vejo discos-voadores planando sobre as campinas do cerrado
vejo buracos negros caleidoscopiais sugando tais discos
e vejo que delírios de amor consomem meus neurônios
tão doidamente que as metáforas rompem-me a razão
descubro tudo com olhos de um possível provável poeta
por isso, conversei com Hércules ontem
e admiro Afrodite quase todos os benditos dias
Afrodite que mora em uma concha no fim do mar
e assim – poeta – declarei-me entre linha a ela
aparentemente ela que ir embora no disco-voador
e eu fico aqui, mirando o mar abissal do céu noturno
pensando eu ser o próprio Vulcano dos presentes
indo integrar-me à calda de um cometa fulgurante
desfigurando-me mais ainda, mais do que já sou
pretendo entregar-me e integrar-me ao cosmos
ao cosmos discoidal, fulgurante, preso a uma concha de Afrodite
mas disco voadores continuam e robôs herculóides avançam
autômatos autônomos e vivos, é Poseidon que escorre
e molha, dando vida nova à minha parca morte
dando vida nova ao disco voador que jaz sugado
0202. Desliguem os aparelhos
constato que o constante pode ser muito instável
que a qualquer momento a hora clara é apagada
ela muta-se num eterno momento breu
então tranco-me entre quatro paredes curtas
negras, escuras; dentro de minha mente
órgão independente do fantasmagórico eu irreal
multiplico-me e apagam-se minhas luzes
como se a fonte de energia chamada vida
resolvesse acabar ou então oscilar
minha alma encontra-se em coma
ocupando o leito de um mendigo moribundo
intensivamente, sofro um ataque de banalidade
meus amigos prostraram-se a me ajudar
dar-me-ão doses de mesmices e outras necessidades
que o ser precisa para não ver o escuro
e externa e internamente, distinguirei só arco-íris
em paisagens tortuosas do futuro
mas o instável quer se tornar constante
e como uma onda propagada, aumenta e diminui a escuridão
e como uma partícula lançada ao vácuo, vagueia na escuridão
então contemplo o quão difícil é manter a luz acesa
quando a fonte de energia está perdida
perdida num espaço físico e metafísico
da sua própria e falsa teoria relativamente quântica
0201.
balança de pagamento
paga o momento
do perdido pensamento
perdido na balança de pagamento?
a balança de pagamento
lança o momento ao vento
e deturpa o pagamento
do perdido momento
a balança de pagamento
abala e lança o pensamento
a se perder no momento
de se pensar na balança de pagamento
0200. Necessito
a queda da lágrima
é o jorro da mágoa
feito água acre-doce
e ávida
ávida do que quer fosse
sua alma
naquele instante
onde o seu corpo
comigo estava
0199.
queria te encontrar
naquele mesmo lugar
onde as águas dos rios
repousam sobre o mar
onde o mar se mostra amor
aonde quer que você for
eu vou estar
e naquele miragem
eu vou roubar uma flor
para te dar
0198.
eu não sou um novo hippie
sou apenas um retrô
compro calças em brechós
e uso o chapéu do meu avô
tem gente que diz que é pose
meu estilo é diferente
não sou doidão nem crente
eu apenas sigo em frente
sou estranho mesmo
gosto de música antiga
não ligo pra minha vida
muito menos pra barriga
vago pela noite
não sei se to lá no fundo
ando por aí sem rumo
descalço nesse mundo
0197. Só os cegos enxergam
preto ao branco
passando pelos cinzas
a noite se confunde
vira dia de repente
de repente vira breu
do nada vira Otelo
atentado pelo cinza Iago
num ataque de ciúmes
mata sua amada
Desdêmona claridade
sufoca a luz
todos esquecem
nunca existiu
o breu desaparece
nunca existiu
provam que só sabemos olhar
o que faremos sem as cores?
