0153.

do solo ventre desta
terra-mãe
produto mercantil
brilhou e abrasou
o vermelho gosto
de seres Brasil
a que terrível paradoxo
de dimensões tal,
formou e pariu

a meio milênio
conseguiste chegar
cinco centênios
de merda, morte
e néctar, agüentar

eu vi,
eu vi o povo na rua
a comemorar
foram 300 mil
na brasileira ilha
a cantar, dançar
e se esmurrar
eu vi,
pois depressiva
e infelizmente
eu estava lá
(bem no meio)

0151.

por que ainda teimo em escrever?
e este algo que incrusta minhas palavras
e que custa em desaparecer?
colocando minha alma a mercê de banalidades
enchendo meu espírito de frugalidades
prostrando minha mente à mecanicamente
preencher linhas e mais linhas
com pseudo metáforas de merda

0150.

a miséria ronda
a humildemente pedir ajuda
de forma tal
que o não seria a minha morte
e o sim uma sorte dela

outrora escutava a miséria
agora ouço Jesus
que vive novamente seu sacrifício
bem aqui em minha quadra
e deve reviver no mundo todo
ao mesmo tempo
coitado – é páscoa

bem distante da audição
no campo da visão
enxergo montanhas de H2O
a derreter no infinito
a evaporar com o círculo inscrito
no quadro azul de paralelas
e as montanhas se aproximam
iluminam
derretem
e dão vida ao verde
que teima em viver em meio ao gás
em meio ao aço
em meio ao cimento e fios
neste concreto cerrado
e agora eu tudo,
contemplo quão tudo sou eu
e o quão eu é tudo
somente usando estes dois sentidos
três, melhor dizendo…

0149.

o que sabe que é tudo
realmente não o é
o que o é sem saber
iludi-se em silêncio
o que vivencia a totalidade
sabe que não se precisa
nada saber
e na experiência de sentir
a unidade da interação
consegue regressar
ao estágio inicial
à causa e ao efeito
ao início e ao fim
à Deusa num certo sentido

0148. Marcas mágoas (águas passadas que ainda não passaram)

Como tudo se renova
Como a dor se reproduz
O passado me apavora
E a melancolia me conduz

Todos se mostram inaudíveis
A meus gritos silenciosos
Preferem ver imagens horríveis
E degustar doces saborosos

Cada um prefere seu eu irreal
E os reproduzo em silêncio
Cato o mal de cada qual
E afundo o meu lamento

Busco resposta para algo
Que não sei bem o que é
Consome meu espírito em alto
Degustando toda a fé

Ignoro a dor carnal
E queimo-me em idéias
Leviano, libo-me como tal
E apago a concepção séria

Viajo muito sem saber o porquê
Viajo, viajo, viajo e viajo
Deparo-me com meu ser
Em meio a um ato falho

0147. Tarde dourada

o sol irradiava sua luz
a chuva a absorvia e a refletia
num prisma silencioso
um arco de cores psicodélicas
pousava no céu gris
a luz penetrava tudo
e a tudo dava vida
e nesta periferia
reconhecia o Eldorado

raios cortavam o horizonte
e mostravam a vida do universo
um mar vagava no infinito
um mar de águas d’ouro
de ondas elétricas e maresia sonora
a água molhava e dava vida
e a luz a conduzia

casavam-se neste universo
– e luz e a água –
e eu por testemunha
e a incaica moeda jazia
nas linhas do quadro mundo
trazendo sua irmã prateada
tudo girava em minha mente
e eu Via
um tudo sincronizado
dourado
iluminado e iluminando
a percepção de quem quer
Ver algo dourado
e o resto do mundo e da vida
corria voraz
sem contemplar o hidroxihélio
espetáculo de ondas e matéria
que manchava suas vistas
de úmido amarelo

0146. Mantra quântico

Sólido como a solidão ilusória
Imprecisa probabilidade existencial
Marcado num infinito cheio-vazio
Num peso infinitamente desprezível
Num desconcertante macro e micro
Uma insignificância teoheliocêntrica
Do fantasmagórico eu-sol – eu-tudo
Substrato abstrato da concreta mente
Célula do moto-perpétuo universo
Expandindo numa consciência aberta
Do pensar além do concebível
Do sentir além do impossível
Do enfim não-pensar

