Orgânico: unha na
corda no ar
dançando no ouvido.
Iguape, SP.
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
Orgânico: unha na
corda no ar
dançando no ouvido.
Iguape, SP.
O pingo pousa.
Seu instante na poça
uma onda.
Iguape, SP.
”Tive a grande tristeza vegetal,
o amor pelas asas.”
Perdi a ínfima alegria mineral,
a indiferença pelas pétalas.
A luz acordou na urbe.
As nascentes gritam.
Por trás do umbral do verão
minha razão dançava.
Quisera sentir as nascentes,
a vontade da água
há tempos morta, o grito aturdido
a nenhum dos tatos
da mente, amaro eco rouco
dentro dos cógitos…?
quanto vale?
quanto eu vou pagar?
pelo meu punhado
escasso de ar
pelo mar, pelo mar
quantas notas?
quantas cifras vou contar?
pelo meu sustento
a terra a pisar
por olhar, por olhar
como pode?
como foi acontecer?
tudo pois cercado
alguém possa ter
todo ser, todo ser
como isso?
como vou proceder?
pelo meu alento
alguém receber
vou dever, vou dever
Capa da Veja:
REFORMA AGRÁRIA JÁ!!
Nesta Edição:
– O processo histórico de concentração de terra no Brasil
– A relação promíscua entre política e latifúndio
– Assentamentos que dão certo
– Caminhos para compatibilizar a reforma agrária com a preservação ambiental
Folha de São Paulo, primeira página:
DEPUTADOS PRESOS TÊM TODOS OS BENS CONFISCADOS
STF estabelece aos condenados 30 anos de trabalhos forçados.
Jornal Nacional, depois do “Boa Noite”, fala o Bonner:
É NECESSÁRIO REDUZIR O CONSUMISMO
Segue a Fátima:
O Jornal Nacional mostra com exclusividade porque se livrar da cultura do supérfluo.
Correio Braziliense, primeira página:
O ABC DA CORRUPÇÃO
Série de reportagens do Correio investiga afundo como se desenvolveu o processo de corrupção que tomou conta do governo do DF durantes décadas.
Estadão, capa:
A LEITURA NO SÉCULO XXI
Escolas brasileiras mostram como desenvolver o hábito de ler em seus alunos.
armas em riste
as fábulas com balas e pólvora falantes
bonecos de fundas e pedras
as bandeiras sem capas de super-heróis
luta desde sempre
as intempéries da não escolha
razão de ser espírito
as trincheiras para a redenção
a terra prometida, ansiada, quista
tomada, suprimida, separada,
apartada, subjugada, dividida
prisão de confins de areia
prisão ao mundo
prisão na pátria esfacelada
as crianças correm, lutam
são crianças, você não vê isso?
são crianças, você não vê isso?
são crianças, você não vê isso?
Para além de pairar no ar
primeiro pirei para por lá
parar, logo eu tão pará,
pulei nela e planei ali,
parando no ar: por ela
lá paraná e nós por aqui,
paranoá.
o risco do risco
é o mesmo do
precipício,
o princípio é
sempre pior
“blackman know yourself
don’t forget your past”
grilhões houveram
e ainda governam
os navios negreiros
do pensamento
ainda há tempo,
mesmo no legado
da memória,
de mandar esse
resquício ir embora
mudar a assertiva
rezar nova missa
mais negra
mais aldeia, quilombo, terreiro
menos paço, igreja, outeiro
quebrar as correntes
que ainda correm rentes
junto ao atraso do preconceito
aquele ipê confuso
magro, magro
achando que era
de ser barriguda…
devia ser por causa
daquele banco embaixo
dele
que abrigava velhinhos
aposentados contando
histórias de um tempo
que virou palavra
agarrada entre uma
memória e outra
deve ser de lá
que deixou seu florescer
maturar mais
cedo que o de costume
destoando do
resto de sua comunidade
de ipês ainda em
pleno desnudar de folhas
Reduz sua vaidade
Recicla sua vontade
Reutiliza sua liberdade
Reduz sua necessidade
Recicla sua camaradagem
Reutiliza sua dignidade
Reduz sua disparidade
Recicla sua igualdade
Reutiliza sua bondade
Refaz sua realidade
a noite pousa
bela e negra
e toca e deixa
mais ainda minha
pele morena
despenca
tão amena…
a vida pode
pede por
assim ser
plena de paz
e positiva
pra poder
posso pegar teu sorriso
e estampar no meu
pra ficar mais comprido?
lençóis limpos
e roupa lavada
corpos intensos
e noite abraçada
esse tudo assim
necessário mais nada
esse todo tempo nosso
é tão mais que demais…
sabe essa sensação
de que o tempo
não vai pra frente
e nem volta pra trás?
