quando eu digo que é paranóia
me dizem que é charme de poeta
mas é isso mesmo, não sou asceta
de diários versos em leda inglória
2342. Desfecho das estrelas
a noite pausada
pingos de luz
ante as retinas
olhos de alcaçuz
em água de mina
na noite borrada
2341.
o que eu não digo com a boca
eu falo com o verso
sem nenhuma castração
esse universo
2340. Turmalina
essa caixinha
que dentro fica
essa pedra lapidada
turmalina
fui eu que fiz
pra que abra
e veja essa pedrinha
dentro dessa
que fiz pr’ocê
caixinha
2339. Adobe mesmo
se quando eu voltar
nada estiver no lugar
criar espaços é
projeto simples
amá-los é tarefa fácil
tijolo, cimento, água
pouca paga
peneira-se as mágoas
e se ergue uma muralha
pra colocar um castelo
sem prumo
nível bolha
torto mesmo
casa que seja
que esteja
com sua guarnição inteira
tapera que baste
cipó, esteio, palha
barro para lacrar um tanto
amar o que se faz para si
é mais fácil ainda
adobe mesmo
argamassa com esterco
de bosta se ergue um lar
para acalantos pousar
2338. Trindade sem base, só fé.
como pode tanta paz?
um dia a menos um a mais
e isso tudo sem nem um ai
Oxossi e Iansã devem
estar com Iemanjá num cais…
2337.
e setembro já passou
sem um tenro membro
para encostar a cabeça
e consolar a dor
2336.
espero o cais em que possa ficar
a impressão do tempo
inteiramente catando com os olhos
barcos e conchas e gaivotas
solto no atracadouro
jangada longe andando vento sobre a água
peixe tímido sorrindo vergalhões de
espinhas e escamas dentro do mar
toadas de sereias mareando a razão
um gosto de sal na pele
pelos eriçados pela peleja entre sol e ar
queimado de sonhos e lampejos
um som de ir e vir
água batendo na madeira
tão como
entender com o tato
o paraíso rodeando um estado de espírito
belamente simples
esse cais aqui dentro
2335. Amigas
alivia a presença
e vã na ausência
já nina-me a
angélica sorte
de um mar selar
esses encontros
tão bons e bobos
em mesas de bar
2334. Verso verbo
quando a palavra age
2333. Alíneas para o texto de sonhos
no sonho a altiva
tão baixa
passada
disse tanto em pouco
oito minutos no tonal
eras no nagual
sorridente e esfarrapada
pouca
bem pouca
pintou umas cores
no branco e preto do sonho
tinha verde
vida
essa cor mais verde ainda
e lançava ao ar sempre
“mas, bem?”
“bem”
“que bom, meu bem”
“meu bem”
um toque despertado
dor de descerrar as pálpebras
um bem no fundo aceso
saudade um tanto
boa
bem boa
Paes Landim, PI.
2332. Cega-me
me ceguem dessa luz
que entra pela fresta
sorrateira
só de beira
e que dá
esse pavor no peito
de que um
milagre
aconteça
Paes Landim, PI.
2331. Ano
nesse interminável dia
que translade ao céu
de entorno ao sol
vê-se passar do meio
e galgar a noite em promessas
de que findo esse dia
chegue logo essa manhã
anunciante de carnavais
vibrante de anseios
candente e cálida
Paes Landim, PI.
2330. Alegre som
há uma flauta na sombra de um som
uma rainha paira sobre ela
desejosa de ametistas
espelhando
o que espalha sobre
a sombra não refletida
real com coroa e cetro
nos braços do som que voa
alegre menina
rainha em verdade
há uma flauta na luz de um som
uma menina entre as notas
brinca
com
cada pausa das ondas que
rebentam o ar e pousam passadas
nos ouvidos
Paes Landim, PI.
2329. Oxalá
Tudo se ponha nos eixos
sem ondas de seixos
só nuvens derretidas de
desejos já prontos
em chuva de verão
pingando o chão
de briluzes veleidades
Uma cidade em torno
torneando o fresco da cuca
e sorveteando o quente
dominando o vago rasgo
do regato inconsolável
sendo um vagão de tons
de entardecer até a noite
indo na trilha desse trem
doido doido doido
que é a vida
e rumo ao imponderável
Paes Landim, PI.
