1339.

(ao meu Tio Oscar)

hoje eu senti o
cheiro da morte ao
carregar meu tio
já morto
pelos corredores
do hospital público
na ânsia de só
tentar fazer algo,
de só procurar
fazer alo
e de só ter a
morte às mãos.
hoje eu vi a morte,
eu a carreguei nos
meus braços, eu
a sinto ainda em mim.
hoje eu senti a
morte de perto,
e não teve nada
de belo, nada de
nobre, nada de
lúgubre.
só descaso, só
corredores vazios
e gemidos baixos,
só minha mãe
e seu choro, só
um corpo numa
maca.
hoje eu vi a morte
e não queria
te-la visto.

1335.

Eu tomo um copo
de café ao meio-
dia,
não,
nem um cigarro
cabe agora
só há peso
só há o amaro
do estimulante
e a vontade de
não sair da cama,
essa que nem tenho

Eu tomo um copo
de café, deixo os
goles caírem-se todos
pelo talo da
garganta
quente
bem quente
queima tudo numa
ânsia estúpida de
que a traquéia
se ligue direto
ao coração

Hoje eu só tenho
isso

1332.

Eu a via
só pelo reflexo
da janela
do ônibus

O que havia
no meu olhar
eu não saberia
dizer se fosse
ela

Quem sabe ela
entendesse que
o meu desejo
não era o de
entrar e ficar
por lá no aconchego
mas sim o de
fazer com que
qualquer extensão
minha e eu
mesmo pudesse
ser o deleite
que escorreria
de seu rosto,
suor e gemido

E pra isso nem
me importaria
minha impotência

1315. Racional

Era um choro.
E o meu,
choro docente,
era um enigma,
alaúde vibrando
notas descabidas.

Meu choro
era o outro.
Um amiguinho,
um irmão
com três latas de refrigerante
e o coração apertado
do humilhar-se.

Bendisse minha mãe,
meu pai e
chorei copiosamente
a cada mordida
do pão de queijo
que não me saciava a fome.

Quarenta centavos,
era tudo que eu podia
oferecer.
Quarenta centavos,
o preço alto do
meu ser.

Chorei com o irmãozinho
que dividia o vazio
e a dúvida da responsabilidade
da divina providência.

Chorei
minha
humanidade.

1309. Murro em ponta de faca

Nós somos esses sonhadores
que insistem em não morrer
numa morte anunciada
em qualquer esquina, para
aliviar o desejo de consumo
do mala que quer ser burguês

Nós nos acendemos por entre
as gotas da chuva e
tentamos em vão ensinar
cegos a enxergarem as luzes
sem calor do mundo opaco

Nós tangenciamos a moda
pelo bel-prazer de a criar
a todo instante, gritando
e urrando de prazer em
frente de uma igreja evangélica
e umbandista

Nós nos permeamos entre o vazio
da velocidade da luz e
não ouvimos nossos próprios sons
Eu esvazio o peito
na busca do fenômeno do
esvaziar, seu ser e sua
existência

Nesse então compreendo a
subjetividade da conduta:
eu me esvaziei, vocês
fazem o que melhor lhes
couber.

1308.

O que caberia para além
de uma linha?
Os marcos de uma suavidade
que incorresse no
achado da alma?
Uma teoria para a
sutileza do vazio?
A acomodação de um quê
cheio de graça?

Não. Para além de
uma linha fica o
sentir de não saber,
fica o que cabe não
escrito.

Escrever é delimitar o
que não cabe nas
palavras.

1299.

Não possui o dom
de ser humano com
sua sublimação a toda
hora.
Não possui o fato
de ter no sangue (ou
no nome) a marca ímpar
do chicote no lombo
alheio.
Não possui a hábil mão
do fazedor de filhos
mor e do eterno ente
paternal nos peitos.
Não possui as costelas
adânicas de um anjo
torto e decaído.
Não possui a efermeridade
displicente de uma
cama a arder
em gozo.
Não possui o termo
derradeiro do ventre
que lhe cabe.
Não se encosta no poder.
Não tem um loft em
Águas Claras.
Não possui.