0603.

Nunca se escreve o que se sente
Sempre o escrito é só uma ponte
Um caminho. O expressado é
Só uma via entre o real e a
Nova realidade – a expressão
O que se expressa nunca é
O que se sente, é somente
Uma semente desejosa de ver
Nascer em quem se endereça
A expressão

0595. Preconceito (Desconstruções IX)

“Existe um preconceito muito forte, separando você de mim…”

Meus olhos não me dizem muita coisa. Meus ouvidos selecionam informações. Meu nariz é socialmente construído – diz fedor, aroma, mau cheiro. Meu corpo se retrai em medo. Minha boca argumenta todo o erigido. Minha mente sussurra Eros e Tânatos. Minhas mãos tocam a utopia – lha dissolvendo. Minha alma amortece a queda em senso. Meu ego mira e se mói. Meu juízo desconhece o infinito.

Desse balaio de gato pós-moderno, digo: viva a diferença! E me aprisiono em mim – meu (o) único mundo –, sabendo já, desde sempre e do início, antes mesmo de ser antes, de tudo e todos.

Desconstruir-me.

Primeiro passo para a comunhão.

0594. Começar de novo

neste espaço que observo
pretendo ocupar aqui uma poesia
mas sempre começo e paro
recomeço e paro e não
me foge a sombra dessa
idéia (quase platônica) de
que deva eu começar o
preenchimento de forma poética

os versos da canção me assombram
os neurônios. coloquei-a na vitrola
pensando assim lha exorcizar
mas qual o quê! nem nada fez-se
às minhas idéias. e o começar
de novo sempre voltando, recomeçando,
quase um eterno retorno

minha burguesidade me lança
imagens de um começar de novo
amóreo – como a música –,
só eu, matutinamente satisfeito
mas na vida o começar de novo
faz-se de formas outras que
não o de uma utopia amorosa
“cinco jujubas, um real!”
“ó o vale tique, ó o vale!”
e todos esses recomeçam,
por vezes já começam no recomeço
(“Bala de coco só paga um real!”)

Ah recomeçar de fato…
Quem sabe numa outra vida.

0593. Pássaro Alfa

(para Lanny Gordin)

baloiça a plumagem
num sustenido, açoita
o ar, voa, vai-se entre
o éter a preludiar o céu
faz-se nagual, sem força
só vôo. no vento a sua
silhueta, numa nota um
fluir aquoso ao ar
começo contínuo. séqüito
em penacho sibilante
voraz a intrepidez do vôo

pássaro alfa, passa aqui
a produzir o mundo
movimentos melodiosos
de lá de cima, a real
contemplação. tudo ínfimo,
tudo conexo, tudo briluz
tudo num vôo.
lá de cima o início,
o som primordial.
a primazia de tudo,
nas notas de um vôo.
cosmogonia ornitológica –
mas antes de tudo, num som! –
um vôo. o início
e lá no fim, outra contemplação:
pássaro alfa.

0575.

Há um poeta em meu pé
Ele dói, coça, incomoda
O poeta incha de quando em vez
E de vez em quando dá umas pontas
Bem na planta do meu pé
Tentei tirá-lo com a unha, mas
Só feri mais, pensei passar a
Faca, mas ele mais me machucou,
Enfiei até agulha pensando me livrar
Assim. Mas nada, esse poeta se entravou
Mas desse poeta o que mais me
Assombra, é saber que chamam-no
Alhures, de bicho-de-pé.

0573. Parnasiano sul-real

“manhã, luminosa manhã…”

Por esta matutina essência de agora,
vem –me este contínuo passado vivo.
Uma vez mais bem outrora definido
foi limite preciso tal de uma aurora.

Posto que passa este raiar descomedido,
na claridade desse vespertar, ora,
o gozo da luz despenca como chora
o atônito inocente tido em delito.

É assim que da ação de rota que nesta hora,
ocorre da Gaia em si despercebido,
surge e inventa-se o amor, um ser de fora

desses dias mesmos ainda não nascidos,
que à existência marca e corrobora,
mas transforma-se em não dia, agora tido.

0571. 27 de novembro de 2002.

O que me impressiona
é a impressão de
que nada foi. De
tudo em vão. Não
há o silêncio
de uma década
ou a intrepidez de
três. Somente duas (dias).
Duas décadas. Não
um blues, mas sim
um fado. Não a
lascívia, mas a
letargia. Duas décadas.
Mentiras, apatia,
adinamia. Um poemas
simples para um dia
pouco. Uma pequenez
parca para um tamanho
ínfimo. O não feder,
o não cheirar. O não
chorar. Nenhuma
lágrima. Nenhuma emoção
tanta (ou tamanha), nem
nada também. O éter de
duas décadas. Foi-se
lira, vêm-se épicos.
Ou vai-se poesia
e fica-se a prosa.
Não sei. Como este
Dia. Não sabido,
Simplesmente: nada.
Nessas duas décadas,
Os dias se amontoaram
como as letras nesta.
Nessas dias décadas,
o limiar da loucura
(mais um passo e já
era). Falta luz.
Afinal, duas décadas
e nenhuma vela
(nem uma de 7º dia).

0565. Conexões I

Um ombro e uma cabeça
Um sono e um devaneio
Uma invenção e um acaso
Um álcool e um desavergonhar-se
Um morro e uma imagem
Uma atitude e uma atitude
Um olhar e um desprezo
Uma aventura e uma depressão
Uma noite e um segredo
Um segredo e um segredo
Um tudo e um nada
Uma gripe e um cuidado
Uma voz e um ouvido
Um olhar e uma visão
Um et e um espírito
Uma lágrima e um sorriso
Um verso e um mar
Um passado e um pulsar
Um medo e um olhar
Um colo e um afagar
Uma chuva e um bronzear
Uma dúvida e uma certeza:
essa palavra eu temo conectar (amor)