se meteu?
com seus tiques e trejeitos
com truques trágicos
com troças e sem troco
corpo

onde paira você?
com suas místicas e míticas
com razão a flor da pele
com fluir leve
convulso

onde você?
com meu eu
com dez eus
como eu
condizente

onde?
com você,
eu?

2086. Coisa certa

Foi um click
certeiro
Dexei Pessoa
pra depois
e levei
Martha Medeiros

Foi um ato
sorrateiro
Feito sem pensar
e deu no que deu
Provável levei
pelo prefácio
do Caio Fernando Abreu

Já estava lá
com um ovo apunhalado
e pensando o que
devia ser acompanhado
Passei o olho
num strip-tease
e bebi as letras no gargalo

Agora sim
todo faceiro
Eu digo que o
Mar tá
pra Medeiros

2079. Para-meta-transparagens

a vontade é nula
potência nenhuma
super-nada
o anseio desmancha
com a quebra da onda
Oyá tenta ainda
insuflar querer
o Caçador lança a seta
e não acerta

na cultura
poder não há
não dá

o mar vem com o ar
com o tremor debaixo de si
com o fulgor de uma dorsal
quando as rochas se encontram

o ar vem consigo
e com rochas esmigalhadas
com resquícios de mar
quando a pressão é pouca

o fogo vem interno
pedras líquidas em brasa
de si resultam terras, bases
quando o ar e a água a tornam

o terra vem de dentro e é
vem com a dança das bases
nadando em labaredas
quando tudo se mexe

a vida vem daí
com tudo ligado
como tudo em separado
quando se tem um fim

equação nula
elevada a potência nenhuma
superando o nada
desmancha o anseio
quebra uma onda
Iansã já lança raios
depois quer torrentes
Oxossi com sua flecha
acerta

na natureza
poder sempre há
sempre dá

2077. Notícias das oito I

para a média
pasteurizada
homogeneizada
cidadão comum
homer simpson
que se apega
ao que mostra
e diz uma tela
como se fossem
as mensagens
de um profeta
o que merece
emoção, ímpeto,
choro e vela
não é a miséria
que na sua cara
se esfrega
que te pede um
troco no farol
e sua bolsa leva
que badaga na
praça sua cola
e que fuma atrás
do lixo seu
crack, sua merla
que cata os cacos
do seu lixo
e as latas de sua festa
o que comove
é o que o jornal
transforma em novela
que denuncia antes
dos gols e no meio
de coxas belas
com fundo musical
de teclado brega
com os brilhantes
comentários de um
casal de merda
demove o coração
o que meticulosamente
é planejado
em meio minuto
de matéria

2075. Pelas águas fez-se essa terra

Antes de naus, lemes e velas
desde já, avistavam-se canoas
deslizando sob veias de água
cada braço teso ao remo um pulsar

Degredados e em parca esperança
vinham com e sem intenções boas
deslizavam no mar suas faluas
para nesse mundo litoral aportar

Junto às galés, tambores rufavam
tantos mais chegavam com loas
acorrentados, saudosos em mágoa
cada fio de sangue à terra juntar

Para esse corpo-porto de terra tanta
cá vieram todos entre popa e proa
por esse Atlântico rio que cá deságua,
e ainda que em terra, sempre a navegar

2074. […]2

completamente descompassado
nada
nada mesmo ensaiado
tem um timing errado
tentado
texto tatuado
a força forjado
com forja de aço
na epiderme digital queimado
analfabetamente assinado
a gancho içado
pelo rabo
um freak show arrotado
dessas palas de noiado
muito
muito mesmo
mal acompanhado
um pequeno punhado
de gestos pré-calculados
geram a gesta desse fato
um neurótico premeditado
que enxerga pelo rabo
e caga pelo falo
dezenas
de dezenas
de centenas
de dejetos que desceram pelo talo
que na garganta enfiados
travaram num pobre peito censurado
que luta contra ser hipnotizado
toda hora tentado
por corpos suados
e por um leve e breve humor barato
envolto num fácil frágil tóxico inebriado
fruto desse consumir consumado
dum mal-gosto desgraçado
desses pedaços mal-colados
figurando num ciborgue recém montado
que se vê no espelho a frente colocado
imagens de idéias soltas ao acaso
possíveis a um fim alcançado
elas se agrupam no vasto
universo cunhado
numa moeda de infinitos lados
que gira
gira
gera
germina
esse texto todo mal-estruturado
lapso de mim perdido em tudo aqui digitado