0145. Um medo

da janela do meu conforto prisão
contemplo o ébrio
a lutar contra si mesmo
cavalos param ao seu lado
fechando o quadro sul-real

o ébrio rola no chão
com sua infinita dignidade
proferindo a verdade inaudível
o espírito da baiana
passa a sua frente
e ele conversa com os cavalos
que já indignados de sua prosa,
vão-se embora para a lua

o ébrio fica a escuta-se
a falar consigo mesmo
pois na realidade só nós nos escutamos
quando isso ainda é possível
quando conseguimos
extirpar a existência dos outros
e nos tornamos audíveis a nós

somente num estágio hipnótico
como o deste ébrio
conseguimos nos escutar
neste momento aquele ébrio
é um dos únicos seres inteligentes
de toda a Terra
embora eu já o veja
esquálido e morto-vivo
sentado num futuro
dentro de uma igreja evangélica
com sua bíblia às mãos
decorando toda a moral humana antiga

144. Para a garota mais linda que já vi até agora – um simples obrigado

é simples,
beleza cristalina
menina irradiação
de pureza inteligível
uma sinfonia imprecisa
a uma distância imprecisa
– música ao longe.

ela é complexa,
sensualidade índia
senhora
é ela algo indefinível
com precisão milimétrica

é ela a linha tênue
entre o sonho e a realidade
a elevação última
do desejo realizado
a eqüidistância entre
a pureza da beleza
e a condição da existência

o rosto angelical
na expressão madura
a máxima do sinônimo de poesia
pois é a própria poesia,
a poesia divina

o único momento em que a vi
transcendeu a todas as encarnações
e prostrou-a na eternidade
no éter que me envolve

e quando um resquício
daquele simples olhar
penetrou minha vida
senti o rubor dos amantes
o fogo das paixões
que antes de as serem,
já as eram

pois aqueles olhos
eram como faróis
orientando e iluminando
o meu futuro
até então atol perigoso

obrigado inominável
por tua presença e teu olhar
que calou meu espírito
próximo de ser o mais satisfeito
que já existiu

obrigado por aquele olhar

0143.

chuvas e cerrado verde
resplandecente
transcendente

por tal paisagem incrustada de asfalto
procuro meus ascendentes
que caminharam por tais pradarias
que amaram com o sublime amor dos antigos
dos verdadeiros poetas
que se foram sem ser esquecidos
por nunca terem sido lembrados

0142. Common Baby, light my world

enquanto tudo jazia vazio
a noite amanhecia
em pleno raiar do rush
o tempo pulava no futuro
pulsante, oscilante

pretenso disco voador
enevoa a vida do ginásio
que vejo pelo vidro olho
e vidro carro coletivo
ele vai decolar e atacar a cidade
com postes, luzes, carros e plantas

tudo isso, pois minha mente voa
em espiral,
em órbita hexagonal
num geóide universo
da visão antropofágica
do mito lisérgico e astral
planando solarmente
num anfetamínico presente da Moça
da Moça que resolveu fazer tudo isto

minha consciência e espírito
absorvem as luzes, formas e sensações
e o mundo queima

0141.

queria te encontrar
lá naquele mesmo lugar
onde as águas dos rios
repousam sobre o mar
onde o mar se mostra amor
onde quer que você for
eu vou estar

mas você me deixou sozinho
brincou com meu amor
você me deixou comigo
brincou e agora é dor

e ainda no infinito paralelo
na constelação mais distante
eu errante navegante
vou te buscar

0140.

Oh Violeta foi paixão violenta
Oh Violeta foi paixão azul
Oh Violeta foi amor careta
Amor com gosto de cupuaçu
Com gosto forte
Gosto lá do norte
Gostinho igual a esse só tem tu

Oh Violeta eu te quero agora
Oh Violeta eu te quero aqui
Oh Violeta agora e sempre
Beijo na boca, lábios açaí
Foi beijo doce
Beijo que sonho fosse
Beijinho outro, eu vou até aí

0139. Também sobre o fim

Prisioneiro do momento
Amarrado a acalentos
Por se achar Polifemo
Desvirtuoso, não o sendo
A platéia de sua peço
O alardeava; dizendo:
“Sedes Narciso – por dentro”
Exterior impróprio para tal

Fera
Lobo da estepe a se descobrir
E a bela?
Deve passear em bosques por aí
E a solidão aperta
Sol, id, hão de atacar
Atracar sob o mar
Após o maremoto da depressão iniciado

