todo prazer é válido
o válido é sentir
sem observar o desprazer
sem prever
se a ressaca surge
ao início de um outro dia
sinta-a
e valide-a
o valor surge
da sua experiência de sentir o prazer
e se a ressaca vier
que venha com o vinho
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
todo prazer é válido
o válido é sentir
sem observar o desprazer
sem prever
se a ressaca surge
ao início de um outro dia
sinta-a
e valide-a
o valor surge
da sua experiência de sentir o prazer
e se a ressaca vier
que venha com o vinho
desisto de tudo
e recluso-me na
bruma do acaso
renego minha mente
desistindo de lutar
choro cacos de vidro
choro melodias
dissolvidas e desisto
desisto
não por vontade minha
mas por desejo dela
não tento, me entrego
surge a rendição
a batalha faz-se guerra
e termino sem começar
eu desisto, ela ri
ri alto e profundo
um riso seco e falso
um riso
e tal riso ressoa,
quando eu digo:
“eu desisto”
o riso, a ressonância, a desistência
ecoam na bruma do acaso
renegam a minha mente
e ela a provocar terremotos
com seu riso
tal qual cacos de vidro
que entalham os pulsos, a alma, a carne
sem esperança, sem lutar
os risos-cacos abrem chagas terríveis
sobre superfícies que
fatalmente já desistiram
e eu desisto
abro mão dela
e jogo-me sobre minhas
lágrimas e seus risos
me corto
sangro lágrimas de melodias vermelhas
ecoam melodias desistidas
um suspiro
nenhuma súplica
eu a olho
ela ri
seu riso corta
meus ouvidos
como uma melodia
afiada
outro suspiro…
desisto
um dia
quando não
muito
conhecia
ou sequer
sentia
mirava as
luzes da
cidade ao
horizonte
e as
maldizia
em meio a turba de iguais
a consciência permeia
a aurora de minha vida
agarro o destino,
indecido-me
apego-me e perco a bruma
se olhas para o horizonte e enxergas a solidão
vês o mundo com olhos tristes pela sufocada emoção
e encara-te como o único ser que ainda sabe contemplar
contempla tua solidez triste então
dissipa-a mirando ao redor do teu ar
e o mundo? o mundo é sempre um paradoxo sem fim
a letra leva à lenta lenda
longe, leva à ledos horizontes
se esconde, espreme-se entre linhas
loucas por lograr-se palavras
e brinco de deprimir-me
e deprimo-me por conseguinte
no infindável azul
a imagem turva e cerradina
mancha de rosácea beleza
a abóbada libertária
rodeada de gases libertinos
um lapso de paz cruza a bruma da razão
silencia o logos incansável
ardil aurora, dilúculo na escuridão
buscando a si, ser maleável
encontrando-se serenamente
não pela alcunha de se compreender
apenas tateando sentir-se ente
bastando ser ser, para realmente ser
e a paz me arde o espírito
apenas signo deste ser vão
que tenta valer a pena, apenas aflito
paciente, contorço e recrio toda a percepção
sugo a lógico do martírio
prostrando-me alma diante do ser como questão
dezessete são as translações
e o mundo teima em já pesar
sobre minhas costas
quantos fins se contabilizam?
Quantas brincadeiras sem fundo de verdade?
Quantos amores feitos poeira
e jogados como brincadeira?
são dezessete translações
minha existência brinca de crer no amor
e amores dissolvem-se qual brincadeira
e brinco de amar
dezessete translações se fazem
e quem sem sua sanidade
e sua proximidade anormal
realmente sentiu e viveu um amor?
a morte já não me basta
bem como a vida
que nunca me preencheu
um tiro no âmago da questão
um tiro que não preenche
que já não basta
brinco de querer ser ou não
diante de tal mistério
a problemática de seguir
sendo ou não,
problematizo minha eterno
e penso:
ser ou não ser?
ainda questão
e se ser, como sem amor?
e se não ser, como?
com a falta de tal existência,
de forma tal que não
precede minha essência
um tiro apenas
no âmago da questão
na essência única, na razão
um tiro apenas
cabeça ou coração?
