0753. Obviedade XXVI (Respostas postas em poesias)

Que dizer ao se compreender versos?
Quando medida e pesos se fizeram então
Posto que quase sempre anda a alma
Em descompasso com a razão
Posto que quase sempre é a alma
Apenas um momento vão

Que dizer ao se compreender versos?
Dizer melodiosas redundâncias
Para se assegurar essa mesma alma
Em novos versos que ficarão na ânsia
De ser ou ao menos parecer
Possível solução de merecedora importância

Que dizer ao se compreender versos?
Será mesmo que são passíveis de compreensão
Que são até mesmo essas rimas pobres
Também uma outra e possível solução
Que dizem mesmo algo além do simplesmente dito
Essas palavras todas em vão (ou presas num vão)

Por fim, que dizer ao se compreender versos?
Notas, posfácios, teorias ou tratados…
Melhor não, melhor deixar o compreendido
Velado sobre novo poema adornado
De rimas pobres, pieguice e alma
Em prova dum sentimento contemplado

0742. Obviedade XV

tirei hoje meus óculos
exceto ao sono e ao banho
(e de quando em vez nem neles)
pouco me recordo de os tê-lo
retirado da frente de minhas retinas

ah, qual surpresa descobri
quando os tirei hoje
quão maravilhado me vi!

há tempos não via o que vi,
vi tudo sobre outro diálogo
com os meus miolos
foi assim que vi que não era luzes
mas sim mandalas luminosas
destacando-se de um quadro

vi que não eram mais indivíduos
ou pessoas, eram todos iguais
uma massa amorfa de corpos
móveis à revelia da beleza ou
da feiúra

vi que não eram mais
nuvens, mas sim tons de
cinza rasgando o céu

vi que não eram mais automóveis
e sim caixas sonoras com duas
mandalas na frente e atrás

vi que não havia mais paisagem,
mas cores, luzes e formas numa
continuidade aparente

vi um mundo mais inteligível à
minha alma do que à minha
construção cultual do mundo

hoje meus amigos e amigas,
como fui feliz!
sem formas, sem informações,
sem conceitos
só um contínuo
só o infinito
só

e confesso amigos e amigas que tenho medo agora
de prosseguir o caminho com essa dura
realidade vítrea em minha face
que descortina o mundo em definições

0741. Obviedade XIV

Era um rapaz sorridente
Sempre que a via, sorria
(Como sorria para todos)
Ela nada abstraia
(Como fazia com todos)

Um dia o sorriso foi embora
E então léguas de distância
Mostraram que no ato
De sorrir para todos
Era que ele dizia: te amo
(Não que isso importasse alguma coisa)
(Afinal… era só um sorriso)
(Afinal… era só amor mesmo)

0723.

Opções escusas
zoo serial killer
o maior brasileiro de todos os tempos
a descoberta de que a carne tem sentido
os carboidratos interferindo na dieta
esse aspecto londrino
que logo se torna torridamente tropical
aqui na Ceilândia…

Disso tudo, tento ficar com
o tudo e escolho a última opção.

0718.

cuidava das minhas plantas
quando fez o baque seco
não era do maracatu
não era o pancadão do rap

a multidão fez-se logo
o corpo, só corpo, no chão
um fulano ajoelhado ao lado

cuidava da vida naquele

não fui ver o corpo
agora era só um
à revelia de que vermes
fossem agora viver

0711.

Lavei bem os meu cabelos
Até enrolei os rebeldes
Botei a camisa pra dentro
Usei cinto e limpei o tênis
(Só não deu tempo de fazer a barba)

Vim num passo meio apressado
Peguei até lotação
(Quase morri cinco vezes)
Tinha medo da chuva desarrumar meus cabelos
E deixá-los um tanto lisos

Quis ficar bonito hoje
Pra você
Juro que tentei…

Mas aí agora eu já estou amassado
E os cabelos são só um fuá
Já suei a camisa
Sujei o tênis
Fiqui como sempre sou

Aí só resta o regozijar:
Quis ficar bonito hoje
Pra você
Juro que tentei…

0709. Da menina azul

Era uma menina azul,
embora mulher róseo-alba fosse
Tinha ares de lagoa
Não sei porque cargas d’água,
mas como ela tinha ares de lagoa
Por vezes parecia mais um açude,
mas sempre retornava à lagoa

Um dia dormi ao seu lado
E nesse dia o quarto pareceu um
imenso aquário
e meu sonho foi azul
E por mais que corrêssemos
pela relva selvagem
ela continuava a ser uma menina azul

0706.

certa feita disseram que
seria uma questão toponímica
(questão não, problema…)
careceria de uma raiz de
algo intrínseco e único
não só esse nome à revelia
de um projeto.
só depois descobriu-se que
não era o nome que trazia
a coisa consigo, mas sim
a coisa que se fazia nome
e quando se viu isto
a cidade já estava viva