Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
no fim da tarde ocorre a marcha
a mata zune a luz que finda
no meio o silêncio se farta
o vento pausa enquanto vinha
mortalha negra encobre a escarpa
e do outro lado se faz dia
do breu profundo do nascente
um pio retumba, há companhia
e a vida vem numa crescente
mostrar que a noite desafia
ao voo a presa indiferente
à asa, à garra, morta ia
a cor da noite então destoa
um veio rubro o chão perfila
a flecha tesa ao peito soa
vibrando o ar que enfim movia
e leva a caça na garoa
à mesa parca da família
o mundo arde
bolas verdes cortam os céus
balas douradas voam em frente a portões
pessoas transam com pedras
bombas expelem ares venenosos
malu vieira termina seu romance
uniformes negros cacetam negros
descobre-se cientificamente porque rimos
mutilam mais um bem-estar em coma
publica-se mais um livro de vampiros
O porquê da poesia? Nunca saberei. Como ela vai, como ela volta, como ela fica. Quando ela fica. Ela apenas vive, com suas idas e vindas, como eu, como nós. Nunca entenderei o que me levou a ela ou como ela me encontrou. Posso recuperar as sendas da memória e encontrar resquícios de motivos, mas eles já não são a razão. O arrumado ou o emaranhado das palavras além do corriqueiro do dia me ativa, respiro-as e quando elas entram em meus pulmões, parece até que são o próprio dia a dia. Ainda que de quando em vez me falte ar, ocorrem então essas lufadas de palavras, poesias, que me abrem a cabeça e o peito e me ventam tudo por dentro. E eu me vejo ali, sentado na areia branca fina, de frente pro mar, nas terras de meu pai, como ele, senhor da paz, numa
Manhã de Pescaria
(Paulo Cesar Pinheiro)
À luz da aurora o barco zarpa
A praia ainda está vazia
As águas fazem som de harpa
A brisa inventa melodia
E sangra o céu feito uma farpa
De sol na pele azul do dia
O mar se agita de repente
Mas sem nenhuma ventania
O sol ainda não é quente
A onda é quase calmaria
E a gaivota voa rente
Atrás de boa pescaria
E foi manhã de pesca boa
Na areia já tem companhia
O peixe pula na canoa
Fica mais forte a maresia
E o pescador no vão da proa
Entoa um canto de alegria
O mar se agita de repente
Mas sem nenhuma ventania
O sol ainda não é quente
A onda é quase calmaria
E a gaivota voa rente
Atrás de boa pescaria
E foi manhã de pesca boa
Na areia já tem companhia
O peixe pula na canoa
Fica mais forte a maresia
E o pescador no vão da proa
Entoa um canto de alegria
abaixo do meu crânio mora um pântano
aprisiona-me movediço, de dentro pra fora
rendo-me fácil a ele,
alagadiço, brejeiro, não deixa que eu me veja por dentro.
abaixo do meu crânio mora um pântano que
lameia a cabeça e escorrega pelo tronco, viscoso.
à terra, ao pó, ao solo do meu corpo
junta-se a minha umidade de trovões e raios
e raízes expostas
e tudo vai se afundando internamente
só sobra o lodo
a lama, o pântano
aqui dentro.
abaixo da minha pele mora um pântano
que quer ser minha alma
rendo-me fácil demais a ele,
afundo-me, adentro,
no que me afunda em mim,
ele quer me decompor.
abaixo do meu espírito mora um pântano que
quer afundar
sou frágil, imóvel, deixo que me afogue
todas as noites dos dias e todos os dias
enquanto a vida escorre.
emudeço: só vejo as águas turvas
sem febres, sem faces.
esse pântano me habita, sou seu bioma
há coisas vivas que o atravessam
e esbarram em minha pele, não saem
nem ficam
e vivemos assim
pesados, densos
matéria em suspensão.
e é isso o tanto que se precisa
para um homem ter o aspecto mofado
de quem cultiva
um pântano dentro de si,
e você, o que te habita?