0196. Apologia ao suicídio
o mundo em que vivemos
não é mais o mesmo
o mundo de outrora
era mais bonito,
era mais ameno
não vejo nada de belo
só vejo desgraça
só vejo corrupção
só vejo tristeza
não há mais união
é um mundo ao avesso
é a degradação da humanidade
é o fim dos tempos
é a última viagem
faça-me querer morrer
ou me dê o significado da vida
me diga se ela é bonita
faça-me querer morrer
ou me declame a retórica poesia
me sopre uma simples e breve brisa
você é insignificante
e você sabe disso
você realmente conhece este suplício
isto é apenas uma apologia ao suicídio
0195. Bucolismo
morar no mato em uma cabana
esquecer que existe semana
arranjar uma mulher linda e profana
meio cristã, meio cigana
pensar no que a vida me emana
esquecer de toda essa gana
fazer um vaso de porcelana
disforme, porém bacana
sentar, tomar um gole de cana
esquecer o dinheiro que me esgana
não limpar minha choupana
sendo certo e sacana
ouvir uma coisa amena
esquecer que a vida era uma arena
e só pensar naquela pequena
que de longe me acena
0194. Soneto à Eliane
um blues gira triste no rádio
e vibra a dor em melancolia
a madrugada rasga o passado
e derrama em pranto meu dia
ergo-me confuso, escrevo apático
uma luz tenta nortear a apatia
irradia meu ser ainda estático
recordo-me de outrora com nostalgia
ela surge, excelência radiante
imagem excelsa que ilumina
dulcíssima luz, viva e radiante
quando já claro procuro a rima
chora minh’alma e ele adiante
Eliane, um passado que se faz sina
0193. Todo prazer é válido
todo prazer é válido
o válido é sentir
sem observar o desprazer
sem prever
se a ressaca surge
ao início de um outro dia
sinta-a
e valide-a
o valor surge
da sua experiência de sentir o prazer
e se a ressaca vier
que venha com o vinho
0192. A vida?
desisto de tudo
e recluso-me na
bruma do acaso
renego minha mente
desistindo de lutar
choro cacos de vidro
choro melodias
dissolvidas e desisto
desisto
não por vontade minha
mas por desejo dela
não tento, me entrego
surge a rendição
a batalha faz-se guerra
e termino sem começar
eu desisto, ela ri
ri alto e profundo
um riso seco e falso
um riso
e tal riso ressoa,
quando eu digo:
“eu desisto”
o riso, a ressonância, a desistência
ecoam na bruma do acaso
renegam a minha mente
e ela a provocar terremotos
com seu riso
tal qual cacos de vidro
que entalham os pulsos, a alma, a carne
sem esperança, sem lutar
os risos-cacos abrem chagas terríveis
sobre superfícies que
fatalmente já desistiram
e eu desisto
abro mão dela
e jogo-me sobre minhas
lágrimas e seus risos
me corto
sangro lágrimas de melodias vermelhas
ecoam melodias desistidas
um suspiro
nenhuma súplica
eu a olho
ela ri
seu riso corta
meus ouvidos
como uma melodia
afiada
outro suspiro…
desisto
0191.
um dia
quando não
muito
conhecia
ou sequer
sentia
mirava as
luzes da
cidade ao
horizonte
e as
maldizia
0190.
em meio a turba de iguais
a consciência permeia
a aurora de minha vida
agarro o destino,
indecido-me
apego-me e perco a bruma
0189.
se olhas para o horizonte e enxergas a solidão
vês o mundo com olhos tristes pela sufocada emoção
e encara-te como o único ser que ainda sabe contemplar
contempla tua solidez triste então
dissipa-a mirando ao redor do teu ar
e o mundo? o mundo é sempre um paradoxo sem fim
0188.
a letra leva à lenta lenda
longe, leva à ledos horizontes
se esconde, espreme-se entre linhas
loucas por lograr-se palavras
0187.
e brinco de deprimir-me
e deprimo-me por conseguinte
0186.
no infindável azul
a imagem turva e cerradina
mancha de rosácea beleza
a abóbada libertária
rodeada de gases libertinos
0185. Se os filósofos praticassem…
um lapso de paz cruza a bruma da razão
silencia o logos incansável
ardil aurora, dilúculo na escuridão
buscando a si, ser maleável
encontrando-se serenamente
não pela alcunha de se compreender
apenas tateando sentir-se ente
bastando ser ser, para realmente ser
e a paz me arde o espírito
apenas signo deste ser vão
que tenta valer a pena, apenas aflito
paciente, contorço e recrio toda a percepção
sugo a lógico do martírio
prostrando-me alma diante do ser como questão
0184. A brincadeira
dezessete são as translações
e o mundo teima em já pesar
sobre minhas costas
quantos fins se contabilizam?
