Nunca se escreve o que se sente
Sempre o escrito é só uma ponte
Um caminho. O expressado é
Só uma via entre o real e a
Nova realidade – a expressão
O que se expressa nunca é
O que se sente, é somente
Uma semente desejosa de ver
Nascer em quem se endereça
A expressão
0602. Alíneas XII
os aspectos culturais de nós dois por vezes são outros, mas aí que reside nossa aliança de boa sorte, é na diferença que nos encontramos e nas igualdades surgimos como mais aliança ainda.
0601. Alíneas XI
se eu fosse o seu ideal, aquilo que buscas, não sentiria o que sentes e eu só seria um devir. viva a nossa diferença! assim nos afirmamos nós.
0600. Alíneas X
não sou senhor
de nada, mas
me orgulho – ou
algo parecido
com isto –, de
a ter em meu
lábios por
instantes
0599. Alíneas IX
longe, te escuto
num espaço
bem definido
em meu corpo
e em sua
transcendência.
neste ato me
escuto e dou
asas a você
em mim
0598. Alíneas VIII
no que não nos contêm
contém um desejo de não
se findar, como o ato, o
desejo que não se contém
0597. Determinismo
se eu acreditasse piamente
que só sou ponte dialética
entre o anímico e o pós-humano
regozijaria-me de minha condição
e somente ser seguiria
0596.
do belo a verdade surge
eis que a cultura urge
não o simétrico mas sim
as essências
0595. Preconceito (Desconstruções IX)
“Existe um preconceito muito forte, separando você de mim…”
Meus olhos não me dizem muita coisa. Meus ouvidos selecionam informações. Meu nariz é socialmente construído – diz fedor, aroma, mau cheiro. Meu corpo se retrai em medo. Minha boca argumenta todo o erigido. Minha mente sussurra Eros e Tânatos. Minhas mãos tocam a utopia – lha dissolvendo. Minha alma amortece a queda em senso. Meu ego mira e se mói. Meu juízo desconhece o infinito.
Desse balaio de gato pós-moderno, digo: viva a diferença! E me aprisiono em mim – meu (o) único mundo –, sabendo já, desde sempre e do início, antes mesmo de ser antes, de tudo e todos.
Desconstruir-me.
Primeiro passo para a comunhão.
0594. Começar de novo
neste espaço que observo
pretendo ocupar aqui uma poesia
mas sempre começo e paro
recomeço e paro e não
me foge a sombra dessa
idéia (quase platônica) de
que deva eu começar o
preenchimento de forma poética
os versos da canção me assombram
os neurônios. coloquei-a na vitrola
pensando assim lha exorcizar
mas qual o quê! nem nada fez-se
às minhas idéias. e o começar
de novo sempre voltando, recomeçando,
quase um eterno retorno
minha burguesidade me lança
imagens de um começar de novo
amóreo – como a música –,
só eu, matutinamente satisfeito
mas na vida o começar de novo
faz-se de formas outras que
não o de uma utopia amorosa
“cinco jujubas, um real!”
“ó o vale tique, ó o vale!”
e todos esses recomeçam,
por vezes já começam no recomeço
(“Bala de coco só paga um real!”)
Ah recomeçar de fato…
Quem sabe numa outra vida.
0593. Pássaro Alfa
(para Lanny Gordin)
baloiça a plumagem
num sustenido, açoita
o ar, voa, vai-se entre
o éter a preludiar o céu
faz-se nagual, sem força
só vôo. no vento a sua
silhueta, numa nota um
fluir aquoso ao ar
começo contínuo. séqüito
em penacho sibilante
voraz a intrepidez do vôo
pássaro alfa, passa aqui
a produzir o mundo
movimentos melodiosos
de lá de cima, a real
contemplação. tudo ínfimo,
tudo conexo, tudo briluz
tudo num vôo.
lá de cima o início,
o som primordial.
a primazia de tudo,
nas notas de um vôo.
cosmogonia ornitológica –
mas antes de tudo, num som! –
um vôo. o início
e lá no fim, outra contemplação:
pássaro alfa.
0592. Alíneas VII
a ti, a proteção que traz meu nome
lha dê mais graça e nobreza,
e que seja como um caapora
a dar-te guarida de tudo quanto
é anhangá que se esconde por aí
e se qualquer travessura de Tupã
assustar-te, meus braços estão
sempre aí, a te afagar o medo
0591.