2328. Anunciação de Encantamento
Com a licença prezadas senhoras e caros senhores
por adentrar vossos olhos ou ouvidos
e parar no amontoado das vossas cabeças
Chego um tanto fora de hora
no apressado de uma catira certeira
um tanto afobado e esbaforido
com esse boi então achado que sumido há tempos
foi trazido de volta lá do Maranhão
Chego com esse boi que é encantado
e traz cores de um tempo esquecido
em azulejos e correntes
mas que é só tocar na ponta de seu chifre
que ele realiza qualquer desejo
Eu mesmo já toquei cinco vezes só hoje
quando me faltou papel para as necessidades
quando me faltou céu para as visagens
quando me faltou ar para a caminhada
quando me sobrou tempo para ficar de cara pra cima
e quando me bateu uma lezeira por conta do amofinado da vida
Venho cá lhes oferecer o Encantamento
que é o nome desse boi tão colorido
troco por um jegue que não grite no eito
uma mula que agüente carga
ou mesmo uma cabra que dê muito leite
Por que eu quero me desfazer do Encatamento
se ele realiza tanto?
Porque meus prezados senhores e minhas caras senhoras
quando não se sabe desejar direito
não adianta qualquer Encantamento
Paes Landim, PI.
2327.
os olhos do dia
vertem vida
liquefeita
em salobra água
de lágrimas
o dia enxerga
tudo assim
embaçadamente
mareado e
vivente
São Miguel do Fidalgo, PI.
2326.
certa feita ouvi história estranha
vinda do cubo do diabo
sobre gente de fé crente
que ao ver rebento novo
dos seus pouco mais de oito anos
morta e já ida em sete palmos de terra
exumou o seu corpinho
o pôs em cima de uma mesa
e orou noite toda e pouco
além do sol já a pino
para que a menina voltasse
à vida e corresse novamente
entre o dia e a terra
penso sempre nessa fé maluca
nessa temperatura de crença
acesa criada
que moveu aquele rito
aquela entoação de orações
e o desespero para a
continuação dessa parca vida
mesmo o corpo tendo continuado
inerte numa marmórea
prostração de ser só corpo
penso sempre nessa fé avexada
e vejo que a minha
tão calada e tímida
não consegue mover nem
a mim mesmo a fazer desatinos
quem dirá
montículos de fina areia
São Miguel do Fidalgo, PI.
2325.
Ah morena
com esse moreno
3X4 ao seu lado
eu não ataco
Ma ataca, vai
Que eu juro que
não vou ficar
assim parado
Paulistana, PI.
2324.
Ah falsa loira
vamos ali
atrás da moita
que eu te mostro
como age
de verdade
um falsário
Paulistana, PI.
2323. Macambira
Eu aqui todo macambuzo
escutando o batidão
da Banda Déjà-vu
Queria mesmo é que
me aparecesse uma
mulher qual macambira
que grudasse seus
espinhos em meu peito
até verter sangue
Paulistana, PI.
2322. DDA
Meu problema sempre foi
a falta de concentração:
aqueles seios observadores
aquela coxa falante
um olhar perdido em mim
qualquer possibilidade
dentre todo o universo
aquilo que me batesse à
porta primeiro
Daí a falta de concentração:
o mundo todo podendo
me falar pausadamente
sempre me causou
alguma comoção
E me fixar numa parte
só do mundo, nunca
me foi fixação
Paulistana, PI.
2321.
Não importa onde a gente esteja
percorrendo esse Brasil
sentando em qualquer moquifo
e tomando uma breja
a gente tem sempre essa mesma
cara índia, branca, negra
Isso tudo dá a gente
com toda a certeza
Paulistana, PI.
2320.
Foi só longe que eu percebi
que até perto a gente distava léguas
Tanto que não há como medir
não existe régua ou fita métrica
Simplício Mendes, PI.
2319. Sem pressa (ou utopia)
Havia pouco menos de
um palmo para nossas
bocas se encontrarem
Eu falava sobre a
aleatoriedade da vida
Você sobre a
sincronia do acaso
Pausadamente meus
olhos percorreram o
chão de madeira
a frondosa mangueira
um bocado de estrelas
uma meia lua inteira
e seus olhos de esgueira
Você atenta ao éter
disse que minha voz
lembrava coisa boa
E eu te doí com a
triste história de
meus vastos fins
Você ajeitou sua
franja delicadamente
caída sobre os olhos
Eu ajeitei frenético
a blusa nos ombros
e afaguei um tanto
seus cabelos
Sentimos um frio vir
lentamente amornar
o quente do dia
Encostei minha cabeça
em seu ombro vendo
que seus olhos fitavam
de soslaio minha boca
Da minha pra sua
a distância diminuiu
para três dedos
Sentimos a respiração
quente um do outro
Foi quando aquela estrela
cadente passou
Você não me disse
mas sei que o pedido
foi o mesmo, posto
que não nos beijamos
apenas saímos abraçados
pela noite, rumo ao
sono que nos traria
ao amanhã e que deixaria
tudo com um gosto
de que o melhor ainda
estaria por vir
Despedimo-nos com um
beijo no rosto
cada boca a meio
milímetro de distância
Simplício Mendes, PI.