Mas, tic-tac, a solidão consome
Tic-tac, e queima
Tic-tac, e dói e fere e alucina
Tic-tac, e dói
Mais uma folhinha arrancada junto a uma hora
E arranca-se a esperança em nada
E tic-tac, prisioneiro
Fera, tic-tac

Discos rodam (tic-tac)
Segundos rodam (tic-tac)
CD’s rodam (tic-tac)
Imagens rolam
águas rolam pela face (tic-tac)
Tristes certezas afloram
e certas incertezas as adornam

Tudo roda na jaula-palco
e a solidão apavora
A fera ri,
o prisioneiro chora
e ora
Uma hora quer pão e circo
Outra hora quer circo e pão
Uma hora (tic-tac)
Ora, ora…
Não adianta chorar pelo leite derramado
ele sempre sobe quando você tira o olho

Por que a Bela carcereira domadora fugiu?
A solidão desponta! (…)
Tic-tac, tic-tac
Tic
…

0135.

eu tento ser eu mas não consigo
ainda não sei quem é que eu sou
eu penso ser eu mas não sou
ainda não me sinto
e se me senti algum dia, não senti
pois se fui eu realmente
realmente não entendi
e por não entender ou sentir,
sinto e penso que não existi

eu… quem pode me dizer quem sou?
quem pode dizer quem é?
e esta prepotência de afirmar que existe
que insiste em marcar meu ego
em que acreditar,
se não posso nem afirmar que sou?

0133.

a sombra vaga ao longe na praia
o rio descansa trilhando o seu mundo
eu sombra deixo-me acompanhar o banzeiro
vago sem rumo e trilho meu mundo
o vento leva tudo o que é leve
leve-me então a algum lugar meu
onde eu possa ser sombra
onde eu possa ser leve
onde eu rio deságüe no amor

sombra a deslizar sobre eu mesmo
sonho vago sem limites
leve
livre para pensar e ser o que quiser

0132. Malditas incertezas

Já sonhei tanto com utopias
que hoje ouço Belchior e o entendo
e de olhos abertos observo
que merda nenhuma vai dar certo
que o fim da estrada existe
e ele vai dar num grande nada
e que todos aqui
iremos viver na merda
morrer na merda
e não descobrir porra nada
pois nada há de se descobrir
e o que já se descobriu
não passa de pretensão humana
de racionalizar e espiritualizar algo
que existe sem tais viagens

que se findem todos os cientistas e engenheiros
que se acabe todos os sociólogos e antropólogos
que morram todos os filósofos e historiadores
que sumam do espaço todos os monges
que nunca tenham existido padres, bispos e pastores
e o universo continuará

mas ainda assim amo tudo e todos
se não for assim não adianta viver
se é que adianta…
mas tenho preguiça e medo de me matar
já pensou se tudo vale a pena?

0130. Sobre a difícil e poética incumbência de ser mãe

É árduo teu parto,
Instinto nato
É sublime nossa sorte
Tua mente,
Nosso norte
Sabedoria minérvica
Que nos guia
Experiência que ilumina
Maças vocálicas, por vezes,
Nos abatem,
Com razão o fazem
Por tuas noites mal dormidas
Desculpas não sabemos
Se podem ser pedidas
Força geradora do nosso viver
Cinqüenta por cento do nosso ser
Rosto fagueiro da primeira aurora
E quando em nossa boca
Cintilar um gosto de champanhe
Lembraremos-nos de uma palavra: mãe

0129. Mais um fim

só agora percebo: acabou
só agora me vem a melancolia dos antigos
só agora vejo que virei poeira ao vento
que findou-se a disposição de brincar
que fui só brincadeira

não espero mais a confirmação
dói que já se havia confirmado
inesperadamente (mas certamente)
veio o confirmar mais completo
findou-se
sem olho no olho
sem coragem
meio medíocre
meio impulso
meio esperado
meio nada de mais
meio toda a importância
meio, mas certeiro

com o que terminou,
perdeu-se o que controlava a razão
pois aqui em mim, ainda arde
o antes que se queimou
e por tanto, me controlava os ímpetos
e agora só resta a loucura
do mais antes ainda
que com o que havia começado
guardava a insensatês

mas, cessou
durou pouco mas foi sublime
o que faço agora?
peço desculpas, por não ter
conseguido fazer o amor por dois
até que ele atingisse e incrustasse
o outro lado
peço perdão,
por ter me entregado inteiro
e tentar demonstrar a paixão

é, mais um fim…
qual será este?
já perdi a conta

quando será o verdadeiro começo?

