O azul é-me eu
fi-lo me assim
pois jocoso não
caibo em mim.
0542. Desconstruções I
Eu não te amo, só existo
Sou eu somente e tudo
Quanto mais há vida, fim
Esta força forja a forca
Forja a vida faz o fim
Tiro a base, o cimento
Me assemelho ao amor
Em tudo existo somente
ao fim.
0541.
Matar seus pais é melhor do
que o dos outros, Ivana?
0540.
Olha seu Paulo Honório,
responsabilidade é coisa que
vem do berço
DO BERÇO! E não se fala mais nisso
0539.
poR issO eU digO
a vidA neM um cU de
administradoR é.
0538.
niilista até o talo
por isso digo:
a vida nem um cu é.
0537.
Queria um instante
em que encontrasse aqui
uma humanidade possível
que travestisse esse meu
verso de normalidade
que eu percebesse aquela
incoerência humana
que desistisse desse verso
e numa sacação viesse
a encontrar também a
realidade e daí então
não mais sofreria.
0536.
Tenho vergonha de minhas mãos
Elas são macias e limpinhas
Não se trata de um simples fato estético
Mas sim e antes de tudo
quase que ético
pois se não, com barro e lama
se resolvia, diz má língua
A questão é outra
sobrevivo bem apesar de não
possui um calo sequer às mãos
0535.
Vi um homem do meio do nada
Surgir como salvador
Redentor de uma nação em frangalhos
Fará?
0534. Muso
será que sou matéria-prima
para a poesia de alguém?
será que cantam meu nome
ou o levam para o terreiro?
será que posto numa mesa
de apostas já fui colocado?
será que sonhado entre
fronhas e vergonha já surgi?
será que objeto de desejo
já obscureci dias de alguém?
será que já fui noite mal dormida?
será que já fui dúvida?
será que já fui memória
longínqua de alguém num banheiro?
será que já fui desejo?
será que alguém cata
a poesia que entorno no chão?
será que rondam minha casa
e procuram meu telefone na lista?
será que dia após dia alguém
acorda e pensa: é hoje! com minha
despretensiosa figura em mente?
será que desconcentro e desconcerto
alguma pessoa quando próximo?
será que ódio e inveja fazem-se
em algum coração por minha culpa?
Será que sou saudade?
Será que fui presença?
Será que sou utopia?
Será que fui esperança?
Será que escondido alguém me espera passar?
0533. Pecados
não sou cristão, não me ative a isto, mas ainda assim sei que o feito é de tal feita quisto que o que quer que for isto já foi e volta não há, só início com um possível perdão
0532.
Não mais se olha a face
Depois de palavra dita
A palavra cala o olhar
A frase cega por completo
A oração paralisa um lado do corpo
O discurso mata
Mas se descoberta
A gênese da palavra:
A palavra maravilha o mundo
A frase reluz tudo
A oração voa o sonho
O discurso liberta
E no fim só uma palavra
0531.
Sempre falo que a culpa é minha
Mas pro caralho com isso
“Todos nascemos em meio a fezes e urina”
E a culpa não minha somente é
Tenho as mãos sujas de sangue
Mas a premeditação é de outrem
Não me coloque a unidade do crime
Assumamos a merda e nos limpemos assim
0530. Por uma teoria da astrologia genética ou da genética astrológica
A maioria das pessoas que conheci e não gostei
logo de cara e só admirei um pouco depois ou
tinham algo que ver com o Pará ou eram
sagitarianas. Serão os astros ou os genes?
0529. E me lembrei também de ti
E também ficado para trás havia
que você inicia partes de si
em meu Pará. Um tanto mais portuguesa
um tanto mais alva, um tanto cupuaçu
Mas um mesmo quadril de carimbó,
uma mesma volúpia do compasso do siriá,
um mesmo tom de verde e vida.
