proporção áurea
é essa inexatidão
precisa dos morros
azuis que ouriçam
o horizonte e deixam
cada palmo desse
mato branco tão
verde um único onde
Manoel Vitorino, BA.
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
do batente pra lá
o concreto torra
certo de que no
asfalto longe
o que emana é a loucura
do batente pra cá
o tempo se transporta
em vagos decibéis
de muriçocas e tapas pelo corpo
e sal liquefeito na pele a escorrer
vibra uma calma tensa
beirando o tesão
único e impossível
resultado para essa equação
cujo coeficiente
é essa hora que avança
e chega mais para trás
Depois da ceifa do sorgo
na noitinha vindoura
faríamos saraus espontâneos
recitando loas e estrofes
para a cara redonda da lua
Enquanto isso a marica
ajoelhava um a um na roda
e um samburá de amendoim torrado
no meio dava a liga da fome
Um disquim do Emicida
compartipirateado pra finalizar
e Dom Vitim contando histórias
para os filhos dos outros
enquanto pitava um porronco
sobre um tempo em que arte
chegou a valer milhões
não como naquele agora
em que ela valia o mesmo tanto
que se vivia, pois que
como as ondas que no ar nos uniam
ela era então também a própria vida
Quando o silêncio ocupava
o percurso entre dois pontos,
esse quando virava onde:
o espaço diluído que preenchia
o lugar havido entre os dois:
uma reta final
ou uma curva na abissal do infinito.
assim no afã
do calor louco
brisa bate sã
corre forte até
que no vento
vem grave
dona iansã
caem reis
dinastias imperialistas
apoiados pela demo-cristã-cracia
da águia
que não mais voa
rodopia
do tio de mente não sã
mas sadista
da união idílica das
nações de hipocrisia
com seus paraísos terrenos
feitos em areia sem argila
bradam aos berros
quase por telepatia
com todo o seu aparato de mídia
que caiam todos os reis
sem qualquer nostalgia
mas do mouro cairo rouco
que sequer disse metade
do que se queria
mostram apenas as imagens
dos gritos
da correria
penso sempre que alá
mostrou outra forma
de fazer política
e que talvez um conflito entre deuses
ponha jeová na berlinda
e quem sabe até essa aparente
chinesa falta de fé esquisita
não entra na fita e nos diga
que no fim a Verdade
só se mostrou pros jainistas
quando é
físico o
cansaço
quando a
fome é
o enlaço
você não
pensa
direito
e muito
menos
esquerdo
você é
guerra
no centro
veneno
Lá em casa paraavam
diferente os meus pais
Não era um paraês
nortixta que come
galínea fritínea,
era um paraês das grotas
Não era coisa dita num tocantinês puro,
tava mais prum araguaiês
ou um mato-grosseiro goianês
com acento sul-marabárico
Língua cafusa que mistura
cupu-açu com pequi
no paladar e sai a palavrear
dialeto brasílico
Aí cafusão mor foi quando
adentrou nova fronteira,
pois quem me habitava o sotaque
por aquelas bandas de casa
também era Bia
Grande Macabéa, Bia baiana
de seus quase 40 quilos
distribuidos em seus quase
1,50 de comprimento
O pequeno do corpo
não ajuntava no todo da língua
e ela me baianava ouvidos e boca
com essa moleza firme do
centro da Bahia, aguada pelo Corrente
e dura como espinho de quiabento
Daí acento estranho formei no céu
matuto urbano ceilandês
paraado num rural sertânico baianês
na primeira vez
que a gente se beijou
fechamos o bar
não que fôssemos
alcoolistas sem
conseguir parar
era que precisávamos
parar tudo e respirar
só o nosso ar
saca esse sax saindo?
é o sexo do som
socando o ar
porque a atmosfera
é masoquista
é flor, a bossa me pega
como versos me entranham
e essa estrutura sinuosa
que rompe ar na cabeça
deixa porta aberta no firme
das linhas que teiam
o amor aqui dentro
a bossa toca
se aloca pingos de teclas
na imensidão do bem-querer
e quando vejo, vem de leve
e rompendo tudo junto, você
como bossa-ser
a moça passa e chama
a moçada toda se inflama
mas, eu te amo, você me ama
deixa que a moça pega fogo
então em outra cama
mas saudade nega
é coisa que invade
que bate
surra de espinho
essa lonjura de carinho
arde
como o sol na moleira
no à pino da tarde
esse papo ultra-direitista
de que minha via num dá pé,
é lero-lero furado,
às vezes cola errado.
mas sempre me consola
lembrar que meu coração
bate é do esquerdo lado
e bombeia sangue pra funcionar
esse esponjoso aglutinado
encefálico que atenta com
a razão do capital enlatado
o que acontece
no céu que se
acomete no dentro?
essa nuvem que
forma a forma
marcando no peito
o esquerdo centro.
parece imagem,
mas é como unguento
meio minuto de criação
e já queima em si
um acalento…
relativiza
relata ao visa
e viva a dívida
esse estágio arabesco
de migrar imagens explosivas
– visões em fogos de artifício –
pelo cume do céu limpo de fumaça
faz ver no vão negro da noite
mais formas do que em nuvens
uma polifonia de quartos de tons
numa semifusa escuridão
acompanhando os olhos
pela sinfônica antimeridiana
hora de um sol perperndicular ao chão
lá na China
raízes tomam conta da noite
galhos rasgam o firmamento
e pequenas porções de momento
pingam formas cadentes no emaranhado
tecido que cobre nossas cabeças
queria te
ser presente
preta e
ausentar
essa pretensa
calma nas
têmporas
em intensa
e nossa líquida-
tesa presença
as primeiras segundas
e as primeiras primeiras
palavras
são de saudade
pego na cabeça
esse teu sorriso que cabe
tão bem no agora
que até no meu invade
e aí fica sorriso seu
esse meu
cê sabe…
se vaga a
identidade
me afaga
a imprecisão
de ser
quando dá
seja então
ela mesma
o bater das
asas ou
mesmo o
voo e a
paisagem
que se abre
a cada limite
percorrido
mas não
o pássaro
aprisionado em
seus genes
não que eu ache
que o tempo
tá doido demais
não, desgaste,
inda resta um
tanto de paz
não me fale
que acabou o tempo
pra menos ser mais
não espere
faça do agora
um futuro pra trás
não
mais
não
mais
…
para uma estreia
é melhor lápis.