Na gênese não se vislumbra início
não se chega a tocar aquela matéria quando se criou
era uma mistura de charme, curiosidade, tristeza
solidão
Volta-se várias vezes atrás
labirintos de tempo e ideias ideais
era um filme?
foi um filme?
quem dirigiu?
O projetor interno não para
rebobina a fita alugada
havia uma fala de uma atriz
vinha de um livro
capa azul dura, folhas finas
quase de seda
falava sobre se deixar
desistir de se achar
entrou dentro
repetiu-se no diálogo da atriz
Existiu atriz?
Volta-se mais uma vez
era a música
a vida do músico
a vida da música
algo não encaixava na vida
a melodia aflitiva
truncava as vias da razão
Parecia até que havia vida
Houve, parece
O presente vem assolando
e se descobre que é só nele que se vive
ainda que exista outro
universo, em paralaxe,
dentro do crânio
alcançando espinha e nervos
A boca dá espasmos involuntários
O olho treme
Está tudo bem
a solidão colide
com a visão dos pássaros atravessando
os vãos dos fios
Tudo só parece
nada se parece com o filme que roda dentro
Abandonos, abandonos
A vida humana é só uma experiência divina sobre a liberdade
Um baque no asfalto
esse projeto falhou
Parece que os créditos sobem
sem som
(ao longe alguém chora)
Tudo o que vive, respira. E todo o tudo, pouco tem me inspirado. A bagunça ordenada do mundo não tem ajudado. Continuo estudando os astros, na esperança de compreender o que tem ocorrido em mim e ansiando por respostas para o que vem se passando com o mundo. Dei uma pausa na ciência, que bruta e afobada, pouco me ajudava. A poesia também coloquei de lado, me tem sido superficial, parece que há uma casca grossa colada em minha epiderme que não tem deixado nada penetrar. Pode ser meu momento no mundo ou o próprio mundo, só sei que tenho escrito pouco e tudo que sai parece piegas.
Pode ser por causa de Setembro.
De todo modo, vou ficar com o samba, pelo menos, só, por enquanto.
Era uma blusinha verde de linha
com uma trama cinza bordada
por cima do vestido de riscos verticais
já gasto pelo tempo
que ela sempre usava
Seu cabelo crespo e prateado
bem puxado para trás
dois grampos segurando os
fios revoltos na parte da frente
formavam uma trança única e fina
que agasalhava as costas
arqueadas pela idade
Sua pele negra macia e rugosa
tinha uma elasticidade carinhosa
que me abarcava com ternura
E ela sempre me dava melado de beterraba
Ela tinha olhos de alegria
E eu já sabia desde sempre
E seu Major
nunca antes militar na vida
sentado em sua cadeira vermelha
de fios de plástico
a barriga dura e grande
espocando-lhe as calças
uma barba por fazer
pelos duros e brancos despontando
a pele manchada ríspida e vermelha
com seus olhos tímidos por detrás
das grossas lentes dos óculos marrons,
via o tempo acontecer em sua frente
como vendo o Araguaia se espraiar
de novo em sua frente
e a mata densa e as castanheiras
Ele tinha olhos de mata e rio
E só hoje eu sei
Eu ficava ali
entre ela e ele
acontecendo no tempo
nas manhãs de sábado
na manha
mexendo na caixa de ferramentas dele
mexendo nas plantas dela
e esperando minha mãe me buscar
Um demônio separava porções
um espírito guardava limites
um tabu dava o contorno
Até o rio da água vermelha,
o conhecido
Além da pedra do irmão perdido,
o temor
Depois da curva do horizonte em mar,
a queda
Os passos apinhados da experiência
como a ancestralidade de saber a terra
conhecendo o que se compartilhava pelos pés
Ouvia-se com atenção as palavras
das superfícies
que contavam caminhos, sendas, passagens
e das cabeças, as cabaças da memória,
que falavam dos voos
dos barcos
das entranhas calcárias
E havia um respeito pactuado
donde a guerra só aflorava
dado o alinhamento dos planetas
Em alguma beira da história
isso tudo se perdeu ou foi engolido
E do medo, o poder sem limites
brotou como muralhas, limitando
E de pedras sobrepondo pedras
pátrias nasceram
acima do sangue que corria