ainda assim fica um ruído
que ecoa
ecoa se consumindo
texto auto-destrutivo
felino
peso vindo
pontuando e impelindo
à força partindo
todos os Quixotes e os moinhos
só restando letras a caminho
ao largo parindo
quase rindo
versos e estrofes de linho
num tapete em desalinho
pouco
pouco deveras
bem construído
fruto de um mundo caudilho
sem portos ou abrigos
só um asco fluindo
o rumo numa nau não tido
é esse texto bem quisto
em que invisto
milhares
de milhares
de milhões
de coisas que poderia estar repetindo
que me acertam no supino
como uma fincada de flecha de índio
no peito e este se abrindo
o sangue caindo
um humor quase canino
mesmo com esses olhos de menino
que teimam em o ser em terreno pútrido
coisa que valha além de ser signo
como com lixa carinho
como só com branco colorido
como mesmo anestesiado tudo dolorido
é uma oferenda em sangue de novilho
palavras postas nesse redemoinho
para ser comida ao faminto
de letras e munindo
arsenal mínimo
contra o fardo do tal destino
que destoa
destoa
degenera
descamba
nesse texto todo quase latido
lapso aqui digitado de tudo em mim perdido

2072.

a pior ilusão que esse mundo pós-mundo nos dá
é a de que tudo fica mais perto
mas de fato toda proximidade agora é um parto
é apenas um despedir-se à beira de um porto
é pouco, pois sempre, bem parco
todos barcos navegando sem proa ou popa
pra sempre indo e nunca parando
nunca
sempre
sem ter pra onde

2071. Tremores essenciais II

movimentos involuntários
o dedo pulsa milímetros
que não foram calculados
quiçá mesmo controlados
pequenos e leves espasmos
como se uma convulsão
se aproximasse e o descontrole
de todo o resto se apoderasse

frenética a perna vibra
em ondulações pouco ritmadas
como que violadas
da própria consciência
fruto factível do fumo
da fossa e do frisson
ondas que nas pernas
vêm e vão

mesmo relaxado tudo teima
em por si mexer
um belo de um auê
os nervos parecem qualquer
coisa entre um varal esticado
e um grave formado pelo
vibrar do vento
imperceptível pouco e breve
mas ainda movimento
involuntário momento
em que o corpo diz
que a mente não pode ser
sempre um unguento

2070.

o que resta ao fim do dia
é apenas um corpo inerte
cansado de lutar contra a loucura
uma mente em cacos
cada um em um lado da própria cabeça
fragmentos de quem tentou manter-se são
neurônios que não conseguem
mais distinguir onde dói fisicamente
uma mente que mente em ser uma
múltipla ela vê em cada caco
um médico e um monstro refletidos
o corpo paira imerso em dar
em dor e ar
é tudo o que resta ao fim do dia
uma mente a um corpo
tentando parca se doar

2065.

bastaria apenas uma frase
dita em sussurro ou aos berros
para que nada tivesse sido o que é
era só ter falado de amor
de verdade
de vontade
de desejo
mas nada foi dito
apenas insuflado o grito
que contido na imaginação
de que seria algo prudente
e feito de lógica composta por dois
não fruto do malogrado trabalho do ego apenas
bastou para que
uma crosta se formasse
uma dor insone
uma angústia diletante
quase uma raiva

queria não ir
mas não me cabe o querer
pois que do que quero
queria mesmo era escolher
ficar
mas isso não se pronuncia
frase alguma que permitisse foi dita
me proíbo assim
de escolher você

