Palavras sagradas
são aquelas segredadas
não essas dadas
a todo momento.
São aquelas degustadas
no abafar de
um juramento.
Sacras palavras
guardadas no profano
do silêncio.
1902.
Passam pela flora
pensando que não ora
a pétala ao vento
da passiflora.
1901.
Enternecido
nessa tarde
entristecido
entre tramas
de tecido
entremeio-me
no trauma,
até que o tremor
se tenha ido.
1900.
Adélia, Adélia…
Te vejo agora Adélia,
e da outra vez você me
trouxe cá consigo.
Pois que não era eu quem te
carregava, mas você
que me conduzia com
teu texto.
Se o tivesse agora,
o leite tinha derramado
todo pelo fogão,
pois que todo o sentido
era teu e não o
possuiria ao ponto
de notar outras sutilezas.
Adélia, Adélia,
se os tivesse nessa luz,
daria a ti todos os
gerânios das mais variadas
cores e os poria,
em cima da mesa,
junto a uma goiabada
com queijo.
1899.
Há buzinas
Mesmo, deve haver cores,
trânsito, deve estar lá.
Bandeiras hasteadas,
brados de vitória.
Tudo lá fora,
o mundo se escolhendo
se encolhendo
entre a possibilidade
da merda e o
cogito da bosta.
Há buzinas azuis,
bandeiras rotas,
trânsito de possibilidades.
Quem ganha? Quem perde?
Eu me encolho
E me escolho
1898. Prova de amor
– Onde você vai?
– Não tenho a mínima idéia…
– Posso ir junto?
1897.
Quem sabe ainda
dê pra fugir
A gente se prepara
e vai de remo
(barco a remo,
é claro) não pra
Austrália, mas para
Kiribati, e lá a
gente não constrói
nada novo, depois
que tudo acabar e
os ets aparecerem
lá, a gente vive do
velho mesmo.
1896. Profissionais da memória
Eu, como um deles,
Quero preservar o nome flor
para que ao amanhã
se faça, sempre, pelo menos
na palavra, essa que não
se usa mais como a
prova da estética,
como o ethos da imagem
da beleza, mas sim
como o adorno de forma e cor.
1895.
Acontece
que sem você
aqui nada
acontece
e aquela canção se
acomete,
e aqui,
nada acontece.
1894.
Quase feito
Quiçá rarefeito
Com efeito
Foi nesse
eu cá
você lá
que deu a dor,
quase no peito
1893.
Eu falo
e tu não escutas
talvez nem ouvir
Eu falho
e tu me executas
talvez só um porvir
Meu falo
pra tu que és culta
não serve para ir ou vir
1892. Escala cartográfica
Por que mapear
os meus problemas
seria algo afeto
à interpretação
e não à quantificação
num plano.
Uma relação de proporção
inversa
mais semântica
polissêmica
do que representação
imagética.
1891. Hippie mata hippie ou Manchete de escândalo
Morreu enforcado
por um cordão
de sândalo.
Depois de levar
sandaliadas
na cara.
1890. Entre o ensino e o ensinar
Em si o nó
a se
desatar
pra depois
atar
de novo
Em si no ar
respirar
até se
faltar
1889. EU
Artefato natural
Algo para além
do humano e
do animal
1888.
Falta água em Brasília
Faz falta
eu vejo que faz falta
um rio correndo o
dia, correnteza
que traria mais
vida para essa ilha
Concreto, é uma
ilha de concreto
a milhas de qualquer
lugar
Tão reto e um
pouco ovalado
é tudo tão plano
que ta faltando
buraco
1887.
“Noite de hotel
ódio a Graham Bell…”
Com as pálpebras
semi-cerradas
e o aumento dos
tremores essenciais
eu constato um
arrepio que não
é do frio do ar
condicionado, mas
sim, da falta dos
teus cachos
Em algum lugar entre o Piauí e a Bahia, talvez em Pernambuco.
1886. Ma
Não
Nome não,
pois que não cabe
nem talvez
uma idéia brilhante
bastasse
Cabe bem
o existir, compartilhar-se
dor aqui,
lágrima que se afiasse,
prazer mais,
suor que se gozasse
(e até um abraço
pelo vermelho
que desce)
São Paulo, SP.
1885. Deveria congregar
Lá no plano
tem um canto
que insone dorme
tanto
quanto se pode
pensar
mas antes sono
mesmo fosse
pois que sonhar
se podia
mais parece
que só se tem
pesadelo numa
eterna anestesia
1884.
Comum eu
Música eu
Museu
1883.
Eu me entrego
Me integro
entre egos
1882.
Sorriso sem graça
olhos de ressaca
essa qual Capitu
como manhã depois
de uma noite
de mangüaça.
1881.
Demora
a hora de
ver que o
Demu ora
Ora ora, agüenta
que pode ver qualquer
hora.
1880. Trestrás
Monstro real
assim um
ser
beijando um pescoço e
sulcar o éter
acaso
borrar letras no
topo da página
subindo o
eu
e queria dizer:
1879.
Encontrei
a beleza
vendo você
por debaixo
da mesa:
eram uns
pés miúdos
e magrinhos
tão quistos
que eu tive
um certame:
a beleza
é charme.
1878. Para o fim do patrimônio
Tenha a casa pronta
primeiro.
Depois você enfeita.
1877.
QRUEO APNAES
TARCOR A ODREM
DAS CIOASS PRAA
VER SE SGURE
NVOA ODREM
1876.
Discrepância
entre o que
quer minha alma
e o que agüenta
o meu pâncreas.
1875.
Concordo, concordo…
Quase um ótimo
climático o nosso
encontro…
São Paulo, SP.
