Quando o pigarro
desponta, deixando
a garganta no
ponto de não querer
mais ser garganta
eu fumo mais.
Autor: Guilherme Carvalho
1642.
Vou me esquecer
no seu esquecimento
ficar bem lá guardado
dentro
e não provocar nenhum
atrevimento
de sair do seu não
lembrado reino.
Vou viver no seu,
não sendo.
1641. Ode ao ego (ou devaneio Narciso mor)
Vou desistir de você,
de você
e de você também
por tabela.
Vou me existir
aqui no mim
e deixar você,
você,
e você também
para lá do além.
1640.
Quando de menino
eu via aquele garoto
no espelho d’água
do banheiro.
Era um mundo opaco
de um azulejar quase
branco e de um teto
infinito no meio do chão
a morada daquele que eu
contemplava.
Naquele que eu via
tentava ver aquele que
me via, um estranhamento
da visão dele na minha
própria visão.
Naquele mundo de águas
e azulejos e tetos
sem fim eu via a figura
nua de olhos miúdos
cabelos pretos a escorrer
pela cara, a miudeza
daquelas partes
de abaixo do umbigo,
as canelas finas e os
braços esguios,
que via um rapaz
que via um rapaz
que se via no
estranhamento
de não ser em si mesmo
apenas
mas sim qualquer coisa
entre um olhar e outro.
1639.
O que me falta
deve ser a falta
É essa alma alta
Cheia do banzo da Cruz de Malta
Cheia da baldeação da preguiça
Essa coisa repleta, maldita
Me falta a falta
De respingar o vazio que salta
1637.
os acasos,
malditos são
os acasos
esses ascos
que ocorrem
sem motivo
ou só motivo
talvez melhor
fosse o destino,
do desatino
1638.
Desistir
De existir
Desisto
Disto
1636.
sem dor viver
não tem cor
ou se tem
é tudo monocromático
vou pintar um
arco-íris bem
no meu quarto,
pra ver se viver
vira viver de fato
1635. Vegetariana
Eu me ofereci por
completo, pra
ela aproveitar
como quisesse,
mas ela disse
que carne ela
não gostava,
preferia mesmo
uma boa salada
de alma.
1634.
Morena
essa tez
de endoidecer
testa todo
ser
1633.
sometimes
life is just
sometimes
I just need this
1632.
solidão é isso
que não tem cor
cobre o peito aflito
não se deixa em dor
eu fico com o só
que funda o mito
de que dá dó
mas não, é lindo
1631.
Eu te amo moreno
Nós dois juntos sem fim
Eu te amo moreno
Num sertão grande assim
Eu te amo moreno
Vereda longa em mim
Eu te amo moreno
Eu, teu Diadorim
No campo, no rego, no corte
No açoite, na bala, no fim
Sou teu companheiro de morte
Eu, teu Diadorim
Teu peito não conhece o meu
Uma coisa reta em mim
No que avulta em tuas pernas
É um espaço em Diadorim
1629.
Tudo se perde
no tempo
o presente lento
e o que não
vai vir
Do espelho um
relógio em si
Passa o tempo
e tudo volta
eterno se ir
O peso que se
sustenta aqui
Passa todo o
passa-tempo
1630.
Eu te vi
você me viu
e o que havia
de vir
ninguém notou
Você construindo
todo o Ocaso
Eu raiando em
cem, mil pedaços
Você viu
Eu notei
Que o sol se
põe na antípoda
do nosso também
Cada um prum lado
Eu te vi
Você me viu
Ninguém notou
1626. Na noite
Eu não sabia que
o dia não cabia
1627.
Por entre os
segundos desse
dia que não é,
sussurra uma poesia
pronta
Se apronta uma
poesia pronta
Em prontidão permanece
uma poesia pronta
Por entre o segredo
revelado da manhã
se prova uma poesia pronta
Promete uma poesia
vir daqui para o acolá,
já pronta
Feito prece, surge a
poesia pronta
1628. Sutil
Eu vou chegar sutil
como a poeira pela
fresta da porta
Pelo telhado de zinco
Como uma faca
que não corta
Sutil
Só teu
Sutil
Eu vou chegar sutil
aos poucos, aos pedaços
mas depois um bocado
Sutil
Só teu
Eu vou chegar sutil
sem olho no olho
Sem encostar no
teu dorso
Sutil
Só teu
Eu vou chegar sutil
sem olhar o que és
sem encostar em
teus pés
Sutil
Só teu
Me deixa chegar
sutil,
sultão
dos teus.
1624. Monólogo entre duas pessoas
…
1625.
Noite longa,
lenta, leve
logo é dia,
mas que a
noite me leve.
1622. Lápide
Assim é o começo,
o início como um funeral,
um vôo rumo ao início
numa morte alucinante,
assim começa,
quando tudo termina.
1623.
Quando a noite cai
eu caio
e tateio com a
caneta
as linhas do caderno.
Quando a noite cai
eu caio com palavras
escrevendo como
um cego
tentando buscar
a noite entre as
linhas que não
vejo.
1621.
Eu gosto das feias arrumadas,
bonitas são elas,
bonitinhas.
Qual o problema
com as que não aprazem
mas causam gosto?
São lindas todas as feias arrumadas,
sem desconforto visual algum.
Viva às feias arrumadas!
Eu canto suas belezas sem-graça,
água com açúcar,
sem qualquer pitada.
Que bom que falta,
porque quando sobra,
é tudo resto pra nada.
