Me afogo
em teu afago
e na face
que me fita,
o fogo.
Autor: Guilherme Carvalho
1340. Barba pegando fogo
Angélica, assim
não dá…
disputar o prazer
com você
e despejar-me
de prazer
com você
pode fazer
alguém de azul
enlouquecer
1341.
Ah um samba
assim tão delicado
pra florear o meu
passado
eu hoje hei de fazer
Ah vou colocar-te lá
no alto
pintar meu álbum
de retratos
botando um riso em sua dor
1342.
Hoje eu me reencontro
com ela.
É uma ansiosidade
tal que não contenho
os nervos, estes que
já não me assentam
bem, ondulam uma
freqüência mais
alta ainda.
À meia-noite ela
vai entrar no meu
quarto e me esquentar
do frio.
A solidão é quente.
1338.
eu sou só um garotinho
que leu demais antes
da hora, agora
tento me esquecer
de tudo pra ser
só um velho que
se esqueceu de tudo
antes da hora
1339.
(ao meu Tio Oscar)
hoje eu senti o
cheiro da morte ao
carregar meu tio
já morto
pelos corredores
do hospital público
na ânsia de só
tentar fazer algo,
de só procurar
fazer alo
e de só ter a
morte às mãos.
hoje eu vi a morte,
eu a carreguei nos
meus braços, eu
a sinto ainda em mim.
hoje eu senti a
morte de perto,
e não teve nada
de belo, nada de
nobre, nada de
lúgubre.
só descaso, só
corredores vazios
e gemidos baixos,
só minha mãe
e seu choro, só
um corpo numa
maca.
hoje eu vi a morte
e não queria
te-la visto.
1336.
Na garagem eu espero
um pouco que o mundo
aconteça.
Talvez eu precise de um
gole ou mesmo de
um choque.
1337.
Ai se o céu se bastasse
desse jeito
por si só por instantes
e não fosse para além
de si um universo
em expansão…
1334.
um sono suave sussurra
quase em silêncio um
sentido de ser somente
1335.
Eu tomo um copo
de café ao meio-
dia,
não,
nem um cigarro
cabe agora
só há peso
só há o amaro
do estimulante
e a vontade de
não sair da cama,
essa que nem tenho
Eu tomo um copo
de café, deixo os
goles caírem-se todos
pelo talo da
garganta
quente
bem quente
queima tudo numa
ânsia estúpida de
que a traquéia
se ligue direto
ao coração
Hoje eu só tenho
isso
1332.
Eu a via
só pelo reflexo
da janela
do ônibus
O que havia
no meu olhar
eu não saberia
dizer se fosse
ela
Quem sabe ela
entendesse que
o meu desejo
não era o de
entrar e ficar
por lá no aconchego
mas sim o de
fazer com que
qualquer extensão
minha e eu
mesmo pudesse
ser o deleite
que escorreria
de seu rosto,
suor e gemido
E pra isso nem
me importaria
minha impotência
1333. 100% dinamite
hoje amanheci 100% dinamite
orei por Dionísio e
no café tomei um arrebite
sai de casa com sangue
nos olhos e tive um palpite
vai ser difícil fazer
que em algum conto de
amor eu acredite
1331. Professorinha
Professorinha
se eu tivesse
tido aulas com você
hoje eu teria
uma capacidade
cognitiva três vezes maior
e um páthos ainda vivo
e tua imago parental
faria me apaixonar
por qualquer autoridade.
1328.
No palco
A palavra
Na platéia
1329.
Loucos somos nós
que hoje somos nós
e não mais uma
corda esticada.
1330.
Ah você!
Você que está
aí sentada,
diz-me o que
é ser mulher
que eu te digo
que não sou uma.
1327. Conto em D#7
– Diversidade?
– Sim, sim, três p/cada
– Aonde?
– No campo de batalha.
– Ah, aqui mesmo?
– É…
1324.
Ah, encontrar possibilidades
de, pela linguagem,
dizer mais que a linguagem
e descobrir uma palavra
para além da beleza.
1325. Espaço e loucura
Conjunto solidário
de formas sem sentido
e de sentido em ação.
Um sistema indissociável
de ser-no-mundo
para que a normalidade
coloque um pára
estar no mundo.
Uma contradição em
termos na materialidade
inacessível de rugosidades
habitadas.
1326.
Um dia ainda fico
sem nome
e fico muito bem.
Passando sem ser
chamado,
passando só, sem.
1322.
O limiar da paz perpétua
não trás outros opúsculos
mas sim um quase
algo em si não verificável
1323. Maçãs
Nunca vi maçãs tão lindas
Nunca tão
Nunca assim, lindas
Nunca
Maçãs não são assim tão
lindas
Maçãs não
Não assim
Mas no seu rosto
maçãs são,
assim,
tão lindas.
1319.
Ontem choveu
e hoje o sol
doura um cinza
estranho neste
inverno.
Ou os invernos
estão mudando
ou eu mudei.
1320.
Vejo partes, flashes, rostos
A noite, a música e
luz do estrobo
Talvez de dia seja
também assim
e eu só não veja
1321.
E no final tudo
sempre dá certo
Porque até o errado
é certo.
1317.
