agora há traços
antes eram riscos
tanto que arriscávamos
formas livres no papel sulfite
agora esses traços
ligando pontos disformes
longínquos
a menor distância entre eles
apenas traços
esmaecidos
no branco do papel
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
agora há traços
antes eram riscos
tanto que arriscávamos
formas livres no papel sulfite
agora esses traços
ligando pontos disformes
longínquos
a menor distância entre eles
apenas traços
esmaecidos
no branco do papel
deixou um rastro de pó
areia fina tuas marcas
o teu lado na cama espraia
sem mar
diante de toda a vastidão
é só você
e sua voz
inaudível
enquanto há vida
vá
ainda que da cor da voz
eram como são
tempos alquímicos e rudes
magos de sombras
bruxas abrasivas
e uma magia tão racional
que até o caos sangrava
há mistérios que o coração não aponta
como a forma das folhas
que guardam sempre no íntimo a mesma composição
há uma forma emanando a estrutura
como no peito aberto ao mundo
que se quis dizer estômago
e há as pétalas como as esferas planetárias
que fingem beleza
Desculpa-me, meu pai
mas é muito difícil
entender os seu sinais
meu peito nasceu na
ignorância
e continua a desaprender
e a cada lição
compreende menos
Falo de peito, meu pai,
porque a cabeça
funciona aos solavancos
e só vai, posto que não para
O peito não,
o peito para
e costuma querer parar
todo o resto
a todo instante
apenas por mania
de buscar não existir,
como naquele saudoso
tempo em que não existia,
o tempo de antes de mim
Perdoa-me, meu pai,
sem rancor,
mas o tempo
é de dor
Os ângulos da estação
as linhas se cruzando
se continuassem
encontrariam-se no infinito.
Os ângulos da estação
o sol despontado detrás da chuva
se continuasse
o dia dissolveria a água do céu.
Tudo é uma questão de manter:
a mente quieta e a espinha ereta e o coração.
Tranquilo.
dei pra ler o entulho
a disposição dos restos
o cascalho, a mamona, o monturo
o pneu criatório
o mato esgarçado
o escorpião, o casulo
na conjugação entrelaçada
o que principia, o que é,
o futuro
duas latas emborcadas
ao lado do concreto bruto
falava que nos fechamos
estagnadas para o fim contudo
e que a vida vazia seria
se não se acometesse o absurdo
intercedi e joguei as latas ao léu
uma em cima da lama
outra caiu num resto de muro
separação pouca
nada seria mais duro
mas foi no resto do guarda-chuva
apontado para a panela
que eu pude confirmar
nossa relação, já era
e minha alma ficou quieta
quando viu aquela flor amarela
me dizendo que outra
em sua vida já era certa
peguei o resto de papelão que achei
coloquei no meu carrinho
certa de que aquela noite
eu não voltava pra você
nem todo o sutil
premeditado do teu cinismo
há de decompor a doçura
das palavras
tampouco a eloquência racional
a falta de sangue
possuirá nossa língua
ao torto impronunciável
das mesóclises
me trago em pessoa
amada
todo dia
mas ninguém liga
tudo exaspera
nada espera
nesse dia de hoje
feito de um amanhã
que nunca explode
o vasto desterro
se anunciava
antes de ter forma
já variava entre
uma rua e um abismo
o vasto desterro
que se anunciava
em surdina constituído
enquanto sussurro
instituído conquanto
o urro não se desse
como enfim se deu
o vasto desterro era
só claridade
negrume sedento
cobrindo tudo
dentro do breu
o vasto desterro
que se deu
o vasto desterro
como conjugação
que não houvesse
entre meu e teu
o vasto desterro nosso
que se assucedeu
o segredo de toda
a beleza é fácil
é só não vê-la
sexta-feira é branca
não por oposição à negra
mas pela própria
substância negra
que a tudo compõe
a escala das minha palavras
afirma os meus estados
ou são miudezas
inversamente proporcionais?
quantas vezes reduzi
o que sinto no espaço real
do meu peito
àquelas quatro letras
juntadas num papel
como amor
romper o fardo
da liberdade
dada como amor
e aprisionada
não pela culatra
mas tangenciado
à francesa colonial
nosso fim
a fórceps
fuga e l’amour
aquela propaganda enganosa
até que morreu o que tínhamos
antes que a nossa morte nos separasse
se olhasse no fundo
de seus próprios olhos
veria
não são olhos de criança
são retos e ardilosos
são olhos que tocam
e invadem
não são olhos de conquistas
mas de ficções ordinárias
e raivosas
são olhos de corte
olhos como mãos
que arrancam e espremem
desacultura
antes que ser macho ao todo
te invada
e invada
atrás de onde a gente mora
cinza turvo ou sol
sempre
se arrasta a amplidão

estrago a pessoa
e desalmada
em três poesias
há um chamado do lado de lá
que diz
mar mar mar
há um ser errado no lado de cá
que encerrado no cerrado diz
mar mar mar
só não sei quem
ecoa quem
se fosse pra
escolher
uma nação
só se fosse
pelo som
o solo
o céu
a saudade
tudo isso
se é namorável
logo trocável
é o som o que
me fica e finca
cá nesses limites
e como todo som
hoje navega
meu ufanismo
é do mar
já quase não se acha
aquela forma longa
arredondada e curva
cada palavra
uma linha só
emaranhada
talvez apenas com infantes
a aprender o abecedário
que por força da
tradição delas
curvilíneas
não vislumbram modo vário
cada palavra ainda
é uma longa lenta
união
de letras fazendo sons
em significação
depois caos se acomete
e acontece o que acontece
enquadra-se em quadrados
e se ajusta às novas normas
outras formas
cada letra se desune
e de prever o aglutinado
é que se dá a soma
o que resta é só
letra de fôrma
foi quando passamos
a não dividir o sabonete
em menos de um ano
não dividíamos mais os segredos
tampouco os sonhos
era tudo por demais contaminável
a vida é só
um singelo desejo
de que no profundo
do que possa
baste sê-lo

amor por aqui?
