Minha alma
é tão sedenta
que ela se
contenta
até mesmo
com as réstias
dos restos
do fim da
feira.
2402.
Dimensionar o corpo para que ele
se percole pelos poros do espírito
Turbilhar o sangue para que ele
percorra os rincões do espírito
Domar os genes para que eles
permitam o para além cármico do espírito
Dialogar com os hormônios para que eles
ponderem o momento de socar o espírito
Despencar para as entranhas para que
se imiscua esse resto todo com
esse todo resto do espírito
Nova Olinda/CE
2401.
em segredo
esse sagrado
sentimento inusitado
teu maneirismo
mineiro
por mim cultuado
Nova Olinda/CE
2400.
perfeita
do pé
à fita
na cabeça
e sozinha
que desfeita…
Nova Olinda/CE
2399.
que escândalo
tudo em você
tem esse aroma
de sândalo
destruindo em
brisa de flores
esse meu ar
de pântano
Nova Olinda/CE
2398.
você não têm dois olhos
você têm duas metralhadoras
disparando esses tons
todos de cinza que
pode haver no mais que azul
Nova Olinda/CE
2397.
não durmo
como se o urro
desse mesmo erro
gritasse ao peito surdo
ribombar em caixa de ferro
sentir tremer a caixa calcárea
envoltório de armazenar ar
grade óssea do coração
escada que sobe para
a engrenagem decisória
de sentir ou se ater à sensação
não podendo com a paródia
de algo como felação
relação torpe enganada
esganada na boca da entrada da saída
de ser algo maior
não durmo
em suma, sumo
solto no supra-sumo
da acidez da fruta em sumo
aziática percepção no estômago
trilhando subida qual junto à escada
escarro e frêmito
no vômito amaro do amor mor
te engastalhando em vibrações
epasmódicas quase no ritmo
de um músculo involuntário
voluntariosamente abnegado
em negar que passa mal
2396.
depois do pó
encontro o nó
górdio que irá
me manter só
2395.
tudo down
bem meio mau
que nem todo mal
seria assim
tão how
2394. Processo
Foi se indo
ex “vá indo”
se esvaindo
Enfim, saindo
2393.
Uma dose dessa
história viciante
chamada carinho
E para dormir
nem precisaria
desse cálice de vinho
2392.
O problema sempre
foi querer controlar
o destino
E acabar com o acaso
como desatino
2391.
ao lado do ponto
de ônibus
pontas de cigarros
se espalham…
…
…a espera é mesmo
a rainha dos
atos falhos
2390. Procura bendita
procuro beijos de unguento
pássaros perdidos entre morros de minas
manter a paz achada após a chuva
chover aos cântaros com essa
minha cara de carência eterna
procuro, pois, esses beijos de unguento
2389. carma
arma
d’alma
em carne
nova
2388. Do anseio do fim (quando o universo murmura)
tem algo preso na garganta
sem nenhuma pretensão santa
só uma explosão tanta
que vem vindo como trombeta
pronta a anunciar a vendeta
e findar todo esse planeta
2387.
poesificada
poesifitada
poesifincada
poesifilha da…
2386.
amar algo tanto
assim tão tudo
é algo assim tão
duro
2385. todas as que pousam
foi uma coisa atenta e louca
nesse momento exato
em que veio isso louco saindo de dentro de algo
explodindo um sorriso absurdamente duro e bom na boca inteira
deixando músculos e lábios tensos de tanto não conter
dentes cerrados e observando um pouco do mundo
dentre lábios
e elas tocando a minha cabeça
cada uma me tocando de um jeito diferente
e sendo cada uma o meu amor inteiro
pousado nas têmporas de todas
pois que nelas vôo
e o riso brotado pela trajetória percebida
atentamente louco no exato ponto em que se pode não ser
além daquilo que se percebe
que o amor é por todas as que pousam
e todas pousam sempre após seus vôos e suas vidas
bem-vindas todas as que pousam
e todas pousam
pois que todas voam
e me sendo outras me é mais que outros
e me deixam bem tão tanto louco
atentado pela tentação trazida bendita
dos ventres quentes dessas benditas
todas as que pousam
e todas de mim voam
logo lá pousam, pois
2384.