um tiro apenas
e solidifico a questão
descomplico o problema
ou não
e sigo assim:
relativisando a solução
o sol doura nossa melancolia
à aurora deste dia
Sartre não tarde a ter razão,
como sempre
ah, a angústia de tanta luz
tanto ar, tanto amor
e esse sol em nossas faces
e os oblíquos e dissimulados que
escondem-se em notas memórias
e perfazem meu logos
a chorar tantos ais
como este contínuo passado
prostra o eterno presente
em lágrimas arrependidas
vertidas por olhos secos
que inundam de desilusões
as possibilidades vindouras
a impressão da dor é grande
imprime uma doce face cruel
em meu semblante angustiado
a agonia sólida
perfaz-se solidão
e a faca surge solução
a angustia lateja
e a gilete sobre a mesa
a dúvida mescla-se ar
e nada a se apegar
a propensão mórbida da vida turva
marca o sentido do meu viver
uma vida sem direito a seguro de vida
ou de sentimento
e se morrer de amor?
e se amor não for?
ficarei ainda mais angustiado
por saber que fui (e sou) amado
sem saber se amo então
e novamente és a faca solução
se não valho o amor que me imputam
talvez seja a navalha uma visão
será que amo?
eu te esperei
esperando que a espera
viesse a ser procura
eu te esperei,
mas nuca chegaste
desejei alcançar
mas só, sempre esperei
e você não alcancei
eu esperei
uma hora me cansei
e sai a procurar-te
mas parecia já tarde
e então novamente esperei
e a espera produziu
tais versos
que esperam te fazer gosto
e que teu sorriso
seja o prêmio
por tal espera…
minha alma chora
como chove no horizonte
chora, por sentir-se apática
e não conseguir a prática
da igualdade almejada
a chuva cai em frente
e a alma deságua descontente
tenta ser ainda forte
como o trovão que faz rente,
sente-se insignificante ente
chora sem poder de decisão
sem poder de mutação
e a chuva erodindo relevos
a alma chora em resignação
por saber que o choro
nada significa e nem é solução
mas se o choro insiste em verter
e a alma a incerteza do poder
o choro é só uma água inútil
que deseja tudo mover
insignificante ao se ver
a água a chover
a doce melancolia da solidão
me arde a vergonha
por ser feliz com a tristeza
como um choro contido
por um efusivo carnaval
me encontro com a alegria
a cada lágrima não vertida
por meus tímidos olhos
os meus olhos ardem
pois o tempo é seco
o clima de todos é seco
mentes ásperas, cinzas
as lágrimas não caem
pois falta umidade,
umidade espiritual
a água da vida
a fonte de todos já secou
onde ainda se pode chover?
nuvens de almas dissipam-se no éter
o ciclo hidrológico finda-se
junto com os restos de vida
… tenho sede …
a vida é
ávida de vida
toda vida é
canibal
vampira
ave morcega
Ave Maria!
suga a vida
de vidas
e mantém
a sua vida
ah vida,
vi minha vida
sugar a minha
vida
e viver de
outras vidas
Ah…
Ah vida…
Há vida?
excêntrico excesso de ser excelso
só o horizonte para calar o ego
só o ser em uníssima solidão
do saber-se só como a exceção
por que as cinco horas o sol
mostra-se muito mais saboroso?
a lua, meio irmã, meio amante
meio amor, incesto dissonante
meio esfera, meio minha
meio luz turva do meio incauto
meio somente ela, meio eu
mesmo ao meio-dia. toda só
meio arrodeada de ser
meio lua, luz do sol
sem meio termo apenas lua
meio imagem da nossa solidão
meio todo ser só, meio avesso
do sol em combustão
escuto alguém a pedir
humanismo e bom senso
vejo um beijo despreocupado
sinto o sol
penso: “a rotina começa”
a vida me leva
um motorista só
em cada carro
apressados
O futuro se aproxima
Ou sou eu que envelheço?
