0642.

uma idéia não é minha
ela surge de mim
este corpo não é meu
este corpo que dizem ser meu
me é, os átomos só são,
meu mesmo nem o nada
o corpo surge, a idéia surge
o surgir é
meu mesmo, nem o nada
estas idéias que se agrupam,
estes códigos todos
meus não são, eles apenas são
desses axiomas concluo que
o verbo ter não existe,
não ser igual a ter,
não ter igual a ser,
não tenho, existo.
ter, é só o nada.

0635.

“as árvores são fáceis de achar…”
e eu, algum dia me acho?
através do espelho só as
várias histórias amontoadas espacialmente
minha mente pulula o já ocorrido
– meu eu em flashes existenciais
pelo espaço, a flutuar.

eu intangivelmente árvore
num paradoxo do espelho:
não me acho, não me tenho
e na tênue da antítese:
descobrir-se espelho

0632.

A vida é ato,
metáfora pertinente aquela:
“novela mexicana”
cada qual com seu excesso de drama:
“oh como fui infeliz!”
cada qual com sua passiva mediocridade:
“eu não estou presa a você!”

A vida é representação,
é cena mesmo,
pois assim se vale a pena viver,
enaltecendo a dor,
exaltando o prazer…

A vida é teatro mesmo:
“não faz isso comigo, por favor!!”
A vida é um filme americano:
“ficou com ela antes ou depois?!”
A vida é comédia sessão da tarde:
“meu amor, ele é a coisa mais linda!”

Posfácio:
Quem dirige, atua e escreve é
que se dá bem…

0631. Das vivências pós-modernas

As palavras de amor ditas
como num nirvana amoroso:
a imersão no vazio revelador
em meio à turba da dor
para por fim inteligir os sentidos.

Um eco ultra-feminista, já
quase um machismo, transforma
as crianças em ninfas
prematuramente, as palavras
já não cabem mais em si e não
contemplam o invisível da
pós-modernidade
já não há o que ser dito!

Os emetivianos vomitam o contido
de décadas de libertação,
como num vídeo-clipe programam
as revoluções num replay eterno
– “eterno retorno”, sempre.

Minhas palavras de amor
querem ser ditas, mas a turba
da primeira nobre verdade
cala-se por segundos.
Segundos, uma vez que é esta
a velocidade do pós-modernismo:
em um é lésbica, noutro é
travesti, logo mais é necrófila,
acolá evangélica e se possível
for ainda dança um forró para
conquistar seu macho.

A turba da austeridade já não
cabe em si. Nada mais cabe em si.
Em si só o éter, só.
E no respeito, o transgênero de
três seis pousa sua virilidade
num site porno-literário.

Nossa culpa cristã morre.
Nossa morte morre e o respaldo
da eternidade cochila somente
no retorno dos segundos, num
alvorecer de oeste do planisfério.

Ah, minhas palavras de amor…
Parecem frases da Bíblia em
meio a um Kuarup.

Os ventos de maio já se sentem,
a boca já resseca, nenhuma
estrela ao céu… como sempre.
A imensidão concrética da cidade,
as paralelas asfálticas das vias
(se encontram todas nos não-lugares),
tudo isso me leva a crer:
daqui pra frente tudo será como antes:
nada igual
(só o oco do eterno retorno).

0623.

Começo assim, distando algures
Contemplo a solidariedade de grávidas
como o prelúdio da eternidade
– do leve retorno –
As jaulas já não enclausuram,
são só teias luminosas delimitando o
mundo: “Aqui você não cabe, ali
te é inadequado, lá sobressai-se
o nada…”
O som luminoso das pisadas dão
ainda mais claustro (dão sim,
mas de um hermetismo livre)

0619.

No afago de tuas mãos tão miúdas
Encontro amiúde uma paz tão contida
E que explode na serenidade quando
de tuas mãos desenham-se palavras
que me afagam ainda mais e que me dão a certeza de dividir meus sentidos
(sentimentos) contigo e de agrupar
meus sentidos (sentimentos) em teu ser
(amor)

0620.

De fato nunca a amei
Amei a mim, amei meu sexo
Amei o prazer que possuía
Amei meus acertos,
Amei minha vida,
Amei meus livros e meus discos
Amei minha família e amigos
Amei até meus desafetos
Mas você, usei como um
catalisador para o meu encontro
e agora já eu, digo:
eu nunca te amei
(e o que é pior, muito menos te odeio,
você me é como um automóvel
a mais em meio às pistas)

0615. AM/DM

Mayra foi como um furacão
que passou por minha vida
aliás, eu poderia até resumi-la
– minha vida – em Antes de Mayra
e Depois de Mayra
Tomou conta de mim

Aí então veio fim
ela foi-se qual minha vida
– eu não vim
saí a procura-la em todos os cantos

Somente agora percebo que após o fim,
procurava não Mayra, procurava a mim

0613. Embaixo da plataforma da rodoviária fui parede um dia

Cada vez que eu andava embaixo da plataforma da rodoviária
Via a parede ao lado e pensava ser a parede
A cada passo dado me via mais parede,
A cada ladrilho que passava, mais um passo e mais parede eu me tornava
Pensava que assim ninguém me veria
Que a cada passo mais parede seria
Enfim ser não mais me apetece
A parede sim me apeteceria
Lá embaixo da plataforma da rodoviária, onde os carros são só sons e as imagens são só carros e paredes
(A escuridão é que a luz lá embaixo da plataforma da rodoviária)
(E o silêncio é só o estado de parede ao lado)

0614.