1874.
te vi
e
tive
um
tique
foi
toc-toc
o
tic-tac
do que
tive
quando
te vi
1873.
P03514
D3
M473M4T1C0
QAUSE QAUQLEUR
C0154 QU3 N40
M3 ε
1872.
O café me dá sono
não por inversão
digestiva, mas
sim, porque sempre
que o tomo,
me recordo que
o tenho.
São Paulo, SP.
1871.
Entranha.
A trança como.
Como lindo ela,
bela dentro
tal qual na pança.
São Paulo, SP.
1870.
Uma alteração na paisagem
erosão dos muros
do super-ego
um relevo descoberto
camada após camada
retirando lastros
de prudência
eu relevo
eu relevo.
São Paulo, SP.
1869. Para além dos miolos
Quando me olhar
em profundidade
molhar por fim,
em idade,
meus olhos
São Paulo, SP.
1868. Vagando pelo baixo meretrício
Quando a iconografia
do néon falha,
falha um parco
segundo – quase a
perda de um segundo,
o primeiro de vários
que se seguirão –
a célere lembrança,
mais vida que memória
em si vagando,
de que o véu
diáfano da noite,
continuação de um dia,
corra ao encontro
da carne exposta
na vitrine
Como se de um poste
a outro existisse
um vidro e cada
moça encerra em si
a cultura da
volúpia dúbia do
anacronismo hipócrita
de comprar sexo
Talvez Freud tenha sentido,
que o que pulsa não
é mera vida, mas sim,
o que se quer gozar dela
São Paulo, SP.
1867. Marvada landschaft
Placas
pôsteres
promoção
São
Paulo em
Placa
São Paulo, SP.
1866.
Três poemas construídos,
agora dos seus pares
possuídos, ao longo
de quem os achar
consumidos, o dela,
o dele e esse
Três conjugados de
versos, três apontamentos
discretos, eu mesmo
ainda não os vi
Três silêncios repletos
três saídas do
concreto
três que não sabem
de si
Cada poema se fala
de si para si
Até esse que fala
dos outros dois que eu não vi
São Paulo, SP.
1865. Teus pés
Todavia há uma
hipótese
sei que não vai
haver prótese,
quiçá um hipopótamo
houvesse
Toda via há
uma hipótese
Mas sei que há
o desejo da prótese
quase a achar-se
um hipopótamo
ao ver-se
Teus pés me dão
muito mais que
hipóteses
e vias várias
são pés postos
em serem pés
sendo o que há
E eu não sou um podólatra
São Paulo, SP.
1864.
Na Paulista
descobri uma das pistas
Depois da Angélica
e da Augusta
O encontro
no teu cinza.
São Paulo, SP.
1863.
Existe um pensamento
a definir
Poucas palavras para
um sentir
Não vou dar ouvidos
não
Uma palavra só
não existe
Delinear o meu sentir
Não vou dar
ouvidos não
Uma, ou mesmo duas,
mesmo algumas,
quiçá três
Não vou dizer,
aprisionar o nosso viver:
não palavras para eu e você.
1862.
Vou procurar
um médico
Talvez a medicina
possa medir a
minha sina
1861.
Pra que estudar?
Pra que estudar?
Eu vou fazer
um supletivo
a distância
Em três meses
1º e 2º grau
Em três meses
Ensino básico e
fundamental
Ainda vou me
preparar para
o vestibular
e passar nas
Faculdades Esotéricas
Luteranas do Maná
Fazer curso de
Gestão da Engenharia
da Computação
Arborícola
E no fim
um emprego de
caixa na C&A
vou arranjar
E qualificado
1860.
Porque é tudo novo
de novo, mas o apego
ao que se foi impede
o que sempre vem
impele ao que não
mais se tem.
1859. Semáforo
O verde chama
ainda há o amarelo
antes do vermelho,
aquela espera em chama.
Há quem diga laranja,
ácido momento
antes de se abrasar
na espera.
Cores flexionam os
segundos.
Uma para fluir.
Uma para marcar.
Uma pára.
1858. Nota sobre amar
É como um tear
Entrelaçar os fios
Cada qual com sua
cor, formam formas
conduzidas num
misto de alma e
mente
É como respirar
É só ter ar
1857. 2
A melhor coisa
do cigarro é
que ele é um
caso que
só você pode
terminar
1856. 1
A melhor coisa
do cigarro é
que ele é um
companheiro que
só você pode
abandonar
1855.
Eu tinha cá pra mim
uma promessa
Marquei que não
iria mais amar
Grifei com tinta preta
na agenda
Uma data que hoje
é só um passará
Passaredo soprou
no meu ouvido
que o passado
já não há
Passei tranqüilo
pela gaveta
Em que a agenda
guardada lá está
Junto com algumas
fotos e bilhetes velhos
que só nessa gaveta
não vão ficar
Quebrei essa promessa
e num impulso
Resolvi a tudo libertar
Os beijos de batom
em guardanapos
e os pêsames por
já não mais estar
O origami todo amassado
Bilhetes de passagem
de viajar
Uma mandala
torta e quebrada
e uma flor branca
toda a mofar
Libertei vocês todas
num segundo
Do meu ato falho
de lhes pecar
Eu tinha que
quebrar essa promessa
Pra não ter que
nunca mais engavetar
outro sorriso
franco e sincero
Dessa que agora
vem se apresentar
Para que ela chegue
assim em casa aberta
e possa muito bem
se acomodar
1854.
Pelo menos você também
ou dois u’s
para que a calha
da escuridão dê
fluxo contínuo
ao jorrar d’alma,
meio d’água,
aquela liquefeita
em H20 e NaCl.
Protótipo de solidão,
é cerveja sozinho.