Quantas brincadeiras sem fundo de verdade?
Quantos amores feitos poeira
e jogados como brincadeira?
são dezessete translações
minha existência brinca de crer no amor
e amores dissolvem-se qual brincadeira
e brinco de amar
dezessete translações se fazem
e quem sem sua sanidade
e sua proximidade anormal
realmente sentiu e viveu um amor?
0183.
a morte já não me basta
bem como a vida
que nunca me preencheu
um tiro no âmago da questão
um tiro que não preenche
que já não basta
brinco de querer ser ou não
diante de tal mistério
a problemática de seguir
sendo ou não,
problematizo minha eterno
e penso:
ser ou não ser?
ainda questão
e se ser, como sem amor?
e se não ser, como?
com a falta de tal existência,
de forma tal que não
precede minha essência
um tiro apenas
no âmago da questão
na essência única, na razão
um tiro apenas
cabeça ou coração?
um tiro apenas
e solidifico a questão
descomplico o problema
ou não
e sigo assim:
relativisando a solução
0182.
o sol doura nossa melancolia
à aurora deste dia
Sartre não tarde a ter razão,
como sempre
ah, a angústia de tanta luz
tanto ar, tanto amor
e esse sol em nossas faces
e os oblíquos e dissimulados que
escondem-se em notas memórias
e perfazem meu logos
a chorar tantos ais
como este contínuo passado
prostra o eterno presente
em lágrimas arrependidas
vertidas por olhos secos
que inundam de desilusões
as possibilidades vindouras
0181.
a impressão da dor é grande
imprime uma doce face cruel
em meu semblante angustiado
a agonia sólida
perfaz-se solidão
e a faca surge solução
a angustia lateja
e a gilete sobre a mesa
a dúvida mescla-se ar
e nada a se apegar
a propensão mórbida da vida turva
marca o sentido do meu viver
uma vida sem direito a seguro de vida
ou de sentimento
e se morrer de amor?
e se amor não for?
ficarei ainda mais angustiado
por saber que fui (e sou) amado
sem saber se amo então
e novamente és a faca solução
se não valho o amor que me imputam
talvez seja a navalha uma visão
será que amo?
0180.
eu te esperei
esperando que a espera
viesse a ser procura
eu te esperei,
mas nuca chegaste
desejei alcançar
mas só, sempre esperei
e você não alcancei
eu esperei
uma hora me cansei
e sai a procurar-te
mas parecia já tarde
e então novamente esperei
e a espera produziu
tais versos
que esperam te fazer gosto
e que teu sorriso
seja o prêmio
por tal espera…
0179.
minha alma chora
como chove no horizonte
chora, por sentir-se apática
e não conseguir a prática
da igualdade almejada
a chuva cai em frente
e a alma deságua descontente
tenta ser ainda forte
como o trovão que faz rente,
sente-se insignificante ente
chora sem poder de decisão
sem poder de mutação
e a chuva erodindo relevos
a alma chora em resignação
por saber que o choro
nada significa e nem é solução
mas se o choro insiste em verter
e a alma a incerteza do poder
o choro é só uma água inútil
que deseja tudo mover
insignificante ao se ver
a água a chover
0178.
a doce melancolia da solidão
me arde a vergonha
por ser feliz com a tristeza
como um choro contido
por um efusivo carnaval
me encontro com a alegria
a cada lágrima não vertida
por meus tímidos olhos
0177.
os meus olhos ardem
pois o tempo é seco
o clima de todos é seco
mentes ásperas, cinzas
as lágrimas não caem
pois falta umidade,
umidade espiritual
a água da vida
a fonte de todos já secou
onde ainda se pode chover?
nuvens de almas dissipam-se no éter
o ciclo hidrológico finda-se
junto com os restos de vida
… tenho sede …
0176.
a vida é
ávida de vida
toda vida é
canibal
vampira
ave morcega
Ave Maria!
suga a vida
de vidas
e mantém
a sua vida
ah vida,
vi minha vida
sugar a minha
vida
e viver de
outras vidas
Ah…
Ah vida…
Há vida?