não que a borracha tenha que agir,
mas é que o lápis
fala mais grosso na folha
e assim ouço os sussurros
do universo a me dizer:
“não é só estreia,
é que estrela…”
o dia inteiro choveu
e choveu tudo e não doeu
choveu para lavar o que já deu
ei! mergulha comigo no infinito?
lá parece que a água parece absinto
e embriaga a gente parecido
parece pouco, mas mergulhar é tão preciso
você faria as suas coisas
esmiuçando o que não foi dito na história
e eu ficaria ali em frente à tela
olhando seus ares de guerra e paz
enquanto tecia as palavras nas teclas e nos eletrodos
sentindo o cheiro doce da canela cozendo na cozinha
e a meia luz da tarde chuvosa
estrondaria no momento em que seu sorriso a pino
se abrisse para o meu
que já se prostrava desde o primeiro encontro
e isso tudo até aquecer no ar essa coberta da noite
que pede para unir pés gelados
no vento nas folhas
no ar que se achega
o meu aconchego
na brisa que chega
é ela
no estrondo do encontro
no beijo nos pelos
arrepio que entoo
balança a estribeira
é ela
no tempo que muda
na coisa que dura
o tempo somente
do vento que pesa
é ela
que fala palavra
feita movimento
que corre o corpo
lânguida e bela
é ela
oia oia, é ela
e eu te procurava pelos quatro cantos
sabendo que seria dessa terra que viria
cor da noite raiando os dias
com a palavra precisa para que a siga
você que veio desse longe tão perto
menina bonita do laço de fita
para um ano leve
eu levo junto em lava
lavando tudo que não é fantasia
as lendas lívidas
que li quando da
lépida infância em que
construía reinados
no abacateiro do quintal
Desculpa-me amor
pelo dito
e pelo feito
a intenção não foi essa
tampouco aquela
a coisa ou a cisma
era de que antes da chuva
os calafrios me arrebatassem
e que cada gota
trouxesse em si
um olor de querer mais
e o tato de querer sempre
Mas, desculpa-me amor
o amor não veio
ficou amor somente
sem que houvesse sementes
para maracujás
que se arraigariam nas jaqueiras
Enfim, desculpa-me desde sempre amor
por lhe ter sido sem sê-lo
e sem selo que se colasse
nas cartas que escrevi para o tempo
de antes, durante e depois da chuva
ser folha
falha
farfalhando
tudo
enquanto
toda relva
cala
ser falha
folha
forrando
o nada
se falha
se fala
falo
porrada
se foi
toda
fada
em toada
E hoje, longe,
o dia parece
que nunca quer
ser ontem.
na rouquidão dos meus versos
reflexo
da frouxidão do meu ego
só eco
o torto do mundo olhamos
só parece quê
nessa falta do que dê
nós damos
pô, eu tô
pô, ela tá
então pode crer
pura mor poesia
estamos
você
comparece
como se
para s
c desse
eu
compadeço
feito esse c
que com s
pareço
liquefeito é
o líquido efeito
em que eu
líquen feito
liquido a fé no eito
e só falo a linguagem das águas
rodopio rumo ao céu
lá no alto três instantes:
o rumo ao léu, rastejante
o prumo, você brilhante
a nuvem, nossa consoante
que cai até dar rio,
toda essa água pulsante
tanto se fez
tanto se quis
no fundo
pergunta e resposta
só um quiz
e uma cama
por um triz
a obrigação poda a poesia
pois com ela nada
ia ou vinha
pois só ia e vinha
pois ia
toda vez que vinha
depois das 18:00 tudo se depôs
e nesse após, ia
agora que dê, pois vinha
Karamazovs
Roskoffs
Engovs
Tudo o que cura, também fode
[E foda sempre pode]
eu disse: vinha
eu disse: tinha
no coração
tudo se apinha
destrava de si
pega nu
meu peito
e chora
murmurar o tempo
sob as costas banzeadas e bronzeadas de maresia e praia
enquanto um sax
passa a língua nos segundos e eu
miro os olhos estúpidos dos
turistas ávidos por uma lembrança
qualquer que seja:
colares, bajulaques, quinquilharias corporais,
noites de sexo nativo
duramente mola
pica, boceta, sola
percorridos os uivos do corpo
durante todo o dia
nisso que ocorreu ainda agora
lá começou a diáspora humana
dias ásperos de se comer carniça
noites derradeiras de se domar o fogo
tardes ternas de se inventar linguagens
manhãs divinas de se dominar
duas patas, polegares e massa encefálica
madrugadas quentes de se criar o
amor frente a frente
olhos nos olhos
essa coisa sendo amorificada
algum cerrado africano
por isso que essa África,
que frita-me a mente,
fica-me comunhão com o mundo ânima sapiens sapiens
É difícil cansar
de ver a mar
essa horizonte
mutante nada
diletante que
pousa o olho
no vasto instante
liquefeito
avante.
é a imperfeição
que aproxima
essa tecitura
divina incerta
é que rima
a mirada do gato
o preparo para
o assalto
o queijo
já que não há
mais interesse
pelo rato