2681. Quanto?

quanto vale?
quanto eu vou pagar?
pelo meu punhado
escasso de ar
pelo mar, pelo mar

quantas notas?
quantas cifras vou contar?
pelo meu sustento
a terra a pisar
por olhar, por olhar

como pode?
como foi acontecer?
tudo pois cercado
alguém possa ter
todo ser, todo ser

como isso?
como vou proceder?
pelo meu alento
alguém receber
vou dever, vou dever

2680. Impossível imprensa

Capa da Veja:
REFORMA AGRÁRIA JÁ!!
Nesta Edição:
– O processo histórico de concentração de terra no Brasil
– A relação promíscua entre política e latifúndio
– Assentamentos que dão certo
– Caminhos para compatibilizar a reforma agrária com a preservação ambiental

Folha de São Paulo, primeira página:
DEPUTADOS PRESOS TÊM TODOS OS BENS CONFISCADOS
STF estabelece aos condenados 30 anos de trabalhos forçados.

Jornal Nacional, depois do “Boa Noite”, fala o Bonner:
É NECESSÁRIO REDUZIR O CONSUMISMO
Segue a Fátima:
O Jornal Nacional mostra com exclusividade porque se livrar da cultura do supérfluo.

Correio Braziliense, primeira página:
O ABC DA CORRUPÇÃO
Série de reportagens do Correio investiga afundo como se desenvolveu o processo de corrupção que tomou conta do governo do DF durantes décadas.

Estadão, capa:
A LEITURA NO SÉCULO XXI
Escolas brasileiras mostram como desenvolver o hábito de ler em seus alunos.

2679. São crianças, você não vê isso?

armas em riste
as fábulas com balas e pólvora falantes
bonecos de fundas e pedras
as bandeiras sem capas de super-heróis
luta desde sempre
as intempéries da não escolha
razão de ser espírito
as trincheiras para a redenção

a terra prometida, ansiada, quista
tomada, suprimida, separada,
apartada, subjugada, dividida
prisão de confins de areia
prisão ao mundo
prisão na pátria esfacelada

as crianças correm, lutam

são crianças, você não vê isso?
são crianças, você não vê isso?
são crianças, você não vê isso?

2675.

aquele ipê confuso
magro, magro
achando que era
de ser barriguda…

devia ser por causa
daquele banco embaixo
dele
que abrigava velhinhos
aposentados contando
histórias de um tempo
que virou palavra
agarrada entre uma
memória e outra

deve ser de lá
que deixou seu florescer
maturar mais
cedo que o de costume
destoando do
resto de sua comunidade
de ipês ainda em
pleno desnudar de folhas

2665. Saudosa Brazólia, Brazólia querida…

imagina a tensão:
no meio do cerrado ainda armado
ônibus lotados
trazendo os pioneiros
da decapitação da mata
sonhos, expectativas,
saudades e
braços e troncos e pernas
e cabeças e mãos
e suores já gastos
postos a serem ainda mais gastos

imagina a loucura:
da mistura cafusa, mameluca
de esperanças mantidas
com pão parco
herdeiro da substituição do
trabalho escravo

imagina o caos:
tratores, caminhões,
poeira

imagina isso em junho

imagina sem lago

imagina o vento frio na seca
e na imensidão do céu preenchendo as existências

imagina a terra sendo rasgada

imagina isso doido que foi
travestindo-se disso hoje concreto

e ainda queriam que quem fez isso hoje concreto
com o suor gasto de seu trabalho
abençoado por esse céu de louco
voltasse ao final para o início de sua lida,
esses outros tantos rincões disso tudo
que forma o contínuo desses brasis

com o suor e as mãos firmes ficaram
e ergueram como nos outros brasis
mil brasis possíveis às margens da
ilha de concreto erguida ao redor do cerrado

2664. Projeto cultural

Mensure o acesso à cultura
em cifras,
fale em “bem” cultural,
propriedade intelectual,
direito autoral,
transforme arte em grana,
inspiração em pré-viabilidade,
daí ao criar algo,
pense antes nos custos e
benefícios da sua angústia
exposta em metáforas,
parágrafos ou diálogos
e não se esqueça da
abrangência e dos
impactos que pintar um
sorriso podem resultar
como incremento à
economia local.

2660. Araucária

quase que eu perdi o ar
depois de te ver
quase que o tempo
se perdeu por perder

o espaço foi parar na
beirada do ar
que eu quase perdi
e eu fui me perder
pra poder te ver

entre as sombras dos
pinhais sobrou um pouco
do ar que eu perdi
e de você que eu vi

quase que eu perdi tudo
que podia perder
pra ficar pelas sombras
na sua luz te ver

e eu perdi

2658. Adeus ao deus

vou sem fé,
base, apoio, muleta
esteio, corda

sozinho

pirando pelos entres da cidade
pairando por cima da cidade
parando pela cidade
poeira na cidade

pluma

até que chegue a idade da eternidade
como farpas presas nas pontas dos dedos
possibilitando que o tempo
seja apenas um antojo

adeus,
pois que se nada mais toca
nem se perguntar deve:
há deus?

2657. Mar alegre

seria tão fácil navegar
se na quebra dela
– posto que mar é
feminina e substantiva –
uma vela se hasteasse
como um candeeiro
aceso dentro d’água
e dentro do firmamento
esse ponto de luz
se abraçasse em seus seios
de ondas brancas e brumas
e vagasse seguindo o rumo
dos cachos de suas marés
seria aquela calma alegre e longa
no canto das tardes de um dia
escondido entre dois litorais,
vela erguida dentro dela,
literal falta de ais

2647.

a gente caminhava em meio ao lixo
e não havia luxo algum nele
grupos inteiros de jovens sentados junto ao lixo
em meio a latas de cerveja
cacos de garrafas de vodca
bitucas de cigarro
pedaços de identidades largados pelo chão
fragmentos de sexualidade liberada
tudo jogado
eu me jogando
como se lixo fosse
como caco que sou
como os pedaços colados de sons que fazem a música
que conduz os jovens, os lixos, as identidades, eu
a coexistirem em alguma paz

2642. Percursos, ab urbe condita

De pé a pé a cidade é micro, da altura de encontros,
da dimensão de tropeços.
São lugares dentro de lugares juntando espaços.

De bicicleta a cidade é perto, da altura de um banco,
da dimensão de movimentos.
São paisagens afetivas percebendo e sentido espaços.

De moto a cidade é gigante, da altura de um olhar,
da dimensão de segundos.
São fluxos velozes descortinando os espaços.

De carro a cidade é pequena, da altura de um busto,
da dimensão de minutos.
São fixos perpassados que formam espaços.

De ônibus a cidade é ampla, da altura de um arvoredo,
da dimensão de horas.
São formas arrebatadas na existência dos espaços.

De metrô a cidade é comprimida, da altura de um túnel,
da dimensão de frações.
São estruturas indutoras da mobilidade em espaços.

Deslocar-se na cidade é viver na altura da urbe,
na dimensão do cotidiano.
São processos que abrem o espaço aos espaços.

2637. Transpondo

por que o banzo?
a letargia sentimental
molhando o que escorre por um blues

o medo das chagas
as proposições impensadas
o pensamento demasiado humano

não possui nome isso
possui tentativa
lance de dados com as palavras
possui corpo isso?
o permeável de um ser
o tocável de um ser

e por que o banzo?
se a chuva bela tem essa gotícula matéria que se transpõe dentro
e que brota cascata peito afora pelas janelas da alma

as esperas e as esperanças esparsas
cada uma trazendo um momento
que é espaço:

esse lugar do dentro de si que não possui nome