1619.
O vento dura no
sul, na ventura
de ir-se junto
ao infinito azul
1620. Púrpura
púrpuras são
as retinas que
não se vê,
cálidas passagens
que dão ao
carinho a fronte
de absurdo,
cálidas pontes
rumo ao imponderável
da tua voz.
púrpura é a cor
da minha memória
1618. Ou
Saudade de
sentir,
saudade…
ou
Saudade de
sentir
saudade.
1616.
Esse sol é
qualquer coisa
assim, esse
som ésse, ó e
éle, que junta
assim, dando
coesão às
explosões de
partículas de hélio.
1617.
Nem inspira
Nem transpira
Sem trans,
pirar (in).
1614. Ela disse
rompeu
o hímen
meteu
no meu
o teu
1615.
Dá a tua
voz para que
dela não
sobre mais
esse segredo
contido entre
as duas metades
da tua boca.
Dá a tua voz
para o mundo
num tom que
remeta sempre
mais que a
primavera da
tua língua.
Dá a tua voz
ao vento, dentro
de primaveras
sorridentes no
afago da tristeza.
Dá a tua voz
para que o
assombro do
mundo vire
encantamento.
1612.
Um cigarro dura
um beijo perfeito
com uma nova ordem.
1613.
Atrás das cortinas,
a sombra de alguém.
Detrás das minhas
retinas, ninguém.
1611.
Queria dizer assim,
que eu te amo ao infinito,
mas essa lonjura toda,
daqui de perto,
me deixa aflito.
1608.
Não é a possibilidade
do aperto de mão,
a cerveja que desce fácil,
o cigarro que se traça macio,
é a tristeza mesmo que condói
qualquer coisa e faz tudo assim,
meio luminoso,
neurotransmissor.
1609.
tomorrow I feel
just tomorrow
that I will be alive
that’s real
that I’m unreal
so unreal
1610. A mulher da sua vida
A mulher da sua vida
nunca entra na próxima parada,
ela sempre fica lá parada,
na parada que passou.
A mulher da sua vida
nunca se senta ao seu lado
no ônibus, ela se assenta em
qualquer sentido não o seu lado.
A mulher da sua vida
nunca chega ao acaso,
como quem não quer nada
e se deita e faz morada.
A mulher da sua vida
sempre foge, desce primeiro,
ou fica lá, em seu assento,
enquanto você vaga.
1607. Chapa quente
Dessa vez vai ser diferente
ressuscito do concreto,
do aço, do vidro, do metal,
sem natureza, sem beleza,
com guitarras distorcidas,
sintetizadores, sangue no olho…
São Paulo, SP.
1605.
E na Consolação
eu não a tive
Quase com solidão
o que eu tive
nessa Consolação
São Paulo, SP.
1606.
Como eu queria
chegar, aqui ou lá
qualquer colo
pra me aconchegar.
São Paulo, SP.
1604. Fátima II
São Paulo foi
só pretexto,
você foi texto
e contexto.
São Paulo, SP.
1603.
Acho que isso daqui
nunca pára
nunca aquieta
nunca
Queria que todos
virassem estátuas
de cera agora
e eu transitasse
livre, compondo o
meu silêncio
Esses sorrisos estilhaçados
essas faces tensas
o desespero contido
Queria que quando
tudo parasse eu
compusesse o silêncio
mais perfeito de
todos
Mas talvez o silêncio
mais perfeito seja
esse em que, tudo
em movimento, nada
se ouça
São Paulo, SP.
1602. Ipiranga e São João
Talvez isso tudo
não me desperte
mesmo nada
nenhuma coisa me
tocou naquele
cruzamento
Talvez seja que
o meu silêncio
fica dez vezes
mais em meio
a essa balburdia
sem fim que
mais parece
silêncio
São Paulo, SP.
1601.
“As pessoas às vezes procuram exatamente o que será capaz de doer ainda mais fundo.”
Por isso talvez
eu doa um
pouco imerso nesse
mar de vidros
e concreto, pra ver
se eu viro pessoa.
São Paulo, SP.
1600.
“A palavra mestiçagem significa misturar as lágrimas com o sangue que corre.”
Coisa como se do
estupro surgisse
uma bela cultura
1598.
No livro se dizia
cinza e longo,
mas no céu estavam
escritas aquelas
palavras de algodão-
doce tão eu
quando o que dizia
no livro
1599.
Ontem eu
levei os meus
Você ficou
com os seus
e eu reboquei
os nossos
Acabou-se isso
que teimava
em meu e seu
compartilhado
1596.
Meu corpo sabe mais
do que eu
Diz tudo
sente tudo
e eu não ouço
quase nada
Devia seguir mais
o meu corpo
ou só deixa-lo
se ir
1597.
O que eu quero
é a doce cumplicidade
das palavras não ditas
o acordo velado
do silêncio
o tátil não
comunicado
1595.
Eu gosto mesmo
é de juntar
amor e dor
como nas músicas
bregas
amor rima com dor
e é uma rima
que rimar
combina
1593.
Tem hora que me
acomete uma saudade
grande daquela dor
Era dor de gente
doída, era dor que
doía mesmo,
que valia a pena
Dor que a gente
abraça e diz,
“nossa! essa dói…”
Tinha gosto de
bem-feito
sabor de devia
ser pior…
Fui trocar aquela
dor por uma paz
medíocre e por
essas dorezinhas
que nem mexem
a espinha
Que saudade daquela
dor que doía!