só na parede ou na paçoca
o resto é lorota
não é um esporte
não é um treino
não é uma competição
é uma marca
registrada
propriedade intelectual de corpos
e como toda religião
um estilo de vida
uma distinção
a sua salvação
no fim da tarde ocorre a marcha
a mata zune a luz que finda
no meio o silêncio se farta
o vento pausa enquanto vinha
mortalha negra encobre a escarpa
e do outro lado se faz dia
do breu profundo do nascente
um pio retumba, há companhia
e a vida vem numa crescente
mostrar que a noite desafia
ao voo a presa indiferente
à asa, à garra, morta ia
a cor da noite então destoa
um veio rubro o chão perfila
a flecha tesa ao peito soa
vibrando o ar que enfim movia
e leva a caça na garoa
à mesa parca da família
o que foi imposto
não por quem deposto
mas por quem se pôs no posto
não foi cortar o imposto
mas cortar o gosto
como se fosse gasto
tendo por pressuposto
instituir o contragosto
em cada rosto
gasto
é um espelho
dentro do bolso
quase negro
reflexos em autorretratos
reflexos irrefletidos
movimentos reflexos conduzidos
imediatos mediados
intuitivos
sem heterotopias
não há contatos
há contratos
psicopatia
é sempre lá fora
lá fora tudo acontece
o mundo arde
bolas verdes cortam os céus
balas douradas voam em frente a portões
pessoas transam com pedras
bombas expelem ares venenosos
malu vieira termina seu romance
uniformes negros cacetam negros
descobre-se cientificamente porque rimos
mutilam mais um bem-estar em coma
publica-se mais um livro de vampiros
lá fora
lá fora
linfoma nos dedos
de tanto escorregá-los
não há mais tato
mas é tudo lá fora
só lá fora
repetia uma geração inteira
sem mãos
por dentro a terra
é uma estrela
mole mole
quando vulcões se ouriçam
é só uma ânsia
por falar com seu irmão sol
na linguagem plasmática
das lavas
prefiro as texturas não as performances
enxergo com as palmas das mãos
abertas
nossas mãos,
reflexos pulsantes
mar e céu a linha que nos reúne
o horizonte
bem perto do longe
não sei
do que te navega
você não sabe
o que me voa
peixes-pássaros
nos conectam,
poesias.
com as pálpebras fechadas
percebe-se a proximidade
pelo calor emanado
e as formas
pela luz mais ou menos incidente
com as pálpebras e o coração fechados
só é possível se aproximar
de si
e perceber uma convexidade
de dentro pra fora
o umbigo
abaixo do meu crânio mora um pântano
aprisiona-me movediço, de dentro pra fora
rendo-me fácil a ele,
alagadiço, brejeiro, não deixa que eu me veja por dentro.
abaixo do meu crânio mora um pântano que
lameia a cabeça e escorrega pelo tronco, viscoso.
à terra, ao pó, ao solo do meu corpo
junta-se a minha umidade de trovões e raios
e raízes expostas
e tudo vai se afundando internamente
só sobra o lodo
a lama, o pântano
aqui dentro.
abaixo da minha pele mora um pântano
que quer ser minha alma
rendo-me fácil demais a ele,
afundo-me, adentro,
no que me afunda em mim,
ele quer me decompor.
abaixo do meu espírito mora um pântano que
quer afundar
sou frágil, imóvel, deixo que me afogue
todas as noites dos dias e todos os dias
enquanto a vida escorre.
emudeço: só vejo as águas turvas
sem febres, sem faces.
esse pântano me habita, sou seu bioma
há coisas vivas que o atravessam
e esbarram em minha pele, não saem
nem ficam
e vivemos assim
pesados, densos
matéria em suspensão.
e é isso o tanto que se precisa
para um homem ter o aspecto mofado
de quem cultiva
um pântano dentro de si,
e você, o que te habita?