0528. Tua origem vem-me a mente
Já havia me esquecido de tuas
raízes paraenses. Daí tua face
índia e teu quadril de carimbó
Teus lábios açaí e teus cabelos
de luar. Daí tua derme desejo
e teu olhar de onça. Daí umas
tantas coisas que me vêm agora.
0527.
Vermelha, te vejo. – Vermelho
Como o sangue de minhas veias
– que à cara sobe
Vermelha, te sinto vermelha
Companheira. Mostra-me eus
tais, que não se vêem tem data.
Vermelha como o sangue que
escorre após teus dias de ira
Vermelha como teu sonho, sono
e luta. Vermelha como é morena
0526. Paradoxal 4
Minha classe quer a queda das classes. Meu ego quer a queda dos egos.
0525. Paradoxal 3
Uma inércia dialética é que
conduz meus pés ao molde –
quadro em onda descontínua
0524. Paradoxal 2
Escrever me dá a sensação da inatividade
Apregoar-me dá-me a necessidade do verbo
Verbo que vai e me crucifixa
Cruz que vem e me leva
0523. Paradoxal 1
Fazer, este verbo tão utópico…
0522.
com licença poesia
desculpe se te perturbo o sono
mas preciso de uma ajuda
e acho que só você há de me dar
nem teorias, nem teses,
nem transes, nem tensões
nem tesões, nem tecos
nem nada a não ser você
pois me perdi, não me acho
e quem sabe no relance
de uma metáfora
defina-me novamente
pagamento não espere
pois sou pobre qual asceta
juramento não farei
não sou analista para
crer tão mágicas as palavras
amor eu não te darei
estou seco como caatinga
a única coisa que posso oferecer
em retribuição serei eu
encontrado quem sabe
ou talvez na pior das hipóteses
(ou na melhor, quem sabe então senão tu?)
disperso em indefinições
mas vá, ajuda-me novamente!
0521.
na academia penso em como mudar o mundo
cito beltrano em profundidade, cicrano em conhecimento
e do alto de minha carteira organizo um seminário
sobre a sustentabilidade de Nietzsche de acordo
com a visão freiriana de ecologia subatômica
profícuo, pragmático, prolixo por fim
o seminário é um sucesso: estou com um pé no mestrado
só tenho que lamber alguns sacos e o outro já há de lá estar
e, já mestrando, posso mostrar ao mundo a minha proficiência
na atualíssima área de estudos de impactos antrópicos
sobre a subumanidade do sertão nordestino
ah! a ciência é mesmo uma maravilha, com o subsídio
da filosofia então… que soberbo! mas por que será
mesmo que o mundo está na mesma até agora?
ah, depois eu penso nisso, já estou com um pé no doutorado
e tenho que tomar cuidado, pois minha boca está ferida
0520. Tânatos
cumpre-nos sermos nós não
cumpre-nos, hereditário, a mão
na face do outro sem razão
cumpre-nos a guerra em declaração
no sangue outro, ódio d’outra nação
compre-nos sermos farsa desde então
sermos outro, que nós mesmos, não
– querendo acender a tocha posta em nossa mão
0519.
valho-me de um acaso
para suportar o agora
e no futuro acertar contas,
pois sou como todo
homem: um boçal
medroso. ainda bem
que tenho esse medo,
pois senão já além
eu era e não mais homem
seria. seria
somente uma imagem
nalgum coração
desapercebido e distante
a pulsar de quando em vez
sem realidade
0518.
ontem ainda vi-te nua
sem as roupas
portando vestes de adão
só sua vergonha explícita
só seu sorriso por cobrir-te
agora me vem com esta
de amor. ama-se o
imponderável e não
o tangível da sua
carne em minhas mãos
0517.
hei! alguém poderia salvar nossas vidas fazendo um favor?
falta-nos leite e mel para nossas dermes e gozos
excede-se poeira e mofo e tais cousas dão-nos alergias
alguém se habilita a retirar o pó e consertar o vazamento?