eis o homem
esse homem
hesse lobo
ecce homo
só para quem
elogia a loucura
só para raros
só para loucos
que em si
são além
A lua brilha já inteira
e mesmo cego de
tanta luz, o Jorge,
São, ainda mata
eternamente em
seu cavalo, nela,
o seu dragão.
para estrelas
quando se parte,
à parte essa parte
que fica e arde,
fica ainda a arte
dos encontros ou
das partículas
que de si nunca
se perdem ou partem
todos somos de
todos partes
que sempre ficam
imagina a tensão:
no meio do cerrado ainda armado
ônibus lotados
trazendo os pioneiros
da decapitação da mata
sonhos, expectativas,
saudades e
braços e troncos e pernas
e cabeças e mãos
e suores já gastos
postos a serem ainda mais gastos
imagina a loucura:
da mistura cafusa, mameluca
de esperanças mantidas
com pão parco
herdeiro da substituição do
trabalho escravo
imagina o caos:
tratores, caminhões,
poeira
imagina isso em junho
imagina sem lago
imagina o vento frio na seca
e na imensidão do céu preenchendo as existências
imagina a terra sendo rasgada
imagina isso doido que foi
travestindo-se disso hoje concreto
e ainda queriam que quem fez isso hoje concreto
com o suor gasto de seu trabalho
abençoado por esse céu de louco
voltasse ao final para o início de sua lida,
esses outros tantos rincões disso tudo
que forma o contínuo desses brasis
com o suor e as mãos firmes ficaram
e ergueram como nos outros brasis
mil brasis possíveis às margens da
ilha de concreto erguida ao redor do cerrado
Mensure o acesso à cultura
em cifras,
fale em “bem” cultural,
propriedade intelectual,
direito autoral,
transforme arte em grana,
inspiração em pré-viabilidade,
daí ao criar algo,
pense antes nos custos e
benefícios da sua angústia
exposta em metáforas,
parágrafos ou diálogos
e não se esqueça da
abrangência e dos
impactos que pintar um
sorriso podem resultar
como incremento à
economia local.
de certo que agora
desceu a palo seco
sua saída
deixou espaço aberto
na boca por sussurrar:
saiu, saiu, saiu…
de manhã dei com a testa
num cacho de buganvília
foi tão despropositado
que eu até pensei que era
você vindo aí de longe
colorindo uma flor no
meio do meu caminho
no meio do meu carinho
colorindo uma flor
posso postular
que pôs tu lá
na pré via de
mão dupla o pós?
pós, entende?
pós, sô!
quase que eu perdi o ar
depois de te ver
quase que o tempo
se perdeu por perder
o espaço foi parar na
beirada do ar
que eu quase perdi
e eu fui me perder
pra poder te ver
entre as sombras dos
pinhais sobrou um pouco
do ar que eu perdi
e de você que eu vi
quase que eu perdi tudo
que podia perder
pra ficar pelas sombras
na sua luz te ver
e eu perdi
transigindo com o que foi colocado
de cada parte para um lado.
condescendente com o que foi tratado
e comprazido sem prazer com o amargo sorvido:
tempo mais tempo mais tempo
menos esperança elevada ao tempo.
oportunidade há de haver,
quando contemporizar
for realmente entendido como é:
manear a realidade na ânsia de que
no agora que ela não cabe,
caiba num ainda que agrade.
vou sem fé,
base, apoio, muleta
esteio, corda
sozinho
pirando pelos entres da cidade
pairando por cima da cidade
parando pela cidade
poeira na cidade
pluma
até que chegue a idade da eternidade
como farpas presas nas pontas dos dedos
possibilitando que o tempo
seja apenas um antojo
adeus,
pois que se nada mais toca
nem se perguntar deve:
há deus?
seria tão fácil navegar
se na quebra dela
– posto que mar é
feminina e substantiva –
uma vela se hasteasse
como um candeeiro
aceso dentro d’água
e dentro do firmamento
esse ponto de luz
se abraçasse em seus seios
de ondas brancas e brumas
e vagasse seguindo o rumo
dos cachos de suas marés
seria aquela calma alegre e longa
no canto das tardes de um dia
escondido entre dois litorais,
vela erguida dentro dela,
literal falta de ais
esse preto mesmo
que visto é pra
me dar coragem
esse branco mesmo
que fito é pra
me pacificar passagem
esse verde mesmo
que vivo é pra
me esperar paragem
esse vermelho mesmo
tão vivo é pra
me inspirar sacanagem
esse azul mesmo
que insisto é pra
me espelhar miragem
Deveria ter prestado atenção
na deixa do teu signo de água
de ninfa aquosa que é,
dona de nascentes e de fontes
de veneno cristalino.