0175.
excêntrico excesso de ser excelso
só o horizonte para calar o ego
só o ser em uníssima solidão
do saber-se só como a exceção
por que as cinco horas o sol
mostra-se muito mais saboroso?
0174. À lua
a lua, meio irmã, meio amante
meio amor, incesto dissonante
meio esfera, meio minha
meio luz turva do meio incauto
meio somente ela, meio eu
mesmo ao meio-dia. toda só
meio arrodeada de ser
meio lua, luz do sol
sem meio termo apenas lua
meio imagem da nossa solidão
meio todo ser só, meio avesso
do sol em combustão
0173.
escuto alguém a pedir
humanismo e bom senso
vejo um beijo despreocupado
sinto o sol
penso: “a rotina começa”
a vida me leva
um motorista só
em cada carro
apressados
0172.
O futuro se aproxima
Ou sou eu que envelheço?
A morte já não dista
Como nas minhas brincadeiras de criança
Amadurecer como o fruto
Perecer como tudo
Eis a sina que se segue
0171.
planta não natural
neste cerrado
vive mesmo assim
0170.
anil rasgado no céu
bruma leve no ar
abóbada sem fim
0169.
a árvore fala e os pássaros respondem
a palmeira brilha opulenta e soberana
ávida por viver seu vegetal
0168.
a brisa pousa levemente sobre a derme
a ave corta o céu anil
o mecanismo procede anunciando a vida
0167.
o sol essência saúda o mundo
o verde absorve a luz-vida
e volta seu verde para o anil do céu
0166.
tudo ameríndio
tudo afro-americano
tudo euro-asiático
tudo hindu-africano
tudo aborígine
tudo ser humano
tudo macro micro perto
tudo infinito distante
tudo incerto
etéreo
mediano
morte-vida
ciclo eterno
tudo ser humano
tudo porta
tudo nuvem
tudo eu
tudo ser humano
0165.
uma viagem
em meio a tantas
todos
ah, o fingir…
será que entendem?
pose
é somente pose
0164.
acabo de ler Kerouac
e subterraneamente o compreendi
o sul-real concreto
um tanto desconexo
que ele profere
me faz amargo
como um ser unitário
que contempla o vácuo humano
ah, Bukowski também me ajudou
mas de forma ácida-áspera
como a corrosão da imagem doce da vida
ah, que merda de tudo
que desespero silencioso
o que fazer quando se tem 17 anos
e o Lobo da Estepe já te agarra?
Difuso, sidártico
ah, sou um velho sessenta anos
desgostoso da vida
minha carne é nova
mas pereci ideal e emocionalmente
tão rápido quanto um foguete
gosto de jazz, bossa-nova
tropicália cai bem, blues visceral
mas não sei
sou um velho!!!
esquálido, raquítico
em pleno auge da forma física
o mundo me decepciona
antes de adentrar nele
ah, século XXI
o que fiz de tão ruim
noutra vida para merecer-te?
0163. Sobre a volta para casa
prédio : vivência
paradas : angústia
pessoas : sou e estou:
estradas : apenas um caminho
escolas : aprendo
sinais : traduzo
cachorros : a vida
carros : o material
casais : invejo
mulheres : desejo
flores : o perfume
homens : o odor
pardais : o vôo
passeios : diversão
lanchonetes : comida
carros : velozes
pessoas : fúteis
paradas : angústia
0162.
hoje eu vi a explosão do ego
vi vozes exaltadas em seu
egocentrismo eterno
bradando a iniciativa
querendo derrubar portões
e no fundo de suas almas burguesas
vi o sentido mesquinho
do dever cumprido
da dar importância ao momento
de esquecer o próximo
e sonhar a utopia ideológica
que oprime a verdadeira revolução
vi que eles viam a discussão
como válida causa
quando senão solução
para mim discussão é etapa
é primeiro e lento passo
e de antemão, aqui digo:
a discussão que vi não vai, fica
por isso, como diria Bob Marley:
“I don´t wonna wait in vain…”
ah, que se dane!