pela Graça de Jesus, apareça alguém! alguém que de
tempos em tempos desligue ou aumente o ar condicionado…
que malfazejo, só um favor desse tamaniquinho
não custa nada! prometemos a esse fulaninho tão prendado
que apareça, que se nos servir a salvação dar-te-emos outra Salvação
e assim todos salvos seremos assaz felizes na perfeição
você! serve você mesmo, é você: decrépito e maltrapilho
qual custo de sua desgraça será se também não viéreis até aqui já!
queimar nas labaredas de enxofre e nos vapores em brasa é
o teu destino se recusares esta oferta tão bem comedida!
mas vá… pensa bem salva-nos de nós mesmos
queremos grades altas e de ferro bem duro e espesso
queremos muros três vezes mais altos que as grades
e que sejam de concreto e ornados de ouro e brilhantes
afinal, é o fim, mas ainda assim admiramos o belo!
e com letras douradas e miúdas
(quem sabe com seu sangue) lá no canto da parede
poremos seu nome como congratulação por tal feito tão heróico
mas peça mais nada além disso, estamos à beira do fim
e o fim é próximo, não nos obrigues a dar-te umas pauladas
mas oh! não olhe assim… por favor, tememos a indiferença
faça tudo mas não finja que não estamos cá em tua frente
nós até de joelhos ficamos, de quatro até se precisar
mas não vá embora! a casa também é sua
a hipoteca está em nosso nome, o contrato de sua alma também
mas de que adiantará nosso fim se ficarás só nesta vasta terra?
tem pena destes que vos falam. tendes misericórdia
ora pro nobis, gratia plena. fique aqui não vá embora…
tome ao menos um café. salva-nos, salva-nos…
salva-nos!!!
0516.
uma colcha de retalhos costurados com ponto frouxo
e uma Formiga acima dela vagando entre nós
sem lógica (mas com lógica) não quista
a Formiga percorre o alhures da colcha
a colcha forma nenhures confortável
a colcha possui fios duros
e prendem as patinhas da Formiga
onde será que debandou o cordão?
e o mar de retalhos dobra-se ao armário
a Formiga agora jaz nas entranhas de uma aranha
0515.
uma vez que eu li demais
antes da hora,
dou-me ao luxo
de falar coisas que
ninguém compreende
e me rir por dentro
0514.
se em cada face jaz
mil histórias, o infinito
ocupa não só o espaço mas
os alhures do aqui e do agora
0513. Bukowskiana
Lírica explícita
gélida e gélida
uma idéia morta
no banheiro
coberta de pêlos púbicos
pecados e mais pecados
Usar a janela, a gilete,
a faca ou a fagulha?
(usar agora, só o saca-rolhas
e o abridor de garrafas)
0512. De essências
Os cheiros, aromas, odores
trazem muito mais do que
a visão, do que a audição
às vezes até do que o toque
O aroma traz o velado
os olhos não vêem, a pele
não sente, o gosto não
surge, o ar não se move
Só o intangível,
traz-se à tona um relance
não a luz,
só a penumbra, o contorno
0511.
Daquelas metáforas todas
a carapuça tão firme
Palavras de outrem a outrem
em mim tão eu
Reflexos ou espelhos cônscios?
Eu numa outra idéia
refletido em minha própria imagem
metáfora de mim mesmo
Daquelas músicas… há tão
eu em cada fragmento
Que não sei eu somente
Senão eu fragmento de todos
Ou eu todos, metafórico
¬– Comunhão eucarística
0510.
Se não posso gritar,
escrevo
Se não posso calar,
escrevo
Se jazz não há,
escrevo
Se segredo não há,
escrevo
0509. Poesia em tópicos
• Novamente a solidão presente
• Um relacionamento em cacos
• Mentiras que morrem verdades
• Um passado não perene
• Uma morte melódica
• Conclusão: morri após o fim que não se iniciou (mentira)
0508.