.queria que todos os dias, mesmo sem sol, esse riso frouxo brotasse de minha almA
0590. Alíneas VI
sorrias ao longe
meu passado à frente
e naquele seu sorriso
um futuro leve…
0589.
segreda em ti a mim, amiúde
transpira-me em teus poros
e maldiz-me em aflição:
“por que Senhor, a sofreguidão
do mau juízo platônico?!”
e eu ao outro lado sendo-me
e se isso te dói, a mim pelo
contrário, já dista o condoer
0588. Alíneas V
creio compreender o ciúme, só não irei transformar ninguém em menta
0587. Alíneas IV
isto que percorre meu corpo
aos teus lábios aos meus
seria o rumor de só um beijo
ou seriam aquelas badaladas
que lho tremem a espinha
e confundem assombro e paraíso?
0586. Alíneas III
do que dizer da morte
se me sinto tão vivo
a não ser que a vida não
é para ter sentido
e sim para ser sentida,
e que a razão está
no ato mesmo de sentir
a vida correr às veias
(ou que daí se descobre o amor)?
0585.
meus pensamentos desconhecem
o pudor do puro racional
são eles também nuvens
carregadas disto que pautou-se
ser o amor. mas que antes
é o que me liga ao mundo.
0584.
mais nada falaremos
até os algures do amor
se consumirem em nós.
até sermos então poesia,
metáforas para a completude
e não só metáforas,
mas vida antes de tudo.
0583. Suicídio
Falaram-me: “o amor te completa,
te deixa sentir-se vivo, inteiro.”
Ai eu viajo: o amor é só um
suicídio. A última carta para
sentir-se íntegro.
0582. Alíneas II
Esses encontros não fortuitos
(e como hoje você estava linda!)
fazem-me apelar para os astros
mas vista a união entre nossos
signos, desinvento as firmas
das estrelas e invento uma
boa nova para nós: esperança!
0581. Da educação para mim hoje (a minha)
“Oh captain my captain…”
Digo para mim mesmo
E me conduzo.
0580.
um filme com os propósitos
bons (ou seja lá o que a moral disser)
e naquela face as lágrimas,
aquela face salgada, logo de
manhã. a me condoer a alma.
imagens boas (ou seja lá o que a
moral d’alma achar). paixão momentânea
0579.
Inventada em mim
não há mais jeito
o lábio contra o lábio
não há mais jeito,
só fluir, só o deixar
“Deixa cair…”
Deixo tudo então assim
uma invenção já em mim
um jeito não mais com fim
um fim na visão: há
(lábios entre lábios entre línguas)
0578.
Uma constatação:
Já ter vivido de poesia outrora
E reviver do que te viveu agora
0577. Constatações
neura
deprê
lívias
vocês
anjos
nó
amigos
poeminha
0576.
A máxima da merda é mover-se incólume entre as brumas de um mísero chat a tentar ser algo. (e quem sabe até ver se é alguém…)
0575.
Há um poeta em meu pé
Ele dói, coça, incomoda
O poeta incha de quando em vez
E de vez em quando dá umas pontas
Bem na planta do meu pé
Tentei tirá-lo com a unha, mas
Só feri mais, pensei passar a
Faca, mas ele mais me machucou,
Enfiei até agulha pensando me livrar
Assim. Mas nada, esse poeta se entravou
Mas desse poeta o que mais me
Assombra, é saber que chamam-no
Alhures, de bicho-de-pé.
0574.
Se eu ficasse a te dizer sonoras palavras sem sentido, já não diria nem nada Maria José, esperaria somente tuas desculpas e teus abraços. Mas, vá se foder Maria José.
0573. Parnasiano sul-real
“manhã, luminosa manhã…”
Por esta matutina essência de agora,
vem –me este contínuo passado vivo.
Uma vez mais bem outrora definido
foi limite preciso tal de uma aurora.
Posto que passa este raiar descomedido,
na claridade desse vespertar, ora,
o gozo da luz despenca como chora
o atônito inocente tido em delito.
É assim que da ação de rota que nesta hora,
ocorre da Gaia em si despercebido,
surge e inventa-se o amor, um ser de fora
desses dias mesmos ainda não nascidos,
que à existência marca e corrobora,
mas transforma-se em não dia, agora tido.
0572. Alínea
.se não fosse tão lerda, diria que é amoR
0571. 27 de novembro de 2002.
O que me impressiona
é a impressão de
que nada foi. De
tudo em vão. Não
há o silêncio
de uma década
ou a intrepidez de
três. Somente duas (dias).
Duas décadas. Não
um blues, mas sim
um fado. Não a
lascívia, mas a
letargia. Duas décadas.