Só me daria mesmo um gole
– provar o gosto
com a ponta da língua –
breve espaço entre papilas
e átomos liqufeitos.
Banhar em tuas águas
só me restaria mesmo à loucura
ou à morte.
no que sobrou
sobre os escombros
sem possibilidade
alguma de sublimação
só sobra um
segredo que mora
na boca do Estado
É uma pergunta tão aflita…
O que excede é que excita?
fique em casa o tanto quanto possa
e guarde grana, neurônios, pulmões
e sentimentos para ocasiões em que
realmente se precise ou deva usá-los
ame não
nunca
nem
só sim
sempre
sem
tesão talvez
tanto
tem
A mecânica financeira
é um vasto campo da
alquimia econômica:
chumbo em ouro
é todo dia transformado,
com o segredo guardado
qual Graal
por bancárias seitas
iniciáticas
e seus costumes mágicos
da manipulação das cifras
e dos mercados.
um detalhe articulado
no curto cabelo
a grande trança posta
de lado, ali pousa
meu olhar,
meu pecado…
como conseguir
se concentrar
com esse tanto
azul sem ser mar
e essa nuvem-
espuma quase
a ondular?
a gente caminhava em meio ao lixo
e não havia luxo algum nele
grupos inteiros de jovens sentados junto ao lixo
em meio a latas de cerveja
cacos de garrafas de vodca
bitucas de cigarro
pedaços de identidades largados pelo chão
fragmentos de sexualidade liberada
tudo jogado
eu me jogando
como se lixo fosse
como caco que sou
como os pedaços colados de sons que fazem a música
que conduz os jovens, os lixos, as identidades, eu
a coexistirem em alguma paz
isso de além
ser tanto quanto
a gente é
vai nos levar
sempre a querer
meus pés se colorem
meus pós se coligam
meus prés se agitam
meus pios se uivam
e minhas pegadas viram ramalhetes
silencia um minuto,
certifica que o dito
será matéria a
percorrer línguas,
ganhar ares
e fincar ouvidos
silencia só um instante
não faz da verborragia
o seu todo gritante
e diz com os olhos
mesmo vacilantes:
não quero falar,
sentir é o bastante
cabelo luzindo em ocaso
brinco de argola dourado
relógio dourado no braço
blusa rosa com strass e babado
salto agulha bem alto
não faz minimamente meu tipo
mas ainda assim, esse mar de luzes,
eu insisto,
humano extasiadamente homem,
eu existo…
De pé a pé a cidade é micro, da altura de encontros,
da dimensão de tropeços.
São lugares dentro de lugares juntando espaços.
De bicicleta a cidade é perto, da altura de um banco,
da dimensão de movimentos.
São paisagens afetivas percebendo e sentido espaços.
De moto a cidade é gigante, da altura de um olhar,
da dimensão de segundos.
São fluxos velozes descortinando os espaços.
De carro a cidade é pequena, da altura de um busto,
da dimensão de minutos.
São fixos perpassados que formam espaços.
De ônibus a cidade é ampla, da altura de um arvoredo,
da dimensão de horas.
São formas arrebatadas na existência dos espaços.
De metrô a cidade é comprimida, da altura de um túnel,
da dimensão de frações.
São estruturas indutoras da mobilidade em espaços.
Deslocar-se na cidade é viver na altura da urbe,
na dimensão do cotidiano.
São processos que abrem o espaço aos espaços.
e quem vai querer
dividir comigo essas notas,
tocando num átimo o tímpano
e misturando no ouvido
língua, tremores e tons?
Milésimos de segundo
antes do sol se apagar
dois corpos humanos
falavam de seus eternos
amores, pouco antes
de uma onda de calor
derreter corpos, amores,
tudo que quisesse a
impossibilidade do sempre.
Isso turvo entre
as gotas
embaçado atrás
do vidro
essa iluminação
rota
posta nos
interstícios,
é o mundo
quando chove,
lado de fora
do lento ônibus
no trânsito
que te acolhe
Se eu gritasse e
todos os grilos
se gastassem,
será que eu
me gostaria?
por que o banzo?
a letargia sentimental
molhando o que escorre por um blues
o medo das chagas
as proposições impensadas
o pensamento demasiado humano
não possui nome isso
possui tentativa
lance de dados com as palavras
possui corpo isso?
o permeável de um ser
o tocável de um ser
e por que o banzo?
se a chuva bela tem essa gotícula matéria que se transpõe dentro
e que brota cascata peito afora pelas janelas da alma
as esperas e as esperanças esparsas
cada uma trazendo um momento
que é espaço:
esse lugar do dentro de si que não possui nome