Essas folhas n’árvore seca…
São as réstias ou são as esperanças?
0507.
Turvilíneo de palavras
uma seta nas mãos
o dinamismo, a proteção
e um arco-íris nas mãos
um amorfismo no peito
eras de estar n’água
à míngua, a loucura e a mágoa
nada a dizer
somente ir sem rumo
e a poesia nos olhos
Turvilíneo de imagens
0506. Incoerência
O firmamento é etéreo.
0505.
Onde você?
O quê eu?
Mas fim?
0504. Nováreo I
Um sample não é cópia
é tradução, é reverso criativo
de toda a tradição da criação
é criar do criado
é colorir o já pintado
referendar sai posição
glorificação ou malho
Salve a nova poética
da influência-inovação
esse mix transdisciplinar
multi-artístico
(e aqui no final, quem sabe,
um sample de uma imagem).
0503. Nováreo II
Groove. Gozo velado. Som sexiado, swingado. Funk. Fucking funk for all the people. Feeling. Punch. Sexo. Lascívia lenda Sonora. Baco em bits. Dionísio ritimado.
0502.
O entrecortado, semi-aberto o segredado. Aquele encoberto, entreaberto, ilusionado. É aquele séqüito silenciado, quisto, visado. É o ponto projetado, principiado, noutro aguardado. Segredo. Sorriso canteiro. Falseado. Selado.
0501. O limite do infinito
é a quantidade de música que você
ingeriu
é o quê de poesia fartado
é o quê de luz furtado
é a intensidade de dor que te
consumiu
0500.
Fala-se em brado,
detentor de vias de fato,
sobre a quase morbidez
marmórea dos habitantes
de Brasília
Cada um como uma
micro-ilha
cercada de distância
por todos os lados
São doudos e não doutos
os que assim falam,
esquecem-se do calor
inerente à condição humana
0499.
0499. Nem que seja uma hora apenas: um alívio, um lapso, um segundo que seja. Dá-me esse tempo, essa luz, pois conforme denso fica o emaranhar-se (onde estou eu?) menos sei o que fazer (e não há para onde correr)
One way
0498. Discordo
Amor não é completa entrega
Amor não é abdicação, abnegação
Amor não é aprisionamento
Amor não é finitude
Amor não é uma vida
Amor é sapiência
Amor é consenso
Amor é expansão
Amor é meio
Amor é vida
O amor liberta
(o verdadeiro…)
0497. Cárcere
Cooptado a um plano de outrem
Foi-se envolvendo na trama
Perdendo-se num labirinto
Perdeu seu senso numa dama
Envolto em lascívia plena
Proferindo em plenitude que ama
Aprisionando-se num jogo dúbio
O mar azul virou lama
Sem saída e sem Minotauro
Súbita morte de utopias
Soluçou derradeira lágrima:
“Sem alma, o que tu farias?”
Pegou uma espada às mãos:
“Findo-me e cravo-me de apatias!”
0496.
As flâmulas não balouçam
Não há vento. Não há luz
nenhuma que traga o anseio
ou pelo menos o receio
0495. Em prol dum encontra-se
Nalgum lugar me esqueci
Nalgum ponto indefinido
Um meridiano longínquo
Um paralelo perdido
De certo num acaso
De fato numa entrega
De longe, num nada
Onde jaz minha luz?
minhas faces? eus?
Só no infinito há um quê
de possibilidade
Marcas de tudo o que
se perdeu (e até o motivo da perda)
Sem lamento, só a constatação
Pérfido, mal me olho ao espelho
Como bom sagitariano, corro
– um dia, quem sabe,
me veja nalgum lugar (eu novamente)
0494. A ti, sobre nós
A fuga do avesso da tua paz
é o encontro com o amor
é o enlaço à tua liberdade
amar só se for assim como
conduzimos e nos compomos:
alhures de além vida,
de vida geléia de morango
já madura e processada
já vida antes de tudo:
o próprio amor