Quem é esse sujeito que lê Saramago em pé em um ônibus coletivo lotado?
Quem é esse tipo que ainda se emociona ao beijo laranja do sol com o horizonte?
Quem é esse indivíduo que anda a conversar com as sibipirunas, com as patas-de-vaca e os paus-ferro e ainda conta seus segredos às mutambas do entre pistas?
Quem é esse homem que ao deitar em sua morada escuta Racionais, intercalado por The Smiths e Antônio Nóbrega?
Quem é esse aí que ainda tem tempo para os prazeres das letras e as põe em seqüência aleatória crendo ainda assim as terem sentido?
Quem é esse moço que tem tanto amor pelo mundo e se esconde em seu mundinho próprio?
Quem é esse alguém que se mete a pensar em mundos possíveis e a teorizar sobre a condição do ser?
Quem é esse a quem chamam de farsa, engodo, mentira e enganação?
Quem é esse louco que sabe que não passa disso mesmo?
Quem é esse Don Juan capenga que sempre amou a todos e hoje vive com só um ser dessas tantas possibilidades no mundo?
Quem é esse revoltado que se acomoda tão fácil?
Quem é esse nefelibata que cita Cartola e Kundera com o mesmo peso e medida?
Quem é essa metamorfose que não se fixa em nenhum ethos e que se pretende existência tão somente?
Quem é essa coisa que se anula?
Quem é esse ser que não se entende e ainda assim sabe mais de si que muita gente?
Quem é esse meliante que usurpa a possibilidade de aparecer ao mundo?
Quem sou?

0611. Do que continuo de suas poesias

Poesia nenhuma está completa
Poesia mesmo é só um devir,
Poesia que está completa não é poesia
É teoria, é o avesso de qualquer metáfora,
É a ditadura da palavra, a prisão da idéia

Poesia se faz no contato com o outro
Mesmo que este outro seja você
(a cada segundo você é outro)
Daí, ninguém nunca ler a mesma coisa
(o sentido e a sensação já são outros)

Poesia é um momento de liberdade
É a constatação do incontido
É o labirinto percorrido e metaforizado
É a angústia delineada, é o dilema
(é tudo o que eu não digo, sem título)

0610. Arqueologia da poesia

No vasto campo das palavras
Busco os indícios do alfa
Do ponto de mutação
Aquela palavra mãe de todas
O som essência pura
O signo próprio significado

Pincelo com caneta bic
E coaduno as informações
Até formar a coerência
E no vão do passado
Até a materialidade do signo
Descubro que a palavra original
Simplesmente não existiu

A metáfora é que é

Palavras: todas metáforas para a existência

0606.

o relâmpago vem dos dois
hemisférios de seu ser a fim de ser
de seu encontro resulta seu é

um momento apenas, um lapso – mas é
somam-se cargas e ser: relâmpago

somos estes dois hemisférios: preludiando um som
nosso filho gestado desde já: futuro

e que fique anunciado: ser sim
eterno
momento também (não só)

0604.

Tentamos escrever tudo
Tudo escrevemos em nós
Nós dois, livros em aberto
Abertura em nós para nós
– em tudo –
A vida nos escreve muito mais
Mais de nós em nós mesmos
Mesmo sutil, escrito está
Sendo em nós tatuados
– tudo –
(Disso que vivemos, que sentimos,
que nos compartilha, amor simplesmente.)

0603.

Nunca se escreve o que se sente
Sempre o escrito é só uma ponte
Um caminho. O expressado é
Só uma via entre o real e a
Nova realidade – a expressão
O que se expressa nunca é
O que se sente, é somente
Uma semente desejosa de ver
Nascer em quem se endereça
A expressão

0594. Começar de novo

neste espaço que observo
pretendo ocupar aqui uma poesia
mas sempre começo e paro
recomeço e paro e não
me foge a sombra dessa
idéia (quase platônica) de
que deva eu começar o
preenchimento de forma poética

os versos da canção me assombram
os neurônios. coloquei-a na vitrola
pensando assim lha exorcizar
mas qual o quê! nem nada fez-se
às minhas idéias. e o começar
de novo sempre voltando, recomeçando,
quase um eterno retorno

minha burguesidade me lança
imagens de um começar de novo
amóreo – como a música –,
só eu, matutinamente satisfeito
mas na vida o começar de novo
faz-se de formas outras que
não o de uma utopia amorosa
“cinco jujubas, um real!”
“ó o vale tique, ó o vale!”
e todos esses recomeçam,
por vezes já começam no recomeço
(“Bala de coco só paga um real!”)

Ah recomeçar de fato…
Quem sabe numa outra vida.

0595. Preconceito (Desconstruções IX)

“Existe um preconceito muito forte, separando você de mim…”

Meus olhos não me dizem muita coisa. Meus ouvidos selecionam informações. Meu nariz é socialmente construído – diz fedor, aroma, mau cheiro. Meu corpo se retrai em medo. Minha boca argumenta todo o erigido. Minha mente sussurra Eros e Tânatos. Minhas mãos tocam a utopia – lha dissolvendo. Minha alma amortece a queda em senso. Meu ego mira e se mói. Meu juízo desconhece o infinito.

Desse balaio de gato pós-moderno, digo: viva a diferença! E me aprisiono em mim – meu (o) único mundo –, sabendo já, desde sempre e do início, antes mesmo de ser antes, de tudo e todos.

Desconstruir-me.

Primeiro passo para a comunhão.