2850. Pô, só meio…

Naquele dia em que eu falhei
não foi falta de vontade
talvez justo seja o fato
do excesso na cabeça junto ao anseio
pela obrigação dos comprimidos
dias para a cumprir e medir

talvez também tenha estado
esse estado complacente
de querer-te as coxas todas
esses inteiros travesseiros
de panos lisos e linda estampa

também provável talvez foi a vontade
absurda de percorrer essas panturrilhas indescritíveis
críveis apenas porque as vejo e toco

falhei no ato mesmo,
mas dentro
– toque, pegada, todo desejo
que possa –
faz de mim assim,
quase só,
um meio brocha.

2846.

E eu realmente me preocupo com o mundo
com as coisas dadas
com a desigualdade de tudo
esses conceitos prévios introjetados
nas veias dos genes e dos símbolos

Me preocupo com a causa Palestina
e mesmo com toda peste
bayer-mão-santa assassina

Mas o lance que agora me toca
que me rebela bossa
é esse seu rebolado embalado
no concreto e no asfalto

Essa falta de chão que tira piso quando ao lado

Essa bala efusiva
calafriando pele e pelos
pelo todo de tua boca
lábios em carne e cerne
com contornos e adornos
num breve batom
(que logo tiro)

E tem esse tom de rubras unhas
ao me rasgar as costas
que me posta em pirar
que o mundo é uma bosta,
mas com você rola mesmo uma aposta:
ok, depois eu guerreio,
pausado primeiro meu sono
nas suas costas

2844. Ocaso

a luz do sol
se despedaça
no horizonte
vagarosamente

as nuvens-prisma
que dilatam e
deformam a linha
tênue entre o
céu e o mar
secionam o espaço
em violeta, gris,
dourado

as camadas de água
borradas no céu
passam rentes
estacionadas no sem-fim

nenhuma forma inteligível
tudo estrutura
de matéria
de luz

alguns galhos rasgam
o firme visto e
pássaros pintam
movimento

horizontesse

desconstruindo diariamente
estratos de luz
que se dissolvem e imiscuem
até o toque negro
anunciante de toda manhã:
noite

(Ilha de Tinharé, BA)

 

2842. Solto

E eu quero é torrar no sol
para que ao céu
minha cor contraste
e eu não me sinta tão traste
dada a sina que me condói os genes

Quero que me avermelhe a pele
como índio que me deenianiza-me

Como isso vindo das confluências do Xingu
e de um encontro hebreu e ébrio
na subida do Araguaia

Que do carajá que me encoraja
aja o ferro em troca
para o carvalho que baste
na selva-silva em que silva o sussurro
de uma cascavel constante,
essa kundalini étnica
que dança louca quando se lembra hereditária
do mar que a povoou um dia:

lusa ínsula guiada por constelações e ventos,
nau de degredo que me agrega:

isso quando eu-construção-histórica solto na praia

(Ilha de Boipeba, BA)

2841. Para um silêncio preciso

E eu sou tão solícito
apanho grãos,
gotículas miúdas,
carnes trêmulas mirantes
– apenas as passantes –
pela reta das retinas

Maneio o vento
que dá vida a toda cor viva
anteposta a toda cor humana
que é cor parada e estática

Quero a pausa promovida
pela emancipação da liberdade dos caminhos trilhados
as ilhas que promovem horizontes de benfazejos

Apenas o instante das pequenas ondas que
se encontram com os turbilhões dos rios,
esses fios no largo da terra

Quero fios para fazer colares
que lhe darei
e as cordas dos seus cabelos,
esses novelos negros com anel,
sem qualquer clã de Rapunzel

Apenas seu colo
e eu calo toda solicitude

2838. Santa Amplitude

a amplidão reflete a pausa do tempo
na transformação de nuvens:
o nascedouro desapegado de toda água doce
o silêncio pousado no espaço entre uma gota e outra

reflete o instante perfeito de todo o ego:
crianças vagando sem rumo pela praia

passa imperfeita
nuance de horizonte e ciclo interno
para as veias incandescentes da terra
essas que fazem brotar ilhas e montanhas
flores de rocha bruta que desenham paisagens

a amplidão reflete a si mesma
dentro da palma de qualquer mão

2823.

a loucura se aproxima
parada em uma esquina
nem tão longe de onde
se perdeu as botas
nem tão perto de onde
o vento faz a volta

a loucura se aproxima
numa lucidez que alucina
nem tão pouca como
o que não se nota
nem tão tanta como
o que sempre lota

a loucura se aproxima
calma paz assassina
nem tão má feito
o diabo gosta
nem tão boa feito
um santo possa

2820. Porque está em tudo

Deixar-se fluir
pelos espaços
entre folhas e galhos
mirando a nuvem
alvo dissipada

Pairar por entre mangas
e quedar no reflexo
do vidro espelhado

Pousar o corpo entre
os vãos da grama
e silenciar todo caminho
esse momento humano
onde rodas pousam
e não nasce planta

Se dimensionar no
mesmo peso de pétalas
de espatódeas pelo barro molhado

Desmensurar toda a necessidade
como pedra ser

2818. Cri$e

quando mesmo o real
é apenas virtual
quando um dólar
não tem valor
quando bancos
centros do mundo
se deslocam no tempo
na ânsia por todo espaço
quando o lastro
é apenas um rastro
de algo que já houve
quando toda cifra
não existe no mundo
palpável
quando ouro é
todo o outro real
quando prata já
não se encontra
quando o bolo infla
mais do que as bocas
existentes e ainda
assim não alimenta

talvez

provavelmente talvez

seja a hora de
trocar as coisas
pelas próprias coisas

2817. Confesso

Ela era comercial processo
Ela era primeiro processo
Ela era duro processo
Ela era longe processo
Ela era quente processo
Ela era grande processo
Ela era primeiro processo
Ela era solto processo
Ela era desencadeado processo
Ela era afago processo
Ela era fofo processo
Ela era dissimulado processo
Elas eram todo o processo
Elas eram todo o processo
Ela era interstício e além de todo o processo
Ela era primeiro processo
Ela era igual processo
Ela era meio processo
Ela era algum processo
Ela era louco primeiro processo
Ela era meio ansiado processo
Ela era meigo processo
Ela era certo processo
Elas eram todo o processo
Ela era livre processo
Ela era doido processo
Ela era livre igual processo
Ela era alicerce e tropeço processo
Ela era meio ansiado todo processo
Ela era livre igual lá processo
Ela era imagem processo
Ela era primeiro processo
Ela era meio ansiado todo inatingível processo
Ela era aconchego processo

E dela eu me faço processo