o sol está lindo
e vida que levo me liberta numa bela prisão
meu ego até se calou por instantes
0161. Jazz
a mudança
um sentimento sufocado
transição
somente uma fase de incerteza
onde o jazz se ouve alegremente
e a big-band entende sua alma
um bom filme
o desleixo, o cabelo despenteada
um momento vazio
rodeado de complexa alegria
a esperança
Nat King Cole abusa do acaso
e coloca o mundo em conexão
os letreiros sobem
a minha alma também
o som penetra a esperança
um jazz…
0160.
ao contemplar os pássaros
receio nunca poder voar
falta algo de mágico no ser humano
que não o permite lançar-se ao ar
que o extatiza no chão
e o torna homem ou mulher
falta o desprender-se do mundo
e religar-se ao infinito
apagar a consciência
e soltar-se no espaço
destituir-se da razão
e explodir a falsa gravidade
falta a aerodinâmica abstracional
e o impulso inconsciente
o ser humano sabe mirar o ar
e integrar-se a ele
a espécie humana não se conhece
ao ponto de miscigenar a lógica ao espírito
o físico ao metafísico
homens e mulheres não sabem
ser ser por somente ser
sem precisar compreender tudo
os indivíduos humanos não hão de voar
enquanto dividirem o unitário
enquanto não calarem a comunicação
e passarem a cantar o não sentido
dando razão à não razão
0159. Geo-homo
a rocha
a ordem imposta
corpo morto
absorto
num nirvana eterno
o não ser por excelência
o não pensar personificado
a pedra
a solidez intrínseca
não percebendo a ilusão
do ser preenchido
não sentido
não enganando-se com a vida
a mentira existencial
a pedra ao ser pedra
não sendo ser ao mesmo tempo
é apenas pedra e parte
do tudo que a pedra não vê
sedimentos atômicos
da unidade universal
queria eu ser pedra
e abster-me do pensamento
ser pedra poesia somente
sem precisar escrever em desespero
a terrível depressão
de aspirar a ser pedra
se minha alma petrificasse
e meu espírito virasse cristal
minha mente seria uma rocha
e não mais pensaria em quere ser
algo que não sou
e não pensaria
apenas pedra,
pedra,
pedra…
0158.
minha ideologia não conhece meu ego
e meu ego desconhece a poesia
meu ideal engana meus desejos
meus desejos são pura magia
quem sou eu de verdade?
no que acredito então?
O que ocorre comigo?
Por que somente a razão?
se o instinto não me é inerente
a cultura me sacaneou
conheci nobres verdades
e meu passado as freou
o sol queima minha face com sublime melancolia
se gosto hoje do sol como outrora amei a lua
é porque a mudança me preencheu
com um falso abrigo
se hoje repúdio Deus
Hoje, ele é ainda mais meu amigo
0157. Espiral
a morte subverte
o que a vida inverteu
o verme sobrevive
do que a morte um fim deu
um fim biológico
ao (in) fim (nito) maior
que perpetua a vida
numa equação precisa
onde o fim inexiste
o ciclo é linear
é plano circular
0156.
blusa com rendas
alvura pele à pele
(derme-tecido)
o sono nela afaga
a inquietude amarela
a imagem dourada
permeia o castanho
a forma sublime
que só eu vejo,
que dorme
um pensamento impuro
imagem leviana de dois
o pensamento solto
a calça ela (derme-tecido)
a blusa de renda
a alvura afaga-me
0155. Um vôo
Uma nota, infinito zero a esquerda
Infindável azul, eu meio infinito
Vôo em notas, sonoridade escolar, âmbar
E vôo. Destino algum preciso
Sobre um abismo, abismoroso
Âmbar negro, irreal. Amorâmbar: translúcido
O vôo, a procura no infinito corpo
outro. Escolar. O amorâmbar opaco, fosco
Somente um vôo
0154. Obra
um tijolo na minha idéia
uma idéia de tijolo
uma mente concreta
um concreto tijolo
uma alma pedreira
um espírito mestre-de-obras
um tijolo sobe o outro
um tijolo sobre o outro
uma idéia para outra
uma idéia pára outra
uma mente abstrata
um substrato de cimento
uma obra inacabada
uma mente em construção
um espírito evoluindo