2318. Virgínia Woolf
Entre lobos te encontrei
noites e dias de procura
sem um farol que me guiasse
As horas passando meticulosamente
cuidadosas e entre os atos
torpes meus e de todos
te vi ali
virginalmente sem os pudores
de uma época que redunda
ainda agora
Procurei chegar a ti por
meio de outras tantas:
clarices, cecílias, hildas,
todas as que me chegassem
com uma proposta às mãos
coragem para dizer
e peitos para fazer
corri atrás de todas até
te encontrar
mas versos não são prosa
Quando finalmente te achei,
gozei profundamente ao
teu lado, sem toques,
sem têmporas doídas,
sem a necessidade enferma
do abraço pós-coito
Só você, longinquamente já morta,
mas vivente agora assim
de mim
Encontrada
Simplício Mendes, PI.
2317. De perto…
Cinco palavras de distância
e a loucura se apresenta
tão intensa e densa
que na atual conjuntura
da humanidade,
parafusos apertados
são utopia
Paes Landim, PI.
2316.
Quando adentrar meu mundo
não estranhe o acompanhado
dessas tantas mulheres,
essas chicas, essas donas
com suas zicas
essas céus e mares
essas de africanos ares
ou islandesas paragens
Não tenha ciúmes
pois que chegaram bem
antes de você e
caminham em meu dia
e noite colorindo de
sons o carregado da
vida
Paes Landim, PI.
2315. Comadres florzinhas
Vocês tocam
tanto que me
toco de que
ao me tocar
do que tocam
eu viro toco
que só vocês
tocam
Paes Landim, PI.
2314.
Depois do recomeço
li três livros em um mês
a solidão, te traz cultura.
Paes Landim, PI.
2313.
Aqui, de longe se escuta
o vento, ele vem vindo
com sua voz forte
balançando juremas e sabiás
na caatinga, apostando
corrida contra o sol
Por um segundo ele pára,
mas logo vem suave,
suave, suave até tocar
seu rosto, seus pelos
e amornar a inclemência
Esfria um tanto as gotas de suor
que escorrem pela face
Aqui o vento murmura
em todas as direções
levanta todas as folhas
caídas das árvores já secas
pelo começo do fim do ano
Trás a paz de algum lugar
perdido
Faz-se paz nesse perdido
rincão do interior do Brasil
São Miguel do Fidalgo, PI.
2312. Alhures
(A Fernando Livramento, percorrendo a memória em noites de Moçambique.)
o céu está meio esfumaçado de um tom cinza-lilás
algumas estrelas desafiam o reinado de iansã
a lua fica tímida
se cora diante de nós e se envolve em um manto nefelibático
o mar sacode leve
mas vem vindo sempre
vem
e
vai
eu te olho
você me olha
olhares longos
leves
dois cigarros compartilhados
o tragos de nossas alegrias por estarmos vivos e nos sabermos
uma musiquinha funda nos afunda
a gente deita na areia
e torce pra que alguma estrela se faça a mais
o mar continua
e a gente fica ali
perdidos
em meio a tanto céu
tanto mar
tanto nós
que tudo se basta
nesse momento
Juazeiro do Norte, CE.
2311. Sem e bem
a conformidade ocorre quando não se espera
é quando a gente lembra que já nasceu destampado
e aí se desiste de procurar tampas por esse mundo afora
Paes Landim, PI.
2310. Anafrodisia para os domingos
A verdade é que agora
eu tenho um coração liberto
Sem anseios turbulentos
sem vontades imaginativas
carcomido pelo tempo
corroído por desastres ácidos
sem carga de culpa
A verdade é que nada
mais o aflige ou provoca
Sem esperas ou esperanças,
passeia calmamente
por domingos vazios
tal e qual sextas vibrantes
A verdade é que um coração só,
quando bem sabido e sentido,
torna-se refrigério amigo
que até se pode atravessar,
só que seja,
qualquer domingo sem ímpeto
Paes Landim, PI.