A morte já não dista
Como nas minhas brincadeiras de criança
Amadurecer como o fruto
Perecer como tudo
Eis a sina que se segue
planta não natural
neste cerrado
vive mesmo assim
anil rasgado no céu
bruma leve no ar
abóbada sem fim
a árvore fala e os pássaros respondem
a palmeira brilha opulenta e soberana
ávida por viver seu vegetal
a brisa pousa levemente sobre a derme
a ave corta o céu anil
o mecanismo procede anunciando a vida
o sol essência saúda o mundo
o verde absorve a luz-vida
e volta seu verde para o anil do céu
tudo ameríndio
tudo afro-americano
tudo euro-asiático
tudo hindu-africano
tudo aborígine
tudo ser humano
tudo macro micro perto
tudo infinito distante
tudo incerto
etéreo
mediano
morte-vida
ciclo eterno
tudo ser humano
tudo porta
tudo nuvem
tudo eu
tudo ser humano
uma viagem
em meio a tantas
todos
ah, o fingir…
será que entendem?
pose
é somente pose
acabo de ler Kerouac
e subterraneamente o compreendi
o sul-real concreto
um tanto desconexo
que ele profere
me faz amargo
como um ser unitário
que contempla o vácuo humano
ah, Bukowski também me ajudou
mas de forma ácida-áspera
como a corrosão da imagem doce da vida
ah, que merda de tudo
que desespero silencioso
o que fazer quando se tem 17 anos
e o Lobo da Estepe já te agarra?
Difuso, sidártico
ah, sou um velho sessenta anos
desgostoso da vida
minha carne é nova
mas pereci ideal e emocionalmente
tão rápido quanto um foguete
gosto de jazz, bossa-nova
tropicália cai bem, blues visceral
mas não sei
sou um velho!!!
esquálido, raquítico
em pleno auge da forma física
o mundo me decepciona
antes de adentrar nele
ah, século XXI
o que fiz de tão ruim
noutra vida para merecer-te?
prédio : vivência
paradas : angústia
pessoas : sou e estou:
estradas : apenas um caminho
escolas : aprendo
sinais : traduzo
cachorros : a vida
carros : o material
casais : invejo
mulheres : desejo
flores : o perfume
homens : o odor
pardais : o vôo
passeios : diversão
lanchonetes : comida
carros : velozes
pessoas : fúteis
paradas : angústia
hoje eu vi a explosão do ego
vi vozes exaltadas em seu
egocentrismo eterno
bradando a iniciativa
querendo derrubar portões
e no fundo de suas almas burguesas
vi o sentido mesquinho
do dever cumprido
da dar importância ao momento
de esquecer o próximo
e sonhar a utopia ideológica
que oprime a verdadeira revolução
vi que eles viam a discussão
como válida causa
quando senão solução
para mim discussão é etapa
é primeiro e lento passo
e de antemão, aqui digo:
a discussão que vi não vai, fica
por isso, como diria Bob Marley:
“I don´t wonna wait in vain…”
ah, que se dane!
o sol está lindo
e vida que levo me liberta numa bela prisão
meu ego até se calou por instantes
a mudança
um sentimento sufocado
transição
somente uma fase de incerteza
onde o jazz se ouve alegremente
e a big-band entende sua alma
um bom filme
o desleixo, o cabelo despenteada
um momento vazio
rodeado de complexa alegria
a esperança
Nat King Cole abusa do acaso
e coloca o mundo em conexão
os letreiros sobem
a minha alma também
o som penetra a esperança
um jazz…
ao contemplar os pássaros
receio nunca poder voar
falta algo de mágico no ser humano
que não o permite lançar-se ao ar
que o extatiza no chão
e o torna homem ou mulher
falta o desprender-se do mundo
e religar-se ao infinito
apagar a consciência
e soltar-se no espaço
destituir-se da razão
e explodir a falsa gravidade
falta a aerodinâmica abstracional
e o impulso inconsciente
o ser humano sabe mirar o ar
e integrar-se a ele
a espécie humana não se conhece
ao ponto de miscigenar a lógica ao espírito
o físico ao metafísico
homens e mulheres não sabem
ser ser por somente ser
sem precisar compreender tudo
os indivíduos humanos não hão de voar
enquanto dividirem o unitário
enquanto não calarem a comunicação
e passarem a cantar o não sentido
dando razão à não razão
a rocha
a ordem imposta
corpo morto
absorto
num nirvana eterno
o não ser por excelência
o não pensar personificado
a pedra
a solidez intrínseca
não percebendo a ilusão
do ser preenchido
não sentido
não enganando-se com a vida
a mentira existencial
a pedra ao ser pedra
não sendo ser ao mesmo tempo
é apenas pedra e parte
do tudo que a pedra não vê
sedimentos atômicos
da unidade universal
queria eu ser pedra
e abster-me do pensamento
ser pedra poesia somente
sem precisar escrever em desespero
a terrível depressão
de aspirar a ser pedra
se minha alma petrificasse
e meu espírito virasse cristal
minha mente seria uma rocha
e não mais pensaria em quere ser
algo que não sou
e não pensaria
apenas pedra,
pedra,
pedra…
minha ideologia não conhece meu ego
e meu ego desconhece a poesia
meu ideal engana meus desejos
meus desejos são pura magia
quem sou eu de verdade?
no que acredito então?
