1000. Apologia ao suicídio II

“Sempre só e a vida vai seguindo assim…”

Caminho pelas ruas planas e retas de Ceilândia
sem rumo, caminho por caminhar,
pleno de conflitos e planos
quase metódico, senão paradoxal.

Quando dá essa vontade de morrer, caminho
à esmo, qualquer rua, qualquer lugar
vendo conflitos e verdades
quase profético, senão poético.

E os carros à milímetros do meu fim
quando percorro o córtex asfáltico
da cidade.

E são tantas verdades em cada carro
e os pingos da chuva precipitando-se
em meu rosto e um blues em
meu peito e o mar querendo
precipitar sobre meus lábios.

Caminho querendo que tal movimento
seja o princípio do fim do vazio
na barriga, que se gesta há
mais de nove anos.
Uma gravidez eterna.
Eternamente grávido do nada.

No pigarro, as histórias efêmeras
de uma noite ingloriosa.

Manter-se íntegro.
Desintegrar-se.
E o engodo da sorte de
um raio na cabeça
nunca ocorre.

Manter-se íntegro.

Integralmente entregue
à letargia plena de
fazer um passo após
outro passo.

Íntegro.

Caminho pelas ruas de Ceilândia
num domingo quase chuvoso
e sinto que o mar precipita-se
em meus lábios e o sorvo
incólume entre carros,
verdades, planos e o
conflito de querer continuar
íntegro.

0999. Flerte

aí mora o meu desejo
quero os lábios das palavras
que puderem me alcançar
e me envolver numa metáfora
qualquer jogada ao léu

de versos dedicados a outrem
vou tirar traduções para mim
e responde-los loucamente
sem sentido e duplo-sentido

vou piscar meu olho com
uma comparação e sorrir
um riso de canto da boca
mordendo os meus lábios de vagar
quando escrever meus anseios
para qualquer um

me jogo ao flerte sem limite algum
e almejo o que me couber
nesse exato momento
descumpro promessas tolas
e sigo desvairado buscando nelas
algo mais que um flerte

o que eu quero mora em cada
segundo que vivo
e vivo…

0997. 1:57

De dentro da sombra dessas horas mortas escrevo
sem sentido e sem razão (ou todo sentido e toda a razão)
só querendo que essas onze cervejas
e esse baseado façam algum sentido
além de me levarem a olhar a lua laranja e crescente
flutuando entre essas nuvens todas
e me trazendo inexplicavelmente você
– que nunca me falou da lua
ou do laranja ou mesmo das nuvens –
além de me trazerem essas não-metáforas
que são mais pretextos do que poesia
que são mais proximidade pacífica
do que qualquer figura de linguagem
que são mais a minha perturbação
do que o encontro de teu ser com minhas palavras
mas continuo mais um verso pelo menos
e nesse te digo:
você é linda
(e me dói não conseguir dizer isso de forma clara).

0996. Raquel

O que será que te passa agora?
Meus devaneios, seus devaneios
serão eles os mesmos?
Qual o fluxo que percorre
entre sua cabeça e sua
mão a produzir algo invisível
aos meus olhos?
Pra que essa borracha ao lado?
Para apagar ou consertar
um sentimento tido no papel?
Essa sua concentração imóvel,
o descanso da cabeça sobre
o braço…
Uma palavra após outra e
os lábios mordidos.
Uma idéia, um verso ou quem
sabe, um segredo.

Meu devaneio agora.
Será seu devaneio?

0986. Fruta

Creio que minha crença é só.
Meu amor foi a única fruta
a amadurecer no pé.
Todos os outros estão
verdes ou de vez,
na esperança de encontrar
a recíproca.

Meu amor é essa fruta
madura que nasce em
qualquer pé.
Me sacia e dou a
quem quiser,
quem com fome esteja.
Meu amor não quer
definição, quer ser
compartilhado com
quem possa.

0982. Nella I

Não sei se foge
ou se já decidiu
Foi tudo tão bom
que eu não podia
sequer ter essa
dúvida
Ir-se ou ficar,
quem sou eu
para estabelecer
a mesura?
Eu mesmo
fico e vou,
ainda querendo
outra vez
seu momento
Ainda querendo
ser apenas
um fragmento
Então termino assim:
fico no vento
(com aquela mensagem não respondida)

0981.

saber sua face
viva novamente
saber o aroma
de sua proximidade
outra vez
saber sua visão
saber seu gosto
ainda
saber sua voz
à distância
do meu hálito
saber seus
pés miúdos
saber suas lágrimas
e saber seu
peso
coisas que aprendi,
não esqueci e
insisto conhecer
de novo.

0956.

Incólume a tudo
em vias, calçadas,
no meio do eixo
e até embaixo de
um carro.

Evasivo a tudo
buscando me encontrar
nas luzes de uma loja,
nos gostos das bocas
degustando suas marmitas
e até no que esconde
as roupas que visto

Triste num dia nada
além de mim
tateando-se e se tecendo
preso a paisagens se,
encanto e a enganos
tantos

Vívido no redemoinho
cheio de sacos de supermercado
e morto no espectro
do vôo plástico

Nenhuma sombra nesse dia
só a de um prédio condenado
e a do meu cérebro
ofuscando minha alma