Eu quero isso
Um quarto gigante
Uma vida em volta
Envolvendo
Envolvendo
Levando
Um enlevo
Um quarto de fino
Relevo
Num mundo sem senhas
Meu quarto gigante
De paredes e varandas
E uma vida entalhando
Voltas e mais voltas
Lívidas
Dentro e entre leve
Envoltório de lava
Porque eu quero
2383. Do irrisório
A Terra gira trazendo consigo todos os dias
o nascimento de uma estrela
Gira até que a estrela morra
e seja enterrada no horizonte
para que noutras paragens de além-tudo
renasça novamente
Para que no além do fim do mundo
ela brilhe cada coisa em que possa pousar
Todo dia o mesmo movimento
que traz o próprio dia
Repetidamente a vagar em derredor
de uma estrela
a Terra gira
Gira
Gira em torno de si
em torno da estrela
dentro de uma espiral que se consome
dentro de um tudo que se explode
e que no fim dele mesmo
que não se pode ver ou sentir
já começa a se implodir
Incessantes giros
Dentro da Terra
cá eu com esses botões
girando em torno de mim mesmo
gravitando entre ocasos, crepúsculos e manhãs
dentro dessa que gira
explodo e implodo cada vez
que me passa um dia
girado entre uma estrela ou outra
qualquer
2382.
arde essa vontade
coisa que invade
a pele os poros
atiça toda carne
alcança além olhares
mete-se no meio
no entre nos pares
quer ser dentro parte
abrasa um disparate
partir em metades
indo fundo tudo dentro
divino amor arte
2381.
você é promessa
de que o ontem
desejo do que possa
seja todo o agora
ou amanhã em remessa
2380. Por favor
não me contem sobre seus casos
histórias tortas, atos falhos
falem-me somente sobre seu amor
e sobre as formas belas de seu silêncio
não me falem de seus homens
ou mesmo de suas mulheres
falem-me sobre a alegria incontida
entre uma canção e o maneio dos quadris
e não me digam nunca a palavra traição
essa que da existência do burlar o sagrado
é o maior dos pecados contra si
trair inexiste
viver sim é que insiste
o resto causa tédio e penar
2379. Geográfico e antropológico
Dependendo do lugar
sou branco
Já fui tratado por
bugre
e chamado de negro
Tenho esse nó na madeira
de cristão novo
no nome
e cabelos carajá escorridos
que enrolaram com
o passar do tempo
Trago um silva
da selva
mato-grossense e
um lusitanismo
ao que protege alemão
Uma resistência
malê nas têmporas
e essa pele que
doura fácil
como as areias das
praias araguaias
Nascido no cerrado
goiano quadrado
do pé rachado
roedor de pequi
Sou esse interior
amontoado num
distrito urbano,
sou isso tudo aqui
2378. Sincretismo
Quero oráculos
búzios borras
rezas rodas
cartas e linhas de mão
Quero astros
garrafadas bênçãos
mandingas amuletos
banhos e velas
Quero o corpo fechado
ao ruim:
alhures de amores
amontoados de paixões
e sem zica alguma
2377. Contando riscos no papel
Oito poemas em um dia,
que doidera,
sete só com cerveja e meia,
nove talvez, para
pedir a saideira.
2376.
Pra poesia bastam
palavras, intenção
e interlocutor
Não academias, que cortam
valas e enterram
todo o torpor
Pra poesia bastam
essas três coisas
que vão além
Que à teoria faltam
e que nesta sempre
há de ficar sem
2375. Quem me lê?
Quem me lê sou eu,
um V vadio que
pode ser de vingança,
mais um ou dois
amigos cansados
da rotina
e a História
Essa me lê
todos os dias
esperando um em
que eu possa entrar
nela e dizer que
o caos temático feito
é marco espacial
de algo atemporal
2374.