0128. O poema que não merece menção e importância

Qual a importância
da não importância,
diante da suma importância
que este tem para mim?

Qual a importância
da deposição de Ide Amim Dada
que se repete na TV?
Ou do método para ativar a memória?

Qual a importância,
se tudo gira, muda, roda
revive e reinventa
e foi criado por um Deus por um propósito desconhecido?
Ou então que nossa mente desconhece
Ou então que, na realidade,
nossa mente conhece e nós desconheçamos
o modo de conhecer-nos por completo
Daí tal viver sem conhecer-se

Qual a importância
de que minha namorada tenha rompido comigo,
por descobrir que não me ama
e por tal fato
ter-me colocado a questionar a minha própria importância?

Qual a importância
de que a música que se ouve,
me incite a revolução?
Afinal, se fosse correta já teria se consolidado

E qual a importância
dos meus questionamentos sobre a importância
se tudo importa da mesma forma
e não vai diminuir a importância
que dou a minha dor?
De que me adianta descobrir os segredos do universo
se a importância deles são questionáveis
e a própria existência não se sabe?

Que importa tudo?

0126. Nirvana

Ah, complexo é o oscilar pendulário da alma
Que catalisa tudo ao redor
E converte, perverte, converge
E transparece numa arena romana
Onde o menor separar do amor
Pode ser um leão indócil
Que te assusta e deprime
Por saber que és humano
E não sabe como lidar com uma fera
Que se encontra em seu espírito
O problema é pensar demais
Fazer esta reação físico-química que não pára
Pelo menos até agora…

0124. Visão de mais um quarto de gestação de elefante

uma lágrima seca preenche
ainda mais a minha mente
calmo e nervoso, impaciente
amo muito e mais
amo profundamente
mas por quem se escreve
não vejo o mesmo
e escrevo
e não sinto nada vindo a mim
sinto frio em meus pés
e o escritor molha a folha
pois a represa-mente cedeu
e numa imprecisa reação física
o seco molhou
consolam o escritor palavras vazias
e escrevo
e o escritor não se consola
tudo e nada vivem nele,
tatuados, escritos e inscritos
muitos giros da Terra ao redor do seu eixo imaginário
já se passaram
desde que a imprecisão se precisa,
cá em um espírito
e escrevo o que lembro
e o escritor se perde em um terço de gestação
pelo que se lembra
e lembra
03/11
início e fim para o escritor
a esperança de todo o amor desejado
iniciara a sua ronda
e a incerteza o marca numa
finalização triste para o escritor
e eu escrevo…

0122. Nuvelátil ela

Nuvens formam figuras a minha frente
Um corpo nu vem rente
Devagar norteio um devaneio
Dos dias passados e todos os subseqüentes
Deturpo pensamentos companheiros
Tentando quebrar correntes
Minto a mim sendo verdade
Consolidada na minha razão
Emocional, não entendo minha companheira
Eu preciso rir
Mas não posso, nem consigo
O ciúme me possui
E prostra-me nu deserto
Queria falar que a amo
Mas não posso, nem consigo
Eu sinto, mas não sai
E ao longe ela se esvai
Nuvem, corpo, corrente
Nossa equação aparenta-se insolúvel
Volátil
Aéreo estado com trevas
Eu, treva-trovão, tórrido, aflito
Por que será que a nuvem está sempre tão distante?
Finge querer chover e por vezes chove
Lágrimas loucas sobre as trevas
Uns minutos de sono, estômago forrado
Lenine e paciência
Um sorriso brota fraco em minha face

0120. Aéreo

A imagem flutua
Lá fora os lixeiros trabalham
Putas, policiais e marginais também
E mendigos congelam ou derretem
A distância é a barreira para o meu amor
Carros e forró voam
Penso no meu Deus, o de todos – universo
Penso nela e no meu bolso
Pagode e tecno numa ilha
Penso…
Amo tudo,
amor vagabundo

0119.

