1640.

Quando de menino
eu via aquele garoto
no espelho d’água
do banheiro.
Era um mundo opaco
de um azulejar quase
branco e de um teto
infinito no meio do chão
a morada daquele que eu
contemplava.
Naquele que eu via
tentava ver aquele que
me via, um estranhamento
da visão dele na minha
própria visão.
Naquele mundo de águas
e azulejos e tetos
sem fim eu via a figura
nua de olhos miúdos
cabelos pretos a escorrer
pela cara, a miudeza
daquelas partes
de abaixo do umbigo,
as canelas finas e os
braços esguios,
que via um rapaz
que via um rapaz
que se via no
estranhamento
de não ser em si mesmo
apenas
mas sim qualquer coisa
entre um olhar e outro.

1631.

Eu te amo moreno
Nós dois juntos sem fim
Eu te amo moreno
Num sertão grande assim
Eu te amo moreno
Vereda longa em mim
Eu te amo moreno
Eu, teu Diadorim

No campo, no rego, no corte
No açoite, na bala, no fim
Sou teu companheiro de morte
Eu, teu Diadorim

Teu peito não conhece o meu
Uma coisa reta em mim
No que avulta em tuas pernas
É um espaço em Diadorim

1627.

Por entre os
segundos desse
dia que não é,
sussurra uma poesia
pronta
Se apronta uma
poesia pronta
Em prontidão permanece
uma poesia pronta

Por entre o segredo
revelado da manhã
se prova uma poesia pronta
Promete uma poesia
vir daqui para o acolá,
já pronta
Feito prece, surge a
poesia pronta

1628. Sutil

Eu vou chegar sutil
como a poeira pela
fresta da porta
Pelo telhado de zinco
Como uma faca
que não corta
Sutil
Só teu
Sutil
Eu vou chegar sutil
aos poucos, aos pedaços
mas depois um bocado
Sutil
Só teu
Eu vou chegar sutil
sem olho no olho
Sem encostar no
teu dorso
Sutil
Só teu
Eu vou chegar sutil
sem olhar o que és
sem encostar em
teus pés
Sutil
Só teu
Me deixa chegar
sutil,
sultão
dos teus.

1621.

Eu gosto das feias arrumadas,
bonitas são elas,
bonitinhas.
Qual o problema
com as que não aprazem
mas causam gosto?
São lindas todas as feias arrumadas,
sem desconforto visual algum.
Viva às feias arrumadas!
Eu canto suas belezas sem-graça,
água com açúcar,
sem qualquer pitada.
Que bom que falta,
porque quando sobra,
é tudo resto pra nada.

1615.

Dá a tua
voz para que
dela não
sobre mais
esse segredo
contido entre
as duas metades
da tua boca.

Dá a tua voz
para o mundo
num tom que
remeta sempre
mais que a
primavera da
tua língua.

Dá a tua voz
ao vento, dentro
de primaveras
sorridentes no
afago da tristeza.

Dá a tua voz
para que o
assombro do
mundo vire
encantamento.

1610. A mulher da sua vida

A mulher da sua vida
nunca entra na próxima parada,
ela sempre fica lá parada,
na parada que passou.

A mulher da sua vida
nunca se senta ao seu lado
no ônibus, ela se assenta em
qualquer sentido não o seu lado.

A mulher da sua vida
nunca chega ao acaso,
como quem não quer nada
e se deita e faz morada.

A mulher da sua vida
sempre foge, desce primeiro,
ou fica lá, em seu assento,
enquanto você vaga.

1603.

Acho que isso daqui
nunca pára
nunca aquieta
nunca
Queria que todos
virassem estátuas
de cera agora
e eu transitasse
livre, compondo o
meu silêncio
Esses sorrisos estilhaçados
essas faces tensas
o desespero contido
Queria que quando
tudo parasse eu
compusesse o silêncio
mais perfeito de
todos
Mas talvez o silêncio
mais perfeito seja
esse em que, tudo
em movimento, nada
se ouça

São Paulo, SP.

1593.

Tem hora que me
acomete uma saudade
grande daquela dor
Era dor de gente
doída, era dor que
doía mesmo,
que valia a pena
Dor que a gente
abraça e diz,
“nossa! essa dói…”
Tinha gosto de
bem-feito
sabor de devia
ser pior…
Fui trocar aquela
dor por uma paz
medíocre e por
essas dorezinhas
que nem mexem
a espinha
Que saudade daquela
dor que doía!