O que ocorre comigo?
Por que somente a razão?
se o instinto não me é inerente
a cultura me sacaneou
conheci nobres verdades
e meu passado as freou
o sol queima minha face com sublime melancolia
se gosto hoje do sol como outrora amei a lua
é porque a mudança me preencheu
com um falso abrigo
se hoje repúdio Deus
Hoje, ele é ainda mais meu amigo
a morte subverte
o que a vida inverteu
o verme sobrevive
do que a morte um fim deu
um fim biológico
ao (in) fim (nito) maior
que perpetua a vida
numa equação precisa
onde o fim inexiste
o ciclo é linear
é plano circular
blusa com rendas
alvura pele à pele
(derme-tecido)
o sono nela afaga
a inquietude amarela
a imagem dourada
permeia o castanho
a forma sublime
que só eu vejo,
que dorme
um pensamento impuro
imagem leviana de dois
o pensamento solto
a calça ela (derme-tecido)
a blusa de renda
a alvura afaga-me
Uma nota, infinito zero a esquerda
Infindável azul, eu meio infinito
Vôo em notas, sonoridade escolar, âmbar
E vôo. Destino algum preciso
Sobre um abismo, abismoroso
Âmbar negro, irreal. Amorâmbar: translúcido
O vôo, a procura no infinito corpo
outro. Escolar. O amorâmbar opaco, fosco
Somente um vôo
um tijolo na minha idéia
uma idéia de tijolo
uma mente concreta
um concreto tijolo
uma alma pedreira
um espírito mestre-de-obras
um tijolo sobe o outro
um tijolo sobre o outro
uma idéia para outra
uma idéia pára outra
uma mente abstrata
um substrato de cimento
uma obra inacabada
uma mente em construção
um espírito evoluindo
do solo ventre desta
terra-mãe
produto mercantil
brilhou e abrasou
o vermelho gosto
de seres Brasil
a que terrível paradoxo
de dimensões tal,
formou e pariu
a meio milênio
conseguiste chegar
cinco centênios
de merda, morte
e néctar, agüentar
eu vi,
eu vi o povo na rua
a comemorar
foram 300 mil
na brasileira ilha
a cantar, dançar
e se esmurrar
eu vi,
pois depressiva
e infelizmente
eu estava lá
(bem no meio)
não fui feito
para ser admirado
sou ser complexo
com certo nexo
complexo anexo de pedaços
(quem não o é?)
pretenso intelectual
pré e tenso, dual
pretensão normal
(NORMAL!)
por que ainda teimo em escrever?
e este algo que incrusta minhas palavras
e que custa em desaparecer?