Mentiras, apatia,
adinamia. Um poemas
simples para um dia
pouco. Uma pequenez
parca para um tamanho
ínfimo. O não feder,
o não cheirar. O não
chorar. Nenhuma
lágrima. Nenhuma emoção
tanta (ou tamanha), nem
nada também. O éter de
duas décadas. Foi-se
lira, vêm-se épicos.
Ou vai-se poesia
e fica-se a prosa.
Não sei. Como este
Dia. Não sabido,
Simplesmente: nada.
Nessas duas décadas,
Os dias se amontoaram
como as letras nesta.
Nessas dias décadas,
o limiar da loucura
(mais um passo e já
era). Falta luz.
Afinal, duas décadas
e nenhuma vela
(nem uma de 7º dia).
0570. Alíneas I
Se pouco duas paçocas e uma pulseira
Acrescento a estes ensejos
Um possível prazer a ti em meu desejo
Essas palavras, só essas palavras,
Como jóias raras, e nelas, até
o impossível.
0569.
O normal é como o mistério,
normal ao ponto de ser único
E esse baixo de jazz não é
só um mistério é mais que normal
0568.
Mexendo numa gaveta que dá ao passado,
Vi que você não estava só na gaveta.
Que o passado é só presente a se desvelar.
O pulso pulsa hoje e o ontem pulsa sempre.
0567. Conexões II
Se passo e desce
Se vou e sobe
Se venho e chega
Se saio e encontro
Se tudo isso, só digo:
acasos criam casos
0566. Solução
A solução é fácil:
Mate o amor pela raiz
Ao soneto primeiro
Entorte os versos até
Que surja um poema
Sobre uma mesa e
Não sobre ela
Ah! e como sua superfície é lisa!
0565. Conexões I
Um ombro e uma cabeça
Um sono e um devaneio
Uma invenção e um acaso
Um álcool e um desavergonhar-se
Um morro e uma imagem
Uma atitude e uma atitude
Um olhar e um desprezo
Uma aventura e uma depressão
Uma noite e um segredo
Um segredo e um segredo
Um tudo e um nada
Uma gripe e um cuidado
Uma voz e um ouvido
Um olhar e uma visão
Um et e um espírito
Uma lágrima e um sorriso
Um verso e um mar
Um passado e um pulsar
Um medo e um olhar
Um colo e um afagar
Uma chuva e um bronzear
Uma dúvida e uma certeza:
essa palavra eu temo conectar (amor)
0564.
Minha desorientação é se espoco em alegria ou se me calo em aflição.
0563.
Um casal a namorar é uma
metáfora perfeita para cacos de
um vaso de porcelana colados
à super-bonden.
0562.
Naquele ônibus que eu vinha, tive uma
contemplação, um inside, uma luz, mas
tão rápido veio, que dela só suas
réstias neste verso tão parco.
0561.
Sem sentido,
Sem noção, nexo
Sem princípio,
Sem razão, contexto
Sem prejuízo
Sem segredos
Sem armadura
Sem certeza
Sem nada a se apegar
Só essa felicidade
ao ver o vento passar
0560.
Essa profusão de sentidos
Só surge porque há esse
espírito renascentista em mim:
Inventor. Conecto tudo:
a essência à forma e daí
só um engenho de reações
biopsíquicas. E daí só
esses amores todos,
em forma de conexões.
0559.
Uma alínea para destruir a invenção de uma linha:
“Falaste alguma vez de mim?” – “Não!”
0558. Constatação
Ah escorpião vivaz,
se até Hércules padeceu
de teus venenos
o que dizer deste pobre centauro?
0557. Aurora
Uma aurora parece não mais uma aurora quando do outro hemisfério.
Será essência, transcendência ou imanência esta percepção?
0556. Um vírus de reconstrução
Uma viagem pode marcar
um início, uma volta,
uma ida sem fim, um eterno retorno,
uma amizade insipiente,
uma briga sem retorno,
um retorno ao passado,
um olhar estranho depois,
um sorriso amarelo, um acaso…
mas essa marcou-me eu
novamente (traços sobre os pontilhados)
0555.
Nesse momento o Sorvete Itália passa,
ao mesmo tempo que a vida me
congela e eu nem sou italiana.
Aline Barreto e Guilherme Carvalho
Ipanema, RJ.
0554.
Se passado há
Se presente há
Se futuro então
Por que não o agora?
Por que só o devir de um talvez?
Ipanema, RJ.