2064. A distância de um sorriso

parece algo como
se fosse possível,
à revelia de uma manhã muda
de uma tentativa parca de surdez
de uma cegueira non sense,
parece ficar ali quase a milímetros

apesar do mundo
poderiam apenas palavras
da cor do sol
com o eco do vento
e da textura de um toque sobre teu rosto
bastarem-se para trazer
à tona esse que te cabe tanto

acho que vou
dado que o mundo
não deixa medir a distância
em proporção certa
se anos-luz
se já próximo
talvez mesmo nunca mais

deve ser para que eu vá
pois que do ponto da partida
até teu sorriso novamente
hão de vir lágrimas entrementes
mas depois de mim
teu sorriso
ainda há de ser certamente

2054. Para fins assim

Não tem jeito
No fim nada pós
No fim só esse gosto parco de Machado de Assis
Mais dois sóis
Talvez mais talvez menos
Mas certo que só
Dois sóis
Sós
Sempre essa indiferença planejada
Esse gosto de mácula não treinada
Essa coisa que não passa
Uma lágrima
Mil
Sempre a quase cair
Sempre
Quase
E os dois se olham e nada além
E os dois se tocam e nada vem
E nada surge
E o fim urge
E o gim desce
E tudo desce
Uma possibilidade que te afaga
Um mundo que de repente aparece
O bloqueio poético que não se faz mais
Um vômito há muito necessário
Uma paz quase inalcançável
E essa ansiedade
Ansiedade
Ansiedade
Ansiedade
Ânsia pela saciedade
Você pensa novamente amor
E você pira horas a fio pensando que a loucura é fato consumado
Vendo como re-dividir uma vida
Primeiro agrupando-a para depois espalhá-la pelos quatro cantos do mundo
Todo o vivido te passa em esquetes projetas num olhar perdido
É toda essa dúvida
É toda essa certeza
E esse inegável desejo de que isso remedeie e remende algo
É desesperador
Todo o contato visto em vão
Todo o dividir nada válido
Essa perna que não pára de tremer
E essa ansiedade
A enorme, gigante, absurda frustração
Por saber mais uma vez como tudo o já vivido
Mais uma vez
Eterno retorno
Sua respiração num segundo vira fumaça
Densa
Grossa
Desgraça
E irremediavelmente se acomete a sensação de que vai ficar tudo tranqüilo
E pronto
Acabou

2048. Balada dorida

dor doída
quase a dilacerar tudo
fazendo da alma
uma imensa ferida

ela quer fugir de você
como se fosse um monstro
um crápula
uma coisa sem ser

você a ama e pira
e ela quer que a decisão
saia da sua boca
ou do que você transpira

sofrer por antecipação
antes de tudo findo
antevendo a desgraça
e pior ainda, à prestação

você se sente um lixo
um louco, lerdo, lento
sem nada que valha
só um sentimento prolixo

ela quer a liberdade
essa que você pensou
sempre existir entre ambos
mas talvez seja só vaidade

e no fim você é o monstro
nada ameaçador
pouco, quase nada mesmo,
o idiota de um ogro

e você vira só um bosta
pensando que tudo
o vivido às duras penas
serve só como peso às costas

no final nem reticências
apenas um gosto
sem qualquer gosto
e uma eterna impaciência

2045.

perturba né?
conturba o cérebro
a imagem turva
da horda em turba
perturbando
a ordem e ordenando
com a desorganização
fortificando
o corte entre
o morro e o asfalto
ardendo o asfalto
corroendo o resto
da ordem mundial

perturba né?
confunde a mente
a informação infunda
da fazenda em fúria
fundando
um campo e afundando
com os latifúndios
encontrando
o mundo num
lampejo entre alma
e massa com calma
metendo a foice fundo
na festa mundial

perturba né?