testamos teorias
sustentáveis
tentamos
atrás, os meus estragos
avante, o meu testamento
no centro a tua
temperatura
estratosférica
inabitável
nossa resiliência
é uma colcha de retalhos
qualquer inspiração acaba
quando cessa o ar
turvo, fuligem
clausura
aperto, prisão
e há essas paredes de palavras
mais que letras e sons,
tijolos
que desmoronam
tapam peito
entranham destroços
pó no pulmão
tudo isso, quando nenhum ar se avista
rodar, dissipar
desembarcar
toda a carga adentrada
girar, girar, girar
circunavegar
como se o vento
te fosse a própria vida
e teu corpo, veleiro
e toda a Terra, mar
livra-te das culpas
há um desastre iminente
numa curva, sempre em frente
a paz
te pertence
Na gênese não se vislumbra início
não se chega a tocar aquela matéria quando se criou
era uma mistura de charme, curiosidade, tristeza
solidão
Volta-se várias vezes atrás
labirintos de tempo e ideias ideais
era um filme?
foi um filme?
quem dirigiu?
O projetor interno não para
rebobina a fita alugada
havia uma fala de uma atriz
vinha de um livro
capa azul dura, folhas finas
quase de seda
falava sobre se deixar
desistir de se achar
entrou dentro
repetiu-se no diálogo da atriz
Existiu atriz?
Volta-se mais uma vez
era a música
a vida do músico
a vida da música
algo não encaixava na vida
a melodia aflitiva
truncava as vias da razão
Parecia até que havia vida
Houve, parece
O presente vem assolando
e se descobre que é só nele que se vive
ainda que exista outro
universo, em paralaxe,
dentro do crânio
alcançando espinha e nervos
A boca dá espasmos involuntários
O olho treme
Está tudo bem
a solidão colide
com a visão dos pássaros atravessando
os vãos dos fios
Tudo só parece
nada se parece com o filme que roda dentro
Abandonos, abandonos
A vida humana é só uma experiência divina sobre a liberdade
Um baque no asfalto
esse projeto falhou
Parece que os créditos sobem
sem som
(ao longe alguém chora)
Toda fala
parece vinda
de uma garganta em pausa
destroçada
E a pele ainda derrama
microscópicos relevos
em outra pele
Toda fala
avolumado timbre
contido dentro de gargantas
não sai
Não salga
nem salva
Toda fala calada
lambe uma pele
de abismo
Seria a hora do Não Dito
mas agora
é só a hora
do vazio
Não há além
sobram pousos
e sem voo
Era uma blusinha verde de linha
com uma trama cinza bordada
por cima do vestido de riscos verticais
já gasto pelo tempo
que ela sempre usava
Seu cabelo crespo e prateado
bem puxado para trás
dois grampos segurando os
fios revoltos na parte da frente
formavam uma trança única e fina
que agasalhava as costas
arqueadas pela idade
Sua pele negra macia e rugosa
tinha uma elasticidade carinhosa
que me abarcava com ternura
E ela sempre me dava melado de beterraba
Ela tinha olhos de alegria
E eu já sabia desde sempre
E seu Major
nunca antes militar na vida
sentado em sua cadeira vermelha
de fios de plástico
a barriga dura e grande
espocando-lhe as calças
uma barba por fazer
pelos duros e brancos despontando
a pele manchada ríspida e vermelha
com seus olhos tímidos por detrás
das grossas lentes dos óculos marrons,
via o tempo acontecer em sua frente
como vendo o Araguaia se espraiar
de novo em sua frente
e a mata densa e as castanheiras
Ele tinha olhos de mata e rio
E só hoje eu sei
Eu ficava ali
entre ela e ele
acontecendo no tempo
nas manhãs de sábado
na manha
mexendo na caixa de ferramentas dele
mexendo nas plantas dela
e esperando minha mãe me buscar
E tenho olhos de saudade
Eu já sabia
E hoje eu sei
muito mais
não é
suficiente
é só
desnecessário
Era o vasto
a imensidão
Um demônio separava porções
um espírito guardava limites
um tabu dava o contorno
Até o rio da água vermelha,
o conhecido
Além da pedra do irmão perdido,
o temor
Depois da curva do horizonte em mar,
a queda
Os passos apinhados da experiência
como a ancestralidade de saber a terra
conhecendo o que se compartilhava pelos pés
Ouvia-se com atenção as palavras
das superfícies
que contavam caminhos, sendas, passagens
e das cabeças, as cabaças da memória,
que falavam dos voos
dos barcos
das entranhas calcárias
E havia um respeito pactuado
donde a guerra só aflorava
dado o alinhamento dos planetas
Em alguma beira da história
isso tudo se perdeu ou foi engolido
E do medo, o poder sem limites
brotou como muralhas, limitando
E de pedras sobrepondo pedras
pátrias nasceram
acima do sangue que corria
pelo vasto
pela imensidão
sem alarido
disse verdades
agiu política
por luta
pós luto
e só
Das coisas
triscamos
Nem tudo que respira
machuca
Mas tudo que fere
tem face
A cor do espelho
é matéria absurda
e linda
e tem a sua forma
ali adiante.
Mais vale o voo
que as mãos
pássaros coresvoam
mãos, não.