O sol implacável
só podia dar nesse
deus único e fervoroso
Inclemente senhor
dos ditames da vida
Prefiro a lua
e os deuses dela
saídos
Essa que some, volta,
fica meia,
clareia,
se apaga inteira
dentro da noite
e sempre carrega
esse ar de mulher,
doce mistério que
provoca turbilhões
de sentidos
2373. Pra você meu anjo
Amo você como nunca
Suas pernas, braços, bunda
Suas idéias, risos e seus cachos
escorregadios na nuca
Amo tanto e tão
loucamente que prova
maior desse amor
é sair mansamente
sem que só reste dor
Amo você ao extremo
de abdicar desse
mesmo e não repousar
em jaula medida
nossas vidas a
finalmente compassar
Amo você e te quero sempre
e como o amor se dá ao luxo
do imensurável
deixo-a se ir qual
rumo queira
sabedor de que nada
eu tenho de deixar
Só esse amor já seu
que não preciso lhe dar
para que saiba em si
2372.
Não quero destruir
nossos sonhos
essa válida linguagem
do inconsciente
Quero mostrar a liberdade
como a prova de
amor maior que
posso dar
Ama-me só assim,
livre para experimentar
a vida
2371. Amorfobia
Fujo agora de todo
contato que possa
conduzir-me dentro
de alguém ou que
me deixe com mais
alguns pedaços no
peito arfante
Dá-me pânico conhecer
gente e ver que
é possível o esbarrar
de além corpo aprazível
Bato na madeira toda vez
que uma voz provoca
em mim um arrepio
Faço-me calhorda
insensível sempre que
anseio pelo seio
novamente à luz de uma
manhã entrando
sorrateira pelas frestas
da cortina e borrando
de dourado o corpo
bem quisto e nu
Tangencio o meu discurso
para o lado avesso
do que queria dizer
só pra não redundar
novamente na língua
essa teima dita amor
2370.
Agora eu vou esperar
a cerveja ao chão
o santo tomar
só pra não dizer
que sou chato
e que não costumo
ninguém acompanhar
2369. Sim, destina
Existirmos
se destina
a termos rima
ainda mais aqui
em Teresina.
Teresina, PI.
2368. Apoteose para o inferno
no cérebro
eu celebro
a Cérbero
2367.
eu sinto palavras até
na fumaça
desse que queima
mesmo na brasa
eu as vejo
não sei qual vício
há de me conduzir
ao reinado da morte
2366. Sagrado
todo o universo ainda por vir:
os becos não sentidos
as vielas dos labirintos
o rodopiar sem rumo pelo impossível
a eternidade de palmas de mãos
o durar do sempre mutável
os olhos que piscam e sonham
o gosto de ouvir com a língua
esse todo que propulsiona
é que se faz merecedor do sacrifício feito
de se imputar vida por aí
todo o universo ainda por vir
se encontra no alinhado das paralelas
do ímpeto com a vida
e o infinito abre as portas para que viva
2365. Yin e Yang
pelo lado direito pulsa
o fogo que dá a ignição
para a labuta diária
a própria lida nesse lado fica
morada das equações e elucubrações
que mantém o mundo erguido
sobre os pés
pelo lado esquerdo borbulha
a lava que queima
a alma e se evapora a ganhar os céus
e que conduz os sonhos
em líquida pedra que
mantém os desejos acesos
sobre o peito
2364. Sorrateiro ou solteiro?
é tipo ficar num
tiroteio
sem alvo nenhum
certeiro
2363. Pós IV – Eco fantasioso
quando de criança eu lembro
daquela fantasia de ser gente grande
de ter vinte e poucos anos
e ganhar o mundo
ser homem feito e sabedor de tudo
hoje sou isso ainda
mas cada vez mais uma memória diluída
pela ação do tempo
ainda assim fantasiosa
de que aquela onda que percorreu
montanhas longínquas de meninices
retumba aqui forçosamente
e sem força, fraca como anêmica
a me lembrar o que posso dizer de mim
para eu mesmo
e me abrigar em ser algo
que foi proposto tantos anos atrás
para identificar o hoje
2362. Pós III – Nomadismo
vagueio entre uma teia
de discursos que me cabem
como luva feita sob encomenda
corro a procurar a proposta livre
em que me encaixe sempre
o senso louco de que
identidade e eu
são coisas conexas e paradoxais
desenterro as raízes que
se ocupam fixas
e me fixo em cada eletrodo
transeunte que me dê
o choque de se sentir livre
por pelo menos alguns segundos
até que nova palavra-prisão
me oprima e eu mude de habitat
para nova ligação eletrônica
que me diga eu agora sem carga
2361. Pós II – Rizomas
fugir
ato além repertório
fato não ensaiado
para a saída da situação
transgredir o território
fixado
abrir mão do superego
encontrar a rota de escape
pela contramão da via única
lócus ingrato
fluido
pelas bifurcações atemporaris
de textos repetidos
exaurir-se pelos ramos
que descambam para o céu
finalizar
num mero contratempo
da música que silencia
toca e repete infinda
cessar o poder do infinito
2360. Pós I – Heterotopia
o espelho me junta de mim
uma porta para um eu invisível diuturnamente
no espelho, meu igual avesso
me avexa e envergonha
mas me põe ali em mim num outro lado
no espelho eu me espalho em mim
como poucas vezes me percorro tanto
é lá, nele, que fico eu medindo
se por destreza de acidente
me assento mesmo assim ou assado
o espelho é o lugar em que me encontro
não me sendo posto que eu vejo
mas sendo eu posto que me vejo
é lugar de encontro contrário feito
no reluzir de luzes em modo vário
não é não lugar
é o topo do pouso da minha imagem
a se enxergar
2359. Toá
como essa rocha a virar
solo lentamente
eu me torno solo
lentamente
cada camada minha
dissolvendo-se
até se espalhar por tudo
e virar chão
me desintegrando
em vários minúsculos pedaços
de fina areia
para saber o devido
valor do pouso mínimo
que a solidão promove
nas partes
eu tão assim toá
uma rocha bruta
num morro suave
em pleno processo
de decomposição
2358. Porventura
“Que importa o sentido se tudo vibra?”
seguir só nessa vastidão
monge peregrino sem rumo
aventureiro sem ventura
restando bruxa na fogueira
após o fogo ateado
sem corpo mais que aguente
seguir só nessa vastidão
sentindo as vezes da lida
passando pelas horas
como eras de Clio
sem os pés tocarem outra
coisa que não a terra
seguir só nessa vastidão
retirante do mundo aquecido
por ideais sem idéias
só imagens mais nítidas
que o mundo fora da caverna
em tela plasmática de pleno
plano cristalino
seguir só nessa vastidão
em espasmos compassados
tropicando e troteando
qual centauro embriagado
sem seta para o alvo
e sem rumo certo para o trote
seguir só nessa vastidão
cego de coisas do espírito
material como a sorte
rindo e indo sem ter como
empurrando o mundo
goela abaixo e a seco o palo
seguir só nessa vastidão
sem maneira de amar
tolamente contente com
apenas a dor como fardo
a preencher os poros
que ficam entre os átomos
seguir só nessa vastidão
docemente acompanhado
por sementes de esperança
de centelhas de permanência
iludindo todo o mundo
com essa pretensa solidez
mas sempre só
2357. Rumo da cicatriz
ao puis
do corte
impus
a sorte
e pus
na morte
da pele
um norte
vida nova
no quelóide
2356. De bobeira
vagaroso
com a carne no osso
curtindo uma bela fossa
esperando as dilatações
do carbono
e o fim do fosso
pausadamente
esperançoso por nada
uma paulada na mente
para que aquiete
e deixe a toada
para a tiete
choroso
demente
aquoso
descrente
passeando pela beira
na esgueira
de um dia de melancólica bobeira
2355.
Je ne parle pas bien français
mas eu sei que queria
esse som no ouvido vindo doce d’ocê
2354.
suportar o absurdo
como os elefantes
que erguiam o mundo
e lentamente junto
à tartaruga que
levava às costas tudo