as ondas das nuvens cintilam
provocam progressos em meu coração
o arco que forma em minha íris
é só o arco-íris, que forma a canção
e a água que desce defronte é água é mágoa
que o mundo chora sobre o ribeirão
e ao longe Allen Ginsberg
conclama a elétrica revolução

a nova batida da velha bossa nova
confunde a fossa do meu eu noturno
o sol se esconde e desponta no oriente
inunda a vida num pântano soturno

0114. A dúvida chamada amor

O que se pensar de uma promessa não cumprida?
Ou então quando impera um sorriso estranho
Que não existe classificação?
O que dizer quando as palavras já não fazem sentido
E você tenta passar tudo através do toque?
Como agir quando a bendita não nos entende?
Por que o amor é sempre esse eterno paradoxo?
Uma linha tênue que une a paixão e o ódio
A incerteza e a imprecisão
E mesmo assim parece ainda ser tudo o que importa
Tudo o que merece menção e sentido
É a minha confusão de toda a aurora
E a chama que me acalenta a viver
É tão distante quanto a expansão do universo
E tão próximo que chega a ser o meu ser
É algo tão simples e eu não consigo entender

0113. Ode em acróstico

MorRE NA TÁvola celestial minha alma
Indo como uma RÉ NA TAverna dos céus
Nunca melhoRE NATAlina enfermidade calma
Hoje vejo o belo, nesta torRE NATA dos réus
Aonde ré é RE, NA TÁbua sonora da palma

Rogo que nunca possa pereceR
Este amor que personifica vocÊ
Nunca se finde como um can-caN
Ante um ato de pouca afrontA
Tão pouco tente mudar de habitaT
Amo você por demais, RENATA

0109. Volte logo

Em cada canto do quarto vazio
Encontro um caco do quadro partido
Cada caco corta minha carne
Entalha o encontro em saudade

Pela porta a penumbra aponta
Como o curto cabelo negro da saudade que ronda
Colocando-me em pratos, recolho-me em sonhos
Onde escondo-me naqueles olhos castanhos

Na derme doce do semblante moreno
Deito-me defronte e divago no rosto ameno
Rodo louco nas linhas turvas da memória
E beijo a saudade, sendo o mais lindo da história

0106. Uma noite

o ardor pungente e amoroso
de uma febre momentânea,
catalisado pelo embriaguez
nos conduzia

corpo a corpo num sincronismo voluptuoso (pecaminoso?)
de uma paixão soberana,
levados por Vênus com avidez
um pelo outro pedia

em meio ao breu
só o toque nos guiava
o eu querendo confundir o seu

o pretérito me orientava
sem lembrar que não era só eu
infelizmente, meu louco se mostrava

0105. O amor dista

Por quais trilhas deambulam tuas idéias neste instante de agonia?
Se outrora a distância convergia-se em alguns postes,
agora ela intensifica-se em imensidão asfáltica
Instiga meu cérebro por não saber se caminho em tuas trilhas
Se algum dia já desbravei metros significantes,
tanto quanto as diversas milhas que tu já andastes em minha mente
Fantasio uma imagem romancial
para suportar o gélido calor que tenta consolar-me
com suas imensas promessas de traição fácil
Mas fácil realmente é fechar os olhos e sonhar
Há diversas rotações este é o meu único alento
onde transmuto expectativas do acaso para salvar tua figura
que para todo o ciclo há de girar elipticamente ao meu redor
sendo uma fração da minha vida
Assim, boêmio errante, passo madrugadas à tua lembrança
Pensando neste sustentável e leve amor em que por dia,
sofro a pernoitar a volta

0104. Positividade

O vento acariciava-nos com seus braços infinitos
Ela cariciava meu semblante com ternura
O sol irradiava calor e luminosidade
Ela irradiava beleza e paixão
A simplicidade do mundo normal mostrava-se bela
Eu a querer ser beija-flor
Ela a aspirar a ser nuvem
Como dizer para ela que eu já era um beija-flor,
toda vez que eu a beijo
ela se faz flor, se faz nuvem e sonho
Mas um berrante foi tocado ao lado
e murmúrios e risos abafados se escutaram
Maldito seja Machado de Assis
por me incendiar questões
Maldito seja Dom Casmurro
por acender exemplos
E para esquecer isto
faço-me novamente beija-flor
e lha beijo em meus sonhos
onde ela é uma nuvem rosa
carregada de positividade