colocando minha alma a mercê de banalidades
enchendo meu espírito de frugalidades
prostrando minha mente à mecanicamente
preencher linhas e mais linhas
com pseudo metáforas de merda
a miséria ronda
a humildemente pedir ajuda
de forma tal
que o não seria a minha morte
e o sim uma sorte dela
outrora escutava a miséria
agora ouço Jesus
que vive novamente seu sacrifício
bem aqui em minha quadra
e deve reviver no mundo todo
ao mesmo tempo
coitado – é páscoa
bem distante da audição
no campo da visão
enxergo montanhas de H2O
a derreter no infinito
a evaporar com o círculo inscrito
no quadro azul de paralelas
e as montanhas se aproximam
iluminam
derretem
e dão vida ao verde
que teima em viver em meio ao gás
em meio ao aço
em meio ao cimento e fios
neste concreto cerrado
e agora eu tudo,
contemplo quão tudo sou eu
e o quão eu é tudo
somente usando estes dois sentidos
três, melhor dizendo…
o que sabe que é tudo
realmente não o é
o que o é sem saber
iludi-se em silêncio
o que vivencia a totalidade
sabe que não se precisa
nada saber
e na experiência de sentir
a unidade da interação
consegue regressar
ao estágio inicial
à causa e ao efeito
ao início e ao fim
à Deusa num certo sentido
Como tudo se renova
Como a dor se reproduz
O passado me apavora
E a melancolia me conduz
Todos se mostram inaudíveis
A meus gritos silenciosos
Preferem ver imagens horríveis
E degustar doces saborosos
Cada um prefere seu eu irreal
E os reproduzo em silêncio
Cato o mal de cada qual
E afundo o meu lamento
Busco resposta para algo
Que não sei bem o que é
Consome meu espírito em alto
Degustando toda a fé
Ignoro a dor carnal
E queimo-me em idéias
Leviano, libo-me como tal
E apago a concepção séria
Viajo muito sem saber o porquê
Viajo, viajo, viajo e viajo
Deparo-me com meu ser
Em meio a um ato falho
o sol irradiava sua luz
a chuva a absorvia e a refletia
num prisma silencioso
um arco de cores psicodélicas
pousava no céu gris
a luz penetrava tudo
e a tudo dava vida
e nesta periferia
reconhecia o Eldorado
raios cortavam o horizonte
e mostravam a vida do universo
um mar vagava no infinito
um mar de águas d’ouro
de ondas elétricas e maresia sonora
a água molhava e dava vida
e a luz a conduzia
casavam-se neste universo
– e luz e a água –
e eu por testemunha
e a incaica moeda jazia
nas linhas do quadro mundo
trazendo sua irmã prateada
tudo girava em minha mente
e eu Via
um tudo sincronizado
dourado
iluminado e iluminando
a percepção de quem quer
Ver algo dourado
e o resto do mundo e da vida
corria voraz
sem contemplar o hidroxihélio
espetáculo de ondas e matéria
que manchava suas vistas
de úmido amarelo
Sólido como a solidão ilusória
Imprecisa probabilidade existencial
Marcado num infinito cheio-vazio
Num peso infinitamente desprezível
Num desconcertante macro e micro
Uma insignificância teoheliocêntrica
Do fantasmagórico eu-sol – eu-tudo
Substrato abstrato da concreta mente
Célula do moto-perpétuo universo
Expandindo numa consciência aberta
Do pensar além do concebível
Do sentir além do impossível
Do enfim não-pensar
da janela do meu conforto prisão
contemplo o ébrio
a lutar contra si mesmo
cavalos param ao seu lado
fechando o quadro sul-real
o ébrio rola no chão
com sua infinita dignidade
proferindo a verdade inaudível
o espírito da baiana
passa a sua frente
e ele conversa com os cavalos
que já indignados de sua prosa,
vão-se embora para a lua
o ébrio fica a escuta-se
a falar consigo mesmo
pois na realidade só nós nos escutamos
quando isso ainda é possível
quando conseguimos
extirpar a existência dos outros
e nos tornamos audíveis a nós
somente num estágio hipnótico
como o deste ébrio
conseguimos nos escutar
neste momento aquele ébrio
é um dos únicos seres inteligentes
de toda a Terra
embora eu já o veja
esquálido e morto-vivo
sentado num futuro
dentro de uma igreja evangélica
com sua bíblia às mãos
decorando toda a moral humana antiga
é simples,
beleza cristalina
menina irradiação
de pureza inteligível
uma sinfonia imprecisa
a uma distância imprecisa
– música ao longe.
ela é complexa,
sensualidade índia
senhora
é ela algo indefinível
com precisão milimétrica
é ela a linha tênue
entre o sonho e a realidade
a elevação última
do desejo realizado
a eqüidistância entre
a pureza da beleza
e a condição da existência
o rosto angelical
na expressão madura
a máxima do sinônimo de poesia
pois é a própria poesia,
a poesia divina
o único momento em que a vi
transcendeu a todas as encarnações
e prostrou-a na eternidade
no éter que me envolve
e quando um resquício
daquele simples olhar
penetrou minha vida
senti o rubor dos amantes
o fogo das paixões
que antes de as serem,
já as eram
pois aqueles olhos
eram como faróis
orientando e iluminando
o meu futuro
até então atol perigoso
obrigado inominável
por tua presença e teu olhar
que calou meu espírito
próximo de ser o mais satisfeito
que já existiu
obrigado por aquele olhar