2309. Já foi (versão meu umbigo)
e eu apaguei mesmo você
que eu nem consigo dizer
quem é que foi pra esquecer
São José do Peixe, PI
2308. Claudinha
Você não merece um poema
quiçá mesmo uma rima
mas essa lerdeza toda
me recordou coisa boa
me trouxe você mesma
tão passada, tão lenta
que merece mesmo,
não precisa,
de alguma rima
que te coloque pra cima
São José do Peixe, PI
2307. Lição de como se proceder
No Paulínia Club ela me fez de sofá
deitou-se como se eu fosse um divã
disse-me bêbada coisa vária e vã
propôs-me que eu a fosse apunhalar
No Mais Um Pouco ela pirou
tomou ducha de água fria
dizia estar em brasa a perseguida
e ao fazer xixi ela corou
Na Lanchonete do Socó pediu pão e café
olhando perdida para todos os lados
esperou o pedido fumando dois cigarros
comeu tudo num piscar rindo do Louro José
Na frente do Hotel Lourdes me beijou
acenou para mim quando eu adentrei
e disse que prazer maior foi o que eu lhe dei
foi-se embora com a paga e nunca mais voltou
São José do Peixe, PI
2306. Fé
Mãe nossa que está em tudo
Indizível seja o seu nome
Sempre feita sua sincronia do acaso
tanto na terra, quanto no fogo, na água ou no céu
O pão e a água que nos mantêm
dá-nos sempre sem troca
Acolhe nossos pensamentos
assim como todos pensam sempre
pois que sempre se pensa
Nos livra do bem e do mal
Amém
São José do Peixe, PI
2305. Forró
À sombra do juazeiro
esperaria mês e meio
só pra ver o sol se por
no meio desse céu inteiro
À sombra do juazeiro
São José do Peixe, PI
2304.
No interior, o tempo existe
Pinga como as gotas que
caem de uma torneira mal fechada
Cada segundo te percorre
qual mergulho lento em água de açude
Até nas frestas de folhas
que espalham a luz no chão,
vê-se o tempo pairar e se amansar nas têmporas
No interior o tempo te toca os poros
Não é a impressão de um sentido
Para além de se sentir, ele existe
Itaueira, PI
2303.
a vida é vasta
tanto que um
coração só
não basta
Itaueira, PI
2302. Caatinga
amarelo verde substrato
cinza marrom intermediário
céu azul anil rasgado
São Miguel do Fidalgo, PI
2301. Urubus
O sol reina no céu
O reinado imperiosamente azul
possui um arauto impávido,
negra presença que flutua
mansamente acima da brisa boa
que maneia minimamente
o ânimo de continuar abaixo
desse tórrido reinado
Lindamente arautos urubus passeiam
sem se darem conta de
que eu os invejo
São Miguel do Fidalgo, PI
2300. Retomando inspiração por pessoas que não querem
ah, emagrece não
sua gordura localizada
sempre foi o que
me pôs como louco
essa mesma que junto
a essa sua cabeça
me fez entender
que o sentir não
se apega apenas
ao que se imagina
mas também
e antes de tudo
ao que se pode contemplar
de realidade
fora da forma que seja
São José do Peixe, PI
2299. Esquece e lembra que acabou antes mesmo de se acabar
eu me desmancho em lágrimas mesmo
porque não estou aqui pra fazer novela a ninguém
eu sinto que foi uma bosta
essa nossa romântica proposta
que deixaria louco qualquer monge zen
e que deixou esse gosto amargo de esmo
São José do Peixe, PI
2298. Protocolar (ou te liguei e foi uma bosta)
essa sua indiferença planejada
me é tão tédio
que eu vejo que fiz bem
em sair sem nem um remédio
à puta que pariu
a merda desse seu ar sério
Simplício Mendes, PI
2297. Marcela III
aquela sua amiga
que talvez seja a preferida
pode ficar na minha cama
pode fazer guarita
pois quando você
chegar perto
não vai haver nem despedida
me despeço dela
lha imputo uma bela ida
e deixo os lençóis limpos
para que você deite,
junto a minha,
sua vida
São José do Peixe, PI
2296. Marcela II
me apresenta mesmo suas amigas
me faz amante delas
que daí a pouco a propaganda se propaga
e eu duvido se você não vai querer provar,
pouco que seja, dessa praga
São José do Peixe, PI
2295. Marcela I
eu mesmo queria apenas
que você se apoderasse
dessa minha descrença
que me desse um nó na cabeça
e se possível nas pernas
que me ajudasse a juntar
todas essas partes naquela
coesão que ocorre
quando do encontro de dois
eu mesmo queria apenas
que sua manha
se fizesse presente todas
as manhãs
e que esse seu riso frouxo
contagiante prosa que
não se quer acabar de ler
ficasse retido no tempo
pelo tempo que fosse possível
para que o humor ainda
valesse a pena ser sentido
eu mesmo queria apenas
dividir quartos vagabundos
com você
te introduzindo a essa
patética, mas sempre poética,
redundância das FMs
de recepção
eu mesmo queria apenas
que você quisesse
o que eu tanto quero
num paralelo perfeito
São José do Peixe, PI
2294. Jéssica II
viúva aos dezesseis
casada por três
amava o burguês
que a tiraria de
São José do Peixe
de uma vez
São José do Peixe, PI