Eu não me preocupo
é só ter calma
que a poesia vem,
desesperada.
1318.
Mais um ciclo
passado
olho a janela
do ônibus e vejo:
os ipês estão
em flor.
Mais um vez
eu floresço.
1315. Racional
Era um choro.
E o meu,
choro docente,
era um enigma,
alaúde vibrando
notas descabidas.
Meu choro
era o outro.
Um amiguinho,
um irmão
com três latas de refrigerante
e o coração apertado
do humilhar-se.
Bendisse minha mãe,
meu pai e
chorei copiosamente
a cada mordida
do pão de queijo
que não me saciava a fome.
Quarenta centavos,
era tudo que eu podia
oferecer.
Quarenta centavos,
o preço alto do
meu ser.
Chorei com o irmãozinho
que dividia o vazio
e a dúvida da responsabilidade
da divina providência.
Chorei
minha
humanidade.
1316.
Ver-te
Verter-se
Vazar-se
de si
Fazer as
vezes
de uma
voz
vazia de verdades
1314. Sentimental
Bom mesmo é quando
se olha que 2 + 2 = 4
e que a raiz deste
é tão somente uma
parte da metade
que o faz.
1312.
Não é na matéria
e tão pouco no ato
O popular se
revela na conjunção
do retalho.
1313.
No espelho do ônibus
vejo-me todos e todas
que não me são
por através da frente
do reflexo da
noite no asfalto molhado
em frente às luzes
da urbs tresloucada
Sou só o excesso
da refração e absorção
da luz difusa
desses seres opacos
1310.
O pensamento se funda
afundado em se confundir,
profundo fosso (quase
sem fundo) que não
consigo sair.
1311.
O saber está
disperso
na verdade
e na mentira
de um gesto
mero.
1309. Murro em ponta de faca
Nós somos esses sonhadores
que insistem em não morrer
numa morte anunciada
em qualquer esquina, para
aliviar o desejo de consumo
do mala que quer ser burguês
Nós nos acendemos por entre
as gotas da chuva e
tentamos em vão ensinar
cegos a enxergarem as luzes
sem calor do mundo opaco
Nós tangenciamos a moda
pelo bel-prazer de a criar
a todo instante, gritando
e urrando de prazer em
frente de uma igreja evangélica
e umbandista
Nós nos permeamos entre o vazio
da velocidade da luz e
não ouvimos nossos próprios sons
Eu esvazio o peito
na busca do fenômeno do
esvaziar, seu ser e sua
existência
Nesse então compreendo a
subjetividade da conduta:
eu me esvaziei, vocês
fazem o que melhor lhes
couber.
1306.
Queria tua mão
agora a
esquentar
a minha novamente
mesmo com esse
meu calor
que nunca cessa.
1307.
E antes que
eu me desse
conta, lá estava ela
a me amainar os nervos
e prostrar esse riso
Leve como algo que
eu já tinha até me esquecido
Deve se chamar felicidade mesmo
1308.
O que caberia para além
de uma linha?
Os marcos de uma suavidade
que incorresse no
achado da alma?
Uma teoria para a
sutileza do vazio?
A acomodação de um quê
cheio de graça?
Não. Para além de
uma linha fica o
sentir de não saber,
fica o que cabe não
escrito.
Escrever é delimitar o
que não cabe nas
palavras.
1304.
Eu não admito a traição,
eu insisto na traição.
Que traiam todos, então.
1305.
imaginei a cena
eu lavava a roupa
e você fazia a comida
ou o inverso
tanto faz
viver contigo seria
um verso
1302.
Eu?
Um coração repleto,
quase ao ponto do
vazio, sozinho numa
praça.
1303.
Mãos ásperas pela face,
contraste entre pele,
barba e cabelos.
E aquelas ancas eram
todo o meu desejo.
1301.
O Guilherme?
O Guilherme não importa,
ele é só um adereço,
quando muito,
alguém pra dividir
a gasolina.
1299.
Não possui o dom
de ser humano com
sua sublimação a toda
hora.
Não possui o fato
de ter no sangue (ou
no nome) a marca ímpar
do chicote no lombo
alheio.
Não possui a hábil mão
do fazedor de filhos
mor e do eterno ente
paternal nos peitos.
Não possui as costelas
adânicas de um anjo
torto e decaído.
Não possui a efermeridade
displicente de uma
cama a arder
em gozo.
Não possui o termo
derradeiro do ventre
que lhe cabe.
Não se encosta no poder.
Não tem um loft em
Águas Claras.
Não possui.
1300.
Dói, dói, dói.
De todas as merdas
a pior é o
amor.
1296. Adélia IV
Talvez Adélia seja
nem isto, mas certo
é que Adélia bem assim
é o que eu insisto.
1297.
Eu mesmo queria uma fração
de verdades para falsear
mais minha vida.
1298.
Eu mesmo comungo
é com a decadência.
A glória e a elevação
me demovem a querer
sair do meu marasmo.
Que não cessa.
1293. Adélia I
Talvez Adélia fosse só
um sonho contido no
passeio de uma folha
qual canoa a deriva
na correnteza do rio.
1294. Adélia II
Talvez Adélia fosse mais
que isso, talvez Adélia
fosse aquilo que eu não
existo.